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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 32)

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Trova do Paraná
José Feldman

Foram felizes instantes,
juventude na querência.
Hoje em terras tão distantes,
Pilcha…mate…sinto ausência!

Trova de Portugal
Fernando Pessoa

Tenho uma pena que escrevera
aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve;
se é verdade, não tem tinta.

Um Haicai do Ceará
João Batista Serra

Chega mais um trem:
São Paulo, de madrugada,
Granizo no Braz.

Trovadores que Deixaram seu Nome Gravado no Livro da Vida
Ademar Macedo (1951-2013)

Toda trova nos fascina,
encanta e nos enternece.
A trova é pura e divina
como se fosse uma prece!

O Vírus da Poesia

Poesia é a minha paz,
meu mundo, meu universo;
um mar de sabedoria
onde eu vivo submerso;
é minha alimentação,
é meu sustento, é meu pão
feito de rima e de verso…

A partir da madrugada
é esse o meu dia a dia:
já de caneta na mão
recebo uma epifania,
cuja manifestação
é trazer-me inspiração
pra eu fazer minha poesia…

A poesia é minha luz,
é meu santo e meu altar,
feijão puro com farinha
que eu tenho para almoçar;
ela é minha própria vida
é meu lar, minha guarida
meu sol, meu céu e meu mar!

Ao ver poesias aos montes
nascendo em minha vertente,
tive um “derrame” de rimas
nas veias da minha mente
e um maravilhoso “infarto”
eu tive ao fazer o parto
do derradeiro repente!…

Quero então no meu jazigo,
feito em letras garrafais,
aquela minha poesia
que me deu nome e cartaz;
e escrito, seja onde for:
– eis aqui um trovador
que morreu feliz demais!

Quem carrega, como nós,
o vírus da poesia,
tem no sangue uma plaqueta
que se altera todo dia,
aumentando a quantidade
e pondo mais qualidade
nos versos que a gente cria.

Ademar Macedo nasceu em Santana do Matos/RN, no dia 10 de setembro de 1951. Aos oito anos foi morar em Zabelê, município de Touros também no Rio Grande do Norte, onde ficou até 1963, quando se mudou Natal, onde terminou o primário e através de uma seleção (concurso), em 1965 foi para o Ginásio Agrícola de Ceará-Mirim/RN. Terminando o ginásio voltou para Natal onde fez o Científico (naquela época) que era o 2º Grau. Em 1971 entrou Para o Corpo de Fuzileiros Navais. Passando no 1º concurso para Cabo, foi cursar no Rio de Janeiro e nunca mais estudou. Voltou para Natal em 1980 e em 81 perdeu uma perna num acidente.
No Ginásio agrícola (que era um Internato) sob o duro comando de Paulo Mesquita, o Diretor, um Oficial Reformado da Aeronáutica, teve a melhor aprendizagem de sua vida, lá era um verdadeiro quartel, principalmente no que tange a moral, dignidade, honestidade que o acompanharam sempre.
Perdeu seu pai muito cedo, aos 7 anos. Sua infância foi difícil, mas sua mãe e irmão mais velho nunca deixaram faltar nada, inclusive o estímulo.
Após o seu acidente, numa maneira de passar melhor o tempo, começou a frequentar cantorias de viola, festivais de Violeiros, tudo o que dizia respeito a Poesia Popular, e por seu pai ter sido poeta, sentia correr nas veias o sangue da poesia e começou a fazer algumas estrofes; seus irmãos Francisco Macedo e Augusto Macedo (falecidos) que já eram poetas, disseram que levava jeito pra coisa!
Poeta popular, conhecido em todo estado devido as declamações nas rádios: (Rural de Natal, Rádio Poti e 98FM), foi convidado por José Lucas de Barros, que assistia as suas declamações nas cantorias e nos festivais e por Joamir Medeiros, que o ouvia nas Rádios, para ingressar na ATRN (Academia de Trovas do R.G.do Norte), aprovado desde 2004.
Livros de sua autoria:
“…E Da Dor Se Fez Poesia.”
Livros Em Parceria:
“Poesias Em Quatro Versos”,
“Dois Poetas Em Setilhas”,
“Um Debate Em Setilha Agalopada”,
“Nos Arpejos Das Setilhas”
“Um Rojão Em Sextilha Agalopada”.
“Sexteto Em Sextilhas”,
“Sexteto Potiguar”,
“Sextilhas A Quatro Vozes”,
“Três À Mesa Da Poesia”
“No Compasso Das Setilhas”.
Cordel
“Divagações Poéticas”
CDs declamando Poesias:
“Na Cadência Da Poesia”
“O Poeta E A Raposa” (Com suas declamações ao vivo, na 98 FM)
O Livro onde mais se inspirou, onde estão as melhores poesias: “Um Debate Em Setilha Agalopada”.
“Três À Mesa Da Poesia”, Zé Lucas mandou a sua estrofe, ele respondeu e enviou as duas para o Professor Garcia, que por sua vez, lhe respondeu e as enviou para Zé Lucas e assim sucessivamente até chegar 150 estrofes.
Vejam as três primeiras:

01 – Zé Lucas
Com Ademar e Garcia
vou pelejar desta vez,
enchendo a taça dos versos
com carinho e lucidez,
para que o vinho sagrado
das musas dê para os três.

02 – Ademar
Vou beber com honradez
uma taça todo dia,
e eu peço a Deus neste verso
talento e sabedoria,
e que este vinho sagrado
me embriague de poesia.

03 – Prof. Garcia
Eu vou beber todo dia
para afastar o meu pranto,
deste vinho que embriaga
e nunca me causa espanto,
porque o vinho do verso
tanto é puro quanto é santo.

Premiado em 21 Cidades de diferentes estados da nossa federação em Concursos Nacionais de Trovas. Teve também alguns Prêmios em “Poesia” apenas aqui no meu Estado.

Para se inspirar literariamente :

“Vi à luz de lamparina,
em inspirações imerso
que a musa se faz menina
para brincar no meu verso.”

“Na inspiração do poeta
sinto um pouco de magia,
porque toda estrofe minha
me fascina e me extasia;
e em cada verso que faço
vou mastigando um pedaço
do pão da minha poesia.”

Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos:

Nunca quis ganhar fama nem cartaz,
sou feliz no papel que desempenho,
sou um homem de fé, temente a Deus,
não reclamo do peso do meu lenho
nem de tudo na vida que padeço…
Eu já tenho até mais do que mereço
e me sinto feliz com o que tenho!

Em 2006 teve um câncer no intestino, operou em 2006, no Rio de Janeiro; fez 52 Quimioterapias e 25 Radioterapias. Ademar faleceu em janeiro de 2013, em Natal/RN.

Quero então quando eu morrer,
feito em letras garrafais,
aquela minha poesia
que me deu nome e cartaz;
e escrito, seja onde for:
– Eis aqui um trovador
que morreu feliz demais!

Biografia retirada de entrevista realizada por José Feldman com Ademar para o blog Pavilhão Literário Singrando Horizontes

Soneto de São Paulo/Capital
JB Xavier
O TROVADOR

 Qual castelo sitiado
 meu coração chora em dor:
 Encanto desencantado
 do encantamento do amor.

 E qual trovador cansado,
 cantando em sétima à flor,
 eu me deixo ser levado
 por teu riso acolhedor.

 Entretanto a minha vida,
 que te ofertei, já continha
 uma tristeza inserida, 

 por saber que tu, rainha, 
 és sempre a dor mais sofrida
 de não quereres ser minha…

Trova de São Paulo
Martha Maria O. Paes e Barros

Diz o cinquentão vaidoso:
– “Eu sou madeira de lei!”
E, a mulher em tom jocoso:
– “Então deu cupim… que eu sei!”

Haicai do Paraná
Alvaro Posselt

Não cresceu com fermento
Para o pão ficar grande
usei lentes de aumento

Poemas Lusos de Pessoa
Fernando Pessoa (1888-1935)
AH UM SONETO!!!

 Meu coração é um almirante louco
 que abandonou a profissão do mar
 e que a vai relembrando pouco a pouco
 em casa a passear, a passear…

 No movimento (eu mesmo me desloco
 nesta cadeira, só de o imaginar)
 o mar abandonado fica em foco
 nos músculos cansados de parar.

 Há saudades nas pernas e nos braços.
 Há saudades no cérebro por fora.
 Há grandes raivas feitas de cansaços.

 Mas – esta é boa! – era do coração
 que eu falava… e onde diabo estou eu agora
 com almirante em vez de sensação?…

Trova do Paraná
Istela Marina Gotelipe Lima

Se a viagem é impossível,
deixo o sonho de nós dois
numa espera indefinível
para um suposto depois…

Trova do Rio Grande do Sul
Milton Souza

Sou louco quando preciso
e o remorso não me assalta;
eu nunca tive juízo
e ele nunca me fez falta…

Soneto de Tremembé/São Paulo
Luiz Antonio Cardoso
SOLIDÃO

 Propensos a quereres semelhantes,
 tendo a poesia inata em nossas mentes,
 tínhamos o infinito… e como amantes
 seríamos estrelas reluzentes.

 Mas eis que seus desejos, tão arfantes,
 fizeram dos meus sonhos, tão descrentes,
 migalhas de lembranças arquejantes,
 fenecendo em processos deprimentes.

 Recusaste o poeta que há em mim,
 e todos os meus versos, que sem fim,
 esculpiram o amor que eu quis te dar…

 e decretaste enfim, a solidão,
 para me acompanhar à imensidão…
 onde hei de eternamente te esperar!

Trova do Amazonas
Petrarca Maranhão

É caprichoso o destino
caprichoso por demais:
a quem quer muito, dá menos,
a quem quer menos, dá mais…

Trova do Rio Grande do Norte
José Lucas de Barros

Se este mundo tão bisonho
te nega paz e guarida,
usa o refúgio do sonho,
onde o amor sustenta a vida!

Saudade em Versos, de Fortaleza/Ceará
Nemésio Prata Crisóstomo

Fazer versos é ciência
que brota do coração
pois versar é consequência
da mais pura inspiração!

Se alguém for forçar a barra
pra versar de qualquer jeito,
garanto que a sua farra,
mesmo que ele afie a garra,
jamais vai sair do peito!

E se alguém metido a besta
for fazer versos na marra
pensando que é só botar
no papel tinta, é bandarra,
vai comer capim de cesta
pra não mais fazer fanfarra!

Deixo aqui mais um recado,
e não levem por pilhéria:
só se versa se inspirado,
pois versar é coisa séria,
e se é Deus quem tem mandado
fazer versos, mais cuidado,
pra não ficar na miséria!

Depois de muito tecer
falação vou me calar,
mas antes é bom dizer
para o “Vate” brasileiro
que jamais venha esquecer
nosso querido Ademar,
o “Poeta do Amanhecer”
que Deus nos levou primeiro!

Falando em amanhecer,
ao ver o raiar do dia
lembro-me com alegria
daquele que foi viver
com Deus; logo ao perecer!
Morreu, sim, mas vivo está
na presença de Jeová;
versejando em demasia,
como aqui ele fazia,
fazendo a festa por lá!

Cantinho do Luiz Otávio
O Destino da Trova

Dura menos que um suspiro
ou como a folha que cai…
Mas quando penetra na alma,
a Trova fica… Não sai…

Haicai do Paraná
A. A. de Assis

Vinha quente o tempo.
De repente vira o vento,
volte o vinho então.

Trova do Paraná
Serafim França

Quando me assalta a saudade
de te ver, de te falar,
saio, cheio de ansiedade,
com o fim de te encontrar.

Trova de Minas Gerais
Edmilson Ferreira Macedo

Oh, musa de mil encantos,
mulher divina e querida,
que sabe enxugar meus prantos
nas horas tristes da vida!

Trova de São Paulo
Therezinha Dieguez Brisolla

Tem, do herói, santo ou profeta
– em meio às guerras e a dor –
a mesma audácia, o poeta
que teima em falar de amor!

Poesia de Ribeirão Preto/São Paulo
Elisa Alderani
CASULO DA PALAVRA

  
Palavra fechada no casulo da alma.
Como bicho da seda tecendo fios dourados.
Trabalha sem cessar.
Na noite profunda sonha.
Escondida, aguarda seu tempo.
Na hora certeira amadurece.
Silenciosa e calma.
Com a força do pensamento,
Abre sua provisória morada.
Vagarosa sai informe.
Úmida e gelada,
Na madrugada de um dia qualquer.
Aguarda o sol chegar.
Um raio luzente a aquece,
Revigora sua carne machucada.
Distende as asas lentamente,
Voa para experimentar a vida!
Agora linda e colorida borboleta.
Não é efêmera…
Logo ela volta e docemente pousa
Na perfumada flor branca do papel.
Que acolhedor está à sua espera.
A Indelével Palavra do poeta.

Haicai do Paraná
José Marins

sem nenhuma folha
os galhos da magnólia
floridos de roxo

Trova de Goiás
Francisco Assis Menezes

Não é preciso chorar
somente por ter caído.
A queda não vai tirar
a honra de haver subido.

Trova do Paraná
Olga Agulhon

Carrego pouca bagagem
porque na vida aprendi
que, mesmo longa a viagem,
preciso apenas de ti!

Poesia de Maringá/Paraná
José Feldman
Cavalgada de Sonhos

Mergulho no espaço ao encontro do destino,
Semente do amor germinada em solo carente,
desanuviando pensamentos de mente conturbada…
Rompendo os elos dos grilhões.

Percorrer o absurdo dos tempos em voo repentino…
Vislumbre de um momento de magia,
Da derrocada final dos Deuses em seu crepúsculo,
Do extermínio dos tabus a nós impingidos.

Sentir o ofuscar do brilho do cristal,
do cristal de olhos radiantes…
Aurora boreal!

E no fulgor da cavalgada das Valquírias
que acende a chama da pira do enternecer,
devastadoramente bela como a mãe-natureza,
entregar-se ao trote das ilusões.
Momento mágico, que dure todo infinito –
Um infinito de sensações.

Deixar que o fio que comanda nossos sonhos
comande os nossos corações!

Trova de Minas Gerais
Olympio Coutinho

Eram alegres os meus olhos
e tristes eram os teus,
por serem tristes teus olhos
ficaram tristes os meus.

Trova do Rio de Janeiro
Elisabeth S. Cruz

Dominar o medo e o ódio,
a injustiça e o desamor,
são vitórias que, no pódio,
dão mais brilho ao vencedor!

Trova do Paraná
Ariane França de Souza

Sou ditosa no meu lar,
e por ele tenho zelo.
Vivo bem sem ter pesar,
vou desfiando o meu novelo.

Poesia de Uberaba/Minas Gerais
Cacaso (Antonio Carlos Ferreira de Brito)
1944 – 1987
SE PORÉM FOSSE PORTANTO

Se trezentos fosse trinta
o fracasso era um portento
se bobeira fosse finta
e o pecado sacramento
se cuíca fosse banjo
água fresca era absinto
se centauro fosse anjo
e atalho labirinto
Se pernil fosse presunto
armadilha era ornamento
se rochedo fosse vento
cabra vivo era defunto
se porém fosse portanto
vinho branco era tinto
se marreco fosse pinto
alegria era quebranto
se projeto fosse planta
simpatia era instrumento
se almoço fosse janta
e descuido fosse tento
se punhado fosse penca
se duzentos fosse vinte
se tulipa fosse avenca
e assistente fosse ouvinte
se pudim fosse polenta
se São Bento fosse santo
dona Benta fosse benta
e o capeta sacrossanto
se a dezena fosse um cento
se cutia fosse anta
se São Bento fosse bento
e dona Benta fosse santa

(in Mar de Mineiro)

Trova de Pernambuco
Swami Vivekananda

É próprio do brasileiro
nas coisas dar um “jeitinho”.
Faz bagunça o dia inteiro,
mas em casa vira “anjinho”.

Haicai do Paraná
Maria Marilda Confortin Guiraud

manhã de geada,
leite de vaca morninho
com gosto de infância.

Trova de Minas Gerais
Clevane Pessoa

Olhando fotos antigas,
tenho saudade de mim.
– Hoje, maduras espigas;
ontem, um frágil jardim.

Fábula em Versos, de Pedro Leopoldo/Minas Gerais
Wagner Marques Lopes
Fábula

Fábula é FÁ –
da notação musical.
Tem gente, bicho, planta,
e de embrulho… O mineral.
Fábula é BULA –
atende à receita.
É aquilo que se aceita –
certeiro medicamento,
de efeito rápido ou lento.

Fábula é solo ensementado.
Vida. Sonhar.
Amor realizado.
É La Fontaine.
Esopo. Fedro.
É fonte.
Videira e cedro.

Sendo autor,
virtudes terço.
E a moral?
É algo certo?
Linear e incontroverso?
O leitor descobre mais:
ela tem várias morais.
Ao lê-la, com sentimento,
o ledor se faz converso,
ou, de antemão, bem disperso.

Asas. Ruflar. Voo fugace.
Algo que não embarace.

A fábula é linha e corda.
Corda e caçamba.
Guerra que concentra.
Paz que descamba.

A fábula é gesto altivo.
Quantas ações de nobreza.
Outras são rudes demais.
Nela a beleza se aninha;
visito-a nas entrelinhas,
em seus dotes naturais.
Onde o melhor se entrelaça –
o caçador vira caça,
na primeira encruzilhada.

Teço a teia do narrar,
com a fantasia…
E mais nada.

Fábula é rio a correr
no sentido da montante…
Nasce num mar bem distante,
flui pelas verdes ravinas
e deságua soberano
nas mais silentes montanhas.

Trova de Autor Desconhecido

Aqui jaz a minha sogra,
que vivia enchendo o saco.
Não tendo mais o que encher,
veio encher este buraco.

Trova do Rio Grande do Norte
Djalma Mota

De pileque, o Zé Libório,
procedeu de modo errado…
Chupando o supositório:
– Ah! Confeito ruim danado!

Trova do Paraná
Vânia Maria Souza Ennes

Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração…
perco o rumo e o raciocínio!

Trova de São Paulo
Héron Patrício

– Infiéis os meus cabelos!
Saudoso, o careca chora…
– Dei carinhos… tive zêlos…
mas foram todos embora!

Poesia de Malawi/África
Poeta Anônimo
AGRADEÇO-LHES

Eu tinha fome
E vocês fundaram um clube humanitário
Para discutir a minha fome.
Agradeço-lhes.

Eu estava na prisão
E vocês foram à igreja
Rezar pela minha libertação.
Agradeço-lhes.

Eu estava nu
E vocês examinaram seriamente
As consequências da minha nudez.
Agradeço-lhes.

Eu estava doente
E vocês se ajoelharam
E agradeceram a Deus
O dom da saúde.
Agradeço-lhes.

Eu não tinha casa
E vocês pregaram sobre o amor de Deus.
Vocês pareciam tão piedosos,
Tão perto de Deus!

Mas eu continuo com fome,
Continuo só, nu, doente,
Prisioneiro
E tenho frio,
Sem casa…

Trova de Minas Gerais
Luiz Carlos Abritta

Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
É um eterno retornar.

Trova da Argentina
Arturo B. Carisomo

Las fronteras son los trazos
que forman distintos mundos;
se borrarán con abrazos
de los pueblos en segundos.

Trova do Ceará
Fernando Câncio

O sonho que mais me anima,
que me faz bem, me renova,
é sonhar fazendo rima,
compondo mais uma trova.

Trova do Rio Grande do Norte
Prof. Garcia

Eu vi os dois num duelo,
quando eu estava brechando;
um sem o pé no chinelo
e o outro em pé, chinelando.

Poesia de Buenos Aires/Argentina
Alberto Girri (1919 – 1991)
CONVOCAÇÃO

O caçador
que dentro de mim
espreita
e lança emboscadas,
e cava fossos
apanhando
o que deles cai,
e conta suas presas
quando o velho sol
termina seu passeio,
e se deixa farejar
depois da caça
por hienas e chacais,
demônios
que pedem carniça
e imitam
com gemidos e grunhidos
a voz dos mortos,
não é
apenas meus impulsos
de destruição e pânico,
dele
vem a memória ancestral
da desobediência
ao espírito vivificante,
o gosto desgraçado
da perseguição.

Eu não sou
nem bom nem mau por essência
senão por participação,
como não reconheces, minha hóspede,
que não quero assimilar teus traços
além da vigília.
Eu te protejo;
eu te cuido,
deixa em paz as minhas noites.
(Tradução de Antonio Miranda)
Trova de Portugal
Maria José Fraqueza

Minha boneca de sonho…
vivências da mocidade!
Pensamento que transponho
no meu portal de saudade!

Trova do México
Maria Helena Espinosa

Mira bien donde tú pisas
al andar por el camino;
no vayas a ser que en las prisas
se te extravie tu destino.

Trova do Ceará
João Batista Serra

A mim, correto parece
em achar muito evidente
que nem tudo que acontece
é só porque Deus consente.

Trova do Paraná
Vidal Idony Stockler

Canta a prosa, canta o verso
com esplêndida leveza,
enchendo todo o universo
e louvando a natureza.

Trova do Espírito Santo
Humberto Del Maestro

Começa a lua num traço,
vai crescendo e nos seduz…
Como é formoso, no espaço,
esse trapinho de luz!

Poesia de Pereira/Colômbia
Alberto António Verón
COMPRADORES

 Ser outros,
 mãos que compram,
 mãos que acariciam os corpos,
 são cem, mil rostos dos que vi e jamais verei,
 usar a mim mesmo e ser usado e usar dos outros
 todas as manhãs do que resta e nos espera,
 na luz tênue do abraço.

Trova do Rio Grande do Norte
Sebastião Soares

Pintando o chão de amarelo
e de sol dourando o monte,
Deus fez o monte mais belo
e chamou Belo Horizonte.

Uma Poesia de Apucarana/Paraná
Fahed Daher
A Força ou a Justiça?

Quem tem razão? A força ou a justiça?
 Se a força da justiça imperasse
 então a força seria a razão.
 Mas a força sem ética se eriça
 e o poder e o domínio se envaidecem
 impondo seu direito em dura liça,
 corrompendo sem fé, sem dimensão.

Já não é mais a força do guerreiro
 enfrentando combates ardorosos.
 Já não é mais o gladiador audaz
 desbaratando males enganosos;
 mas a força solerte do dinheiro
 que nas mão sediciosas é capaz
 de transformar a paz do mundo inteiro
 na escravidão mordaz.

Da justiça a nobreza e a santidade
 se corrompem nas barras tribunais
 em decisões anômalas, tribais,
 que favorecem sempre os poderosos
 e que aos desamparados cabem mais
 tantos castigos, tantas punições,
 sob a pena de tanto anonimato,
 padecendo no puro desacato
 da soberba do malho e sem guarida.

A força do direito ou direito da maldade…
 Que dilema cruel enfrenta a humanidade.
 entre os recursos de hábeas corpus, liminares,
 que aos pobres só lhes cabem os azares.
 “fernandos, zés dirceus,” que permanecem livres
 em condições de juízos mais privilegiados,
 e juntos com “Barbalhos” não serão julgados
 no mesmo plano malogrado de mendigo,
 desesperado, que de um furto foi viver.

Quem tem razão? A força ou a justiça?
 Se a força da justiça imperasse
 nossos políticos seriam castos
 no repúdio de tantas, tantos gastos
 sem mérito em prejuízo da nação.
 Os partidos seriam bem mais puros
 e honestos criariam, com apuros,
 seus planos e projetos exemplares
 para honrar o equilíbrio da Nacional.

Se a força da justiça, pelo mundo,
 fosse mais forte que o poder bancário,
 a paz seria um poder fecundo
 e sem poluição, a nossa terra
 não sofreria mais nenhuma guerra,
 já sem colonialismo e sem Iraque,
 sem terrorismo e orgulho americano,
 sujeito a promover qualquer ataque
 onde interesse o seu poder insano

Mas um dia, eu bem sei, um certo dia,
 eu já não sei ao certo onde nem quando,
 entre os castigos que estão nos rondando
 a humanidade acordará tão aterrada,
 sabendo o quanto tem vivido errada
 fugindo do humanismo e da justiça,
 vivendo só de posses e cobiça,
 sem procurar achar a luz Divina
 de agir sob o calor da integridade,
 servindo humildemente na verdade
 e com justiça encontrando a paz

Trova do Ceará
José Deusdedit Rocha

Da mentira hoje te furtas
simulando ações fraternas,
só que ela tem pernas curtas…
Se é que mentira tem pernas.

Trova de Pernambuco
Geraldo Lyra

Saudade, um mar de lembrança
na praia do pensamento,
onde a jangada balança
no sopro leve do vento.

Trova do Rio Grande do Sul
Delcy Canalles

Quando o sol se vai embora
e a noite escurece o azul,
minha alma de prenda chora,
nos pampas verdes do Sul!

Poesia das Ilhas São Tomé e Príncipe/ África
Caetano de Costa Alegre (1864 – 1890)
CANTARES SANTOMENSES

(A meu tio Jerônimo José da Costa)

Branca a espuma e negra a rocha,
Qual mais constante há-de ser,
A espuma indo e voltando,
A rocha sem se mexer?

Não creias que em teu jazigo
Alguém parta o coração,
No mundo quem morre, morre,
Quem cá fica come pão.

Não me dizem quanto tempo
Tenho ainda que viver,
Ficava ao menos sabendo
Quando finda o meu sofrer.

 Se eu me casasse contigo,
Fazia um voto de ferro,
De deixar-te unicamente
No dia do meu enterro.

Todos me dizem: “esquece
Essa paixão, que te abrasa”.
Que serve fechar a porta
Ao fogo que tenho em casa?

Não havia tanta cara
De asno, de tolo e pedante,
Se falasse, quem censura,
Com um espelho adiante.

Brotam espinhos da rosa,
O incêndio brota do lume.
A traição brota das juras,
Brota do amor o ciúme.

Numa loja conhecida
O que é cem custa duzentos,
Levam dinheiro em fazendas
E o tempo nos cumprimentos.

Macaco, chamaste tolo
Ao meu pequeno sagui.
Também queria que ouvisses
O que ele disse de ti.

Por teu desdém não me mato,
Não faço tamanha asneira,
Se o meu amor tu não queres,
Há muita gente que o queira.

 Quem pode num campo vasto
O joio apartar dos trigos?
Quem conhece dentre os falsos
Os verdadeiros amigos?

Trova do Rio Grande do Norte
Francisco Macedo

Ao ver de uma árvore, o corte,
minha angústia é paralela…
Eu sinto as dores da morte,
na dor dos gemidos dela!

Trova de São Paulo
Carolina Ramos

Se amigo é o que escuta a queixa,
seca o pranto e ajuda a rir,
mais amigo é o que não deixa
sequer o pranto cair!

Trova do Paraná
A. A. de Assis

Amai-vos, e as derradeiras
muralhas hão de cair.
 Havendo amor, as fronteiras
não têm razão de existir!

Trova de Santa Catarina
Gislaine Canales

O espelho mal me mostrou
algo que eu nem suspeitava:
Agora, eu sou, como estou
e nunca como eu sonhava!

Poema de Itapema/Santa Catarina
Pedro Du Bois
SOBRE O PRANTO

Sobre o pranto derramado
na inutilidade do ato
ouso o desconsolo
no fato não abortado
quando necessário
na escolha negada
ao corpo escravizado
na pobreza retida
em inconsequências

choro a amoralidade
do agente avesso
em ensinamentos.

Trova do Rio Grande do Norte
Ivaniso Galhardo

Do botão nasceu a rosa
que floriu nosso jardim.
Da mulher bela e formosa,
nasceu você para mim.

Trova do Rio Grande do Sul
Ialmar Pio Schneider

A trova é o verso que nasce
de um coração sonhador;
fica estampado na face
de quem vive um grande amor!

Vinicius, com Amor
Vinicius de Moraes (1913-1981)
POÉTICA (l)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
—Meu tempo é quando.

Trova do Paraná
Nei Garcez

Com a trova se diz tudo
em fração de oito segundos,
e seus temas, sobretudo,
são precisos e fecundos.

Cantigas de Roda
A Barata diz que tem

A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !

A Barata diz que tem um sapato de veludo
É mentira da barata, o pé dela é peludo
Ah ra ra, Iu ru ru, o pé dela é peludo !

A Barata diz que tem uma cama de marfim
É mentira da barata, ela tem é de capim
Ah ra ra, rim rim rim, ela tem é de capim

A Barata diz que tem um anel de formatura
É mentira da barata, ela tem é casca dura
Ah ra ra , iu ru ru, ela tem é casca dura

A Barata diz que tem o cabelo cacheado
É mentira da barata, ela tem coco raspado
Ah ra ra, ia ro ró, ela tem coco raspado

Trova do Rio Grande do Norte
Hélio Pedro

Quando me entendi por gente,
vi logo a luta voraz:
da vida a correr na frente
e a morte correndo atrás.

Cantos de Capoeira
Capoeira de São Salvador

 O, meu mano.
O que foi que tu viu lá.
Eu vi capoeira matando.
Ora meu deus,
 Também vi maculelê.
Capoeira !
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 Capoeira !
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 Mas sou discípulo que aprendo.
E mestre que dá lição.
Na roda de capoeira.
 Nunca dei meu golpe em vão.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 É Manuel dos Reis Machado.
Ele é fenomenal.
Ele é o Mestre Bimba.
 Criador da Regional.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 Ei capoeira é luta nossa.
Da era colonial.
E nasceu foi na Bahia.
 Angola e Regional.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 No dia que eu amanheço.
Danado da minha vida.
Planto cana descascada.
 Com seis dias tá nascida.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 É jogo de liberdade.
Jogo de libertação.
Praticado na Senzala.
 No tempo da escravidão.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 Jogo de muita mandinga.
Do escravo sofredor.
Que queria se livrar.
Do chicote do feitor.
É jogo praticado na terra de São Salvador.

Eternamente Drummond
Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)
SAGRAÇÃO

 Rocinante
 pasta a erva do sossego.

 A Mancha inteira é calma.
 A chama oculta arde
 nesta fremente Espanha interior.

 De giolhos e olhos visionários
 me sagro cavaleiro
 andante, amante
 de amor cortês a minha dama,
 cristal de perfeição entre perfeitas.

 Daqui por diante
 é girar, girovagar, a combater
 o erro, o falso, o mal de mil semblantes
 e recolher, no peito em sangue,
 a palma esquiva e rara
 que há de cingir-me a fronte
 por mão de Amor-amante.

 A fama, no capim
 que Rocinante pasta,
 se guarda para mim, em tudo a sinto,
 sede que bebo, vento que me arrasta.

Cantigas de Ninar

Acordei de madrugada,
Fui varrer a Conceição,
Encontrei Nossa Sra
Com seu raminho na mão.
Eu lhe pedi um raminho,
Ela me disse que não,
Eu lhe tornei a pedir,
Ela me deu seu cordão.
Numa ponta Sto Antônio,
Noutra ponta São João,
No meio Nossa Sra
Com seu lencinho na mão.
Cala a boca, iaiazinha,
Que seu pai já vem já,
Já foi buscar timão de seda,
forrado de tafetá.

Trova do Rio de Janeiro
Diamantino Ferreira

A trova de qualquer jeito,
Chega forte e vai bem fundo;
Em seu contexto perfeito
Já percorre todo o mundo.

Poesia de Autor Desconhecido
Quem é Você?

Tenho procurado respostas nas estrelas…
 Quero descobrir
 Quem é você que me enche de alegria
 Que do anonimato me faz tão feliz
 Não sei quem és,
 Mas me faz tão bem.
 Hoje sei o poder que tem as palavras
 Elas sabem encantar, vem cheias de doçura
 E se vem digitadas pelas tuas mãos
 Tem um poder mágico.
 Elas me fazem viajar para um mundo
 onde só há amor,
 compreensão, cumplicidade,
 companheirismo e ternura.

Ah! você me faz tão bem !
 Se estás tão longe como pode
 me fazer tão bem ?
 Como posso sentir o
 aconchego dos teus braços
 Se nunca te abracei ?
 Se nem ao menos os teus olhos fitei ?
 Como posso senti-los me olhando ?
 Se nunca senti o calor do teu carinho
 Como posso sentir esse calor que emana ?
 Como posso sentir que está triste
 Se nem ao menos me falou ?

Ah! Você me faz tão bem.
 Porque faz isso para mim
 Se nem ao menos me conhece ?
 Nunca nos conheceremos pessoalmente
 mas sinto como se fossemos
 Amigos ha muito tempo.

Quem é você aí na telinha,
 que me manda Tanto carinho ?
 Quem é você que me faz tão bem ?
 Quem é você que me dá tanta força ?
 Quem é você que se esconde
 atrás desta Máquina fria e gelada ?

Acho que sei quem és.
 É um ser divino que Deus colocou
 No meu caminho
 É um Doce Anjinho
 Que apareceu para me proteger.

Ah ! Como é bom saber que
 Tem alguém que ama as estrelas,
 Que ama um banho de chuva,
 Que ama as flores,
 Que ama seus pais,
 Que dá valor à vida,
 Que dá valor à uma amizade,
 Que sabe o valor que ela
 Representa em nossa vida.
 Nossa amizade é maravilhosa.
 Aprendi que quando temos Bons amigos,
 não precisamos
 de mais nada, o resto vem junto.
 É conseqüência.

Não sei rimar
 Não sei brincar com as
 Palavras como você,
 mas estas tenha certeza que saem
 de dentro do meu coração.

Olhe para a lua linda
 e majestosa no céu, e sempre
 Que ela sorrir para você…
 É porque sou eu que
 Estou lá.

Trova do Rio de Janeiro
Henny Kropf

A paz é como uma rosa,
A perfumar os caminhos,
Tão bonita e tão bondosa
Mas,  espalhando os espinhos.

Trova do Distrito Federal
Miguel J. Malty

Atente bem e me escute:
O homem simples, só fala.
O tolo fala e discute,
Enquanto o sábio se cala.

Fontes:
Boletins Nacionais da UBT
O Trovador
Revista Virtual Trovia
http://www.antoniomiranda.com.br
http://www.astormentas.com
http://www.sonetos.com.br
Eberth Santos. Josana de Moura. Filosofia & Literatura. Palavra em ação. Uberlândia/MG: Claranto Editora, 2004.
José Feldman. Alba Krishna Topan Feldman. Cavalgada de Sonhos. Ed. do Autor.
Izo Goldman. Curso de Trovas. (Apostila)

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Arquivado em devaneios poéticos

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 33)

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ

Há muitos pares constantes
que, malgrado de mãos dadas,
seguem juntos, mas distantes,
tendo as almas separadas…
Sérgio Bernardo

Uma Trova de Pedro Leopoldo/MG

Um caderninho discreto
com as trovas de minha lavra…
Hoje, ele vive repleto
do amor de nossas palavras.
Wagner Marques Lopes

Eternamente Drummond
(Itabira/MG – 1902 – 1987)

A Grande Dor das Cousas que Passaram

A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.
Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.
Ó bendito passado que era atroz,
e gozo só hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!

Uma Poesia de Maringá/PR

Jeanette Monteiro De Cnop
Falando de Solidão

Mais um dia que passa
na marcha do tempo…
Um dia de lutas,
de busca incesante.
Um dia sozinho,
separando o ontem
do amanhã.
Eu me situo neste instante
à procura de mim mesma,
encontrando em meu íntimo
a secular tristeza,
presente em tantos ontens.
Pressinto a carencia
(tão própria também de outros
que vivem a meu lado)
de afetos verdadeiros,
e tento ignorar a solidão
– dama velada e silenciosa
que me habita a alma.
Encontro um pouco de Deus
no muito que me cerca;
no sol, que já se esconde,
na luz, no ar,
no verde da paisagem.
É tranquilo o meu mundo
neste espaço do tempo.
No silêncio eu escuto
uma voz interior
chamando por você.
Formulo tímidamente o desejo
de que nos hojes que virão
exista seu carinho em mina vida
e eu nunca,
nunca mais fale
em solidão.

Uma Trova de Rio Novo/MG

Na vida, nossas estradas
não sejam caminhos vãos:
caminhemos de mãos dadas
mas sem algemas nas mãos!
Eugenia Maria Rodrigues

Um Poema de Itapema/SC

Pedro Du Bois
Sobre o Pranto

Sobre o pranto derramado
na inutilidade do ato
ouso o desconsolo
no fato não abortado
quando necessário
na escolha negada
ao corpo escravizado
na pobreza retida
em inconsequências

choro a amoralidade
do agente avesso
em ensinamentos.

Um Haicai de Curitiba/PR

Mário Zamataro

Vêm, no vão do vento,
novas manhãs azuladas.
Vão mexer no tempo!

Um Momento de Cecília Meirelles
(Rio de Janeiro – 1901 – 1964)

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

Uma Quadrinha Popular

Dantes para te ver
saltava montes e “vais”
agora para te não ver
salto ainda muito mais.

Um Soneto de Curitiba/PR

Janske Niemann Schlenker
Minha Casa

Conheço-te tão bem: a sala, o quarto,
a vista da janela escancarada!
Na mesa da cozinha, o almoço farto,
o som de cada porta ao ser fechada…

Conheço-te demais! No entanto, parto…
De tudo o que era meu, não fica nada:
na sala, nada… e nada no meu quarto,
só o vento na varanda ensolarada…

E deixo a antiga casa na ladeira:
Risadas,quantas! Quanta brincadeira!
Mas parto… e minha casa deixo aqui.

E dói-me ver-te assim: fria e despida…
Nem fecho a porta; saio pela vida,
avaliando o quanto empobreci!

Uma Trova de Curitiba/PR

Por sujeito à dura lei,
pescador que sou de versos,
muitos deles encontrei
nos cardumes dos reversos.
Mário Zamataro

Um Soneto de Lisboa/Portugal

Luis Vaz de Camões (1524-1580)
Soneto 013

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.

Um Momento de Mário Quintana
(Alegrete/RS – 1906 – 1994)

Canção da Garoa

 Em cima do telhado
 Pirulin lulin lulin,
 Um anjo, todo molhado,
 Soluça no seu flautim.

 O relógio vai bater:
 As molas rangem sem fim.
 O retrato na parede
 Fica olhando para mim.

 E chove sem saber porquê
 E tudo foi sempre assim!
 Parece que vou sofrer:
 Pirulin lulin lulin…

Um Poetrix de São Bento do Sul/SC

Maurélio Machado
Fog

 Na rústica paisagem
 Animais estáticos
 Na manhã invernal.

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP

Prisão seria um recurso
infeliz de eras passadas:
Se a humanidade em seu curso
vivesse em paz, de mãos dadas!
Lila Ricciardi Fontes

Um Momento de Paulo Leminski
(Curitiba/PR – 1944 – 1989)

Um homem com uma dor

 um homem com uma dor
 é muito mais elegante
 caminha assim de lado
 como se chegasse atrasado
 andasse mais adiante

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Ser trovador repentista
é Dom sutil, delicado,
que Deus concede ao artista
pra transmitir um recado.

Recado que, muitas vezes,
pode agradar, outras não;
podem vir versos corteses,
como também repreensão.
Horácio Ferreira Portella
[1934-2012] (Piraquara/PR)

Horácio Portella nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de fevereiro de 1934 e de lá se transferiu para o Paraná, em 1992, atraído pela tranqüilidade e belezas naturais da terra dos pinheiras, bem ao gosto de sua alma de poeta. Faleceu em 23 de junho de 2012.

Poeta acadêmico, cronista, pesquisador, trovador, compositor, tem dois livros publicados: Caleidoscópio Poético (1994) E Conversejando (1998), ambos de poesia.

Tem trabalhos publicados na Gazeta Acadêmica (órgão da Academia Internacional de Letras [RJ]), Ciência e Cultura (Brasília), O FENAL (Goiânia,GO) e jornais paranaenses como O Estado do Paraná, Tribuna do Paraná, Jornal da Abrapes, O Tempo, Ao Por do Sol na Boca, Correio das CIC’s (todos de Curitiba), Página Serrana e Tribuna dos Mananciais (Piraquara), Tribuna de São José, Folha de São José (São José dos Pinhais) e Agora Paraná (Pinhais).
   
Em 1996 desenvolveu em Curitiba o projeto “O que é Poesia”, dando aulas de poesia nas escolas municipais além de colégio da rede privada. Em São José dos Pinhais, sob os auspícios da Secretaria Municipal de Educação, desenvolveu o projeto “Um Poeta na Escola”, em cinco escolas da rede municipal de ensino. Em Piraquara, onde residia, desenvolveu identico projeto nas escolas municipais.
   
Detentor de vários diplomas, títulos e prêmios, tais como:
– Prêmio Cidade de Curitiba (1977), na área de poesia, pela Câmara Municipal de Curitiba.
– Honra ao Mérito (pelo ingresso no Centro de Letras do Paraná), oferecido também pela Câmara.
– Honra ao mérito, oferecido pela Assembléia Legislativa do Paraná, pelo lançamento do livro “Caleidoscópio Poético”.
– Troféu Machado de Assis (1995), oferecido pela Sala do Poeta do Paraná.
– Troféu Durval Borges (1996), no Concurso Literário da Academia de Letras José de Alencar
Diplomas de participação em eventos poéticos da Associação Médica do Paraná e Concurso de Poesia da Academia de Letras José de Alencar, e também de Colombo, Pinhais, Piraquara (todos do Paraná) e Governador Valadares (MG).
Foi membro da Academia Internacional de Letras (RJ), Centro de Letras do Paraná (Curitiba), Sala do Poeta do Paraná (Curitiba) e Academia de Letras José de Alencar (Curitiba).

(Fonte: Antologia dos Acadêmicos da Academia de Letras José de Alencar, comemorativo dos 60 anos)

Um Poema de São Fidélis/RJ

Antonio Manoel Abreu Sardenberg
Delícia

Doce de coco ralado,
Olho de sogra, quindim,
Brigadeiro, bom-bocado,
Beijinho de amendoim…

Ambrosia, bem – casado,
Monserrat e camafeus
Deixam-me os olhos vidrados
Brilhando mais do que os seus…

Amêndoa caramelada,
Trufas pretas, trufas brancas,
Fios de ovos em tranças,
Pé-de-moleque, cocada…

Vida doce, doce vida,
Que tem o sabor do mel.
E você, minha delícia,
É a doçura mais doce:
Manjar que caiu do céu!

Uma Trova de Fortaleza/CE

Quem a verdade falseia
para si mesmo constrói,
frágil castelo de areia
que onda vem e destrói!
Francisco José Pessoa

Um Haicai de Piraquara/PR

No fundo dos olhos
entre flores disfarçados
mentiras e abrolhos.
Horácio Portella

Lembrando Fernando Pessoa
(Lisboa – 1888-1935)

A Chuva Desce a Ladeira

 A  água da chuva desce a ladeira. 
É uma água ansiosa. 
Faz lagos e rios pequenos, e cheira 
A terra a ditosa. 

Há muitos que contam a dor e o pranto 
De o amor os não qu’rer… 
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.

Uma Trova de São Paulo/SP

Rastro de espuma esbatida,
que o barco deixa nas águas,
faz lembrar a minha vida
toda orvalhada de mágoas.
P. de Petrus

Vinicius de Moraes, Com Amor
(Rio de Janeiro – 1913 – 1980)

A Máscara da Noite

 Sim, essa tarde conhece todos os meus pensamentos
Todos os meus segredos e todos os meus patéticos anseios
Sob esse céu como uma visão azul de incenso
As estrelas são perfumes passados que me chegam…

Sim! essa tarde que eu não conheço é uma mulher que me chama
E eis que é uma cidade apenas, uma cidade dourada de astros
Aves, folhas silenciosas, sons perdidos em cores
Nuvens como velas abertas para o tempo…

Não sei, toda essa evocação perdida, toda essa música perdida
É como um pressentimento de inocência, como um apelo…
Mas para que buscar se a forma ficou no gesto esvanecida
E se a poesia ficou dormindo nos braços de outrora…

Como saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo
Nesse entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas?
Orvalho, orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo
Faz-se surgir diamante dentro do sol!

Lembro-me!… como se fosse a hora da memória
Outras tardes, outras janelas, outras criaturas na alma
O olhar abandonado de um lago e o frêmito de um vento
Seios crescendo para o poente como salmos…

Oh, a doce tarde! Sobre mares de gelo ardentes de revérbero
Vagam placidamente navios fantásticos de prata
E em grandes castelos cor de ouro, anjos azuis serenos
Tangem sinos de cristal que vibram na imensa transparência!

Eu sinto que essa tarde está me vendo, que essa serenidade está me vendo
Que o momento da criação está me vendo neste instante doloroso de sossego em mim mesmo
Oh criação que estás me vendo, surge e beija-me os olhos
Afaga-me os cabelos, canta uma canção para eu dormir!

És bem tu, máscara da noite, com tua carne rósea
Com teus longos xales campestres e com teus cânticos
És bem tu! ouço teus faunos pontilhando as águas de sons de flautas
Em longas escalas cromáticas fragrantes…

Ah, meu verso tem palpitações dulcíssimas! – primaveras!
Sonhos bucólicos nunca sonhados pelo desespero
Visões de rios plácidos e matas adormecidas
Sobre o panorama crucificado e monstruoso dos telhados!

Por que vens, noite? por que não adormeces o teu crepe
Por que não te esvais – espectro – nesse perfume tenro de rosas?
Deixa que a tarde envolva eternamente a face dos deuses
Noite, dolorosa noite, misteriosa noite!

Oh tarde, máscara da noite, tu és a presciência
Só tu conheces e acolhes todos os meus pensamentos
O teu céu, a tua luz, a tua calma
São a palavra da morte e do sonho em mim!

Uma Trova de Moji-Guaçu

Coração tem sete chaves
como a trova sete sons.
Não sei ser igual as aves:
sempre pio novos tons.
Olivaldo Junior

Cantinho do Ialmar

Soneto para Alguém Ausente

Onde estiveres mando-te um abraço
Para que saibas que te quero tanto,
Sem teu amor deploro meu fracasso
E a minha vida já perdeu o encanto.

Pretendo andar contigo passo a passo
E se preciso for, secar teu pranto…
Terás o meu apoio no cansaço
E só por ti desprenderei meu canto.

Entretanto, vivemos separados;
Mas eu necessitando teus agrados
E tu, talvez, os meus carinhos queiras.

Entraste em meu destino com doçura
Que hoje és a inesquecível criatura
Fazendo-me sofrer noites inteiras.

Um Poema de Boa Vista/RR

Rodrigo Mebs
Crepúsculo

 sentado à sombra dos meus sentidos
vejo a luz caminhar para o horizonte
                    como um cortejo fúnebre
         lentamente

 o entardecer recolhe a pipa dos meninos
                    findam-se os caminhos
ao badalar de sinos
como o frágil lumiar dos sonhos e fantasias
e os poetas mortos ao nascer da poesia

 há o triste envelhecer da infância
                              ao longe
além dos campos dourados pelo poente
onde delicadamente
                              suicidam-se os dias

Cantos de Influência Negra

A korô korô ô
Canto para Inhansan (Santa Bárbara). Kêto.

 A korô korô ô
 A korô korô ô
 Babalaô babalaô
 A xêxê xereomã

Nota: Depois de cantar, o cantador fala meio gritado, chamando o santo, dizendo as seguintes palavras: “Repawêi mulê do rêi”.

Colhido por Camargo Guarnieri e publicado no artigo de Oneida Alvarega, “A influência negra na música brasileira”, em Boletín Latino Americano de Musica, v.6, abril de 1946, p.357-407

Outra Trova de Fortaleza/CE

Ontem pujante esperança
numas linhas refratárias;
no caderno, hoje, a lembrança
das minhas trovas primárias.
Haroldo Lyra

Um Poema de Macapá/AP

José Edson dos Santos
NEFELIBATA

Sonheteiro nefelibata na varanda
contemplo nuvens do impalpável

Filibusteiro da fragata argonauta
vejo longarina vida singrando

Timoneiro da tormenta solerte
fito porto da morte de soslaio

Sinaleiro Juno do arrebol ausente
olho mundo como nuvem de maio

Cantinho do Izo Goldman

Ainda sobre Rima

Embora sendo importante, a rima não é “tudo” numa Trova; os exemplos citados, independentes do tipo de rima, são todos de Trovas Premiadas em Jogos Florais.

Poderíamos ainda citar as rimas toantes, como:
– luz ou cruz com azuis ou possuis,
embora não sendo do agrado de todos, temos de convir que existem belas trovas usando este tipo de rima, como:

As energias juntamos,
dois talheres, dois lençóis;
tudo em “dois” nós conservamos,
sempre em tudo fomos nós….
(C. A. Beiral – RJ, 1915 – 1999)

Recomendamos aos trovadores que procurem usar rimas boas mas não exagerem na procura de rimas raras ou preciosas que, na maior parte das vezes, tira uma das coisas mais bonitas da Trova: a espontaneidade.

Em Portugal, costumam aceitar a rima de :
– mãe com também, em virtude da pronúncia; no Brasil esta rima não é aceitam assim como as rimas toantes de:
– virgem com vertigem ou de palavra com escrava.

Para concluir devemos citar a Rima Gráfica que é aceita por alguns trovadores em Portugal e que, no Brasil, não é considerada rima, pois tem sons diferentes.

Mal de amor raro se perde (e)
é como a mancha da amora;
só com outra amora verde  (e)
a mancha se vai embora…
TROVA POPULAR PORTUGUESA

EM TEMPO:
Sempre que possível, devem ser evitadas as rimas feitas com palavras derivadas, tais como:
– tempo e contratempo;
– vento e catavento;
embora aceitas, estas rimas são consideradas por muitos, como MUITO POBRES.

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Um Poema de Cantanhede/MA

Arlete Nogueira da Cruz
Convicção

 Aqui, onde uma mulher se curva
e se inventa,
é onde de uma dor imensa e turva
se alimenta.

Aqui, quando tonta e avulsa
se procura,
é onde viva a luta lenta pulsa
e transfigura.

Aqui, onde o que é e será retorna
ao berço,
é onde busca âncora, estrela, bigorna
e terço.

Uma Trova de Curitiba/PR

No meu caderno anotei
uns versinhos para ti,
mas se nunca os enviei,
também jamais te esqueci.
José Marins

Cantos de Trabalho

Chapéu de Couro

 Até você chapéu de couro
 Até você que sabe amar
 Meu amor já foi simbora
 Minha vida é chorá

Chula de mutirão. Extraída de Viva Bahia canta; coletânea de músicas folclóricas, pesquisa de Emília Biancardi Ferreira (Salvador, Secretaria de Educação e Cultura, 1973, p.25)

Um Haicai de Ribeirão Preto/SP

Na estreita calçada
 o bípede e o quadrúpede
 presos na corrente.
Nilton Manoel

Um Poema de Bocas del Toro/Panamá

Tristán Solarte
No Undécimo Aniversário  da Morte de Minha Mãe

Perdoa-me ter-te retido na terra.
 Perdoa-me não ter cortado as raízes
 que tua lembrança deitou em mim.
 Perdoa-me ter conservado tuas tranças,
 tuas negras tranças que no fundo do baú familiar
 continuaram crescendo.

 Perdoa-me os sonhos em que esgotei tua ternura.
 Perdoa-me teus gestos, tua voz,
 que prolongaram minhas noites de insônia.
 Perdoa-me as vozes com que te chamei.
 Perdoa-me as febres que ao pé de meu leito
 te reclamaram.
 E por haver-te envelhecido, perdoa-me, mãe.

 Onze anos passaram sobre o rosto
 que conservo na memória.
 Cada sofrimento lhe abriu uma ruga,
 lhe arrancou uma lágrima.

 Onze anos te fiz viver em mim
 com doloroso e cotidiano entranhamento.
 Onze anos arrancados ao silêncio absoluto,
 às águas definitivamente niveladas.
 Onze anos que atrasei tua amorosa
 entrega à morte,
 que te condenei a velar meu sono.

 Hoje que já regresso da vida,
 que uma gelada quietude me vai distanciando
 de tudo o que fui,
 venho dizer-te com onze anos de atraso: descansa em paz,
 também eu vou render-me ao silêncio que invocaste.

Poesia de Cordel de Taguatinga/DF

Anabe Lopes
Os Dois Corcundas
(Conto popular adaptado p/ cordel)

Dois compadres corcundas
Viviam num povoado
Um era muito rico
O outro diária quebrado
Do pobre faziam fuxico
E o rico era bajulado

Do pobre mais que pesava
A corcunda com a tristeza
Que nada dá mais amargura
Do que viver na pobreza
E seguir em noite escura
Em busca de alguma beleza

Na boa mãe natureza
Pra alma buscava cura
Banhada de singeleza
Tão pobre e triste figura
Seguia assim os seus dias
A aliviar sua agrura

Atraiu-lhe um dia u’a cantiga
Ao longe no matagal
Seria desmancha de farinha
No fundo de algum quintal?
Pensou vou é ajudar
Julgou ser um seu igual

Por um tempo andou na mata
No rumo daquela cantiga
Achou-se ao pé da serra
Procurava gente amiga
Encontrou uma gente estranha
Que quem já viu que o diga

Nas roupas tinham diamantes
Que se espelhavam ao luar
Velhos rapazes e meninos
Todos juntos a cantarolar
Dançavam de mãos dadas
Sem de verso nunca mudar

Segunda, terça-feira, vai-vem!
Repetiam sem se cansar
Tremeu de medo, pobre corcunda
Na mata foi-se amoitar
Por hora e horas a fio
O mesmo verso a estrelar

Nossa nobre personagem
Com o tempo foi se animando
do meio da moita escondido
Quando viu já tava cantando
Ao verso tão repetido
Outro foi logo emendando

Dinheiro o homem não tinha
Mas bancava o improvisador
Judiava de uma viola
Sonhava em ser cantador
Que pobre só sobrevive
Se for mesmo sonhador

Emendou o artista a cantar
No ritmo do povo esquisito
A mesma cantiga e toada
Quis deixar o som mais bonito
Um verso ele acrescentou
Renovando todo o rito

[Segunda, terça-feira vai-vem
E quarta e quinta-feira, meu bem!]

Na laje branca e limpa
Onde dançavam ao luar
Tudo se fez em silêncio
Voz misteriosa a indagar:
Quem foi que fez este verso?
Tratemos pois de encontrar
Aquela gente esquisita
De roupas de diamante
Espalhou-se, meteu-se na mata
Como um bando de avoante
Procurando procurante
O versejador cantante

Pobre corcunda aterrado
Tremia feito um veado
Atirado pelo caçador
Caído em pleno serrado
Esperando só a morte
A que fora condenado

Acharam o corcunda escondido
Tremendo de aperreado
Transporte de barata morta
Pedaço de pau pelado
Levaram ele pra um velho
Que parecia envernizado

Perguntou com voz delicada
O velho mais que reluzente
Você cantou verso novo?
Façam-nos pois mais contente
Quer nos vender o seu verso
E enfeitar nossa repente?

Quero sim nobre senhor
Mas não vendo dou de presente
Ver baile tão sacudido
É coisa que anima a gente
Canção assim alegre e singela
Faz minha alma inocente

Nas palavras do Corcunda
O velho achou muita graça
Sorriu ele e sua gente
Feito criança na praça
Quão pobre era o corcunda
E não se sentia em desgraça

Decerto já tinha o corcunda
De todas  a maior riqueza
Saber achar no irmão
Graça, bondade e beleza
Buscar paz e harmonia
No aconchego da natureza

Tão contente ficou o velho
Que seu reluzir aumentou
Feliz com o verso ofertado
Ao corcunda recompensou
Pois que uma mão lava a outra
Antes o velho falou:

Tiro-te então a corcunda
Eis que o velho emendou
Passou-lhe as mãos pelas costas
E a corcunda se endireitou
Pra completar a alegria
Um bisaco novo lhe dou

Uma coisa lhe recomendo
Dela não posso abrir mão
Controle a curiosidade
Nem pense em espiação
Só abra o bisaco amanhã
Controle sua danação

Embrenhou-se na mata
Andando feito perdiz
Assim que o dia amanheceu
Quase morreu de feliz
Ouro e pedras preciosas
– É isso que povo diz –

No outro dia comprou casa
Com todos os apreparos
Mobília e roupa bonita
Tudo quanto lhe era caro
Seguiu pra missa contente
Com milagre assim tão raro.

Quando o corcunda rico
Viu o amigo esguiado
Quase que caiu de costas
Ficou por demais assombrado
O compadre corcunda e pobre
Agora elegante e abastado

Contou tudo ao rico amigo
Que a pobreza sempre ensina
A ser sempre verdadeiro
Pra enfrentar a sua sina
Rico da graça de Deus
Como a escritura ensina.

Como a medida do ter
Aumenta e nunca termina
Correu o rico pra mata
Em busca da nova mina
Em busca dos reluzidos
Foi encontrar sua sina

Andou e andou no mato
E viu o povo esquisito
Cantando e dançando em roda
Em traje brilhante e bonito
Cravejado de diamantes,
Como o amigo havia dito

Seus olhos se arregalaram
Sua mente pura ambição
Mal ouvira os belos versos
Emendou-se na canção
Sem nem pensar e mais nada
Sem qualquer premeditação

Segunda e terça-feira, vai vem!
Quarta e quinta-feira, meu bem!
[Sexta, sábado e domingo também!]
Calou-se a cantoria de além
Não seja intrometido que tem
Não seja da ganância refém!

Em cima do atrevido
Voou o povo esquisito
Levaram ele pra laje
Junto ao líder reluzido
Por demais furioso
Com o corcunda intrometido

Quem te mandou meter-se
Onde não foi chamado
Seu corcunda metido a besta
Inimigo do povo encantado
Vou te dizer porque
Seu direito é estar calado:

Não sabe que o povo encantado
Da sexta não quer saber
Dia em que o filho do Alto
Veio ao mundo padecer?
Perturbas o nosso encanto
Com esse seu louco dizer.

Também do sábado foge
Chega mesmo a estremecer
Dia em que o filho do pecado
Ao tentar mísero ser.
Levou uma alma à morte
Enforcado ao entardecer.

Do domingo também quer distância
– Diz o ancião reluzente –
Pois foi mesmo nesse dia,
Como sabe toda gente.
Que aquele que não morre e tinha morrido
Ressurge vivo e resplandente.

Enquanto louco se explicava
Ganhava tapa, pontapé e pescoção
Pobre do corcunda rico
Não voltou sem nada não
De castigo a corcunda do amigo
Levou com a  humilhação.

Pelo resto dos seus dias
Viveu em desilusão
Quem tudo quer nada tem
Aprendeu da vida a lição
Valem pouco as riquezas
O que conta é o coração!

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC

Guardo em segredo o caderno
que o destino amarelou
com versos de amor eterno
de um tempo que já passou.
Eliana Ruiz Jimenez

Poema em Trovas de Fortaleza/CE

Nemésio Prata Crisóstomo
Euclides da Cunha, Herói do Sertão

O sertanejo é, antes de tudo, um forte! (Euclides da Cunha)

Grande fardo o sertanejo
carrega; muito pesado:
que do céu caia em sobejo
chuva no chão cultivado!

Logo ao bater o roçado
seus olhos fitam o azul
do céu, desanuviado,
procurando o vento sul!

No terreno preparado
lança a semente esperando
que do céu seja mandado
chuva; que está precisando!

Depois de plantado o chão
só lhe resta uma esperança
pra ter safra em profusão:
que chova com abastança!

Se não pingar um chuvisco
na terra que foi plantada
a fome vem de corisco,
precedendo a derrocada!

Porém se chover gostoso
na roça do sertanejo,
o final é bem ditoso;
que afinal, é seu desejo!

Tendo comida em fartura
o sertanejo, animado,
parece outra criatura;
sorrindo pra todo lado!

Bendizendo a Deus, por dar
bom dinheiro em sua aljafra,
na igrejinha vai rezar
por ter tido boa safra!

Na momento da oblação
desembolsa bom dinheiro
que, de todo coração,
dá pro santo padroeiro!

Depois, no comércio, vai
fazer compras pra família,
pois sempre foi um bom pai,
que a ninguém deve quezília!

Pra seu uso um Ramenzoni
com forro todo bordado;
e quem sabe um telefone
celular, todo equipado!

Pros meninos, calças novas,
de modelos bem sortidos;
pras meninas, mais airosas,
maquilagens e vestidos!

E só para por a prova,
pra “madame” um bom perfume;
e, de noite, em sua alcova,
muito amor, como costume!

Sua vida, o sertanejo,
vai tocando, destemido,
satisfazendo o desejo
de ter o dever cumprido!

Grande fardo o sertanejo
carrega, mas sem pecado;
pois tendo Deus no manejo
é fácil ser carregado!!!

Modinha

Lá Onde as Feras dão Gemidos

I
 Lá onde as feras dão gemidos,
 É lá que eu queria morar;
 Uma ingrata que eu amava tanto,
 Não tinha dó de me ver tanto penar.

Estribilho

 Vem cá ingrata, vem dar-me um abraço
 Vem dar-me, ao menos, um adeus por despedida.
 Além do fado, vem vingança da sorte.
 Trabalhava um pobre na vida, descansa na morte. } bis

 II
 Lá onde as feras dão gemidos,
 É lá que eu queria viver!…
 Uma ingrata que eu amava tanto,
 Não tinha dó de me ver tanto sofrer.

Estribilho

Nota: Ouvida pelo professor Abdon Lyra, em 1905, quando era estudante do Instituto Pernambucano, em Recife.

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). Jangada Brasil 

Um Soneto de Manágua/Nicaraguá

Cioconda Belli
Esperando-o

 Pela manhã
 levanto como gazela
 prazerosa no monte
 esperando-te.
 Ao meio-dia,
 profunda entre flores,
 vou desenhando
 teu nome no ventre da água do rio.

 No crepúsculo,
 plena de amor, me dublo
 e logo vou esperar-te
 quando regressas de noite,
 que venhas pousar em mim como um pássaro
 e movas teu corpo
 como bandeira
 sobre meu corpo.

(tradução de Antonio Miranda)

Uma Trova de Porto Alegre/RS

Cada dia uma rotina
que devo sempre seguir,
entretanto a vida ensina
que não posso desistir.
Ialmar Pio Schneider

Um Soneto de Macau/China

João Azeredo
Preia-mar

Espuma dos desejos
no chão feito praia – memória
deixa os sentidos cor de sal
tão leves
espraia-se lenta
desde a maré antes do tempo
vaga de milénios por rebentar
tão secreta
mergulho nos dias
contados pelas artérias
coração de água

Cantigas Infantis

Da Abóbora faz Melão

 Da abóbora faz melão
 Do melão faz melancia
 Da abóbora faz melão
 Do melão faz melancia
 Faz doce, sinhá
 Faz doce, sinhá
 Faz doce, sinhá Maria

 Quem quiser dançar
 Vai na casa do Juquinha
 Quem quiser dançar
 Vai na casa do Juquinha
 Ele pula, ele roda
 Ele faz requebradinha
 Ele pula, ele roda
 Ele faz requebradinha

 Uma roda de crianças, com uma delas no centro. No momento em que cantam “faz doce, sinhá”, a criança que está no centro faz um gesto como se estivesse mexendo uma panela. Em “quem quiser dançar”, ela escolhe uma criança da roda, leva-a para o centro e as duas dançam juntas, obedecendo aos comandos “ele pula, ele roda, ele faz requebradinha”. Ao recomeçar a canção, as duas crianças que estão no centro escolhem mais duas e assim por diante, até que todas entrem na roda.

(Cantiga de roda, conforme gravação de Palavra Cantada, no CD Pandalelê; brinquedos cantados. In Jangada Brasil. http://www.jangadabrasil.com.br/realejo/exibirtitulo.asp?id=286)

Uma Quadra Popular

Lá vai a lua saindo
Por detrás da pimenteira…
Já me dói o céu da boca
De beijar moça solteira.

Trova Capixaba (Origens)

As Primeiras Obras

 O primeiro coletor de Trovas Populares em terras capixabas, com registros nos anais da história, foi o primeiro Governador Republicano, Afonso Cláudio de Freitas Rosa, que publicou no Rio de Janeiro, em 1921, o livro “Trovas e Cantares Capixabas”, no qual reuniu 21 Trovas. Eis duas delas:

 Mandei fazer um barquinho,
 da casca do camarão,
 o barco saiu pequeno,
 só coube meu coração.

 Você diz que mal de amor,
 não mata quem está alerta;
 Pois eu ouvi de um doutor,
 Que amar é ter cova aberta.

 Afonso Cláudio nasceu na antiga Província do Espírito Santo, Freguesia da Barra do Mangarai, do Município de Porto Cachoeiro de Santa Leopoldina, na Fazenda de Mangaraí, em 2 de agosto de 1859. Estudou nas Faculdades de Direito de Recife e depois São Paulo. Tomou posse como primeiro Governador do Estado a 20 de novembro de 1889. Publicou vários livros. Faleceu no Rio de Janeiro a 16 de Junho de 1934.

 O livro “Trovas e Cantares Capixabas” teve a sua primeira edição publicada em 1923. A obra possui Trovas, ditados populares, contos, provérbios, etc. Em 1980 foi publicada uma segunda edição da obra, pelo Instituto Nacional do Folclore.

 De 1923 a 1956 a Trova Literária, feita por poetas conhecidos, passa a ser bastante divulgada pela Revista “Vida Capichaba”, que publicava trabalhos de autores Espírito-Santenses, entre eles, Teixeira Leite:

 Em meus amores diviso
 um de mais sinceridade:
 O que nasceu de um sorriso
 e vive de uma saudade.

 Manuel Teixeira Leite, nascido em Prado, Bahia a 6 de fevereiro de 1891. Poeta, jornalista e contista. Membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Publicou entre outros livros: Fidelis, em 1927; Vitória, 1928 e Serenatas, 1930.

(trecho do livro de Clério José Borges. Origem Capixaba da Trova. Serra/ES. Outubro de 2007)

Um Poema de Belo Horizonte/MG

Clevane Pessoa
O Visitador

 Todas as noites
 Passa um fita de luz
 Pela fresta,
 Atravessa a cortina
 E me seduz
 Fazendo uma festa
 Para a menina
 Que dormita
 Dentro da mulher
 Que acorda…
 Com energias fluorescentes,
 Florescentes,
 Pega o açoite
 Que o dia usou
 Para castigar
 Minha poesia
 _ A companheira
 etérea
 da fantasia _
 E o transforma
 Em um fio de luar…

 Apaixonada,
 Embora,
 Meu desejo constranjo
 Em pleno deslumbramento
 Quando re/descubro
 Que esse espectro
 É um anjo

 Poesia destaque em concurso da ALPAS XXI,de Cruz Alta,RS,depois editada na coletânea
 “Desafios”/2002,por Rozélia Rasia

Fonte:
seleção por José Feldman
Alguns textos foram fornecidos pelos autores, outros obtidos em diversos sites e blogs da internet, outros em livros, jornais e revistas.

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 32)

Uma Trova de Maringá/PR

Ó Deus, que nos deste a flor,
e as crianças e as estrelas,
dá-nos agora, Senhor,
a graça de merecê-las!
A. A. de Assis

Uma Trova ecológica de Pedro Leopoldo/MG

A poluição apronta
sobre o mar, o provedor.
O marasmo toma conta
do sofrido pescador.
Wagner Marques Lopes

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
A Folha

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

Uma Orelha Poética de Livro de Poesias, de Sorocaba/SP

André Augusto Passari
“Tempo, Solidão e Fantasia” 


As gerações são bafos que passam. O homem respira, aspira e expira.”
Victor Hugo

O tempo é fugaz, desliza entre os dedos. Mas o tempo é eterno, se perde no infinito. O ser humano criou o tempo, pois só assim pode criar a História. E ela não é nada mais do que uma sucessão de dores e fantasias.

Ah, as fantasias!

Quando um Deus, talvez bêbado, talvez lúcido demais, resolveu inventar a humanidade, não pensou senão em fantasias.

Pensou no Amor, que deveria conter mais tragédias do que alegrias. Pensou no Belo, só para contrapor a feiúra. Pensou na Glória, para humilhar os desgraçados. Pensou na Vaidade, que seria a chama que delicia e corrói a sociedade.

Foi algum Deus, talvez o mais pobre do Olimpo, talvez o mais esquecido, foi algum Deus que brincou de inventar a Esperança, pois das tragédias ele já sabia. Mas a vida não seria assim tão linda, pois é da tragédia e da esperança unidas que nasce a fantasia. Foi algum Deus, talvez o único do Olimpo, solitário.

Talvez bêbado, talvez lúcido demais


Uma Trova de Bragança Paulista/SP

Quero o amor bem pertinho,
ao alcance de meus braços;
não no virtual quadrinho,
tão longe dos meus espaços…
Lóla Prata

Um Poema de Itapema/SC

Pedro Du Bois
Palavras

Ásperas
ditas como ordens
assustadas
macias
ditas como esperas
controladas
raivosas
ditas como verdades
escancaradas
melífluas
ditas como mentiras
dissimuladas
rezadas
ditas como saudades
santificadas
cantadas
ditas como músicas
silenciadas
caladas
ditas como lembranças
extremadas.

Um Haicai de Balneário Camboriú/SC

Marasmo
Eliana Ruiz Jimenez

Marasmo diário.
Na rede do pescador,
garrafas e latas.

Uma Quadrinha Popular

O meu pai se chama Caco
minha mãe, Caca Maria
Ai, meu Deus, que tanto caco
sou filha da cacaria.

Um Soneto de Pedro Leopoldo/MG

Astronomia Humana
Wagner Marques Lopes

Se Galileu, Copérnico, Laplace,
Flammarion ou qualquer mago dos céus –
Para a Terra os olhos desviasse
Veria vários astros, sem mais véus.

Há homens-luas, pois refletem luz;
Homens-cometas a seguir às tontas;
Há homens-sóis… E cada um conduz
A energia do bem para as terras prontas.

A astronomia humana é rica à beça:
Planetas a girar… Uns mostram pressa;
Outros pouco avançando, em velhos ritos.

E todos em processo evolutivo –
Com seus reveses, tendo a dor por crivo,
Mas cumprindo papéis pelo Infinito!

Trova de Concurso

2009 – Jogos Florais de Niterói/RJ
Tema: Prêmio

No “grande prêmio” da vida,
É vencedor, sem igual,
Quem usa o Bem, sem medida,
Desde a largada ao final!…
Hermoclydes S. Franco (Rio de Janeiro/RJ)

Um Soneto de Coimbra/Portugal

Jaime Cortesão (1884-1960)
RENASCIMENTO

Nasci de novo. Eis-me liberto, enfim!
Foi por um Céu, de estrelas todo cheio,
Numa visão de Amor, que um Anjo veio
Descendo até poisar ao pé de mim.

O beijo que me deu não teve fim…,
Apertou-me nos braços contra o seio,
Abriu os lábios segredando…, e a meio
Bateu asas e levou-me assim.

Ai! como é doce o seio que me embala!
E como tudo é novo e mais profundo!…
Mas já não volta, ou, quando volta, é morto!

Noutro Mundo melhor eu vivo absorto,
E logo conheci que a esse Mundo
Quem vai não volta, ou, quando volta, é morto!

Um Poetrix de Portugal

morte
Anthero Monteiro

uma cadeira vazia na alameda
sentada numa tarde de outono
a olhar o meu ponto de fuga

Uma Trova de Natal/RN

Quando a jangada flutua
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua
nos olhos verdes do mar.
José Lucas de Barros

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Curvado à lei dos pesares
Não sei se morro ou se vivo:
Senhor dos outros olhares,
Só do teu fiquei cativo.
Joaquim Osório Duque Estrada [1870-1927] (Vassouras/RJ)


Joaquim Osório Duque-Estrada (Paty do Alferes [Vassouras], RJ, 29 de abril de 1870 — Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 1927)

Duque Estrada nasceu no então município de Vassouras, no sul do estado do Rio de Janeiro.

Era filho do tenente-coronel Luís de Azeredo Coutinho Duque Estrada e de Mariana Delfim Duque Estrada. Era afilhado do general Osório, marquês do Erval. Estudou as primeiras letras na capital do antigo império, nos colégios Almeida Martins, Aquino e Meneses Vieira. Matriculou-se em 1882 no imperial Colégio Pedro II, onde recebeu o grau de bacharel em letras, em dezembro de 1888. Em 1886, ao completar o quinto ano do curso, publicou o primeiro livro de versos, Alvéolos.

Começou a colaborar na imprensa, em 1887, escrevendo os primeiros ensaios na Cidade do Rio, como um dos auxiliares de José do Patrocínio na campanha da abolição. Em 1888 alistou-se também nas fileiras republicanas, ao lado de Silva Jardim, entrando para o “Centro Lopes Trovão” e o “Clube Tiradentes”, de que foi segundo secretário. No ano seguinte foi para São Paulo, a fim de se matricular na Faculdade de Direito, entrando nesse mesmo ano para a redação do Diário Mercantil. Abandonou o curso de Direito em 1891 para se dedicar à diplomacia, sendo então nomeado segundo secretário de legação no Paraguai, onde permaneceu por um ano.

Regressou ao Brasil, abandonando de vez a carreira diplomática. Fixou residência em Minas Gerais, de 1893 a 1896. Aí redigiu o Eco de Cataguases. Nos anos de 1896, 1899 e 1900 foi sucessivamente inspetor geral do ensino, por concurso; bibliotecário do Estado do Rio de Janeiro e professor de francês do Ginásio de Petrópolis, cargo que exerceu até voltar para a cidade do Rio de Janeiro, em 1902, sendo nomeado regente interino da cadeira de História Geral do Brasil, no Colégio Pedro II.

Deixou o magistério em 1905, voltando a colaborar na imprensa, em quase todos os diários do Rio de Janeiro. Entrou para a redação do Correio da Manhã, em 1910, dirigindo-o por algum tempo, durante a ausência de Edmundo Bittencourt e Leão Veloso. Foi nesse período que criou a seção de crítica Registro Literário, mantida, de 1914 a 1917, no Correio da Manhã; de 1915 a 1917, no Imparcial; e, de 1921 a 1924, no Jornal do Brasil. Uma boa parte de seus trabalhos desse período foram reunidos em Crítica e polêmica (1924). Tornou-se um crítico literário temido. Gostava de polêmicas. De todas as censuras que fez, nenhuma conseguiu dar-lhe renome na posteridade.

Como poeta, não fez nome literário, a não ser pela autoria da letra do Hino Nacional. Além do livro de estreia, publicado aos 17 anos, Flora de Maio, com prefácio de Alberto de Oliveira, reunindo poesias escritas até os 32 anos de idade. Revela sensível progresso na forma e na ideia. Conserva a feição dos poetas românticos, apesar de publicado em plena florescência do Parnasianismo, de que recebeu evidentes influxos, conservando, contudo, a essência romântica.

Foi eleito em 25 de novembro de 1915 para a cadeira número 17 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Sílvio Romero. Recebeu premiação de literatura pelo livro: E O Papagaio Voou.

Obras:
Alvéolos, poesia (1887); A aristocracia do espírito (1899); Flora de Maio, poesia (1902); O Norte, impressões de viagem (1909); Anita Garibaldi, ópera-baile (1911); A arte de fazer versos (1912); Dicionário de rimas ricas (1915); A Abolição, esboço histórico (1918); Crítica e polêmica (1924); e mais: Noções elementares de gramática portuguesa; Questões de português; Guerra do Paraguai; História Universal; A alma portuguesa. Encontram-se trabalhos seus na Revista Americana; em O Mundo Literário; na Revista da Língua Portuguesa e na Revista da Academia Brasileira de Letras.


Um Soneto de Antequera/Espanha

Pedro Espinosa (1578-1650)
À Santíssima Virgem Maria

Como o triste piloto que pelo mar incerto
se vê, com turvos olhos, sujeito a dura pena
na onda curva, que, areia vomitando, o envenena
e o tem todo de espuma salpicado e coberto,

quando, sem esperança, de espanto quase morto
vê o fogo de santelmo cintilar sobre a antena,
e, adorando seu lume, de gozos a alma plena,
encontra a nau fendida surta num doce porto:

assim um mar sulcava de penas e de escolhos,
e, na tormenta fera, já das águas aziagas
meio coberto estava, já a força e a luz perdida,

quando fitei, ó Virgem, o lume de teus olhos,
com cujos resplendores, acalmadas as vagas,
chego ao ditoso porto onde resgato a vida.

(Trad. de Fernando Mendes Vianna)

Um Haicai de Maringá/PR

Cheiro bom no ar.
É a colheita da maçã.
Festa no pomar
A. A. de Assis

Uma Trova de Curitiba/PR

O tempo ficou parado
naquele retrato antigo
que, mesmo preso ao passado,
conversa sempre comigo…
Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes

Vinicius de Moraes, Com Amor

Vinicius de Moraes (RJ)
A Impossível Partida

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes da cidade
E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne indesejada?…
Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos
Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas colhidas
E se a minha inquietação iria temer a tua eloqüência silenciosa?…
Eu sonhei!… Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos
Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável
Os rios mortos… as sombras mortas… as vozes mortas…
…o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na face…
Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério
Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos calmos
Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua visão?…
Eu sonhei!… Sonhei mundos passando como pássaros
Luzes voando ao vento como folhas
Nuvens como vagas afogando luas adolescentes…
Sons… o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida…
O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço…
Imagens… a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das coisas…
As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma
Soprando de manso na boca vermelha dos astros…
Como poder abrir no teu seio, oh noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo
Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno
E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos desconhecidas me arrebatem?…

Cantinho do Ialmar 

Ialmar Pio Schneider (RS)
Soneto a Laurindo Rabelo
In Memoriam – Nascimento do poeta em 8.7.1826

Foi poeta… sofreu e fez seus versos,
clamando que seriam ais sentidos,
pois quanto mais tristonhos, mais perversos,
representando corações partidos…

Mas sua obra é vasta e os dias idos
na existência de sonhos tão dispersos,
lamentou como se fossem perdidos
os cantos que compôs, os mais diversos…

E no soneto “O Tempo” põe sua alma
arrependida de gastá-lo em vão,
tal como se fosse perder a calma.

Um conselho final então dos diz:
de não desperdiçarmos, sem razão,
o tempo em que se pode ser feliz…

Uma Fábula

A Rede
Leonardo Da Vinci (Itália)


Naquele dia, como todos os dias, a rede subiu carregada de peixes. Carpas, barbos, lampreias, trutas, enguias e muitos, muitos outros peixes foram para as cestas dos pescadores.

Lá no fundo da água do rio, os sobreviventes, assustados e com medo, não ousavam se mexer. Famílias inteiras já haviam sido enviadas para o mercado. Diversos cardumes tinham caído na rede e terminado na frigideira. Que fazer?

Um grupo de jovens peixes promoveu uma reunião atrás de uma pedra e decidiu se revoltar.

– É uma questão de vida ou morte – disseram eles – todos os dias essa rede afunda na água, cada vez num local diferente, para nos aprisionar e nos levar embora de nosso lar. Vai acabar nos matando a todos, e o rio ficará sem peixe algum. Nossos filhos têm direito à vida e precisamos fazer alguma coisa para livrá-los deste flagelo.

– E que podemos fazer? – perguntou uma truta que seguira os conspiradores.

– Destruir a rede – responderam os outros em coro

As enguias encarregaram-se de rapidamente espalhar a notícia dessa corajosa decisão e convocaram todos os peixes para um encontro na manhã seguinte, numa pequena enseada protegida por altos salgueiros.

No dia seguinte, milhões de peixes de todos os tamanhos e idades reuniram-se para declarar guerra à rede.

A liderança foi entregue a uma sábia e velha carpa, que por duas vezes conseguira escapar da prisão, mordendo as malhas da rede.

– Ouçam com atenção – disse a carpa – a rede é da largura do rio, e todas as malhas têm um chumbo preso por baixo, para que a rede afunde. Dividam-se em dois grupos. Um dos grupos suspenderá os pesos de chumbo e os carregará até a superfície, e o outro segurará as malhas por cima com firmeza. As lampreias vão serrar com os dentes a corda que mantém a rede esticada entre as duas margens. As enguias vão partir já, para fazer uma inspeção e nos informar em que local a rede foi lançada.

As enguias partiram. Os peixes formaram grupos ao longo das margens. Os barbos encorajavam os mais tímidos, relembrando-lhes o triste fim de tantos amigos e exortando-os a não terem medo de ficarem presos na rede, porque daquele dia em diante nenhum homem seria mais capaz de arrastá-la para a margem.

As enguias retornaram, missão cumprida. A rede fora lançada a uma milha dali.

Então todos os peixes, como uma frota gigantesca, partiram atrás da velha carpa.

– Tomem cuidado – disse a carpa – pois a correnteza pode arrastar vocês para dentro da rede. Sigam devagar e usem bem as nadadeiras.

E então viram a rede, cinzenta e sinistra.

Os peixes, acometidos de súbita fúria, nadaram para atacar.

A rede foi suspensa por baixo, as cordas que a seguravam foram cortadas, as malhas foram rasgadas. Mas os peixes, enfurecidos não largavam mais sua presa. Cada um segurava na boca um pedaço de malha e abanando fortemente as caudas e as nadadeiras, puxavam de todos os lados a fim de rasgar e destruir a rede. E a água parecia estar fervendo enquanto os peixes finalmente libertavam o rio daquele perigo.


Um Poema de Rio Verde/PR


Ady Xavier de Moraes
Mulher

És bela, não porque se fez bela,
Mas porque tens no íntimo
O brilho de uma estrela
Que durante o dia se esconde
E, durante a noite, no infinito,
Mostra tua face que resplandece.

És linda, não porque se fez linda
Mas porque a natureza preparou
Para nascer e brilhar.
Tu não precisas de arranjos,
Porque uma flor já nasce
Com toda a beleza, tenra
E perfumada.

És perfeita, não porque se fez perfeita,
Mas porque a vida deu-te de tudo,
A simplicidade de um anjo,
A inocência de uma criança,
O carisma de uma rainha.

Quando sorri…
Com os lábios, com o coração.
Mostras com muita esperança,
A vontade de vencer na vida
E não sabe da virtude que tens,
por isso, és linda, és bela,
como a flor do meu jardim.

Música de capoeira

Esta Cobra te Morde

Solo
Esta cobra te morte

Coro
Sinhô São Bento (repete-se depois de cada verso)

Solo
Ói bote de cobra
Ói a cobra mordeu
O veneno da cobra
Ói a casca da cobra
Ó que cobra danada
Ó que cobra malvada

Ponto de capoeira colhido por Camargo Guarnieri, na Bahia, em 1937. Extraído de Oneida Alvarenga, Música popular brasileira, Rio de Janeiro, Editora Globo, 1960, p.217-218.

Uma Trova de Lisboa/Portugal

O moinho de café
mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minha alma é,
moeu quem me deixa só.
Fernando Pessoa

Uma Poesia de Maringá/PR

José Feldman
Lágrimas nas Trevas
– In memoriam – Gwyddion (1997 – 2001)

Parem o tempo!
Silenciem os passarinhos,
Calem os saxofones
E com o toque de uma lira
Carreguem seu corpinho.
Que venham os guardiões do portal do destino,
Voem águias, gaviões e falcões,
E anunciem aos quatro ventos:
“Ele nos Deixou”.
Ponham laços pretos nos pescoços brancos
Das pombas brancas da paz,
Caminhem sobre a grama, como se fosse algodão.

Ele era o norte, o sul, o leste e o oeste,
Os dias de trabalho e os dias de descanso,
O dia claro e a noite escura,
A noite clara e o dia escuro.
O dia-a-dia, a poesia e a canção
A esperança infinita
O caminho do amor
O carinho sem limite.

Ele era a criança sempre pura de coração
Era a chuva fresca após um dia de calor intenso,
Os raios de sol que despeja sobre a terra ao romper da manhã,
A brisa suave após um dia de trabalho.
Ele era a maior música que se conheceu,
A melodia que embalava o nosso sono,
O nosso bom-dia e o nosso boa-noite.

Ele nos Deixou…
Que importam as estrelas?
Parem de piscar!
Vão embora!
Porque a lua está brilhando?
Apague-a!
O sol?
Escondam-no!
Sequem os oceanos e
Varram os bosques,
Pois agora,
Para nada mais há de servir.

Adeus, meu doce molequinho,
Você sempre viverá dentro de nós.

Cantinho do Izo Goldman 


A Rima Rara e a Rima Preciosa

Dentro dos diversos elementos que valorizam uma trova devemos destacar a “rima”.

“Rima é a igualdade ou semelhança de sons no fim de duas ou mais palavras, no extremo dos versos.

RARA– Quando formada palavras que tem poucas rimas, como: intrépido, lépido, tépido e trépido. Ou por rimas ricas, raramente usadas.


Olhai, racistas, papalvos,
das mãos o exemplo de amor,
seios negros, seios alvos,
dão leite da mesma cor.
JACY PACHECO [1910-1989] (Niterói/RJ)

PRECIOSA – Quando as rimas usadas, são as únicas existentes, como: cisne e tisne, ágil e frágil.

Papai do Céu “tá” ranzinza
diz meu netinho assustado,
pintou todinho de cinza
o lindo céu azulado…
IZO GOLDMAN (São Paulo/SP)
(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Um Poema de Curitiba/PR

Silviah Carvalho
Seu Amor é Tudo

Antes que seja aprisionada pelo seu sorriso,
E sinta que a vida não fará mais sentido sem você
Antes que tenha certeza que você é tudo que preciso
Antes que eu perca a razão e no amor volte a crer

Antes que sua solidão misture com minha carência
E suas mãos toquem novamente as minhas
Antes que eu seja vencida por minha impaciência
E passe a crer que perto de você eu não esteja sozinha

Eu voarei rumo aos pinheiros, perto da tristeza
Onde as noites são frias, os dias são longos
Eu estarei a meditar na sua simplicidade e pureza

Na paz que emana de você, na sua doçura e nobreza
Eu irei pensar no silêncio da minha incompreensão
Não diga nada, talvez eu não resista à dor de um sincero não

Eu cheguei no tempo que é para ti a alto-reconstrução
Em que preferes a solidão latente no seu meigo olhar
Eu irei antes que, seja dominada pelo desejo de ficar

E quando este papel envelhecer,
Saiba que esta poetisa que hoje te escreve apesar
De nada ser, desejou ter tudo, e este tudo é você.

Uma Trova de Curitiba/PR

Dormi… e sonhei contigo
na praia, com lua cheia!
Foi delírio, hoje prossigo
te procurando na areia!
Vânia Maria Souza Ennes

Cantos de Trabalho

Araúna

Xô, xô, xô, araúna,
Deixa ninguém te pegá, araúna
Tenho dinheiro de prata, araúna,
Para comprá as mulata, araúna

Puxada da rede. Extraído de Viva Bahia canta; coletânea de músicas folclóricas, pesquisa de Emília Biancardi Ferreira (Salvador, Secretaria de Educação e Cultura, 1973, p.37)

Um Haicai de Niterói/RJ

Livre é o pensamento,
é porém à flor dos lábios
pássaro detento
Jacy Pacheco (1910 – 1989)

Um Soneto de Chiriqui/Panamá

Santiago Anguizola (1898 – 1980)
Mãos

Seráficos feitiços benfazejos
para cingir as almas em cadeias,
mãos finas, mãos suaves, que são peias
e provocam fantásticos desejos.

São retalhos dos céus essas mãos calmas
pelo celeste azul que têm nas veias,
como asas de arcanjo, sempre cheias
da graça do Senhor em suas palmas.

Mãos das quais o milagre se pressente
de vê-las transformadas em estrelas
quando abrem os dedos suavemente;

encantadoras mãos que são tão belas
como para viver eternamente
acariciando o coração com elas.

Poesia de Cordel de Natal/RN

Walter Medeiros
Cordel do Português

O mundo é muito bom
Para quem sabe viver
E quem gosta de aprender
Sabe usar palavra e som;
Por isso vou escrever
O que já pude entender
Sem estresse ou frisson.

Falo da formulação
Da nova ortografia
Pois está chegando o dia
De virar obrigação;
E agora, quem diria!
Coisas que a gente escrevia
Não pode escrever mais não.

Não esquente, meu amigo,
Pois não é um teorema
Começando pelo trema,
Pois ele foi abolido;
Agora o novo sistema
Não é mais nosso problema
Só estrangeiro é mantido.

Para ser bem comedido,
Acho bom lhe explicar
Você só vai aplicar
O trema, quando ocorrido,
Se o nome que encontrar
For de país ou lugar
No estrangeiro definido.

Para se ter mais firmeza
Sobre as alterações
Novas normatizações
Para a língua portuguesa
Vêm de acordo dos bons
Que elimina os senões
E que traz muita certeza.

Brotando da natureza
Essa mudança tão boa
Foi assinada em Lisboa
Mas não é uma moleza
Pode não ter mais coroa
Mas é bela a ressoa
De Brasília a Fortaleza.

Sem ardil ou esperteza
Vamos ver o que mudou
O alfabeto ganhou
Três letras da língua inglesa
Todo mundo já usou
Pois não desacostumou
K, w, e y – beleza!

Quilômetro e quilograma
Têm símbolos com k,
Watt com w está
E o k em kafikiano;
Agora vamos grafar
Yang e show em pá
E playground todo ano.

Sem o trema vai ficar
Aguentar, arguir, bilíngue,
Cinquenta, sagui, delinque
Eloquente, ensanguentar
Equestre, frequente, ringue
Lingueta, quinquênio, brinque,
Tranquilo não mais terá.

Precisa também olhar
Toda acentuação;
Em muita situação
As regras irão mudar,
Mas não tem complicação
Basta prestar atenção
Para logo assimilar.

Vamos deixar de usar
Acento em ditongo aberto
Éi e ói não é mais certo
Na penúltima sílaba
Não olhe agora pro teto
Precisa ficar esperto
Prá nova forma encontrar.

A forma certa agora
É alcaloide, alcateia
Androide, apoia, plateia,
Asteroide e boia, ora!
Celuloide e colmeia
Claraboia e Coreia
Estreia, não te apavora.

Tem ainda debiloide,
Epopeia, estoico, estreia,
Geleia, heroico, ideia
Paranoia, paranoico,
Jiboia, joia, odisseia
enfim tramoia e plateia
O acento não é mais lógico.

Todos precisam saber,
Continuam acentuadas
As palavras terminadas
Com aquele mesmo dizer:
Papéis, herói, não mudadas
troféu, troféus muda nada
assim vamos escrever.

Quando for paroxítona
Vinda depois de um ditongo
O rol não é muito longo
Cabe nas cordas da cítara:
Baiuca, Cauila, um gongo,
bocaiuva até no Congo
e feiura sem barítono.

Vamos ver também aqui
Acentos que continuam,
Pois ainda se acentuam
No antes e no porvir;
tuiuiú, até na lua
tuiuiús, do campo à rua
E o majestoso Piauí.

Não se usa mais o acento
Em palavras terminadas
Em êem e ôo(s), cada,
Basta olhar num momento;
A escrita facilitada
Nestas letrinhas dobradas
Parece ser o intento.

Outra medida legal
Para ser apreciada
Pode ser logo adotada
Com o diferencial
Permanece acentuada
Pôde, pôr e quase nada
Só têm e vêm, e tchau.

Usando hífen agora
Não precisa se estressar
A palavra com h
Recebe o sinal na hora;
Quando um prefixo há
O termo composto está
Como em macro-história.

Também em proto-história
E sobre-humano hífen dá
Porém a exceção está
Na palavra subumano
Pois ela perde o h
E vamos ter de grafar
Sem motivo prá engano.

Quando vogais diferentes
Querem juntar as palavras
Hífen ali não se lavra
Nem para ser eloquente;
Forma o que se esperava
Do jeito que se falava
É feito um só elemento.

Aeroespacial
Coautor, coedição
Também autoinstrução
E agroindustrial;
Antiaéreo, irmão,
Autoescola em sua mão
Sem hífen é o normal.

Pode parecer maçante,
Mas é melhor acordar
Não precisa cochilar
Pois tem coisa interessante;
Como é aglutinar
Alguma vogal que há
Com umas certas consoantes.

Hífen vem com r e s,
Outras consoantes não
Como em autoproteção
Veja lá se não esquece
Aneprojeto, então,
Bem como coprodução
O acento não merece.

Parece consolação
Como um amigo disse
Quando se junta com vice
Aparece a exceção;
Não é nenhuma tolice,
Pois tem hífen, como disse,
Da capital ao sertão.

Vice-rei, vice-almirante
E por aí vai em frente
Mas a coisa é diferente
Quando a vogal vem antes
De elemento componente
Com r ou s iniciante
Duplica a letras da frente.

Antirrábico, ultrassom
Cosseno e contrarregra
Contrassenso, aí pega,
Antirracismo é bom
Antissocial é brega
Antirrugas, e a refrega
Minissaia e infrassom.

Para a mesma vogal
Deixar de se encontrar
O hífen tem de entrar
Na composição normal;
Veja contra-atacar
Como em semi-internar
Ficou assim bem legal.

Também com as consoantes
Acontece coisa igual
A mesma letra, e tal,
O hífen lá se garante;
Como em inter-racial
E inter-regional
Fica até bem elegante.

Diferentes consoantes
Se encontrando por ali
O hífen não vai surgir
Por mais que seja falante;
Hipermercado, já vi,
Superproteção senti,
E superinteressante.

Aqui não mostramos tudo
Pois era coisa demais
E nem mesmo os jornais
Mostraram tamanho estudo;
Quem quiser estudar mais
Pode ver os manuais
Que têm todo conteúdo.

Uma mensagem a vocês
Na hora de terminar
Precisam valorizar
Sendo assim o mais Cortez;
Língua mais bela não há
Aqui ou n’outro lugar
Que o nosso Português.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ

Em seus comícios, nas praças,
o casal cria alvoroços:
– Vai ele inflamando as massas!
– Vai ela inflamando os moços…
Rodolpho Abbud

Um Soneto de São Paulo/SP

Wilson de Oliveira Jasa
Abraço Amigo

Recebe o abraço amigo que ofereço,
também minhas palavras de amizade;
amigo de verdade não tem preço,
e quero para ti felicidade.

Nem sei se ser feliz assim mereço,
mas vivo com amor a realidade;
recebe meu abraço com apreço,
abraço que é sincero e de verdade.

Se a dor tu já sentiste nesta vida,
e no peito ainda tens uma ferida,
o abraço vai tirar o teu cansaço.

Não penses que na vida já morreu,
quem nasceu uma batalha já venceu,
renasça como a Fênix neste abraço.

Modinha

Jovelina

I
Jovelina é a mulher que eu tanto amava.
Ausentei-me, longe dela fui viver!…
Eu apenas disse a ela, somente:
– Hei de amar-te! Hei de amar-te até morrer!…

II
Quando eu saí, quando eu saí, ela não viu.
Ela não viu, porém sofreu tamanha dor!…
Eu olhava para o norte…
E dava adeus a Jovelina, meu amor!…

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). Jangada Brasil 

Um Soneto de Porto Alegre/RS

Mário Quintana (1906-1994)
Soneto

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
verde!… E que leves, lindas filigranas
desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
vai colorindo as horas quotidianas…

Jogos de luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando

Uma Trova de Santos/SP

A mulher merece apreço
dos mais finos madrigais.
E é porque não a conheço
que a adoro cada vez mais.
Martins Fontes (1884 – 1937)

Um Soneto de Boston/EUA

Edgar Allan Poe (1809-1849)
Annabel Lee

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

(tradução de Fernando Pessoa)

Cantigas Infantis 

Constância

É uma roda de crianças, com uma no meio, que é a Constância:

Constância, minha Constância,
Não sei o que de ti será;
São acasos da fortuna,
São voltas que o mundo dá.

No jardim das belas damas
Qual delas escolhereis;
Escolha a que tu quiseres,
A mais bela eu tirarei


Este último verso – A mais bela eu tirarei – é cantado pela criança que está no centro da roda. Escolhida a menina, esta passa a ser a Constância e vai para o meio da roda.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953).


Uma Quadra Popular

Todos nós temos defeitos
digo isto sem ar de riso
alguns são tortos do corpo
outros aleijados do juízo

Trova Capixaba (Origens)


No Domingo seguinte, 27 de Janeiro de 1889, o Jornal “A Província do Espírito Santo” de número 1857, trazia na primeira página com o mesmo título: “Musa Popular – Cancioneiro Espírito – Santense”, mais de dez Trovas sem a indicação da autoria, isto é, de quem as fez. A primeira delas é a seguinte:

Você diz que eu sou sua
eu sou sua, mas não sei.
O mundo dá muitas voltas
eu não sei de quem serei.


Nova publicação só ocorre no domingo 10 de Fevereiro de 1889. O Jornal é o de número 1868 e lá estão mais 11 Trovas. A primeira delas é a seguinte:

As estrelas miudinhas
fazem o céu muito composto
nunca pude, meu benzinho
falar contigo a meu gosto.


(trecho do livro de Clério José Borges. Origem Capixaba da Trova. Serra/ES. Outubro de 2007)

Um Poema de Salesópolis/SP

Lucas Candelária (Lucan)
O Presente

Eu queria lhe dar como presente
Numa bandeja de astros marchetada,
Umas ondas do mar irreverente
E uns albores febris da madrugada,

Um pouco da beleza do poente
E um pouco da riqueza mais sagrada
Do lindo céu azul e florescente
Onde a felicidade faz morada.

E na carruagem de ouro os anjos bons
Levassem a você, enquanto sons
Se ouvisse dos clarins da rica sorte.

Mas, só posso lhe dar, em fantasia,
Neste soneto, humilde poesia,
Ó doce filha da Região do Norte!


Fonte:
seleção por José Feldman
Alguns textos foram fornecidos pelos autores, outros obtidos em diversos sites e blogs da internet, outros em livros, jornais e revistas.

Agradecimentos por sua constante colaboração:
Nilto Manoel (Ribeirão Preto/SP), Ialmar Pio Schneider (Porto Alegre/RS), Eliana Ruiz Jimenez (Balneário Camboriú/SC), Pedro Du Bois (Itapema/SC), Wagner Marques Lopes (Pedro Leopoldo/MG), Vãnia M. S. Ennes (Curitiba/PR), Hermoclydes S. Franco (Rio de Janeiro/RJ), Nemésio Prata Crisóstomo (Fortaleza/CE), Clevane Pessoa (Belo Horizonte/MG)

Agradecimentos especiais por sua amizade e colaboração direta ou indiretamente:
Carolina Ramos (Santos/SP), Izo Goldman (São Paulo/SP), A. A. de Assis (Maringá/PR), Ademar Macedo (Santana do Matos/RN)

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Arquivado em devaneios poéticos

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 31)

Uma Trova de Piraquara/PR

É das cordas de um violino
e das teclas de um piano
que desce o esplendor divino,
embalando o ser humano.
Horácio Portella (1934-2012)

Uma Trova sobre a Paz de Fortaleza/Ceará

Na hora do quebra-pau 
o melhor procedimento 
para não sair por “mau” 
é calar por um momento!
Nemésio Prata Crisóstomo

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
Poema de sete faces

 Quando nasci, um anjo torto
 desses que vivem na sombra
 disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

 As casas espiam os homens
 que correm atrás de mulheres.
 A tarde talvez fosse azul,
 não houvesse tantos desejos.

 O bonde passa cheio de pernas:
 pernas brancas pretas amarelas.
 Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
 Porém meus olhos
 não perguntam nada.

 O homem atrás do bigode
 é sério, simples e forte.
 Quase não conversa.
 Tem poucos, raros amigos
 o homem atrás dos óculos e do bigode.

 Meu Deus, por que me abandonaste
 se sabias que eu não era Deus,
 se sabias que eu era fraco.

 Mundo mundo vasto mundo
 se eu me chamasse Raimundo
 seria uma rima, não seria uma solução.
 Mundo mundo vasto mundo,
 mais vasto é meu coração.

 Eu não devia te dizer
 mas essa lua
 mas esse conhaque
 botam a gente comovido como o diabo

Uma Trova de Almirante Tamandaré/PR

Meu amor sempre me espera
à tarde com um lanchinho,
mas eu fico na quimera
de tomarmos nosso vinho.
Harley Stocchero

Um Haicai do Paraná

Mudança
Delores Pires

Cheia de neblina,
a cidade, em verdade,
foge da rotina

Um Poema de Moji-Guaçu/SP

Olivaldo Junior 
Para Quem Duvida

Não, não consigo me desvencilhar da música. Não consigo me desenredar de estrela. Estrela é o que só há dentro, sentimento. Sentir é servir ao sonho de saber que sente. Sinto e me absinto, que só minto quando não sinto. Não consigo me desvencilhar da música. Música é o que tanto quis e… Queria apenas… Puxa! Querências, querelas, mas nenhum som que, de fato, soe. 

Rompe a noite, caro amigo.
Rompe a noite e deita aqui,
onde a cidade é o joio-trigo
de todo triste bem-te-ouvi.

Canta e conta uma história
de tudo que lhe foi triste,
que a verdade, ou memória,
é feita de um puro alpiste,
semente insólita da vitória.

Nunca se vence. Nessa vida,
nenhum jogo jamais vencido.
Vencer é para quem duvida
de que tudo é tão-só par-tido
entre os vivos.

Trova de Concurso 

1975 – I Concurso de Trovas da Barra do Piraí/RJ
Tema: Escola

Meu amigo não te iludas,
 na ESCOLA do bem-viver:
 – Quanto mais o mundo estudas,
 muito mais tens que aprender!…
 José Carlos S Freitas (S. Gonçalo RJ)

Uma Poesia de Santo António da Serra, Concelho de Machico/Portugal

Maria Eugénia Sesimbra
“Eu aprendi”
  
 Eu aprendi
 Que depois de um Inverno
 Há uma estação temperada
 E que depois de uma noite
 Há sempre nova alvorada…
 Aprendi
 Que a água do riacho
 Nem sempre é clara e transparente
 Aprendi que em cada fado
 Nem sempre o poema é dolente…
 Aprendi que o amor
 Não se compra nem se vende
 O amor se aprende…
 Eu aprendi
 Que os rios correm p´ró mar
 E seu percurso
 Ninguém o pode alterar…
 Eu aprendi
 Que a Primavera
 Traz uma nova aguarela
 Que são as pequenas coisas
 Que tornam a vida mais bela…
 Eu aprendi a não odiar
 Aprendi a perdoar e a amar…
 Eu aprendi
 Que até a flor colorida
 Por mais bela há-de secar
 Que existem feridas na vida
 Impossíveis de sarar…
 Aprendi com os meninos
 Grandes lições de saber
 Apesar de pequeninos
 Ensinam-nos a aprender.

Um Poetrix 

achados & perdidos
Alice Daniel (RS)
revirando minha vida
achei alma e coração
ambos feridos

Uma Trova de Caicó/RN

Vida: caminho que alcança
na esquina a sua metade;
de um lado, vive a esperança,
do outro, dorme a saudade. 
Mara Mellini Garcia

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

Por seres cega não chores,
 ó Justiça! fica em paz,
 pois, se vires, talvez cores,
 do que em teu nome se faz.
Vilmar Lassance [1915-2009] (Niterói/RJ)

Vilmar de Abreu Lassance nasceu em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1915. Segundo de oito filhos do casal Dr. Achilles Carreira Lassance e D. Magnólia de Abreu Lassance.

Em 1921, seu pai foi nomeado Promotor em Carmo, no RJ, para onde a família se mudou. Nessa cidade, permaneceu até os 12 anos, quando voltou a Niterói. Ingressou no Colégio Brasil, na terceira série primária, ali permanecendo até fazer o exame de admissão, ocupando, sempre, o 1° lugar no quadro de honra do Colégio. Em 1931, foi transferido para o Liceu de Humanidades Nilo Peçanha, fazendo parte da primeira turma formada naquela Instituição. Ingressou na Faculdade Fluminense de Direito, em 1934, cursando até o 3° ano, quando, por questões financeiras, trancou a matrícula, indo trabalhar no Moinho Inglês como Office-boy.

Somente em 1952 retornou à Faculdade, terminando o curso de Direito, em 1955, já casado com D. Ernestina Charlier Lassance, ocupando o cargo de Chefe de Serviço imobiliário do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários, onde ingressou em 1943, por concurso público. Trabalhou, antes do concurso, no Colégio Pedro II e no Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais.

Publicou três livros de poesias: 
“Caleidoscópio”(1967), 
“Invocação a Deus”(1970) e 
“Momentos”(1986).

Em 1965, fez uma exposição de poemas por ele ilustrados, onde figuram poesias de alguns de nossos maiores poetas, como Manoel Bandeira, Cassiano Ricardo, etc., que correu numerosos Municípios do Estado do Rio de Janeiro e no Museu Parreiras em Niterói. 

Em 1966, foi o 1° classificado no concurso de Trovas sobre Niterói, com a Trova:

“A Igreja de São Lourenço
 que o tempo jamais destrói,
 é o marco, cheirando a incenso,
 de onde nasceu Niterói.”

Esta trova foi gravada em bronze, e inaugurada, ao pé da Igreja de S. Lourenço dos Índios, pelo Prefeito Waldenir Bragança, onde permaneceu até a realização das obras no Santuário, no Governo de Jorge Roberto Silveira, quando foi retirada, tendo destino ignorado.

Ainda em 1966, foi 1° lugar no Concurso de poesias da primeira Semana de Icaraí, com o Soneto “Festival de Cores”.

Em 1967, tomou posse na Academia Fluminense de Letras, onde, ocupa a cadeira n° 13, patronímica de Casemiro de Abreu. Foi Vice Presidente desta Academia até 05/07/2009, data de seu falecimento.

Foi também pintor, tendo sido aluno do grande aquarelista Armando Leite. Em 1968, foi um dos fundadores do Lions Clube Niterói Fonseca, na qualidade de 1° Presidente.

Um Soneto de Lisboa/Portugal

Carlos Alberto da Costa Fragata
Ilusão
  
 O riacho correu, endiabrado,
 Com ânsias de ser mar, de ver o mundo…
 O fascínio de ser forte, profundo,
 Correr, com os golfinhos, lado a lado,
  
 Saír do vale d’onde é oriundo,
 Deixar de ser só rio, ser respeitado!…
 Por esse sonho louco enfeitiçado,
 Caíu num rio maior, mergulhou fundo!!
  
 Confuso, procurando seu caudal,
 Num turbilhão maior do que sonhara,
 Engolido p’lo rio principal,
  
 Apercebeu-se, então, de quanto errara!…
 Chorou saudades da terra natal,
 Que, em sonhos de grandeza, em vão deixara…

Um Haicai de Balneário Camboriú/SC

Mais um dia nasce.
E esse amor que me vigia
é a luz da manhã.
Eliana Ruiz Jimenez

Uma Trova de Serra Negra do Norte/RN

O amor e o sonho, querida,
 são graças que Deus nos deu…
 Quem não ama não tem vida,
 quem não sonha já morreu. 
José Lucas de Barros

Vinicius de Moraes, Com Amor

A Hora Íntima

Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim: – Nunca fez mal… 
Quem, bêbedo, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até a estrela da tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: – Rei morto, rei posto… 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: – Foi um doido amigo… 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspecção tamanha 
Que eu hei de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento 
Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda. 
Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará: – Não há de ser nada… 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada? 

Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?

Cantinho do Ialmar Pio Schneider

Soneto a São Francisco de Assis 
– Nascimento em 5 de julho de 1182 –

 Quero ao “O Pobre de Deus” render meu preito
 de gratidão por suas orações;
 quando pregava às aves, com efeito,
 ele atingia a todos os corações…

 “Padroeiro dos Trovadores”, aceito
 e venerado pelas multidões,
 seu nome São Francisco tem conceito,
 e nos consola em horas de aflições…

 Pregou a paz entre os irmãos e santo
 permanece p´ra sempre no seu canto
 de amor sublime a todas as criaturas…

 Hoje, no dia do seu nascimento,
 que sua bênção traga um sentimento
 de concórdia, de luz e de ternuras…

Uma Fábula

A Serpente e os Pássaros
Leonardo Da Vinci (Itália) 

Não havia mais tantos pássaros no bando quanto anteriormente. Cada dia um deles desaparecia misteriosamente, sem ninguém notar como. O líder do bando não conseguia encontrar explicação alguma.

Certa manhã, em vez de voar na frente, colocou-se em último lugar, a fim de poder vigiar seus companheiros.

Voaram, como sempre, em direção a uma floresta distante. Ao passarem por cima de um colina o líder notou que o ordenado bando separou-se, como se atingido por um forte vento. A maioria dos pássaros tornou a formar uma fila ordenada. Porém dois dos mais jovens prosseguiram numa rota diferente, como se atraídos por alguma força invisível.

E subitamente o líder viu a serpente. Era muito comprida e tinha diversos anéis.

Todas as manhãs ficava escondida na grama, à espera da passagem do bando. Então abria a boca e aspirava com força, sugando os pássaros para dentro de sua boca.

Tendo descoberto o perigo, o sábio líder, desse dia em diante, conduziu o bando por outra rota e a serpente nunca mais apanhou nenhum deles.

Um Soneto de São Paulo/SP

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852)
Último Soneto

 Já da noite o palor me cobre o rosto, 
 Nos lábios meus o alento desfalece, 
 Surda agonia o coração fenece, 
 E devora meu ser mortal desgosto!

 Do leito, embalde num macio encosto, 
 Tento o sono reter!… Já esmorece
 O corpo exausto que o repouso esquece…
 Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

 O adeus, o teu adeus, minha saudade, 
 Fazem que insano do viver me prive
 E tenha os olhos meus na escuridade.

 Dá-me a esperança com que o ser mantive!
 Volve ao amante os olhos, por piedade, 
 Olhos por quem viveu quem já não vive!

Músicas de capoeira

Dente de ouro

 Ladainha é a mensagem cantada pelo mestre a cada início de roda, sempre acompanhada ao toque Angola. Durante a ladainha não há jogo, e os dois capoeiristas ficam agachados ao pé dos berimbaus. Após o Grito de Angola (Iêê…) dá-se início ao jogo lento da capoeira. Esta versão de ladainha foi transcrita de Capoeira Cordão de Ouro – Mestre Suassuna e Dirceu (Continental, 1975, 997157-2).

 Ela tem dente de ouro
 Ela tem dente de ouro
 Ela tem dente de ouro
 Ora meu Deus, fui eu que mandei botar
 Vou rogar nela uma praga
 Pra esse dente se quebrá
 Ela de mim não se lembra
 Ora, meu Deus
 Nem dela vou lembrá
 Menina diga seu nome
 Que eu também já digo o meu
 Eu me chamo Chita Fina
 Daquele vestido seu
 Casa de palha é palhoça
 Se eu fosse o fogo, eu queimava
 Toda mulher ciumenta
 Se eu fosse a morte, eu matava
 Camaradinha
 Viva meu Deus
 Iêê, viva meu Deus, camará
 Eu sou mandingueiro
 Eu sou mandingueiro, camará
 Eu sou mandinga
 Eu sou mandinga, camará
 Iêê, jogue pra ali
 Iêê, jogue pra ali, camará
 Iêê, jogue pra cá
 Iêê, jogue pra cá, camará
 Iêê, dá volta ao mundo
 Iêê, dá volta ao mundo, camará
 Iêê, que o mundo deu
 Iêê, que o mundo deu, camará
 Iêê, que o mundo dá
 Iêê, que o mundo dá, camará

Ladainha transcrita de Capoeira Cordão de Ouro – Mestre Suassuna e Dirceu (Continental, 1975, 997157-2).

Uma Trova de Curitiba/PR

Jogo no burro, na cabra,
lá se vão os meus reais,
no meu bolso nada sobra
e a “grana” não volta mais.
Jorge de Oliveira

Uma Poesia de Blumenau/SC

Luiz Eduardo Caminha
Poesia

 Que seja ela,
 A poesia,
 Firme como a árvore,
 Embora estática,
 Finca raízes,
 Faz da seiva fruto
 Doce cantar.
  
 Todavia,
 Que seja ela,
 A poesia,
 Como a água,
 Que se move,
 Corredeira abaixo,
  
 Busca mar oceano,
 Onde singram velas,
 Horizontes sem fim!!!

Cantinho do Izo Goldman 

A Rima Pobre e a Rima Rica

Dentro dos diversos elementos que valorizam uma trova devemos destacar a “rima”.

“Rima é a igualdade ou semelhança de sons no fim de duas ou mais palavras, no extremo dos versos.

As rimas podem ser classificadas em :

POBRE – Quando formada por duas palavras da mesma categoria gramatical.

Da mais funda escuridão (subst.)
pergunta um cego: – “O que é luz?”  (subst.)
e alguém, por definição  (subst.)
lhe põe nas mãos uma Cruz!… (subst.)
VILMAR LASSANCE (Niterói/RJ)

RICA – Quando formada por duas palavras de categorias gramaticais diferentes.

Pode chover muitas horas  (subst.)
que eu nem ligo a temporais  (subst.)
Duas gotas quando choras  (verbo)
me preocupam muito mais… (advérbio)
ELTON CARVALHO (RJ/RJ)

continua… Rimas Raras e Rimas Preciosas

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Santana do Matos/RN

Vem um verso “de veneta”,
 falta tinta, que derrota!
 Pois tinta em minha caneta
 minha inspiração não bota!… 
Ademar Macedo

Acalantos

Acordei de Madrugada

 Acordei de madrugada
 Fui varrer a Conceição
 Encontrei Nossa Senhora
 Com seu raminho na mão

 Eu pedi-lhe o seu raminho
 Ela me disse que não
 Eu tornei a lhe pedir
 Ela me deu o seu cordão

 O cordão de sete voltas
 Que traspassa o coração
 Numa ponta tem São Pedro
 Noutra ponta São João

 Santo Antônio, São Francisco
 Desatai este cordão
 Que me deu Nossa Senhora
 Com a sua santa mão

Conforme registro em Música na escola primária (Distrito Federal, Ministério da Educação e Cultura, 1962)

Uma Poesia de Bocas del Toro/Panamá

Consuelo Tomas
Eu era uma casa

Eu era uma casa que quase se fechava
Antiga memória de beijos
Carícia no exílio
Mar calmo e já de volta

Então foste tu
abrindo minhas janelas
Colocando os passos da mirada
música da ternura em tua doce mão
espantando o pó do desengano
uma ou outra palavra e o abraço

ilusão imperfeita
um minuto de vida
oportunidade serena
para ensaiar o amor e suas rupturas

Agora tenho que esquecer-te e não sei como
Recuperar o mecanismo da calma, a música do mar
E sua cumplicidade imensa
O perfeito equilíbrio do que foi conquistado

De qualquer forma antes que a noite chegue
Aqui sempre haverá lugar para teu rosto
Um espaço vazio para que teus braços preencham ou a lembrança
Um silêncio estendido para que teu canto voe ao mais elevado
Aqui.

Poesia de Cordel de Assaré/CE

Patativa do Assaré
O Alco e a Gasolina

Neste mundo de pecado 
 Ninguém qué vivê sozinho 
 Quem viaja acompanhado 
 Incurta mais o caminho 
 Tudo que no mundo existe 
 Se achando sozinho e triste, 
 O alco vivia só
 Sem ninguém lhe querê bem 
 E a gasolina também 
 Vivia no caritó.

 O alco tanto sofreu
 Sua dura e triste sina
 Até que um dia ofreceu
 Seu amô a gasolina 
 Perguntou se ela queria
 Ele em sua companhia,
 Pois andava aperriado
 Era grande o padecê
 Não podia mais vivê
 Sem companhêra ao seu lado.

 Disse ela: dou-lhe a resposta 
 Mas fazendo uma proposta 
 Sei que de mim você gosta 
 E eu não lhe acho tão feio 
 Porém eu sou moça fina, 
 Sou a prenda gasolina 
 Bem recatada, granfina
 E gosto muito de asseio.

 Se você não é nogento 
 É grande o contentamento 
 E tarvez meu sofrimento 
 Da solidão eu arranque, 
 Nós não vamo nem casá 
 Do jeito que o mundo tá 
 Nós dois vamo é se juntá 
 E morá dentro do tanque.

 Se quisé me acompanhá 
 No tanque vamo morá 
 E os apusento zelá
 Com carinho e com amô, 
 Porém lhe dou um conseio 
 Não vá fazê papé feio 
 Quero limpeza e asseio 
 Dentro do carboradô.

 Se o meu amô armeja
 E andá comigo deseja, 
 É necessaro que seja 
 Limpo, zeladô e esperto, 
 Precisa se controlá,
 Veja que eu sou minerá 
 E você é vegetá,
 Será que isto vai dá certo?

 Disse o alco: meu benzinho 
 Eu não quero é tá sozinho 
 Pra gozá do teu carinho 
 Todo sacrifiço faço,
 Na nossa nova aliança 
 Disponha de confiança 
 Com a minha substança 
 Eu subo até no espaço.

 Quero é sê feliz agora 
 Morá onde você mora 
 Andá pelo mundo afora 
 E a minha vida gozá, 
 Entre nós não há desorde 
 Basta que você concorde 
 Nós se junta com as orde 
 Da senhora Petrobá.

 Tudo o alco prometia. 
 Queria por que queriá 
 Na Petrobá neste dia 
 Houve uma festa danada 
 A Petrobá ordenou
 Um ao outro se entregou 
 E o querozene chorou 
 Vendo a parenta amigada.

 Porém depois de algum dia 
 Começou grande narquia, 
 O que o alco prometia 
 Sem sentimento negou, 
 Fez uma ação traiçoêra 
 Com a sua companhêra 
 Fazendo a maió sugêra 
 Dentro do carboradô.

 Fez o alco uma ruína 
 Prometeu a gasolina
 Que seguia a diciprina 
 Mas não quis lhe obedecê 
 Como o cabra embriagado 
 Descuidado e deslêxado 
 Dêxava tudo melado, 
 Agúia, bóia e giclê.

 A gasolina falava
 E a ele aconceiava,
 Mas o alco não ligava,
 Inxia o saco a zomba
 Lhe respondendo, eu não ligo,
 Se achá que vivê comigo
 Tá sendo grande castigo
 Se quêxe da Petrobá.

 E assim ele permanece 
 No carro a tudo aborrece, 
 Se a gasolina padece
 O chofé também se atrasa 
 Hoje o alco veve assim 
 Do jeito do cabra ruim 
 Que bebe no butiquim
 E vai vomitá na casa.

Uma Trova de Fortaleza/Ceará

Todo indivíduo que é tolo
 mas que de sábio se arvora,
 é tal um pão sem miolo…
 só tem a casca por fora! 
Francisco José Pessoa de Andrade Reis

 Um Soneto de São Luis/MA

Raymundo Correia (1859 – 1911)
“As Pombas.”

 Vai-se a primeira pomba despertada…
 Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
 De pombas vão-se dos pombais, apenas
 Raia sanguínea e fresca a madrugada…

 E à tarde, quando a rígida nortada
 Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
 Ruflando as asas, sacudindo as penas,
 Voltam todas em bando e em revoada…

 Também dos corações onde abotoam,
 Os sonhos, um por um, céleres voam,
 Como voam as pombas dos pombais;

 No azul da adolescência as asas soltam,
 Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
 E eles aos corações não voltam mais…

Modinha 

Já Tens un Novo Amor
Autor Anônimo

I
 Já tens um novo amor eu bem sei
 Escusa-te, oh! mulher de confessar
 A vida é assim mesmo, pois eu vejo:
 Vêm lágrimas e pranto acabar } bis

Estribilho
 Adeus, querida amante, para sempre!…
 Que seja o novo amor tua ventura
 Eu fico eternamente soluçando
 Até que se me abra a sepultura } bis

 II
 Já está tudo acabado e morto até
 O que outrora vi nascer por entre beijos!
 E hoje só me restam tuas cartas
 Relíquias do amor e do desejo } bis

 III
 Já tens um novo amor eu bem sei
 Já não te lembras mais de teu amante
 Eu de ti não me esqueço um só momento
 Tu de mim não te lembras um só instante

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Um Soneto de Niterói/RJ

Vilmar Lassance (1915 – 2009)
Espera

Que horas são? Que importa?… já nao vem…
 Quase dez…já não vem, tenho certeza!
 Mas prometeu, que diabo, assim também…
 Maria! Ponha esse jantar na mesa!

Vou jantar! Não espero mais ninguém!
 Quem pensa, ela, que é?!…Só tem beleza…
 De inteligência mesmo…nem vintém…
 E, de dotes morais, é uma pobreza!

Tanta despesa e, agora…francamente!
 Também…não quero vê-la nunca mais!
 Nem que venha coberta de ouro em pó!

A campainha…Puxa! Que insistente!
 Já vou! Quem é?…Querida!… Como vais?
 Meu amor! Nunca mais me deixes só!

Uma Prosa Poética de Maputo/Moçambique

Amosse Mucavele 
O Viajante Sem Sono

Há gritos que o tempo e as suas garras não conseguem calar, muito menos apagar o fogo que branda no universo deste medo que se chama morte. Desordenado, num espaço descalço de construções verticais da felicidade que mantém a metáfora das asas coladas na estrada cicatrizada de buracos de sangue, empoeirada de lágrimas costuradas por uma agulha com linhas de tristezas no corpo do destino incerto. Onde o medo invade a vida privada dos passageiros ensardinhados no machibombo. A viagem continua profunda e longa, com vozes a apedrejar a chuva em pleno florescimento agreste do nevoeiro que desafia a consternação do chicote das abelhas ensurdecedoras. E para melhor içar esta viagem no limbo enxertado ao modus vivendi das árvores do bosque e da toponímia da estação que se segue. O último suspiro de alívio ampara a alegre dissertação do viajante arquitectado pelo náufrago do cansaço.

Uma Trova de Porto Alegre/RS

Em ternura plena e extrema,
 nossos sonhos se cruzaram.
 E a noite se fez poema…
 E os versos também se amaram! 
Flávio Roberto Stefani

Um Soneto de Los Angeles/EUA

Elisabeth dos Santos Columa
Ia Escrever um Poema

 Ia escrever um poema
Mas foi ele quem me escreveu.
Foi só olhar pela janela,
Pra colorir o papel.
E pintar a lua de verde, 
Pensando que era folhagem
E imitar o farfalhar dela
Com um sopro bem suave
Lá no canto do meu quarto…
Pra ninguém pensar que escrevo
Sem papel e sem pincel.
Foi o poema que me escreveu.
E que me fez assim desse jeito.

Cantigas Infantis 

Chora, Mané, Não Chora

Uma roda de crianças, com uma menina no centro. Uma das meninas esconde um limão e vai passando às outras enquanto a do meio vai procurá-lo de mão em mão. Cantam as da roda:

 Chora, Mané, não chora,
 Chora porque não vê
 O limão
 O limão anda na roda,
 Feito um bestaião
 O limão.

 Ele vai, ele vem
 Ele aqui não passou
 Chegou no caminho
 Conselhos tomou.

 Quando a menina do centro encontra o limão, vai para o meio a criança que o escondia. E o brinquedo continua.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). 

Uma Quadra Popular

Oh vento, tu és o vento,
 Oh vento, tu és traidor,
 Fui abrir a porta ao vento 
 pensando que era o amor

Trova Capixaba (Origens)

O Jornal “A Província do Espírito Santo” circulou pela primeira vez em 15 de março de 1882. Com o advento, isto é, com o surgimento da República, passou a se chamar “Diário do Espírito Santo” e depois “O Estado do Espírito Santo.”

 O Jornal de 20 de Janeiro de 1889 era um jornal de Domingo. Tinha o número 1.851 e trazia na primeira página artigos literários. Transcrevo as três primeiras Trovas publicadas. São apresentadas como populares, isto é oriunda do povo, não havendo indicação de quem fez as Trovas:

 Os raios do céu me partam
 as estrelas me façam em pó;
 a luz do dia me falte
 se eu não amo a ti só.

 Quem quer bem às escondidas
 grandes tormentos padece,
 passando por ser bemzinho
 fazendo que não o conhece.

 Ainda depois de morta,
 debaixo do frio chão,
 acharás teu nome escrito
 no meu terno coração.

(trecho do livro de Clério José Borges. Origem Capixaba da Trova. Serra/ES. Outubro de 2007)

Uma Poesia de Belo Horizonte/MG

Laércio José Pereira
Autorretrato

Minha mitologia é de almanaque,
Às vezes misturo Zeus e Mandrake,
E Venus é só a estrela que passa.

Meu fígado de acorrentado
É repetidamente picado
Pelo álcool onde o meu pai viveu.

O fogo, eu não roubei
Vive fátuo, bem fundo,
Enterrado no meu estado de espírito.
Meu corpo, eu o tenho arqueado
Pelas colunas de sustentar mundos.

A minha mitologia é suburbana,
A minha escrita pobre profana templos
E está mais próxima dos submundos
Do que das messes do Olimpo.
Quem sou?

Falso poeta, Quasimodo por fora,
Por dentro, um Obará sem as abóboras.
De onde venho? De um bairro industrial.
Para onde? Para morrer completamente no final.

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 30)

Uma Trova do Distrito Federal

Atente bem e me escute:
O homem simples, só fala.
O tolo fala e discute,
Enquanto o sábio se cala.
Miguel J. Malty – DF

Uma Trova sobre a Paz do Rio de Janeiro

A paz é como uma rosa,
A perfumar os caminhos,
Tão bonita e tão bondosa
Mas,  espalhando os espinhos.
Henny Kropf – RJ

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
A falta que ama

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

Uma Trova de Minas Gerais

Sorria, meu bem sorria!
A natureza te deu
Os encantos deste dia
Pra seres feliz como eu.
Murilo Teixeira

Trova de Concurso 

2012 – III Jogos Florais de Caxias do Sul
Tema: Uva

Tende a viver de amarguras,
como a raposa da lenda
quem acha as uvas maduras,
mas não colhe esta oferenda.
Mário Augusto J. Zamataro (Curitiba/PR)

Um Soneto de Palmital de Saquarema/RJ

Alberto de Oliveira
A Vingança da Porta

 Era um hábito antigo que ele tinha:
 Entrar dando com a porta nos batentes.
 – Que te fez essa porta? a mulher vinha
 E interrogava. Ele cerrando os dentes:

 – Nada! traze o jantar! – Mas à noitinha
 Calmava-se; feliz, os inocentes
 Olhos revê da filha, a cabecinha
 Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

 Urna vez, ao tornar à casa, quando
 Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
 Entra mais devagar… – Pára, hesitando…

 Nisto nos gonzos range a velha porta,
 Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala,
 A mulher como doida e a filha morta.

Um Poetrix 

Arte
Dalton Luiz Gandin (São José dos Pinhais/PR)
Meu papel foi natura.
Agora,
eu imprimo cultura.

Uma Trova do Mato Grosso do Sul

Teu olhar, oh doce prece,
Escrita num rosto lindo,
É tão puro! Até parece
Um anjo meigo sorrindo.
Benedito C.G. Lima

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

Moça insensata e vaidosa,  
Que te exibes na avenida,  
Que importa a veste custosa,  
Se ficas quase despida?
Vital Bizarria [1875-1947] (Arleneiroz/CE)

Nasceu na Fazenda Lagoa de Dentro, município de Arneiroz, no sertão dos Inhamuns, Ceará, em 28 de abril de 1875. 

Além de suas atividades rurais, foi agente dos Correios e inspetor escolar, em Quixadá-CE, foi suplente de Juiz de Direito. Em Fortaleza-CE, foi funcionário municipal, aposentando-se em 1943. 

Homem simples, religioso, cuja religiosidade beirava quase à Inocência. Seus versos falam melhor do que qualquer panegírico. 

É um dos patronos da Academia Tauaense de Letras (Tauá/CE).

Esses dados biográficos foram colhidos da 2ª edição de seu único livro,  pessoal,  íntimo (O título por si já diz “COMIGO”),  editado, pela 1ª vez, em 1935, cujo prefácio, intitulado como “Justificativa”, foi escrito por Antônio Sales (02.junho.1935). Esse singelo livro foi reeditado, em 1997, pelos familiares do Sr. Vital  Bizarria, na passagem do cinqüentenário de sua morte (1947).

Falecimento:02 de setembro de 1947.

Um Soneto de Santos/SP

Carolina Ramos
Seca

O sol delira! Abrasa! A terra, exangue,
abre os lábios sedentos! Sem valia,
os rios secam, veios nus, sem sangue,
sugados pelo solo em agonia!

Pele crestada, passou frouxo e langue,
o retirante segue… tem, por guia,
uma esperança de que o céu se zangue,
lançando sobre a terra a chuva fria!

Chovesse, voltaria ao mesmo beco,
que enfrentar a caatinga é seu destino!
Mas, a chuva não vem… O pranto é seco!

Reza!… O sol, em delírio, mais abrasa!
O céu rubro gargalha! E o nordestino
parte… deixando a própria alma em casa!

Um Haikai do Espírito Santo

Arabescos líquidos
Na vidraça do meu quarto –
Chuva prolongada.
Humberto Del Maestro – ES

Uma Trova de São Paulo

E constrói-se o arranha-céu…
No topo, o pobre operário.
Na copa do seu chapéu, 
O miserável salário.
Arlindo Nóbrega – SP

Vinicius de Moraes, Com Amor

A Floresta

Sobre o dorso possante do cavalo 
Banhado pela luz do sol nascente 
Eu penetrei o atalho, na floresta. 
Tudo era força ali, tudo era força 
Força ascencional da natureza. 
A luz que em torvelinhos despenhava 
Sobre a coma verdíssima da mata 
Pelos claros das árvores entrava 
E desenhava a terra de arabescos. 
Na vertigem suprema do galope 
Pelos ouvidos, doces, perpassavam 
Cantos selvagens de aves indolentes. 
A branda aragem que do azul descia 
E nas folhas das árvores brincava 
Trazia à boca um gosto saboroso 
De folha verde e nova e seiva bruta. 
Vertiginosamente eu caminhava 
Bêbado da frescura da montanha 
Bebendo o ar estranguladamente. 
Às vezes, a mão firme apaziguava 
O impulso ardente do animal fogoso 
Para ouvir de mais perto o canto suave 
De alguma ave de plumagem rica 
E após, soltando as rédeas ao cavalo 
Ia de novo loucamente à brisa. 

De repente parei. Longe, bem longe 
Um ruído indeciso, informe ainda 
Vinha às vezes, trazido pelo vento. 
Apenas branda aragem perpassava 
E pelo azul do céu, nenhuma nuvem. 
Que seria? De novo caminhando 
Mais distinto escutava o estranho ruído 
Como que o ronco baixo e surdo e cavo 
De um gigante de lenda adormecido. 

A cachoeira, Senhor! A cachoeira! 
Era ela. Meu Deus, que majestade! 
Desmontei. Sobre a borda da montanha 
Vendo a água lançando-se em peitadas 
Em contorsões, em doidos torvelinhos 
Sobre o rio dormente e marulhoso 
Eu tive a estranha sensação da morte. 

Em cima o rio vinha espumejante 
Apertando entre as pedras pardacentas 
Rápido e se sacudindo em branca espuma. 
De repente era o vácuo embaixo, o nada 
A queda célere e desamparada 
A vertigem do abismo, o horror supremo 
A água caindo, apavorada, cega 
Como querendo se agarrar nas pedras 
Mas caindo, caindo, na voragem 
E toda se estilhaçando, espumecente. 

Lá fiquei longo tempo sobre a rocha 
Ouvindo o grande grito que subia 
Cheio, eu também, de gritos interiores. 
Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo 
Sufocando no peito o sofrimento 
Caudal de dor atroz e inapagável 
Bem mais forte e selvagem do que a outra. 
Feita ela toda de esperança 
De não poder sentir a natureza 
Com o espírito em Deus que a fez tão bela. 

Quando voltei, já vinha o sol mais alto 
E alta vinha a tristeza no meu peito. 
Eu caminhei. De novo veio o vento 
Os pássaros cantaram novamente 
De novo o aroma rude da floresta 
De novo o vento. Mas eu nada via. 
Eu era um ser qualquer que ali andava 
Que vinha para o ponto de onde viera 
Sem sentido, sem luz, sem esperança 
Sobre o dorso cansado de um cavalo.

Cantinho do Ialmar Pio Schneider

Professor

Lembremos a pessoa de valor,
 neste dia, com muita seriedade,
 que deu à nossa vida qualidade,
 nosso ilustre e abnegado professor…

 Vivemos já desde a mais tenra idade,
 obtendo ensinamentos com amor
 de nossos pais e do batalhador
 mestre-escola, com rara habilidade.

 Depois, ao longo de nossos caminhos,
 vamos seguir quase sempre sozinhos,
 mas com o que ficou em nossa mente.

 Aquelas lições que recebemos,
 eu bem sei que jamais esqueceremos,
 que o ensino é um legado permanente !

Uma Fábula em Versos 

A Raposa e a Cegonha
Jean La Fontaine (França) 

Quis a raposa matreira
Que excede a todas na ronha.
Lá por piques de outro tempo,
Pregar um ópio à cegonha.

Topando-a, lhe diz: “Comadre,
Tenho amanhã belas migas,
E eu nada como com gosto
Sem convidar as amigas.

De lá ir jantar comigo
Quero que tenha a bondade:
Vá em jejum porque pode
Tirar-lhe o almoço a vontade”.

Agradeceu-lhe a cegonha
Uma oferenda tão singela,
E contava que teria
Uma grande fartadela.

Ao sítio aprazado foi.
Era meio-dia em ponto.
E com efeito a raposa
Já tinha o banquete pronto.

Espalhadas em um lajedo
Pôs as migas do jantar
E à cegonha diz: “Comadre,
Aqui as tenho a esfriar.

Creio que são muito boas, —
Sansfaçon, — vamos a elas”.
Eis logo chupa metade
Nas primeiras lambidelas.

No longo bico a cegonha
Nada podia apanhar;
E a raposa em ar de mofa,
Mamou inteiro o jantar.

Ficando morta de fome,
Não disse nada a cegonha;
Mas logo jurou vingar-se
Daquela pouca vergonha.

A dar-me o gosto amanhã
D’ir também jantar comigo”.

A raposa lambisqueira
Na cegonha se fiou,
E ao convite, às horas dadas,
No outro dia não faltou.

Uma botija com papas
Pronta a cegonha lhe tinha;
E diz-lhe: “Sem cerimônia,
A elas, comadre minha”.

Já pelo estreito gargalo
Comendo, o bico metia;
E a esperta só lambiscava
O que à cegonha caía.

Ela, depois de estar farta,
Lhe disse: “Prezada amiga,
Demos mil graças ao céu
Por nos encher a barriga”.

A raposa conhecendo
A vingança da cegonha,
Safou-se de orelha baixa.
Com mais fome que vergonha.

Enganadores nocivos,
Aprendei esta lição.
Tramas com tramas se pagam.
Que é pena de Talião.

Se quase sempre os que iludem
Sem que os iludam não passam.
Nunca ninguém faça aos outros
O que não quer que lhe façam.

Uma Poesia do Porto/Portugal

Alberto de Serpa (1906 – 1992)
Recreio

Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
as crianças confraternizam-se com a alegria das aves….

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
— Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas…

As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
À vida que vai chegando despercebida e breve…

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes…

Uma Trova do Pará

Quando jovem e espigado,
Fui das mulheres querido.
Hoje, velho e alquebrado,
Sou por elas preterido.
Sergio Pandolfo

Um Soneto de Arneiroz (CE)

Vital Bizarria
O Avarento
                  
 Vede aquele velhinho esfarrapado  
Que, a custo, se aproxima do avarento  
E, dando à débil voz um triste aceno,  
De fome a se estorcer, pede um bocado.  

Mesmo assim, não inspira o seu estado,  
De piedade o mais leve sentimento;  
Nem lhe presta atenção quem vive atento  
Somente no tesouro acumulado.  

Velhinho, não maldigas tua sina  
Embora que ela seja tão ferina,  
Vivas, embora, tão faminto e nu…  

Tem compaixão do vil que te despreza:  
Volve os olhos aos céus, por ele reza,  
Pois é mais miserável do que tu.

Cantinho do Izo Goldman 

Trova Humorística – parte 4

Tendo o Brasil em tres anos seguidos, tres presidentes cujos nomes principiavam com J: Janio, Jango e Juscelino, surgiu uma quadra, de autor anonimo, que correu o Brasil todo:

Em tres anos, quase nada,
os tres jotas: K, Q, G,
fizeram da pátria amada
esta coisa que se vê!!!

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Santos/SP

Em meus vagares tristonhos,
um repouso, em vão, procuro,
e a caravela dos sonhos
não acha um porto seguro!…
Carolina Ramos

Uma Poesia de Havana/ Cuba 

Eliseo Diego (1920 – 1994)
Vou Nomear as Coisas

Vou nomear as coisas, os sonoros 
cimos que em mim vêem o festejar do vento, 
os portais profundos, os biombos 
cerrados à sombra e ao silêncio. 

E o interior sagrado, a penumbra 
que sulcam os ofícios empoeirados, 
a madeira do nome, a noturna 
madeira de meu corpo quando durmo. 

E a pobreza do lugar, e o pó 
em que apagaram as pisadas de meu pai, 
lugares de pedra decidida e limpa, 
despojados de sombra, sempre iguais. 

Sem esquecer a compaixão do fogo 
na intempérie do solar distante 
nem o sacramento prazeiroso da chuva 
no humilde cálice de meu parque. 
Nem seu estupendo muro, meio-dia, 
terso e anil e interminável. 

Com o olhar imóvel do verão 
meu carinho saberá das veredas 
por onde fogem os ávidos domingos 
e regressam, já na segunda, cabisbaixos. 

E nomearei as coisas tão devagar 
que quando perca o Paraíso de minha rua 
e meus esquecimentos façam dela sonho, 
possa chamá-las de repente com a aurora.

Poesia de Cordel de Santos/SP

Tere Penhabe
Salvem Minha Vizinha

Eu ando preocupada
com uma antiga vizinha
ela é minha xodozinha
mas não estou achando jeito
de encontrar o tal defeito
dessa história encardida
que levou minha querida
nessa enorme depressão
sem comer arroz feijão
nem qualquer outra comida.

Ela é madrugadora
mal o sol vem se chegando
ela já vai levantando
nem faz hora no banheiro
como era costumeiro
para a palavra-cruzada
que gostava da danada
mas abandonou o vício
diz que tem muito serviço
mas não tem serviço é nada.

Os dedos coçam de fato
pra ligar o tal do micro
esse apetrecho bandido
que tá levando a comadre
para onde só Deus sabe
e eu fico aqui a assistir
vendo a pobre se esvair
no meio dessas mensagens
que vem de outras paragens
que lhe faz chorar e rir.

Café da manhã nem toma
gostava de ovo com bacon
e os fazia de tal jeito
que só de ver me danava
sua cozinha procurava
um taquinho eu queria
e ela sempre oferecia
eita trem bom e gostoso
valia por um almoço
o cardápio de abadia.

Mas hoje a pobre coitada
tá entravada nesse vício
na frente do estrupício
nem se lembra de comer
eu e ela só a receber
parecendo mãe-de-santo
e uma coisa eu garanto
isso não lhe dá camisa
não é do que ela precisa
mas falar já não adianta.

Nem namorar ela quer mais
se eu convido pra sair
no baile querendo ir
ela inventa uma desculpa
diz que vai é sentir culpa
se abandonar seus pupilos
com seus xororós e grilos
despenca a escrever poema
que uma moça lhe dá o tema
pra depois enfeitar o bicho.

Eu estou desconsolada
vendo chegar o fim da linha
da minha pobre vizinha
que não merecia isso
que era boa de serviço
boa de cama e cozinha
só eu sei da amadinha
quanto angu já aprontou
com os paqueras que arrumou
antes dessa anomalia.

Se alguém souber de jeito
pra sanar essa quesila
me enviem a apostila
que a comadre não merece
rodeada de tanta prece
acabar nesse entrevero
nessa vida sem tempero
morrer à míngua e de fome
esquecida do que é homem
ela mora aqui no espelho.

Uma Trova de São Paulo

Nós somos duas trapaças
usando a mesma altivez:
– eu finjo que tu não passas…
– tu finges que não me vês…
Izo Goldman

 Modinha 

Frio Manto
Autor Anônimo

I
 Frio manto de estrelas bordado, 
 Vai a noite arrastando no céu. 
 Cai orvalho nas asas da brisa,
 Que em gelado entre flores morreu… } bis

 II
 Na mansão de finados vagava, 
 Triste bardo com a lira na mão… 
 Acha a campa que busca e, sentado,
 Desferiu esta triste canção: } bis

 I
 “Tantos raios de luz há no céu
 E também d’esperança, eu achei
 Os ciprestes e os goivos da campa
 E os restos de um bem que adorei.
 Entretanto, venho aqui debalde,
 Alta noite seu nome invocar;
 Chamam isso loucura na terra,
 E eu chamo constante adorar…

 II
 Uns têm prantos chorados nos olhos,
 Dentro d’alma chorado é o meu,
 E ninguém pode vir enxugá-lo,
 Pois quem sabe só dele sou eu.
 Lá se foi a visão que era nuvem,
 Só não vai este meu padecer!
 Justo céu, se meu mal não me abrandas,
 Vezes mil, eu prefiro morrer!

 III
 Com roupagem de neve abafado
 Desce um anjo da etérea mansão;
 – Se foi, ela, foi Deus que mandou,
 Me tirar dessa negra aflição!…
 Quando o sol de manhã descortina
 Triste cena que faz compungir:
 Um cadáver com a lira na mão
 Era o bardo, pr’a sempre a dormir…”

Nota: Foi assim mesmo. A exacerbação de sentimento romântico deveria necessariamente levar aos excessos dramáticos de que são provas esses dramalhões.

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Uma Trova de Minas Gerais

Tudo ele faz com amor
e traz o céu na bagagem;
na verdade, o trovador
de Deus na Terra é a imagem
Luiz Carlos Abritta

Um Soneto da Cidade da Guatemala/Guatemala

Miguel Angel Astúrias (1899 – 1974)
Inverno 

Em súplica de vento, sem cautela,
fui atrás de ti, mulher ; em minha presença
transportad por luz azul de estrela
de sentido em sentido até a ausência.

Atravessaste, além, os egoismos
que em silêncio de lágrimas desvelo,
após abismos justapondo abismos,
em minha imensa solidão de gelo.

Como uma aranha grande a chuva tece
com água e vento suas teias móveis.
Que serão, amanhã, quando ela cesse ?
Superfícies de vida sem quebranto,
como serão meus olhos, quando imóveis
tenham chorado já todo o meu pranto ?

Cantigas Infantis 

Castanha Ligeira

É uma roda de meninas, com uma no meio. 
Cantam todas, enquanto passam de mão em mão, sem que veja a do centro, uma castanha:

 Castanha ligeira
 Que vem do Pará
 No meio da roda
 Ninguém te achará
 Roda, castanha
 E torna a rodar
 No meio da roda
 Ninguém te achará

 Enquanto cantam, a menina do meio vai procurando a castanha nas mãos das amiguinhas, até achá-la. 
A que for encontrada com a castanha, passa então a ficar sozinha na roda, na vez seguinte.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). 

Uma Quadra Popular

Sete e sete são catorze
 Com mais sete, vinte e um
 Tenho sete namorados
 E não gosto de nenhum

Fonte:
seleção por José Feldman
A maioria das trovas foram obtidas em Letras Taquarenses n.40 jul ago 2012. gentilmente cedido por Antonio Cabral.

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 29)

Uma Trova de Salvador/BA
Entre a mulher e a cachaça
não vejo comparação,
quando a primeira é desgraça,
a segunda é solução
Hildemar de Araújo Costa

Uma Trova sobre a Trova de Nilópolis/RJ
Nestas trovas bem singelas
eu quero dizer-te ainda,
que dentre todas as belas,
tu és, ó Bela, a mais linda.
Raimundo Araújo
Eternamente Drummond
Carlos Drummond de Andrade (MG)
A Falta de Érico
Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de Sexta-feira
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda – como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente,
falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Para curar nossa dor
não existe terapia
que não seja obra de amor
na luta de cada dia.
Therezinha Rebelo de Mendonça Radetic

Trova de Concurso

2003
– XXXIII Jogos Florais de Niterói
Tema: Razão

Acalma-te, coração,

não vivas de sobressalto
pois nem sempre tem razão
quem sabe falar mais alto!
Eugênia Maria Rodrigues (Rio Novo/MG)
Um Soneto de Petrópolis/RJ
Gilson Faustino Maia
Final de Serenata
Guarda, meu coração, o teu segredo.
Para que revelá-lo se termina
a canção que sufoca, que alucina,
que me lançou, pra sempre, no degredo?
Ao novo seresteiro, oculte o enredo.
Não mostre essa verdade cristalina:
é a lei da paixão quem determina
o qual será feliz, contado aos dedos.
Eu cansei de cantar pra minha amada.
Eu cansei de penar na caminhada…
A canção foi cruel, incrível, ingrata.
A riqueza do mundo é um problema,
a vida, uma canção, o amor o tema,
o tempo em que vivemos, serenata.

Um Poetrix

Primavera
Regina Romeiro (São Sebastião/SP)
Primavera ri
Bocas em florescentes
Dizeres por ti
Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Paz, antônimo de guerra
suplanta sempre o terror,
filtra o sórdido da terra,
brotando a essencia do amor.
Agostinho Conceição Rodrigues Filho

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Quanta prodigalidade!…
Em poucos meses, querida,
gastamos felicidade
que dava pra toda vida!
J. G. de Araújo Jorge [1914-1987] (Vila de Tarauacá/AC)
José Guilherme de Araújo Jorge nasceu em 20 de maio de 1914, na Vila de Tarauacá, Estado do Acre. Filho de Salvador Augusto de Araújo Jorge e Zilda Tinoco de Araujo Jorge.
Descendente, pelo lado paterno de tradicional família alagoana, os Araujo Jorge. Sobrinho do embaixador Artur Guimarães de Araujo Jorge, ( autor de inúmeras obras sobre Filosofia, História  e Diplomacia), sobrinho neto de Adriano  de Araujo Jorge , médico, escritor, grande orador, que foi Presidente perpétuo da Academia Amazonense de Letras,  e do Prof. Afrânio de Araujo Jorge, fundador do Ginásio Alagoano, de Maceió.
Descende pelo lado materno dos Tinocos, dos Caldas e dos Gonçalves,  de Campos, Macaé, e S. Fidélis,  Estado do Rio.
Passou sua infância no Acre, em Rio Branco, onde fez o curso primário no Grupo Escolar, 7 de Setembro. No Rio , realizou o curso secundário nos Colégios Anglo-Americano e Pedro II Colaborou desde menino na imprensa estudantis. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II, no velho casarão de S.Cristovão, consumido pelas chamas muitos anos depois. Data dessa época, ainda ginasiano, sua primeira colaboração  na imprensa adulta: em 1931 viu publicado o seu poema “Ri Palhaço, Ri” no  “Correio da Manhã”, depois transcrito no “Almanaque Bertand” de 1932.
Entretanto, este como outros trabalhos desse tempo, não foram incluídos em seus livros. Colaborou também no jornal ” A Nação” ; nas revistas: ” Carioca”, “Vamos Ler”, etc. Formou-se  pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.
Em 1932, No Externato Colégio Pedro II, em memorável certame, foi escolhido o ” Príncipe dos Poetas”, sendo saudado na festa por Coelho Neto, “Príncipe dos prosadores brasileiros” recebendo das mãos da poetisa Ana Amélia, Presidente da Casa do Estudante, como prêmio e homenagem, um livro ofertado por  Adalberto Oliveira, então ” Príncipe da Poesia Brasileira”.
Na Faculdade de Direito foi o fundador e o 1º Presidente da Academia de Letras, que teve como patrono Afrânio Peixoto, então professor de Medicina Legal.
Foi locutor e redator de programas radiofônicos, atuando nas Rádios Nacional, Cruzeiro do Sul, Tupi e Eldorado. Em 1965, era professor  de História e Literatura, do Colégio  Pedro II.
Orador oficial de entidades universitárias, (do CACO  da União Democrática Estudantil, precursora da UNE, da Associação Universitária, etc), ainda estudante, venceu concursos de oratória. Em Coimbra recebeu no título de ” estudante honorário” e fez Curso de Extensão Cultural na Universidade de Berlim.  
Com irrefreável vocação política, foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal em 1970 pela Guanabara, reelegendo-se já para o  seu terceiro mandato em 1978 .
Ocupou a vice-liderança do MDB e a presidência da Comissão de Comunicação na  Câmara dos Deputados.
Politicamente participou sempre das lutas anti-fascistas, como democrata e socialista. Lutou, ainda estudante, contra o “Estado Novo”. Foi preso e perseguido várias vezes durante esse período . Deixou de ser orador de sua turma por estar detido na Vila Militar, sob as ordens do Gal. Newton Cavalcanti, durante todo “estado de guerra” de 1937.   
Foi conhecido como o Poeta  do Povo e da Mocidade, pela sua mensagem social e política e por sua obra lírica, impregnada de romantismo moderno, mas às vezes, dramático.
Foi um dos poetas mais lidos, e talvez por isto mesmo, o mais combatido do Brasil.
Faleceu em 27 de Janeiro de 1987.
Um Soneto de Recife/PE
Ariano Suassuna
Lápide
 (com tema de Virgílio, o Latino, e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo)
 Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
 nas pedras do meu Pasto incendiado:
 fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
 com a Espora de ouro, até matá-lo.
 Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
 numa Sela de couro esverdeado,
 que arraste pelo Chão pedroso e pardo
 chapas de Cobre, sinos e badalos.
 Assim, com o Raio e o cobre percutido,
 tropel de cascos, sangue do Castanho,
 talvez se finja o som de Ouro fundido
 que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
 tentei forjar, no meu Cantar estranho,
 à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!
Um Haikai de Camboriú/SC

Orgulhoso o sol
ostenta a pinta no rosto.
Passeio de vênus.
Eliana Ruiz Jimenez

Uma Trova de Salvador/BA

Da vida eu nunca me queixo
nem mesmo da despedida.
Tudo de valor eu deixo
pois nada eu levo da vida.
Isaías Moreira Cavalcante
Vinicius de Moraes, Com Amor
A Esposa
 Às vezes, nessas noites frias e enevoadas
Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
Essa estranha visão de mulher calma
Surgindo do vazio dos meus olhos parados
Vem espiar minha imobilidade.
E ela fica horas longas, horas silenciosas
Somente movendo os olhos serenos no meu rosto
Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.
Nada diz, nada pensa, apenas olha – e o seu olhar é como a luz
De uma estrela velada pela bruma.
Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem
Mas que não vencem o olhar perdido longe.
Nada pensa. Virá e agasalhará minhas mãos frias
Se sentir frias suas mãos.
Quando a porta ranger e a cabecinha de criança
Aparecer curiosa e a voz clara chamá-la num reclamo
Ela apontará para mim pondo o dedo nos lábios
Sorrindo de um sorriso misterioso
E se irá num passo leve
Após o beijo leve e roçagante…
Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente…
Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.
Cantinho do Ialmar Pio Schneider
Para a Eleita

Quando nasci, chorei… mas vim ao mundo
para depois cantar o nosso amor…
São cânticos que arranco bem ao fundo
deste meu coração de sonhador.
Escuta-os, pois… expressam todo o ardor
da minha vida e tanto me aprofundo
neste mister – romântico labor
que não posso esquecer nenhum segundo…
Se em toda parte a sombra me acompanha,
tu vais comigo, sem saber talvez…
És qual a flor no topo da montanha
que procuro galgar – pobre menino
sofrendo sem chorar e como vês
te dedicando todo o seu destino.
Uma Fábula em Versos

O Sol e as Rãs
Jean La Fontaine (França)

Nas bodas de um tirano, o povo em regozijo
Afogava em prazer suas apreensões;
Somente Esopo achava haver pouco juízo
Nos que assim se entregavam a tantas expansões
O sol pensou, diz ele, outrora em se casar,
E a nova foram dar
Às filhas das lagoas;
E tanto isso aterrou-as
Que, em uníssono coro, se puseram a lamentar
“O que será de nós se filhos chega a ter?
Se havendo um sol somente é duro de sofrer
Com uma meia dúzia o mar tem de secar
E os habitantes seus serão sacrificados
Adeus, juncos e banhados!
“Nossa raça destemida
Ver-se-á só reduzida
A triste água do Estige
Pra tão fraco animal,
Essas rãs, a meu ver, pensavam menos mal.
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

Yolanda Marazzo
Barcos
“Nha terra é quel piquinino
 É São Vicente é que di meu”
Nas praias
 Da minha infância
 Morrem barcos
 Desmantelados.
Fantasmas
 De pescadores
 Contrabandistas
 Desaparecidos
 Em qualquer vaga
 Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma
 Tenho dez anos
 Brinco na areia
 Empunho os remos…
 Canto e sorrio…
 A embarcação
 Para o mar!
 É para o mar!…
E o pobre barco
 O barco triste
 Cansado e frio
 Não se moveu…
Uma Trova de Piraquara/PR
Toda fonte cristalina
que rumoreja em pedreira,
é qual soluço em surdina
de saudade verdadeira.
Lygia T. Fumagalli Ambrogi

Um Soneto de Vila de Tarauacá/Acre

J. G. de Araújo Jorge
Dedicatória
Este meu livro é todo teu, repara
 que ele traduz em sua humilde glória
 verso por verso, a estranha trajetória
 desta nossa afeição ciumenta e rara!
 Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
 tanta cousa afinal na nossa história…
 E este verso – é a feliz dedicatória…
 onde a minha alma inteira se declara…
 Abre este livro… E encontrarás então
 teu coração, de amor, rindo e cantando,
 cantando e rindo com o meu coração…
 E se o leres mais alto, quando a sós,
 é como se estivesses me escutando
 falar de amor com a tua própria voz!

Cantinho do Izo Goldman
Trova Humorística – parte 3
B) CRÍTICA, SÁTIRA, IRREVERÊNCIA
Glosando a permanência quase eterna de Getúlio Vargas no poder, Afonso Duarte Ribeiro fez esta quadra:
Velho parteiro descansa
devido a força que faz…
– “Como é o nome da criança?”
– “Getúlio.” – “Então não sai mais!!!”
(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Curitiba/PR
Há trovas que o vento leva:
outras, o fogo desfaz…
Mas, as minhas, sem reserva
são trovas que o vento traz.
Maria Nicolas
Uma Poesia de Havana/ Cuba

Daniel Díaz Mantilla
Quanto Te Afastas de Ti Mesmo
 Temo a multidão que te confunde,
 a palavra involuntária que te ata ao erro,
 a inércia que te guia para o barranco,
 o insensato, o clamor iracundo que te percorre
 quando te afastas de ti mesmo.

Poesia de Cordel de Esperança/PB

Rau Ferreira
A Lenda Caricé

A lenda é Caricé
 Esperança é a região
 Dos Índios Banaboiés
 Cujo drama conhecerão.
 Dentre os moços
 Do serviço de demarcação
 Havia um que costumava cantar
 Ao som de um dolente violão
 À moda de endecha
 Uma triste canção…
 O jovem Morais Valcácer
 Filho de um donatário da região
 Passava as tardes a dedilhar
 À beira de um riachão.
 Eram os tempos das Sesmarias
 Que se fazia a demarcação
 E uma índia a passear
 Ouvindo o ritmo da paixão
 Deixou-se pelo jovem encantar.
 Pertencia à tribo Banaboié
 Que povoara a região
 E a pretexto de ir buscar
 Água para sua obrigação
 O mancebo ia visitar.
 O amor tem suas armadilhas
 Que penetram fundo o coração
 Yara aprendera a cantar
 E conheceu também a decepção.
 Ao fim dos trabalhos
 Deixou o jovem aquele riachão
 Para à sua terra regressar
 Não lhe explicando a razão.
 A índia insulada a chorar
 Pedira para a Lua-Yaci
 Aliviar a sua sofreguidão
 Mas nem o Sol-Guaraci
 Deu-lhe a devida atenção.
 A imagem do amado a recordar
 Todos os dias, no riachão,
 Os transeuntes a perguntar
 A dor e toda a sua solidão.
 O espectro do amor da juventude
 Copiara toda a sua feição
 Um indiozinho passa a reclamar
 Em sua rude concepção:
 – Mamãe está a resguardar,
 Até agora, os prazeres de antão.
 Nas matas da Meia-pataca
 Essa estória muitos ouviram
 Uma escrava forra a contar
 Que Yara um rebento fez brotar
 Para a sua satisfação.
Uma Trova de Goiânia/GO
Quem não enxerga os encantos
que a mini-saia não cobre,
há de viver pelos cantos,
feio, míope, triste e pobre.
Anatole Ramos

 Modinha
Foi numa Noite Calmosa
Autor Anônimo

I
 Foi numa noite calmosa
 Que te vi mulher formosa
 E te amei…
 Fiquei logo embriagado
 Com o sorriso aprimorado
 Que alcancei!… } bis
 II
 Cambaleando, por um momento,
 Dirigi-me a passos lentos
 Junto a ti…
 Foi então que ouvi dizer:
 – Ninguém ama sem sofrer!
 E eu sofri. } bis
 III
 Mas voltando à realidade,
 Que tormento e saudade
 Experimentei!
 A mulher que eu tanto amara,
 Nunca mais em mim pensara
 E eu chorei…
Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956).

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Do casamento, é verdade,
já fugi mais de mil vezes…
amo tanto a liberdade
que nasci de sete meses.
Nicolau Kleinsorge

Um Soneto de San Pedro de Macorís/Republica Dominicana

Lígio Vizardi (1895-1968)
Ela o Quis
Uma vez, pelo áspero caminho,
brindei-lhe sob frondes e entre flores
minha taça repleta pelo vinho
do mais nobre de tos meus amores.
Ela interpôs a inocente mão
dizendo sem carinho nem rancores:
“A outros lábios, dá tua taça, irmão”.
Outra vez, pela estrada, que é de outeiro,
a encontrei fatigada e abatida.
“Dá-me tua taça, disse, caminheiro,
queima-me a sede a boca ressequida!”
Eu lhe estendi a taça meio rota,
mas ela continuou com a sede ardida,
porque já não sobrava uma só gota.
Cantigas Infantis
Caranguejo

As meninas, aos pares, dançam e cantam:
 Caranguejo não é peixe
 Caranguejo peixe é
 Caranguejo só é peixe
 Na enchente da maré
 Bate palma, palma, palma
 Bate pé, pé, pé
 Caranguejo só é peixe
 Na enchente da maré
 Caranguejo é presidente
 Goiamum é capitão
 Aratu por mais pequeno
 Inspetor de quarteirão
 Minha mãe, quando menina, brincou o Caranguejo dançando aos pares, na calçada, como Ciranda, cirandinha. Dona Bibi informou-me que já brincou o Caranguejo uma roda, com as suas amigas de infância, e cantou na mesma música os seguintes versos:
 A mulher do caranguejo
 Está doente de uma dor
 Porque não fez um vestido
 Da fumaça do vapor
 Caranguejo diz que tem
 Duas filhas pra casar
 Uma com o capitão
 Outra com o general
Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953).

Uma Quadra Popular
Todos nós temos defeitos
 digo isto sem ar de riso
 alguns são tortos do corpo
 outros aleijados do juízo
Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 28)

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ

Meu balão de tantos gomos
já se perdeu na distância,
em busca do que já fomos
nos sonhos de nossa infância!
Hermoclydes S. Franco

Uma Trova Ecológica de Camboriú/SC

O futuro do planeta
não é segredo a ninguém
preserve e se comprometa
que a vida assim se mantém.
Eliana Ruiz Jimenez

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
A Corrente 

Sente raiva do passado
que o mantém acorrentado.
Sente raiva da corrente
a puxá-lo para a frente
e a fazer do seu futuro
o retorno ao chão escuro
onde jaz envilecida
certa promessa de vida
de onde brotam cogumelos
venenosos, amarelos,
e encaracoladas lesmas
deglutindo-se a si mesmas.

Uma Trova de Porto Alegre/RS

Na infância me acostumei
a pular muro sozinho;
pelas bolas que chutei
para o pátio do vizinho… 
Giovani Domingos

Trova de Concurso 

1992 – Concurso de Trovas de Cruz Alta 
Tema: Juventude

Foram felizes instantes,
juventude na querência.
Hoje em terras tão distantes,
Pilcha…mate…sinto ausência;
José Feldman (Maringá/PR)

Um Soneto do Amazonas

Anibal Beça
Para Que Serve a Poesia?

 De servir-se utensílio dia a dia
 utilidade prática aplicada,
 o nada sobre o nada anula o nada
 por desvendar mistério na magia.

 O sonho em fantasia iluminada
 aqui se oferta em módica quantia
 por camelôs de palavras aladas
 marreteiros de mansa mercancia.

 De pagamento, apenas um sorriso
 de nuvens, uma fatia de grama
 de orvalho e o fugaz fulgor de astro arisco.

 Serena sentença em sina servida,
 seu valor se aquilata e se esparrama
 na livre chama acesa de quem ama.

Um Poetrix 

furo de reportagem
Eliana Mora (RJ) 

De mim sou fato
notícia que não deu
no teu jornal

Uma Trova de Maringá/PR

Mostra o sábio o que destaca
 do burro a paca, e sussurra:
 – é que o burro sempre empaca,
 e a paca jamais emburra… 
Osvaldo Reis

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

Um carro de boi gemendo, 
um longo apito de trem,
uma porteira rangendo,
isto é saudade também! 
Carolina Azevedo de Castro [1909-1977] (Recife/PE-Petrópolis/RJ)

Carolina Azevedo de Castro nasceu em Recife (PE) em 27 de outubro de 1909 e faleceu em 31 de agosto de 1977.  Radicada em Petrópolis/RJ.

A poeta nasceu em terra de poetas. Recife, em 1909, foi seu berço. Cedo se apegou à poesia. Num soneto disse: “Nasci poetisa”. Declamadora, era atração de festas caseiras e eventos da escola. Casou-se com Francisco Correa de Castro, bancário, mudando-se para Petrópolis em 1941, a jovem Carolina teve seus filhos. Edna Azevedo de Castro nasce primeiro. Em 1944 chega Vera e em 1946, Hélio de Castro. 

Dona de casa, esposa, mãe e poeta, assim vivia. Participou de Jogos Florais, tendo se destacado sempre com premiações. Foi fundadora e primeira presidente da seção local do Grêmio Brasileiro de Trovadores, sucedido pela UBT – União Brasileira de Trovadores. Organizou Concursos de Trovas, com apoio do marido, e coadjuvada por petropolitanos ilustres. As festividades aconteciam no Hotel Quitandinha ou no Casablanca Palace Hotel. Roberto Francisco lembra que Carolina mobilizava hoteleiros e donos de restaurante para recepcionar artistas do Brasil inteiro. Petrópolis, assim, se tornava uma Capital da Trova.

Venceu diversos concursos, em Petrópolis, pelo Brasil afora, destacando-se também em eventos em Portugal e Angola. O orgulho que deu à cidade que sua foi por tanto tempo, fez com que o Vereador José Duarte Canellas propusesse o título concedido de “Cidadã Petropolitana”. 

Carolina promovia em sua residência encontros, para leitura, música e conversas sobre arte e poesia. As famosas tertúlias. “Ao cair da tarde dos sábados, se reuniam poetas, músicos, literatos e outros artistas para declamarem seus trabalhos, cantarem ou representarem, enriquecendo a infância e a juventude de um jovem que ficava olhando tudo aquilo com um olhar muito curioso, se deleitando com tanta coisa bonita que era trazida aos seus olhos e ouvidos”, segundo seu filho Hélio de Castro.

Carolina tinha saúde frágil, teve nove cirurgias por razões diversas, mas não se furtou à maternidade presente e ao ofício da poesia. Mas, dessa alma forte e terna surgiram obras. “Plumas ao Vento”, a coletânea de trovas publicada em 1973. Colaborou com o poeta Luiz Otávio no “Decálogo de Metrificação”, divulgado pela União Brasileira de Trovadores e descrito na Internet em diversos sítios com o “interessantíssimo” e “imperdível” “Dicionário de Versificação”.

Em homenagem póstuma, em 1980, o esposo e os filhos fizeram publicar a coletânea de sonetos de Carolina, denominada “IMAGENS QUE FICARAM”. 

Fez poemas para louvar a Força Expedicionária Brasileira. Pedro Álvares Cabral. Seu marido. Os filhos. Elvis Presley. Oswaldo Cruz. Uma cigana. Viu um negro pobre na rua e escreveu um soneto belíssimo, denunciando a mácula da escravidão que pairava na sua ancestral desgraça. Viu a pequena mendiga de 09 anos, e seu coração de mãe e de poeta não resistiu e deu-lhe, mais que qualquer pobre moeda, um soneto régio, de belíssima construção. Identifiquei-me com a sua fé, a sua sensibilidade social, e seu amor pelos jovens e crianças. No natal, Guerra na Hungria:

Feliz Natal, pequenos da Hungria!
Nada será mais útil e dadivoso,
que este voto de paz e de harmonia
neste momento grave e angustioso.

Diante desta torpe tirania,
ouvindo o metralhar calamitoso,
já não podem sorrir com alegria
neste dia feliz e venturoso.

Deveriam vocês estar cantando,
mas estão em silêncio, contemplando
os espectros da guerra, em bacanal!

Paz a vocês, crianças da Hungria!
Possa Jesus lhes dar um novo dia
e uma tranqüila noite de Natal!

Em diversos modos ela refere a um tempo a bravura de mulher que exercitou em vida e a delicadeza do sentimento implícito no gênero:

Sou austera e destemida 
quando o momento requer; 
mas nos teus braços, vencida, 
sou simplesmente mulher! 

Provando que a consciência do feminino não precisa ser irascível, ela, tão mulher, dá-se ao luxo de brincar ferinamente:

Há três coisas que a mulher 
consegue fazer de um nada: 
uma intriguinha qualquer, 
um chapéu e uma salada!…

CAROLINA é também poeta do sentimento. E explora, do coração ao papel, suas esperanças, saudades e sonhos, como se vê deste pequeno conjunto de trovas:

Quanto esta vida seria 
difícil de suportar,  
se não fosse esta mania 
que a gente tem de sonhar!

Achei minhas esperanças 
em pedaços divididas. 
Juntei-os e enchi meus sonhos 
de mentiras coloridas.

Carolina, que nasceu pernambucana, viveu petropolitana, faleceu paranaense. Aos 68 anos, em 31 de agosto de 1977, foi sepultada em Curitiba. Mas sua poesia vive e viverá sempre, cobrindo como um manto doce a geografia da sua trajetória, trovando desde o litoral nordestino, sonetando pelas serras fluminenses, poetando até ao sul do Brasil. 

(excerto do artigo escrito por Denilson Cardoso de Araujo, da Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni)

Um Soneto de São Paulo/SP

P. de Petrus (1920-1999)
Jangadeiro

A aurora, calma e silente, 
 áurea luz, no céu, espraia: 
 vitória do sol nascente, 
 sobre a noite que desmaia. 

Vai, jangadeiro valente, 
 no mar, distante na praia, 
 e vence a enorme torrente 
 sobre espumas de cambraia!

De olhos postos no infinito, 
 esquece as penas da lida, 
 que o teu lavor é bendito.

Canta e reza à tua sorte:
 cantando – enfrentas a vida;
 rezando – enfrentas a morte.

Um Haikai de Montes Claros/MG

Folhas coloridas,
 voam ao sabor do vento:
 outono chegou 
Raquel Crusoé Loures de Macedo Meira

Uma Trova de Camboríu/SC

Um segredo bem guardado
 para assim permanecer
não deve ser partilhado
para nunca se perder. 
Eliana Ruiz Jimenez

Vinicius de Moraes, Com Amor

A brusca poesia da mulher amada

 Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente… 
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte! 
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo 
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido 
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito? 
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente? 

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios 
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados… 

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias 
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Cantinho do Ialmar Pio Schneider

SONETO A EMILIO DE MENEZES 
– In Memoriam – 
Falecimento do poeta em 6 de junho de 1918

Só li alguns sonetos do poeta 
de Curitiba, que se radicou 
no Rio de Janeiro, cuja meta 
seria a boêmia que frequentou. 

“Noite de Insônia”, tanto o castigou, 
sem ter no leito a musa predileta, 
que no soneto muito lamentou, 
por ela ser sua mulher dileta. 

“A Romã” foi a fruta que escolheu 
para exaltar nos versos de nobreza, 
como se fosse uma rainha altiva… 

No “Salto do Guaíra” enalteceu 
a exuberante e linda natureza, 
qual se pintasse uma paisagem viva !

Uma Fábula em Versos 

A Rã e o Boi
Jean La Fontaine (França) 

Num prado uma rã
Um boi contemplou,
E ser maior que ele
Vaidosa intentou.

A pela enrugada
Inchando alargou,
E às leves irmãs
Assim perguntou:

– Maior que o Boi
Ó Manas, já sou?
– Não és, lhe disseram
E a rã lhes tornou,

– E agora, inda não?
E mais ainda inchou;
Eis logo de todas
Um não escutou.

Inchar-se invejosa
De novo buscou,
Mas dando um estouro
A vida acabou.

Também, se em grandeza
Vencer procurou
O pobre ao potente,
Por força estourou.

Uma Trova de Natal/RN

Na gaveta do meu peito
 tranquei a dor da saudade,
 para ela saber direito
 o que é sofrer de verdade! 
Ademar Macedo

Uma Poesia de Santo Amaro Sousel/Portugal

Fátima Maldonado
Um Fado

Quem viu barcos
ir ao fundo
tem nos olhos a certeza
aposta firme na boca
rude descrença na reza

Quem viu barcos trazer escravos
munições e artifícios
figueira brava na costa
açoite preso no riso

Quem viu barcos
magoá-lo,
ferros, lavas e palmeiras
descrê santos e novenas,
nega laços, destrói cercos,
toma ventos por lareiras.

Uma Trova de São Fidélis/RJ

No silêncio de minh’alma,
 recolhido no meu canto,
 busco a fé que traz a calma
 no soluço do meu pranto.
Antonio Manoel Abreu Sardenberg

Um Soneto

Carolina Ramos (Santos/SP)
Sonhos…nada mais…

Foram sonhos… só sonhos e mais nada
tudo o quanto semeei de alma liberta!
Se frutos não colhi… abri a estrada
e alguém há de alcançar a minha oferta.

Na vida – intensa e rude caminhada –
quem não erra, também, nem sempre, acerta.
Sonhei demais? – Não sei! Finda a jornada,
consola-me esta doce descoberta:

Os sonhos, que apesar da vida curta,
alentaram meus dias mais tristonhos,
são tesouros só meus, que ninguém furta!

Envolvidos no afã de minha lida,
tinham tão farta luz meus ternos sonhos
que douraram de sol a minha vida!

Cantinho do Izo Goldman 

Trova Humorística – parte 2

B) CRÍTICA, SÁTIRA, IRREVERÊNCIA

Durante a Revolta da Armada, Artur Azevedo que era “florianista”, exaltado publicou esta quadra com uma comparação entre os nomes do Marechal Floriano Peixoto e do Almirante Custódio José de Melo:

Tem uma flor no princípio
o nome do Marechal,
mas o nome do Almirante
principia muito mal…

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de São Paulo/SP

Meu destino é uma contenda,
 é um eterno desafio:
 – vem o Sonho, faz a renda,
 – vem a Vida, puxa o fio… 
Izo Goldman

Uma Poesia da Costa Rica 

Alfaro Cooper [1861-1939](São José) 
A Avó

Aqui jaz a sombra:
adiante a dúvida,
lá o mistério,
mais além os telhados, as montanhas.

E lá, bem mais longe
de onde o tempo imagina,
as montanhas e o espelho
de outros nomes e outras sombras.

Poesia de Cordel 

Josenir A. de Lacerda (Crato/CE)
O Linguajar Cearense

Todo poeta de fato
É grande observador
Seja da rua ou do mato
Seja leigo ou professor
Faz verdadeira pesquisa
Vasto estudo realiza
Buscando essência e teor

Por esse nato talento
Na hora de versejar
Busca o tema e o momento
Visa o leitor agradar
Não sente conformação
Se não passa a emoção
Que dentro do peito está

Neste cordel-dicionário
Eu pretendo registrar
O rico vocabulário
Da criação popular
No Ceará garimpei
Juntei tudo, compilei
Ao leitor quero ofertar

Se alguém é desligado
É chamado de bocó
Broco, lerdo e abestado
Azuado ou brocoió
Arigó e Zé Mané
Sonso, atruado, bilé
Pomba lesa e zuruó

Artigo novo é zerado
Armadilha é arapuca
O doido é abirobado
Invencionice é infuca
O matuto é mucureba
Qualquer ferida é pereba
Mosquito grande é mutuca

Quem muito agarra, abufela
Briga pequena é arenga
Enganação, esparrela
Toda prostituta é quenga
Rapapé é confusão
De repente é supetão
Insistência é lenga-lenga

Qualquer tramóia é motim
Solteira idosa é titia
Mosquitinho é mucuim
Recipiente é vasia
Meia garrafa é meiota
O exibido é fiota
Travessura é istripulia

Bebeu muito é deodato
Brisa leve é cruviana
O sujeito otário é pato
Cigarro curto é bagana
Fugir é capar o gato
O engraçado é gaiato
Quem vai preso tá em cana

Ter mesmo nome é xarapa
Muito junto é encangado
Água com açúcar é garapa
Cor vermelha é encarnado
Muita coisa dá mêimundo
Sendo Mundim é Raimundo
Valentão é arrochado

A rede velha é fianga
Com raiva é apurrinhado
Careta feia é munganga
Baitinga é o mesmo viado
O bom é só o pitéu
Bajulador, xeleléu
Sem jeito é malamanhado

Bater fofo é não cumprir
tecetera é escambau
Sujar muito é encardir
Quem acusa, cai de pau
Confusão é funaré
Carta coringa é melé
Atacar é só de mau

Qualquer botão é biloto
Mulher difícil é banqueira
Pequenino é pirritoto
Estilingue é baladeira
Qualquer coisa é birimbelo
Descorado é amarelo
Sem requinte é labrocheira

Um perigo é boca quente
Porco novo é bacurim
Atrevido é saliente
Quem não presta é corja ruim
Dedo duro é cabuêta
A perna torta é zambêta
Coisinha pouca é tiquim

Parteira era cachimbeira
Dar mergulho é tibungar
Tem cucuruto, moleira
Olhar demais é cubar
Tem ainda ternontonte
Que vem antes do antonte
Ver de soslaio é brechar

Quem briga bota boneco
Sem valor é fulerage
Copo pequeno é caneco
Estrada boa é rodage
O tristonho é capiongo
Galo ou inchaço é mondrongo
E a ralé é catrevage

O velho ovo estrelado
É o bife do oião
Nervoso é atubibado
Repreender é carão
O zarôlho é caraôi
Enviezado, zanôi
Inquieto é frivião

A perna fina é cambito
Dar o fora é azular
Muito magrelo é sibito
Pisar manco é caxingar
Rede pequena é tipóia
Tudo bem é tudo jóia
Fazer troça é caçoar

A expressão ‘dá relato’
Que atinge mais de légua
‘Tá ca peste!’ ‘Só no Crato!
‘Tá lascado!’ e ‘Aarre égua!’
‘Corra dentro!’ ‘ Qué cirmá? ‘
‘É de rosca? ‘Éé de lascar! ‘
‘Vôte!’ ‘Ôxente! ‘Isso é paid’égua!’

Se é muito longe, arrenego
Que Deus do céu nos acuda
É pra lá da caixa prego
Lá no calcanhar do juda
Nas bimboca ou cafundó
Nas brenha ou caixa bozó
Onde o vento a rota muda

Se é cheia de babilaque
É ispilicute ou dondoca
Ligeiro é ‘que nem um traque’
Agachado é tá de coca
Sem rumo é desembestado
O faminto é esguerado
Bolha na pele é papoca

Chamuscado é sapecado
Nuca, cangote é cachaço
Meio tonto é calibrado
A coluna é espinhaço
Se está adoentado
Tá como diz o ditado:
‘da pucumã pro bagaço’

Cearense tem mania
Chama todo mundo Zé
Zé da onça, Zé de tia
Zé ôin ou Zé Mané
Zé tatá ou Zé de Dida
Achando pouco apelida
Um bocado de Zezé

Fazer goga é gaiofar
O que é longo é cumprissaio
Provocar é impinjar
Toda pilôra é desmaio
Salto ligeiro é pinote
Bando, turma é um magote
Cesto sem alça é balaio

A comidinha caseira
Tem fama no Ceará
Tipicamente brasileira
Faz o caboco babar
No bar do Mané bofão
Pau do guarda, panelão
O cardápio vou citar:

Sarrabulho, panelada
Mucunzá e chambari
Tripa de porco, buchada
Baião de dois com piqui
Tem pão de milho e pirão
Carne de sol com feijão
Tijolo de buriti

Quem é ruivo é fogoió
O tristonho é distrenado
Tornozelo é mocotó
Cheio de grana, estribado
Jarra de barro é quartinha
O banheiro é a casinha
Sem saída, ‘tá pebado’

A bebida e o seu rol
No Ceará todo habita
A fubuia e o merol
A truaca e a birita
Amansa sogra ou quentinha
Engasga gato, caninha
A meropéia e a mardita

O picolé no saquinho
Aqui se chama dindin
Se é o dedo menorzinho
É chamado de mindin
Riso sonoro é gaitada
Confusão é presepada
Atrevido é saidin

Papo longo e sem valor
É ‘miolo de pote’
Muito esperto é vívido
Adolescente é frangote
Soldado raso é samango
A lagartixa é calango
O tabefe é cocorote

A lista é quase sem fim
Não cabe num só cordel
Tem alpercata, alfinim
Enrabichada e berel
Chué, baé, avexado
Bãe de cúia, ôi bribado
Quebra-queixo e carritel

Tem visage, sarará
Tem bruguelo e inxirido
Rabiçaca e aluá
Ispritado e zói cumprido
Bunda canastra, lundu
Dona encrenca, sabacu
Bonequeiro e maluvido

O cearense é assim:
Dá cotoco à nostalgia
A tristeza leva fim
Na cacunda dá euforia
dá de arrudei na carência
Enrola a sobrevivência
e embirra na alegria

Uma Trova de Pinhalão/PR

Bem sei que não é primor
 da mais alta criação,
 mas minha trova, Senhor,
 é alma do coração. 
Lairton Trovão de Andrade

 Modinha 

Eu Sinto no Peito
Autor Anônimo

Eu sinto no peito uma dúbia tristeza… 
 E a mente não pode mistérios sondar!… 
 Às vezes sorrio – me voltam suspiros
 E a dúbia tristeza me vem perturbar…

 Me vem à memória uma viva lembrança,
 Que aumenta essas mágoas que o tempo me traz.
 De tudo me lembro – com muita saudade,
 Dos tempos passados, que não voltam mais…

 Passaram-se os tempos da quadra florente;
 Murcharam-se as flores, aos raios do sol.
 O céu – que era lindo – tornou-se agitado,
 E as ondas soluçam batidas do vento!…

 É pátria minh’alma de viva lembrança.
 Que aviva essas mágoas que o tempo me traz.
 De tudo me lembro com muita saudade:
 Dos tempos passados que não voltam mais!…

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Uma Trova do Município de Pedra/PE

Como eu quisera apanhar
 a rubra flor dos teus beijos,
 para poder dominar
 o tigre dos meus desejos… 
Ulisses Diniz

Um Soneto de Roça Olímpia/São Tomé e Príncipe/África

Maria Manuela Conceição Carvalho Margarido (1925-2007)
Roça

A noite sangra
no mato,
ferida por uma aguda lança
de cólera.
A madrugada sangra
de outro modo:
é o sino da alvorada
que desperta o terreiro.
E o feito que começa
a destinar as tarefas
para mais um dia de trabalho.

A manhã sangra ainda:
salsas a bananeira 
com um machim de prata;

capinas o mato 
com um machim de raiva;
abres o coco
com um machim de esperança;
cortas o cacho de andim 
com um machim de certeza.
E à tarde regressas 
a senzala;
a noite esculpe 
os seus lábios frios 
na tua pele
E sonhas na distância 
uma vida mais livre, 
que o teu gesto 
há-de realizar.
––––––
Nota:
Andim = dendê

Cantigas Infantis 

Bom Dia, meus sinhorinhos (RN)

É uma fileira de meninas, com uma defronte. Canta esta sozinha:

 Bom dia meus sinhorinhos }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 As meninas respondem:

 O que é que vós quereis }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 A menina:

 Quero uma das vossas filhas }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 Todas:

 Escolhei a qual quereis }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 A menina:

 Quero a menina Fulana }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 A escolhida passa para a ponta da fila e as outras cantam:

 Que ofício dás a ela }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 A menina sozinha:

 Dou o ofício de ser pianista }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 Se as meninas se agradam do ofício. cantam:

 Este oficio já me agrada }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 Se não se agradam, cantam assim:

 Este ofício não me agrada }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 Para terminar, fazem a roda e todas cantam, pulando:

 Fazemos a festa juntas }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). 

Uma Quadra Popular

A roseira quando nasce
 Toma conta do jardim
 Eu também ando buscando
 Quem tome conta de mim

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 27)

Uma Trova de Curitiba/PR

As ondas nas quais navego
vão dar em praias distantes,
os versos que em mim carrego
me levam bem mais adiante.
Angelo Batista

Trova sobre a Trova de São Gonçalo/RJ

A trova é só um repente,
 De um sentimento profundo,
 Sai lá de dentro da gente
 E se espalha pelo mundo. 
Condorcet Aranha

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
Acordar, Viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

Uma Trova de Caicó/RN

Poeta mantém acesa
a chama do amor fecundo,
minimizando a tristeza
e as dores cruéis do mundo.
Djalma Mota

Trova de Concurso 

1990 – Concurso de Trovas da IV FENACHAMP de Garibaldi/RS
Tema: Vinho

Neste meu verso amoroso
digo com certa emoção:
– a trova é vinho gostoso
que embriaga o coração.
Anita Thomas Folmann (Ponta Grossa/PR)

Um Soneto Decassílabo Sáfico Heróico

Ritmo clássico na 4ª, 6ª, 8ª e 10ª sílabas, 
Rimado ABAB, ABAB, CDC, CDC

Sílvia Araújo Motta (Belo Horizonte/MG)
Que é poesia?

Poema traz a rima em livro aberto,
clássico, mede tudo que contém;
na melodia encanta, mas decerto
modernos versos, livres são também.

Sentimento que exprime tempo certo
das emoções que o ser humano tem,
pode exprimir tristeza, dor por perto
ou na alegria, rindo sempre vem.

Põe na esperança e fé, perdão real;
na liberdade é fio que conduz
a humanidade crer, ao ver natal.

Nenhum autor consegue dar total
definição porque é escrita em luz:
com força e paz, poesia é contra o mal.

Um Poetrix 

Fechar um livro
Lilian Maial  (RJ) 

passo muito sério
conhecer a morte
juntos alcançamos o fim

Outra Trova de Curitiba/PR

A trova é uma rosa flor,
e pequeno é seu esquema,
porém, quando canta o amor,
vira gigante poema
Luiz Hélio Friedrich

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

Outrora, em tardes serenas,
 chorei sob uns ramos largos;
 e esses ramos, hoje, apenas
 sabem dar frutos amargos.
Humberto de Campos [1886-1924] (Miritiba/Maranhão)

Humberto de Campos (H. de C. Veras), jornalista, político, crítico, cronista, contista, poeta, biógrafo e memorialista, nasceu em Miritiba, hoje Humberto de Campos, MA, em 25 de outubro de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de dezembro de 1934. Eleito em 30 de outubro de 1919 para a Cadeira n. 20, sucedendo a Emílio de Menezes, na Academia Brasileira de Letras. 

Foram seus pais Joaquim Gomes de Faria Veras, pequeno comerciante, e Ana de Campos Veras. Perdendo o pai aos seis anos, Humberto de Campos deixou a cidade natal e foi levado para São Luís. Dali, aos 17 anos, passou a residir no Pará, onde conseguiu um lugar de colaborador e redator na Folha do Norte e, pouco depois, na Província do Pará. Em 1910 publicou seu primeiro livro, a coletânea de versos intitulada Poeira, primeira série. 

Em 1912 transferiu-se para o Rio. Entrou para O Imparcial, na fase em que ali trabalhava um grupo de escritores ilustres, como redatores ou colaboradores, entre os quais Goulart de Andrade, Rui Barbosa, José Veríssimo, Júlia Lopes de Almeida, Salvador de Mendonça e Vicente de Carvalho. João Ribeiro era o crítico literário. Ali também José Eduardo de Macedo Soares renovava a agitação da segunda campanha civilista. Humberto de Campos ingressou no movimento. Logo depois o jornalista militante deu lugar ao intelectual. Fez essa transição com o pseudônimo de Conselheiro XX com que assinava contos e crônicas, hoje reunidos em vários volumes. Assinava também com os pseudônimos Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Em 1923, substituiu Múcio Leão na coluna de crítica do Correio da Manhã. 

Em 1920, já acadêmico, foi eleito deputado federal pelo Maranhão. A revolução de 1930 dissolveu o Congresso e ele perdeu seu mandato. O presidente Getúlio Vargas, que era grande admirador do talento de Humberto de Campos, procurou minorar as dificuldades do autor de Poeira, dando-lhe os lugares de inspetor de ensino e de diretor da Casa de Rui Barbosa. Em 1931, viajou ao Prata em missão cultural. Em 1933 publicou o livro que se tornou o mais célebre de sua obra, Memórias, crônica dos começos de sua vida. O seu Diário secreto, de publicação póstuma, provocou grande escândalo pela irreverência e malícia em relação a contemporâneos. 

Autodidata, grande ledor, acumulou vasta erudição, que usava nas crônicas. Poeta neoparnasiano, fez parte do grupo da fase de transição anterior a 1922. Poeira é um dos últimos livros da escola parnasiana no Brasil. Fez também crítica literária de natureza impressionista. É uma crítica de afirmações pessoais, que não se fundamentam em critérios e, por isso, não podem ser endossadas nem verificadas. Na crônica, seu recurso mais corrente era tomar conhecidas narrativas e dar-lhes uma forma nova, fazendo comentários e digressões sobre o assunto, citando anedotas e tecendo comparações com outras obras. No fundo ou na essência, era uma crítica superficial, que não resiste à análise nem ao tempo. 

Obras: 
Poeira, poesia, 2 séries (1910 e 1917); Da seara de Booz, crônicas (1918); Vale de Josaphat, contos (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); Mealheiro de Agripa, vária (1921); Carvalhos e roseiras, crítica (1923); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); Grãos de mostarda, contos (1926); Alcova e salão, contos (1927); O Brasil anedótico, anedotas (1927); Antologia da Academia Brasileira de Letras (1928); O monstro e outros contos (1932); Memórias 1886-1900 (1933); Crítica, 4 séries (1933, 1935, 1936); Os países, vária (1933); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934); Sombras que sofrem, crônicas (1934); Um sonho de pobre, memórias (1935); Destinos, vária (1935); Lagartas e libélulas, vária (1935); Memórias inacabadas (1935); Notas de um diarista, 2 séries (1935 e 1936); Reminiscências, memórias (1935); Sepultando os meus mortos, memórias (1935); Últimas crônicas (1936); Perfis, 2 séries, biografias (1936); Contrastes, vária (1936); O arco de Esopo, contos (1943); A funda de Davi, contos (1943); Gansos do capitólio, contos (1943); Fatos e feitos, vária (1949); Diário secreto, 2 vols. (1954).

Um Soneto Alexandrino

Sílvia Mota (Rio de Janeiro/RJ)
Quando o Poeta Morre…

O inspirador poeta elege a eternidade,
 se ao verdejar do campo erige em aliança
 o florescer do sol às rimas da esperança
 e deixa-se viver às cores da saudade.

 O vate, quando é morto, assume a insanidade,
 desfaz-se ao lusco-fusco – espalha-se criança,
 em sonhos se refaz, de si é a própria herança,
 constrói novo infinito em paz e sem maldade.

 A morte do poeta exala tal perfume,
 que a boca então calada orvalha um tom asceta,
 seduz em beijos luz enamorado ardume.

 Na morte do poeta há reviver bisonho,
 porque se a um verso só esvai-se o ser poeta,
 à luz do mesmo verso esteia-se um sonho!

Um Haikai 

era uma vez
um sapo que beijado
poeta se fez
Carlos Seabra (SP)

Mais uma Trova de Curitiba/PR

Num relógio vendo a hora,
no outono da minha lida,
vejo que não há demora
no ocaso da minha vida!
Maurício Norberto Friedrich

Vinicius de Moraes, com amor

Soneto da Separação

 De repente do riso fez-se o pranto 
 Silencioso e branco como a bruma 
 E das bocas unidas fez-se a espuma 
 E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

 De repente da calma fez-se o vento 
 Que dos olhos desfez a última chama 
 E da paixão fez-se o pressentimento 
 E do momento imóvel fez-se o drama. 

 De repente, não mais que de repente 
 Fez-se de triste o que se fez amante 
 E de sozinho o que se fez contente. 

 Fez-se do amigo próximo o distante 
 Fez-se da vida uma aventura errante 
 De repente, não mais que de repente.

Cantinho do Ialmar Pio Schneider (RS)

A Obra de Paulo Setúbal

Ialmar Pio Schneider
POEMA A PAULO SETÚBAL – In Memoriam Data do falecimento do escritor em 4.5.1937.

Paulo Setúbal foi poeta nobre…
“Alma Cabocla” tem nobreza e encanto
E quanto mais se lê mais se descobre
toda beleza longe de ser pobre
da romântica verve do seu canto.

Se desde muito tempo o venho
lendo nunca posso esquecer suas poesias
pois eu também dessas paixões entendo
porque no meu viver fui compreendendo
que existem emoções e fantasias…

Este simples poema que ora escrevo
surgiu-me num momento de esplendor
parafraseando versos seus me atrevo
como um “Último Verso” de relevo
“numa roseira que não dá mais flor…”

Escritor elegante, poeta de a Alma Cabocla (poesias), romancista histórico de O Príncipe de Nassau, e A Marquesa de Santos (considerada sua obra-prima, com tradução em vários idiomas), além de outros, num total de 13 livros, e as suas memórias de o Confiteor (sua autobiografia, que foi publicada postumamente).

Paulo Setúbal, foi um autor que conheci nos idos de 1957, quando cursava o ginásio. Logo me atraíram suas poesias, de cunho ultra-romântico, em que falava de sua terra natal Tatuí, interior do Estado de São Paulo, amores diversos da juventude (moita de rosas, floco de espuma, sertanejas e poesia inédita), imprimindo a seguinte dedicatória no seu livro de versos:

“A ti, minha mãe, que és a melhor das mães, estes despretensiosos versos da nossa terra e da nossa gente.” 

Depois enveredou para a prosa, tendo produzido romances, contos históricos, memórias, crônicas, episódios históricos e ensaios, que o levaram à Academia Brasileira de Letras em 1934, com apenas 41 anos de idade, pois nascera em 1893. Na ocasião pronunciou sincero discurso que arrematava com as seguintes palavras de agradecimento:

– “Mas deixai também, meus senhores, que nesta linda hora risonha, em que as emoções mais íntimas se atropelam dentro de mim, deixai que, mal acabe de vos agradecer, eu me ausente precipitado destas galas. Sim, deixai que o meu coração voe para longe daqui, fuja para a minha estremecida cidade de São Paulo, e lá, comovido e respeitoso, penetre por um momento, muito de manso, numa casa modesta de bairro sem luxo. Nessa casa, a estas horas, nesta mesma noite, está uma velha toda branca, oitenta anos, corcovada, com o seu rosário de contas já gastas, a rezar diante da Virgem pelo filho acadêmico. Pelo filho que ela, a viúva corajosa, ramo desajudado, mas altaneiro, de família opulenta, criou, educou, fez homem – Deus sabe com que sacrifícios e com que ingentes heroísmos obscuros ! Deixai pois, senhores acadêmicos, que o meu coração voe para a casa modesta de bairro sem luxo, entre no quarto do oratório, ajoelhe-se diante da velha branquinha, beije-lhe as mãos, e, na brilhante noite engalanada deste triunfo, diga-lhe por entre lágrimas: – Minha mãe, Deus lhe pague !” 

Três anos após, entretanto, faleceria, em 1937, interrompendo uma trajetória literária promissora e recebeu do P. Leonel Franca S. J., o exórdio: PAULO SETÚBAL !

“Na plenitude dos anos, o anjo da morte bateu-lhe à porta para acompanhá-lo ao descanso eterno dos justos. Os admiradores da sua obra literária lamentam, inconsoláveis, o desaparecimento prematuro do artista da palavra. No firmamento das letras foi o seu brilho fugaz como o de um meteoro. Os que, nos últimos tempos, lhe conheceram de perto as ascensões espirituais choram a perda irreparável de um apóstolo cujas irradiações benéficas poderiam amanhã estender-se em ondas de incomensurável amplitude.”

 Apesar da glória que atingiu em tão pouco tempo, para mim será sempre o poeta de versos simples quais os que se seguem:

SÓ TU Dos lábios que me beijaram, Dos braços que me abraçaram, Já não me lembro, nem sei…  São tantas as que me amaram !  São tantas as que eu amei ! Mas tu – que rude contraste ! – Tu, que jamais de beijaste,  Tu, que jamais abracei,  Só tu, nest’alma, ficaste,  De todas as que eu amei…”

 E destes outros que decorei, em certo tempo de minha vida, na adolescência, e sempre me pediam que declamasse, em festinhas que freqüentava, onde correu um boato que eu havia me apaixonado por uma noiva, ou melhor, seria apaixonado por alguém que agora seria noiva. Devo dizer que não passa de lenda, embora não seja tão famoso assim. Lá vai:

SÊ FELIZ ! 

– És noiva… Em breve há de raiar o dia,
Festivo, azul, vibrante de alegria,
Que te sorri num céu de rosicler.
Irás à igreja. E, num altar formoso,
Branca de anseio, trêmula de gozo,
Verás florir teu sonho de mulher !

Oh! Nessa noite, o baile terminado,
Ao te despires para o teu noivado,
Sonhando os sonhos que a paixão te diz,
Tu hás de ouvir, na alcova silenciosa,
O tom queixoso duma voz queixosa,
Que te dirá baixinho: Sê feliz !

E, pálida de susto, ao escutá-la,
Hás de reconhecer a minha fala,
Ouvindo a minha voz naquela voz !
E hás de sentir, como jamais sentiste,
O fel que vai naquele verso triste
A dor que punge aquela frase atroz…

 Só para complementar, esses dias, passei por um dos “becos dos livros”, e adquiri a obra completa de Paulo Setúbal, edição Saraiva, de 1954, em perfeito estado de conservação, para não dizer novos. Acredito que nem tenham sido abertos e folheados. São treze volumes que pretendo ler aos poucos, como quem curte uma saudade de um tempo bom de outrora. Contava com menos de dezoito invernos e talvez era feliz sem saber. A vida é assim mesmo…

Uma Fábula em Versos 

A Lebre e a Tartaruga
Jean La Fontaine (França) 

“Apostemos, disse à lebre
A tartaruga matreira,
Que eu chego primeiro ao alvo
Do que tu que és tão ligeira!”
Estando as duas a par,
A tartaruga começa
Lentamente a caminhar.
A lebre, tendo vergonha
De correr diante dela,
Tratando uma tal vitória
De treta ou de bagatela,
Deita-se e dorme um pouco;
Ergue-se e põe-se a observar
De que parte corre o vento,
E começa a cochilar;
Eis que deita uma vista de olhos
Sobre a companheira sorna,
Ainda a vê longe da meta
E a cochilar de novo torna.
Olha, e depois que a vê perto,
Começa a sua carreira;
Mas então apressa os passos
A tartaruga matreira.
À meta chega primeiro,
Apanha o prêmio apressada,
Pregando à lebre vencida
Uma grande gargalhada.
Não basta só haver posses
Para obter o que intentamos;
É preciso pôr-lhe os meios,
Quando não, atrás ficamos.
O empreendedor não desprezes
Por fraco, se te investir;
Porque um anão acordado
Mata um gigante a dormir.

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP

Dos meus sonhos eu bendigo
as passadas frustrações;
Hoje é mais puro o meu trigo
sendo humilde nas ações 
Nilton Manoel

Uma Poesia 

Fernando Pessoa (Lisboa/Portugal)
Ao Longe, Ao Luar, No Rio Uma Vela 

Ao longe, ao luar,
 No rio uma vela
 Serena a passar,
 Que é que me revela? 

Não sei, mas meu ser
 Tornou-se-me estranho,
 E eu sonho sem ver
 Os sonhos que tenho. 

Que angústia me enlaça?
 Que amor não se explica?
 É a vela que passa
 Na noite que fica.

Uma Trova de Canavieiras/BA

O coração desprezado
 pelo amor que lhe convém,
 é relógio complicado:
 – nunca mais trabalha bem!
Jacinto Barbosa de Campos

Um Soneto do Paraná

Manuel de Lacerda Pinto
Femina

Eterna fonte de aflição humana,
fonte perene de ventura eterna,
eu te compreendo… O teu olhar engana
e mata às vezes, na expressão mais terna.

Ante a femínea graça soberana
a alma do homem vibrando, se prosterna
sem ver que dessa graça é que promana
a dor que a fere, a angústia que a consterna.

Bendita esfinge, és o supremo encanto
de toda a vida! E o teu olhar sereno
mesmo ferido, misterioso e santo…

Eu que por ela tantas vezes peno
quero viver do bem que leva ao pranto
para morrer enfim do seu veneno.

Cantinho do Izo Goldman 

Trova Humorística – parte 1

Parece ter sido Chico Anísio quem disse: “o verdadeiro humorista é aquele que faz cócegas na inteligência do espectador”.

Isto define bem a diferença entre “Humorismo inteligente” e “apelação”. Talvez em virtude desta diferença é que muitos trovadores consideram o gênero humorístico o mais difícil dentro da trova. Realmente, fazer “humorismo fino”, “humorismo limpo”, sem apelar para a pornografia é uma tarefa difícil. Há algum tempo, uma Comissão composta por: Luiz Otávio, Carlos Guimarães, Elton Carvalho, Joubert de Araujo, Maria Nascimento, Colbert Rangel e P. de Petrus, apresentou a UBT um relatório sobre trova humorística e, dele, tiramos alguns tópicos:

A) MALÍCIA – embora a malícia seja subjetiva, é fácil distinguir a malícia fina da malícia grosseira. Vejam com que “finesse” o trovador usa a malícia:

Graças a um certo percalço
encontraste, enfim, marido…
Como ves, um passo em falso
nem sempre é um passo perdido.
(A. BOBBELA MOTA – Portugal)

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Salvador/BA

Adeus sonho, adeus quimera
que se busca e não se alcança.
Prender ilusões – quem dera!
Ao menos fica, Esperança.
Jorge de Faria Goes

Uma Poesia da Costa Rica 

Gustavo Solórzano Alfaro (Alajuela/Costa Rica)
O Coveiro

Aqui jaz a sombra:
adiante a dúvida,
lá o mistério,
mais além os telhados, as montanhas.

E lá, bem mais longe
de onde o tempo imagina,
as montanhas e o espelho
de outros nomes e outras sombras.

Poesia de Cordel 

Tere Penhabe (Santos/SP)
Ninguém Foge do Destino

Esta já é uma história
que me benzo ao começar
é história de arrepiar
sem nenhum riso nem glória
não consiste em vitória
 da vida foi um lamento
quiçá meu maior tormento
escrita com sangue e dor
de alguém que era meu amor
me marcou seu sofrimento.

Teve a sua hora torta
numa tarde de domingo
quase na hora do bingo
já havia baixado a porta
 a lida estava morta
lá no Empório Brasil
onde a vida por um fio
não acabou pra nós dois
nesse dia e também depois
que a vida é um leito de rio.

Veio o Seu João Mendonça
co’aquela prosa comprida
de estar difícil a vida
que lá na água da Onça
quebrara a geringonça
que era seu ganha pão
trator de segunda mão
enfim, o que ele queria
mas que não me convencia
era passar um problemão.

Trouxe a égua com fobia
pra ofertar ao falecido
por sua conta vencida
que mais negócio seria
perdoar tal mixaria
se uma bola de cristal
que eu sei que não é normal
 mostrasse quanta sangria
que o tal negócio faria
em nossa vida afinal.

E chegado o mês de agosto
teve seus dias marcados
de nós dois o triste fado
que nos deu tanto desgosto
tirou a alegria do rosto
quando se deu o tal fato
o acidente malfadado
por conta de teimosia
da égua ele cairia
vi nosso sonho rasgado.

Deitado na ribanceira
aquela égua o deixou
por pouco não o aleijou
inda me dá tremedeira
lembrando a desgraceira
que na vida se abateu
a esperança que morreu
vendo-o ali desmaiado
meu marido tão amado
junto ao sonho dele e meu.

Completamente perdida
sem saber como fazer
o seu corpo eu esmurrei
gritei que voltasse à vida
que não fugisse da lida.
Disse mais tarde o doutor
quando explicou tal teor
que foi naquele momento
de horror e sofrimento
que para a vida voltou.

Muito tempo passou mal
antes de poder andar
quando pode, foi buscar
notícias do animal.
Mas o golpe foi brutal:
no lugar da sua morte
quem tivera menos sorte
fora a égua e o caseiro
mortos no mesmo terreiro
onde ele fora tão forte.

Vi-o cair em desatino
tentou, não compreendeu
que teia sua vida teceu
pra turvar o seu destino…
foi peão desde menino.
Nunca voltou ao normal
pois não achava casual
tudo que lhe aconteceu
e porque sobreviveu
achava paradoxal.

Por isso conto a história
ele já encontrou a morte
pois foi pouca a sua sorte
terminou a trajetória
mas chegou até a vitória.
Seguindo no meu caminho
veio a ser um peregrino.
Pensei tê-lo libertado
não quis ficar ao meu lado
ninguém foge do destino.

Uma Trova de Sete Lagoas/MG

Agora, sei por que vives
alegre, mesmo sofrendo;
aprendi muito contigo:
de Esperança estou vivendo.
Cira Martins Guimarães

 Modinha 

Eu Já Fiz um Juramento
Autor Anônimo (NE)

I
 Eu já fiz um juramento
 E não pretendo quebrar!…
 Enquanto Deus me der vida,
 A outra não hei de amar.

Estribilho

 É assim que se conhece;
 Todos nós devemos crer:
 Não se pode desmanchar
 O que Deus tem a fazer.

 II
 Nada do mundo espero!…
 Do que a terra produzir,
 O que tiver de ser meu, 
 A minhas mãos há de vir.

Estribilho

Nota: Esta modinha é um raro e antiquíssimo documento do folclore nordestino.

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ

Na miragem da esperança
que todo mundo procura,
é que a gente ainda alcança
um farrapo de ventura!
Félix Aires

Um Soneto de Guiné-Bissau (África)

Agnello Regalla (Campeane, Guiné-Bissau)
O Eco do Pranto

Não me digas
Que essa é a voz de uma criança
Não…
A voz da criança
É suave e mansa
É uma voz que dança…
Não me digas
Que essa é a voz de uma criança
Parece mais
Um grito sem esperança
Um eco        
Partindo de fundo de um beco
Não me digas
Que essa é a voz de uma criança,
Essa é doce e mansa
É uma voz que dança…
Esta parece mais
Um grito sufocado sob um manto
O Eco do Pranto.

Cantigas Infantis 

Bom Barquinho (RN)

É uma fila de meninas, uma atrás da outra, com as mãos nos ombros da seguinte. A certa distância, ficam duas outras, formando um arco com os braços. Estas duas crianças representam o céu e o inferno, mas estes nomes são substituídos por duas frutas convencionadas, como por exemplo, maçã e pera.

 As crianças da fila cantam:

 Bom barquinho
 Bom barquinho
 Deixarás passar
 Carregados de filhinhos
 Para ajudar a criar

 Cantam este versinho até chegar perto das duas meninas que formam o arco. Aí, param. A criança da frente vem de mãos dadas com uma maior ou mais velha, que representa a mãe. Esta última canta:

 Eu peço, meu bom barquinho
 Licença para passar
 Qu’eu tenho muitos filhinhos
 Não posso mais demorar

 As duas meninas que formam o arco, respondem, cantando:

 Passarás, passarás
 Que algum deles há de ficar
 Se não for o da frente
 Há de ser o de detrás

 Aqui passam todas sob o arco, ficando presa sempre a última. Perguntam a ela se quer maçã ou pera e, conforme a resposta, irá para trás da menina que representa a fruta mencionada, que será inferno ou céu. E assim por diante, até ficar no arco a última criança, que é a mãe.

 Então, as que estão no inferno (só depois de passar a última pelo arco é que se diz qual a fruta que representa inferno ou céu), começam a fazer caretas para as que estão no céu. A menina do céu que achar graça nas caretas, passa imediatamente para o inferno. Finalmente, as que estão no inferno formam alas e as do céu marcam carreira e passam pelo meio delas em toda velocidade. Nesta ocasião, as do inferno metem a mão nas que estão passando. Terminado o batismo de tapas, entre gritos e até choros, volta-se ao começo.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). 

Uma Quadra Popular

Ó lua que vais tão alta
 Redonda como um tamanco!
 Ó Maria traz a escada
 Que não chego lá co’o o banco!

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 26)

Uma Trova de Belo Horizonte

A esperança é a voz divina
que a alma da gente acalanta;
neste terra pequenina
nenhuma voz a suplanta
Odete Donah

Uma Trova sobre a Trova do Rio de Janeiro

Trovador, grande que seja, 
 tem esta mágoa a esconder: 
 a trova que mais deseja 
 jamais consegue escrever … 
Luiz Otávio

Uma Trova de Piranguçu/MG

Nasci pobre e, na pobreza,
desconheci a abastança…
Mas sempre tive a riqueza
de possuir a esperança.
Antonio Martins

Trova de Concurso 

1977 – Concurso de Trovas de Cachoeiras de Macacu/RJ
Tema: Jardim

O meu sonho é que na terra
 as guerras chequem ao fim
 e todo o campo de guerra
 se transforme num Jardim…
lzo Goldman (São Paulo/SP)

Um Soneto Decassílabo Heróico

André Luiz Fernandes (Porto Velho/RO)
Soneto & soneto 

O início é um quarteto a mim divagado
Versos vêm e se entregam e se alinhas 
Que sua estrofe canta, verve alado
Quadras rimadas formadas em linhas

O segundo vem torna-se ao primeiro
No ato de ti sou poeta, fiz ser poema
Som de um vate à canção derradeiro
Escrita de relíquia, ele é meu lema

Vem e conclui um terceto aclamado
Pode ser nesse ou último, tanto faz
Escreve nele, o faz ser proclamado

Sendo que não se perca e não se desfaz
Fiel no lançamento, obra afamado
Que sem elas não tem como se refaz

Um Poetrix 

Horroris Causa
Goulart Gomes (BA) 

engenheiro de obras prontas
advogado de causas perdidas
doutor em letras vencidas

(Fonte: GOMES, Goulart. Minimal. Salvador: Copygraf, 2007 )

Uma Trova de Taubaté/SP

Penso em ti. Mas a esperança,
de ver-te minha, se trunca:
– Meu sonho sempre te alcança,
mas eu não te alcanço nunca.
Cesídio Ambrogi

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

O bambu com muita gente
 se parece no feitio:
 por fora é belo e imponente,
 por dentro é oco e vazio…
 Nilo Aparecida Pinto [1917 – 1974] (MG)

Nasceu em Caratinga, no Estado de Minas Gerais, no ano de 1917. Faleceu no Rio de Janeiro 1974.

Fez seu curso de humanidades em Vitoria, onde foi redator de vários jornais locais. Ali, com um grupo de jovens companheiros, fundou em 1933 a Academia Espirito-Santense dos Novos.

a Revista “Vida Capichaba” movimentou o meio literário com um Concurso de Trovas, saindo vencedor o poeta Nilo Aparecida Pinto, cultor entusiástico da Trova, com o seguinte texto:

 O ocaso traz tantas mágoas,
 que o mar, buscando esquecê-las,
 espana o espelho das águas
 para o baile das estrelas.

 Nilo Aparecida Pinto não era Capixaba mas viveu parte da infância e juventude no Espírito Santo, tendo residido em Colatina e Vitória.

Transferiu-se para Belo Horizonte em 1938.

Bibliografia
“Meu coração em cantigas” (trovas), 1940.
“Canção da amargura sem fim”, 1941.
“Roteiro do deslumbramento”, 1944.
“Poesias encolhidas”, 1944,

Todos estes livros foram publicados em Belo Horizonte.

Um Soneto Alexandrino

Esio Antonio Pesatto (Piracicaba/SP)
Renascer

Há dias em que a gente encontra um novo brilho
Numa folha que cai, em tudo o quanto existe…
Num sol que morre, atrás de um crepúsculo triste,
Num murmúrio, num som, num dourado rastilho.

Numa canção à flor, num eco em que consiste
Um alegre cantar, num plácido bisbilho,
Num coração de mãe a abençoar o filho,
Mostrando que no espaço, o amor também insiste…

Num sorriso de adeus, num pássaro que voa,
Num olhar, num inseto, em qualquer coisa à toa
A gente fica assim sorridente, assim leve,

Que os nossos sonhos ficam alvos como a neve,
Tendo sentido dentro d’alma uma esperança
Que faz sentir a paz num riso de criança!

Um Haikai 

de colchão em colchão
chego à conclusão
meu lar é no chão.
Paulo Leminsky (PR)

Uma Trova de São Paulo/SP

Quando a minha trova lerdes,
tereis plena segurança,
de que eu pus nuns olhos verdes,
a minha eterna esperança.
Antonieta Borges Alves

Uma Fábula em Versos 

O Corvo e a Raposa
Jean La Fontaine (França) 

O senhor mestre corvo, em um galho pousado,
No bico tinha preso um queijo apetitoso.
Sendo atraída ai pelo manjar cheiroso,
Diz-lhe mestra raposa em tom adocicado:
Bom dia, mestre corvo, meu senhor.
Que bonito que sois! Que penas, que esplendor!
Palavra que se a voz tendes maviosa
Quanto vossa plumagem é vistosa,

Sois a fênix, oh! Sim, das florestas daqui.
De orgulho, o corvo, então, nem coube mais em si.
E para a linda voz mostrar,
Descerra o bico e assim deixa o queijo escapar.
A raposa o agarrou e disse: Meu senhor,
Aprendei que o adulador
Vive à custa de quem lhe dá atenção
Vale um queijo por certo esta lição.
O pobre corvo, então, confuso e envergonhado,
Jurou, mas tarde já, não ser noutra apanhado.

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ

Na vida prossigo a pé
minha jornada não cansa:
de provisão – levo a fé;
de lenitivo – a Esperança
João da Costa

Uma Poesia 

Roberto Pinheiro Acruche (São Francisco de Itabapoana/RJ)
Sonhos

Quisera estar em seus sonhos de mulher
lhe dando tudo que deseja,
ser totalmente seu, de corpo e espírito;
vê-la sedenta de amor, bela e de alma leve.
Quisera ser o fogo que lhe aquece,
a água que lhe sacia e  imerge,
a brisa que beija o seu rosto,
o seu chão, para que possas caminhar
segura e confiante, construindo nele
todos os seus caminhos.

Uma Trova de Mogi das Cruzes/SP

Pelos caminhos da vida,
ora aflitiva, ora mansa,
guiou-me sempre a querida, 
a bendita luz da esperança.
Nelo Filipi

Um Soneto 

Olegário Mariano (Recife/PE)
O MEU RETRATO

 Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
 Tendo muito de orgulho e de altivez.
 Trago a pender dos lábios um cigarro,
 Misto de fumo turco e fumo inglês.

Tenho a cara raspada e cor de barro.
 Sou talvez meio excêntrico, talvez.
 De quando em quando da memória varro
 A saudade de alguém que assim me fez.

Amo os cães, amo os pássaros e as flores.
 Cultivo a tradição da minha raça
 Golpeada de aventuras e de amores.

E assim vivo, desatinado e a esmo.
 As poucas sensações da vida escassa
 São sensações que nascem de mim mesmo.

Cantinho do Izo Goldman 

Pedra só tem uma rima: medra; mas um repentista do Nordeste, cujo nome não ficou conhecido, fez uma originalidade:

Muito sabia a natureza
fez o cedro e não a “cedra”,
prá o poeta, com certeza
não fazer verso com… pedra!…

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Resende Costa/MG

Aguardo, espero com ânsia;
minha vida é esperar…
e contra toda a esperança
continuarei a te amar!…
Maria do Carmo Mendes 

Uma Poesia Boliviana

Luisa Talarico (Santa Cruz de La Sierra/Bolívia)
Naufragio

 Há uma sobra azul
grudada em minhas noites
   talvez um amor antigo
ou um anjo sem morada

Quando meu leito
naufraga na penumbra
   nesse mar  distante
de minha alcova
   essa imagen de anil
etérea e extraviada
me abraça e me resgata

 Então
   sou úmido
capricho de algum deus
até o alvorecer

Poesia de Cordel 

Maria Alice Oliveira (Belo Horizonte/MG)
Canteiros de Outono

A estação ainda é outono
 mais uma manhã nasce
 enaltecendo a beleza
 de nova manhã de abril

 na noite anterior choveu
 o vento que por aqui passou
 fez com que folhas e flores
 sobre os canteiros caissem

 algumas foram mais longe
 em cima de carros pousaram
 outras, de telhados e ruas
 as quais logo fenecerão

 uma diversidade de cores
 agora cobrem os canteiros
 deixando-os parecidos
 com multicoloridos tapetes

 mas um dos canteiros
 chamou-me a atenção
 pela diversidade de tons
 numa harmonia de cores

 encantei-me com tanta beleza
 e me pus a pensar sobre
 a sabedoria da natureza
 a qual tudo se ajeita

 e um misto de tristeza
 passou por mim ao pensar
 o quanto nós humanos
 somos alheos ao belo

 a pressa é tão grande
 num agitado cotidiano
 que poucos percebem
 a beleza em coisas simples

 como a de um canteiro
 que no outono floresce
 e consegue embelezar
 o solo que o acolhe

 e a vida vai passando
 num correr cotidiano
 apenas poucos constatam
 momentos de tanta beleza

 cada canteiro de outono
 vida efêmera terá
 mas quem conseguir percebê-lo
 com ele logo se encantará.

Uma Trova de Fortaleza/CE

Na mão o toco de giz,
na outra, o apagador;
na assistência o aprendiz,
no tablado o Professor!
Nemésio Prata Crisóstomo

 Modinha 

Em Horas Mortas
Autor Anônimo (PE)

I
 Em horas mortas da noite
 Da lua vejo o clarão.
 Tua beleza me prende
 Dentro do meu coração. } bis

 II
 Mulher não sejas ingrata,
 Deixa de ser traidora,
 Vem dar-me a mão de esposa
 Que tu serás mais ditosa. } bis

 III
 Os teus afetos, mimosa,
 Desejo, virgem querida
 Para gozar-te somente
 Como minha esposa na vida. } bis

 IV
 Se coroares de noiva
 Na sombra imineu
 Entre flores de laranja
 Tu serás minha e eu sou teu. } bis

 V
 Mulher não sejas ingrata,
 Tem pena de quem te adora,
 Vem dar alívio somente
 A um coração que te implora. } bis

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Um Poema da África

Aguinaldo Fonseca (Cabo Verde)
Canção dos Rapazes da Ilha

 Eu sei que fico.
Mas o meu sonho irá
pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.
Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá …

 Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos frutos, nos colares
E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes.
Eu sei que fico mas o meu sonho irá …

 Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Metido na garrafa bem rolhada
Que um dia hei de atirar ao mar.
Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá …
sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos veleiros que desenho na parede.

Cantigas Infantis 

Bela Pastora

É uma roda de meninas, com uma do lado de fora. Cantam as da roda:

 Lá em cima daquela montanha
 Avistei uma bela pastora
 Que dizia em sua linguagem
 Que queria se casar

 Quando as da roda cantam o quarteto seguinte, a pastora vem para o meio, a fim de aprender a brincar:

 Bela pastora entra na roda
 Para ver como se brinca
 Uma roda, roda e meia
 Abraçais quem vós quereis

 A garota que for abraçada, será então a pastora seguinte.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). 

Uma Quadra Popular

Hoje não venhas tarde
Dizes-me tu com carinho
Ou compras um relógio novo
Ou amanhã vai de carrinho.

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 25)

Uma Trova de Saquarema/RJ

O pobre já não aguenta,
 porque sempre, na hora “H”,
 quando ele vem com a pimenta,
 ela esconde o vatapá.
 João Costa (RJ)

Uma Trova Ecológica de Maringá/PR

A natureza protesta
 sempre que alguém a maltrata.
 – Se matas uma floresta,
 vem o deserto e te mata!
 A. A. de Assis

Uma Trova de Porto Alegre/RS

Olhando o sol na vidraça
 e o balançar das palmeiras,
 invejo a aragem que passa,
 indo afagar as roseiras.
 Carmen Pio

Trova de Concurso 

1962 – I Jogos Florais de Juiz de Fora/MG
Tema: Criança

Num circo de pano roto,
 minha infância se escondeu.
 – Em todo circo há um garoto
 e esse garoto sou eu…
Denancy Mello Anomal (Campos/RJ)

Um Soneto Decassílabo Heróico

Rommel Werneck (São Paulo/SP)
Pálido Pecado

Oh! Pálido Pecado da gris Morte,
Numa misteriosa e bela dança!
O jogo dos olhares… Esperança!
O movimento quente, lindo e forte…

Oh! Pálido Pecado que em mim lança
Fascínio, sedução… Oh falsa sorte
Que me deixa sem luz, céu, vida e norte!
Maldita e imaculada! Triste dança!

Oh! Pálido Pecado… Juventude…
Dança, dança, divina grã-beleza!
Dança, dança, lasciva grã-pureza!

Dança sem fim, desejo atormentado…
Virtude escura… Pálido Pecado…
Oh! Pálido Pecado de virtude!

Um Poetrix 

mulher nua
João Pedro Wapler (RS) 

na ponta do barbante
a roupa se faz 
e depois morre no corpo de alguém.

(Fonte: GOMES, Goulart (org.). 501 Poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2011 

Uma Trova de São Paulo/SP

Ao vir “de fogo” recua
 gritando, após a topada:
 – Que faz um poste na rua
 às duas da madrugada?!
 Therezinha Dieguez Brisolla

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

Por que é que vives, memória?
 Por que não passas também?
 Dás uma vida ilusória
 ao que já vida não tem.
 Filinto de Almeida [1857-1945] (Rio de Janeiro/RJ)

Francisco Filinto de Almeida, jornalista e poeta, nasceu no Porto, Portugal, em 4 de dezembro de 1857, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de janeiro de 1945. É o fundador da Cadeira nº. 3 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono Artur de Oliveira, de quem fora amigo e foi sucedido por Roberto Simonsen.

O pai faleceu pouco depois do nascimento de Filinto. Entrou para o Colégio Primário, no Porto, mas não chegou a concluir os estudos. 

Veio para o Brasil, na companhia de parentes pelo lado materno, que eram capitães de navios, com 10 anos, fixando-se no Rio de Janeiro a partir de 1868. Trabalhou como empregado numa papelaria. Não cursou qualquer estabelecimento de ensino. Entretanto, destacou-se no jornalismo e nas letras, por esforço e tenacidade singulares. 

Na mocidade, foi ensaiador de teatro e diretor de grupos amadores. Guardou até o fim o gosto pelo teatro e a mestria no dizer. Aos 19 anos, escreveu o entreato cômico Um idioma, representado em 1876, no Teatro Vaudeville. Em 1887, publicou Os mosquitos, monólogo cômico em versos e o primeiro livro de versos Lírica, composições de 1880 a 1887. 

Casou-se com a romancista Júlia Lopes de Almeida, em 28 de novembro de 1887, em Lisboa. Grande amigo de Valentim Magalhães, com ele colaborou no jornal literário A Semana, escrevendo, de 1885 a 1887, crônicas hebdomadárias e sonetos, com o pseudônimo de Filindal. No jornalismo usou também os pseudônimos Chico Férula, A., A. Bomtempo, A. Julinto (com Júlia Lopes de Almeida), Munícipe Urbano, João da Luz, Justo Leal. P. Talma e Zé Bananal. 

Filinto integrou-se como cidadão brasileiro, indo trabalhar como redator de A Província de São Paulo, depois transformada em O Estado de São Paulo, de 1889 a 1895. Foi deputado na Assembléia Legislativa de S. Paulo, de 1892 a 1897. Colaborou em A América (1879-1880), de que foi diretor, O Besouro (1878-1879), O Combate (1880), Folha Nova (1882), A Estação (1883), A Semana (1885-1887), O Mequetrefe (1886), todos do Rio de Janeiro; e no Diário de Santos (1898-1899) e A Comédia (1881), de São Paulo. 

Escreveu, em colaboração com a esposa, em folhetins do Jornal do Commercio, o romance A casa verde. Sua última obra é o livro Cantos e cantigas, publicado em 1915, que abrange as produções de 1887 a 1914. Na feição primitiva, era um lírico exclusivo. No segundo livro de poesias, revela progressos na forma e na inspiração. Firma-se como poeta parnasiano, expressando seus sentimentos e refletindo sobre o mundo exterior.

Um Soneto Alexandrino

Ciro de Verbena (Votorantim/SP)
Um Sonho de Ventura

Quem dera um dia houvesse um sonho de ventura
Feito em retalhos dos momentos mais felizes,
A proteger-nos na aflição da noite escura,
Sempre ocultando as nossas velhas cicatrizes…

E nesse sonho houvesse um mundo sem frescura;
Perdão divino as nossas falhas e deslizes,
Noites inteiras de paixão e de ternura,
Para esquecermos as lembranças infelizes!…

Talvez quem sabe o nosso sonho transformasse
Os bons momentos numa colcha de retalhos
Amenizando a fria dor da  realidade…

E cada lágrima rolada em nossa face
Se nos levasse pelas mãos por um atalho
Ao derradeiro encontro da felicidade!

Um Haikai 

Dissolve as estrelas 
uma luz no firmamento.
O sol da manhã.
Eliana Ruiz Jimenez (SC)

Outra Trova Ecológica de Maringá/PR

Embora nos cause mágoa,
 a lágrima é um grande bem.
 – Nada fazemos sem água,
 e é dela que tudo vem!
 Antonio Facci

Uma Fábula em Versos 

O Burro e os Donos
Jean La Fontaine (França) 

O burro de um hortelão
À Sorte se lamentava.
Dizendo que madrugava
Fosse qual fosse a estação,
Primeiro que os resplendores
Do sol trouxessem o dia.
«Os galos madrugadores –
O néscio burro dizia –
Mais cedo não abrem olho.
E porquê? Por ir à praça
C’uma carga de repolho,
Um feixe de aipo, ou labaça,
Alguns nabos e b’ringelas;
E por estas bagatelas
Me fazem perder o sono.»
A Sorte ouviu seu clamor,
E deu-lhe em breve outro dono,
Que era um rico surrador.
Eis de couros carregado,
Sofrendo um cruel fedor,
Já carpia ter deixado
O seu antigo senhor:
«Naquele tempo dourado –
Dizia – andava eu contente;
Cada vez que ia ao mercado
Botava à cangalha o dente,
Lá vinha a couve, a nabiça,
A chicarola, o folhado,
E outras castas de hortaliça;
Mas se hoje, fraco do peito,
O meu dente à carga deito,
Em vez da viçosa rama
Da celga, do grelo, ou nabo,
Só acho dura courama
Que fede mais que o diabo!»
Prestando às queixas do burro
A Sorte alguma atenção,
Lhe deu por novo patrão
Um carvoeiro casmurro.
Entrou em nova aflição
O desgostoso jumento.
Vendo faltar-lhe o sustento,
E em negro pó de carvão
Andando sempre afogado,
Tornou a carpir seu fado.
«Que tal! – diz a Sorte em fúria
– Este maldito sendeiro,
Com sua eterna lamúria,
Mais me cansa, mais me aflige
Que um avaro aventureiro
Quando fortunas me exige!
Pensa acaso este imprudente
Que só ele é desgraçado?
Por esse mundo espalhado
Não vê tanto descontente?
Já me cansa este marmanjo!
Quer que eu me ocupe somente
Em cuidar no seu arranjo?»
Foi justo da Sorte o enfado,
Que é propensão do vivente
Lamentar-se do presente,
E chorar pelo passado:
Que ninguém vive contente,
Seja qual for seu estado.

(Fonte: LA FONTAINE. Fábulas. SP: Martin Claret, 2005) 

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ

Quando a injustiça se expande
 e usurpa do povo o ganho,
 país nenhum se faz grande,
 não importa o seu tamanho!…
 Edmar Japiassú Maia

Uma Poesia 

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro) 
Tomara

Tomara
 Que você volte depressa
 Que você não se despeça
 Nunca mais do meu carinho
 E chore, se arrependa
 E pense muito
 Que é melhor se sofrer junto
 Que viver feliz sozinho

 Tomara 
 Que a tristeza te convença
 Que a saudade não compensa
 E que a ausência não dá paz
 E o verdadeiro amor de quem se ama
 Tece a mesma antiga trama
 Que não se desfaz

 E a coisa mais divina
 Que há no mundo
 É viver cada segundo
 Como nunca mais…

Uma Trova de São Paulo/SP

Não busco da vida o intento
senão de ser, todo dia,
feliz a cada momento
no meu ninho de poesia!
Jaime Pina da Silveira

Um Soneto 

Alma Welt (RS)
Anti-Soneto

Hoje decidi não escrever.
Sinto muito, não haverá soneto.
Não se trata de inspiração não ter,
Mas me faltou este quarteto.

O segundo me parece duvidoso:
É este que só quer aparecer.
Sem ter realmente o que dizer
Poderá criar um círculo vicioso.

Então me reduzi a um terceto:
O próximo, se este me resvale
E seja só um prólogo ou moteto.

Mas pensando bem, é melhor não:
Esta montanha é apenas o seu vale,
Ou uma torre que é só o rés do chão…

Cantinho do Izo Goldman 

Esta é uma que, felizmente não se perdeu. Clóvis Maia, num baile, à uma senhorita que trazia um “generoso” decote:

Este babado cercando
o teu decote rasgado,
deixa os barbados babando
prá babar no teu babado…

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Niterói/RJ

Tanta ternura mostrando,
 teus olhos – juro por Deus –
 são mil promessas bailando
 na valsa do nosso adeus…
 Milton Nunes Loureiro

Versos de Chico Buarque de Hollanda (RJ)

Desencontro 

A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis

Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esquece

Uma Poesia Boliviana

Francisco Azuela (LaPaz/Bolívia)
Estrangeiro um

Neste poema de mortos morreu teu pai
morreram teu avô,
tua semeada e se acabou a tarde numa mirada. 

 Morreu o amor de teus antepassados,
morreram teus pássaros
e despencou a estrela de tua frente
como um punhado de rosas enfermas.

 Morreu a tua vida,
pela segunda vez morreu tua pátria,
e ficaste olhando como um arco-iris.

 Queimaram-se as tuas árvores,
cordilheiras de pinheiros,
de ilusões.

 Rompeu-se o sangue em dois rios
e um esqueleto em teus olhos de neve
buscou tua gente.

 Os uivos silenciavam a noite,
lambiam as sombras
com um pavor no ventre desfeito ,
– quem ouvia o eco das montanhas,
o som das cotovias
e um movimento de gemidos
a quatro mil quilômetros de vida?

 Metidos na lama até ao pesadume
como loucos desviando o instante
quando no fundo vazio,
sem espelhos,
ninguém te aguarda,
uma mandrágora chupa sangue,
troços de terra.

Poesia de Cordel 

Antonio Alvares (São Bento do Sul/SC)
Navegando no Infinito Mar do Cordel 

Eu nasci lá no Nordeste,
 Faz tempo, vivo no Sul
 Me aposentei em Curitiba,
 Já morei em Caxias do Sul
 Agora, passando um tempo…
 Moro em São Bento do Sul.

 Mas daqui a pouco tempo,
 Devo voltar ao Paraná
 Podendo ser Ponta Grossa,
 Quem sabe, pode ser lá…
 Por vontade de uma filha,
 De Curitiba, não afastar!

 Cordelista, vou seguir
 Poeta, só por amar…
 A poesia de cordel,
 No sangue, costuma estar!
 De origem lá no Nordeste,
 E Portugal, lá no Leste,
 Sigo no mundo a viajar!

 Com caravela moderna,
 Nesse mundo a navegar…
 Pois tendo alma gaúcha,
 Um dia eu volto pra lá…
 E do Rio Grande do Sul,
 Para um Céu de cor azul,
 A última mudança… Quiçá!

 Modinha 

Desprezo as Ricas Salas
Autor Anônimo

I
 Desprezo as ricas salas,
 As festas que a praça tem;
 Só prezo o canto das aves,
 Só no ermo eu vivo bem…

 II
 A vida é um prêmio perdido,
 Como um barquinho sem vela.
 Eu sinto a cada momento,
 A cópia do rosto dela.

 III
 Mas se um dia, cansado
 Gelar-me o sopro da morte,
 Com meu olhar moribundo,
 Um triste adeus digo à sorte…

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Um Soneto da Espanha

Calderón de la Barca [1600-1681] (Madrid/Espanha)
A Noite
Esses lúcidos rasgos, essas velas
que cobram com amagos superiores
alimentos do sol em resplendores,
aquilo vivem que se sofre delas.

 Flores noturnas são: embora belas,
efêmeras, padecem seus ardores;
pois, se um dia é o século das flores,
uma noite é a idade das estrelas.

Dessa, pois, primavera fugitiva
já nosso mal, já nosso bem decorre;
registro é nosso, ou morra o sol ou viva.

Que duração, na senda que percorre
o homem, ou que mudança não deriva
de astro que a cada noite nasce e morre?

Cantigas Infantis 

A Margarida

Uma menina da saia larga e as outras pegando na barra do vestido dela, formando uma roda. Do lado de fora uma outra garota, volteando e cantando:

 Onde está a Margarida,
 Ô lê ô lê ô lá;
 Onde está a Margarida
 Ô lê, seus cavalheiros.

 Respondem as da roda:

 Ela está em seu castelo.
 Ô lê ô lê ô lá
 Ela está em seu castelo,
 Ô lê, seus cavalheiros.

 A menina do lado de fora:

 Mas eu queria vê-la.
 Ô lê ô lê ô lá;
 Mas eu queria vê-la,
 Ô lê, seus cavalheiros.

 A roda:

 Mas o muro é muito alto,
 Ô lê ô lê ô 1á
 Mas o muro é muito alto,
 Ô lê, seus cavalheiros.

 A menina de fora, da roda, tira uma outra e canta:

 Tirando uma pedra,
 Ô lê ô lê ô lá;
 Tirando uma pedra.
 Ô lê, seus cavalheiros.

 A roda:

 Uma pedra não faz falta
 Ô lê ô lê ô lá
 Uma pedra não faz falta.
 Ô lê, seus cavalheiros.

 A menina de fora tira uma por uma da roda, só deixando mesmo a Margarida. À medida que vão saindo, as que continuam na roda, cantam: Uma pedra não faz falta, duas pedras não faz falta, três pedras, etc. até sair a última. Nesta ocasião, cantam todas:

 Apareceu a Margarida
 Ô lê o lê ô lá
 Apareceu a Margarida
 Ô lê, seus cavalheiros.

 Se querem brincar de novo, repetem os mesmos versos.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). Disponívelem Jangada Brasil.

Uma Glosa 

de Gislaine Canales (SC) sobre Mote de Ademar Macedo (RN)

MOTE:

Se a inspiração me emitir
 todo dia, idéias novas
 brevemente irei abrir
 um Shopping Center de Trovas!
 (Ademar Macedo)

GLOSA:

 Se a inspiração me emitir
o que eu mais gosto de ter,
 eu vou, das musas, ouvir
 sobre o que, devo escrever!

 É bom ganhar de presente,
todo dia, idéias novas,
pois isso, faz bem à gente,
 nos lançando a belas provas!

 Não vou mesmo resistir…
 Sendo assim, então garanto,
brevemente irei abrir
um novo e belo recanto!

 Quero o seu consentimento:
 Diga, amigo, se me aprovas!
 Abrirei com sentimento,
um Shopping Center de Trovas!
(Gislaine Canales)

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 24)


Uma Trova de Belo Horizonte/MG

Tem gente que tanto mente,
conta lorota, faz fita,
que, da verdade descrente,
nem em si próprio acredita.
Clevane Pessoa (MG)

Uma Trova Ecológica de São Paulo/SP

Uma pétala orvalhada,
uma gota luminosa
é um beijo que a madrugada
deixou na face da rosa.
Thalma Tavares (SP)

Uma Trova daqui de Maringá/PR

Milhões e milhões de estrelas…
Que utilidade terão?
– Só sei, meu irmão, que ao vê-las
sinto Deus no coração!
A. A. de Assis (PR)

Trova de Concurso

1978 – XII Jogos Florais de Pouso Alegre/MG
Tema: Virtude

Virtude é vaso lavrado,
cristal de fino lavor,
mas que perde, se trincado,
quase todo o seu valor.
Walter Waeny (Santos/SP)

Um Poetrix

matinal
Judith de Souza (MG)

busco a poesia, de teimosia,
pintando quadros negros
com luzes de Monet

(Fonte: GOMES, Goulart (org.). 501 Poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2011

Uma Trova de São Fidélis/RJ

Eu quero ser o seu vinho,
o cálice que inebria;
ser seu parceiro no ninho,
ser madrugada, seu dia!
Antonio Manoel Abreu Sardenberg (RJ)

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

No portão os namorados
são como barcos no cais:
pelos beijos amarrados,
querem ir e ficam mais.
Cleonice Rainho [1919-2012] (MG)

Cleonice Rainho nasceu em Angustura, na mineira cidade de Além Paraíba, em 15 de março de 1919. Faleceu em 21 de maio de 2012, em decorrência de uma pneumonia.

Bacharelou-se em Letras em Juiz de Fora, e, junto com Augusto Gotardelo foi para a Pontifícia Universidade Católica (PUC) no Rio de Janeiro, onde fez pós-graduação, voltando a Juiz de Fora na condição de professora.

Lecionou na Faculdade de Letras da UFJF e em outros estados.

Proferiu diversas conferências sobre temas referentes à educação, às letras e à cultura brasileira, não só em seu país, como em Portugal e na África.

A carreira literária começou em colaborações na imprensa local, principalmente nos jornais “Gazeta Comercial” e “Diário Mercantil”. Integrou vários movimentos culturais e literários em diversos estados. Recebeu premiações em concursos e realizou inúmeras palestras sobre educação e cultura no Brasil, em Portugal e na África.

Na década de 1980, a obra da escritora representou um contraponto aos movimentos de poesia canalizados em publicações como as revistas “Bar Brasil”, “Abre-Alas” e “D’Lira”. Na mesma época, a autora já havia transformado a Associação de Cultura Luso-Brasileira – entidade que fundou e presidiu durante 25 anos – em referência no estudo de clássicos.

Em 1981, ela promoveu, em Juiz de Fora, na ex-sede da antiga Superintendência da Fazenda, um salão de poesia, convidando artistas da cidade para produzirem poemas.

Com cerca de 30 obras publicadas, entre livros, antologias e ensaios, estão entre as principais “Terra corpo sem nome”, de 1970; “Vôo branco”, de 1979; “Intuições da tarde”, de 1990; “Verde vida”, de 1993; “O palácio dos peixes”, de 1996; “O linho do tempo”, de 1997; “Poemas chineses”, de 1997, e “Liberdade para as estrelas”, de 1998.

Trabalhou para o Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais e para o MEC na Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (Cades).

Uma das fundadoras do Conselho Curador da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), foi ainda criadora da Associação de Cultura Luso-Brasileira em Juiz de Fora, trabalho que lhe rendeu a “Ordem do Infante Dom Henrique”, concedida pelo Governo de Portugal.

Ainda em Juiz de Fora, foi agraciada com a “Comenda Henrique Guilherme Fernando Halfeld”.

Um Haikai

A vida mentiu.
Brincou comigo sorrindo
E depois fugiu.
Silvério da Costa (SC)

Uma Trova de Ponta Grossa/PR

Da viagem pouco importa
minhas dores e cansaços,
se ao voltar te encontro à porta
a receber-me nos braços!
Amália Max (PR)

Uma Fábula em Versos

O Leão Enamorado
Jean La Fontaine (França)

Leão de alta prosápia,
Passando por um prado,
Certa zagaia viu mui de seu gosto,
E esposa foi pedi-la.
Quisera o pai menos feroz o genro.
Bem duro lhe era o dar-lha: —
Mas também o negar-lha mal seguro;
E que inda a ser possível
Negar-lha, é de temer não venha a lume
Clandestino consórcio;
Que amava os valentões a mocetona.
De grado se encasquetam
As moças, de estofadas cabeleiras.
O pai, que não se atreve
A despedir o amante tanto às claras:
“Minha Filha é mimosa,
E vós podeis, entre esponsais carícias,
Arranhá-la com as unhas:
Consenti um cerceio em cada garra,
E em cada dente a lima.
Porque os beijos lhe sejam menos ásperos,
E a vós mais voluptuosos.
Que, sem tais sustos, há de a minha filha
Prestar mais meiga a boca”.
Consente o leão: desmantelada a praça,
Falto de unhas e dentes.
Laçam-lhe os cães, vai-se o leão. Sem unhas
Como há de resistir-lhes?
Quando, Amor, nos agarras, bem podemos
Dizer: “Adeus, prudência!”

(Fonte: LA FONTAINE. Fábulas. SP: Martin Claret, 2005)

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ

No silêncio da memória,
onde a saudade faz ninhos,
eu deixei a nossa história
e vivo a paz dos sozinhos!
Joaquim Carlos (RJ)

Uma Poesia

Este Inferno de Amar
Almeida Garrett (Portugal)

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembro: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? – não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei…

Uma Trova de Caicó/RN

Não busco da vida o intento
senão de ser, todo dia,
feliz a cada momento
no meu ninho de poesia!
Mara Mellinni (RN)

Um Soneto

Francisco Neves Macedo (RN)
Tributo ao Dicionário

O dicionário, qual mulher incrível,
e sempre para nós, indispensável,
numa entrega total, imensurável,
doando para nós, todo o possível.

Se o verso parecer quase impossível
por sua doação, fica viável
e neste conviver terno e saudável
torna a vida mais doce e mais sensível…

É você, meu amigo dicionário,
nosso caso de amor extraordinário
jamais terá divórcio, ele é moderno.

Vamos esparramar nossa poesia
em romântica e doce parceria…
Nosso caso de amor será eterno!

Cantinho do Izo Goldman

Zalkind Piatgorsky, entrevistado por Hebe Camargo no programa O Mundo é das Mulheres, saiu-se com:
Seja pois, como quiseres,
que dá certo, felizmente:
este mundo é das mulheres
e… as mulheres são da gente!…

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Natal/RN

Que venham chuva e calor,
que os ventos desçam ou subam,
pois ninhos feitos de amor
tempestades não derrubam…
Ademar Macedo (RN)

Uma Poesia Boliviana

Konzuelo Villalobos (Santa Cruz de la Sierra/Bolívia)
Desenho Interior

I

A medida dos ocasos
o grau de escuro
a proporção
da desproporção
e um pêndulo
entre o medo e o dia

Nem sabemos o tamanho
diseminado insurrecto
que se aninha
nem quando desata a chuva
ou quando sai a correr
seus cacos a partir
de um abraço furtivo

II

Espaço adentrado
equidistante da noite
reconquistando
às costas a desmesura
até ser vertigem
abismo antigo
névoa ocultada
até um céu negro infinito
os escarpados

E então
a soledade de um receio
assemelhando-se
em sua margem mesma
ao que mais amo

Poesia de Cordel

Valéria Bezerra da Silva e Jéssica dos Santos Oliveira (Campina Grande/PB)
Bullying

Com licença minha gente
Precisamos de concentração
Pra falar de um tal de Bullying
Que requer muita atenção
Oh nominho complicado
Poucos sabem de onde vem
Foi o povo americano
Que inventou esse desdém
E aqui pode ser falado
Como valentão ou tirano

Esse danado perturba muita gente
É um negócio confuso
E mais comum do que se imagina
Sendo na escola o lugar mais presente
Misturando exclusão, humilhação
Desprezo e perseguição

Então vamos ficar atentos
E sobre ele prosear
É uma violência silenciosa
Muitas vezes banalizada
Que é preciso apurar
Pois omissos não podemos ficar

Como brincadeira de mau gosto
Invade caladamente as escolas
Deixando na vida de muita gente
Cicatrizes e péssimas memórias
Levantemos essa bandeira
Em nome de todos e da população brasileira

Peço licença novamente
Pra falar a pais e professores
Que ausência de afeto e acolhimento
Não nos trazem resultados promissores
Esse fator merece vigilância e intervenção
Pois assim, analisamos melhor a situação
E não vemos tanta violência nos corredores

A pessoa fica depressiva
Podendo até se matar
Esse é o Bullyncídio
Que juntos podemos evitar
É pessoal, o negócio não é fácil não
E ninguém merece passar por tamanha humilhação.

Aqui tem pano pra manga
Como o leitor percebeu
Mas vamos ficando por aqui

Pois é uma discussão longa
Reflitam todos sobre o Bullying
E não permitam omitir
Então respeitemos os colegas
E as pessoas em geral
Solucionar esse problema
É agora fundamental
Pôr em prática a discussão
É o passo inicial.

Versos de Elomar Figueira Melo (PR)

Acalanto

Certa vez ouvi contar
Que muito longe daqui
Bem pra lá do São Francisco, ainda pra lá…
Em um castelo encantado,
Morava um triste rei
E uma linda princezinha,
Sempre a sonhar…

Ela sempre demorava
Na janela do castelo
Todo dia à tardezinha, a sonhar…
Bem pra lá do seu castelo,
Muito além, ainda mais belo,
Havia outro reinado,
De um outro rei.

Certo dia a princesinha,
Que vivia a sonhar
Saiu andando sozinha,
Ao luar…

E o castelo encantado
Foi ficando inda prá lá
Caminhando e caminhando,
Sem encontrar.

Contam que essa princezinha
Não parou de caminhar,
E o rei endoideceu,
E na janela do castelo morreu,
Vendo coisas ao luar.

Modinha

Acorda, vem ouvir!
Autor Anônimo (PE)

I
Acorda! Vem ouvir. Desperta!
Chega à janela do sacrário teu
Vem ver a rua. Ah! como está deserta!
Soltar as tranças sobre o peito meu } bis

II
Disponha para mim teus longos beijos,
Já procurei o delírio da manhã,
Já vem surgindo o pálido lampejo
Estrela Dalva sua linda irmã } bis

III
Esta é a derradeira quadra
Que sente n’alma o delírio de um cantor
Acorda, acorda, ó minha amada, acorda
Quero em teus braços sucumbir de amor } bis

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). Recolhida da tradição oral em Flores do Estado de Pernambuco.
Jangada Brasil
Um Soneto da Espanha

Miguel de Cervantes [1547-1616] (Alcalá de Henares/Espanha)
Quem Deixará, Do Verde Prado Umbroso

Quem deixará, do verde prado umbroso,
as frescas ervas e as lustrais nascentes?
Quem, de seguir com passos diligentes
a solta lebre, o javali cerdoso?

Quem, com o canto amigo e sonoroso,
não prenderá as aves inocentes?
Quem, nas horas da sesta, horas ardentes,
não buscará nas selvas o repouso,

por seguir os incêndios, os temores,
os zelos, iras, raivas, mortes, teias
do falso amor que tanto aflige o mundo?

Do campo são e hão sido meus amores,
rosas são e jasmins minhas cadeias,
livre nasci, e em livre ser me fundo.

Cantigas Infantis


A Cor Morena

Uma roda de crianças, com uma no meio. Cantam as da roda:

A cor morena
É cor de ouro
A cor morena
É meu tesouro

Responde a menina do centro:

É de meu gosto, }
É de minha opinião, }
Hei-de amar a cor morena }
Que papai queira, que não } bis

A roda:

A cor morena
É cor de prata,
A cor morena
É quem me mata

A menina:

É de meu gosto }
É de minha opinião }
Hei de amar a cor morena }
Com prazer no coração } bis

A roda:

A cor morena
É cor de canela,
A cor morena
É uma cor tão bela

A menina:

É de meu gosto, }
É de minha opinião, }
Hei de amar a cor morena }
Que papai queira, que não } bis

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953).

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 23)


Uma Trova de Fortaleza/CE

– Ao andar sinto cansaço.
Que me aconselha,doutor?
– Nenhum remédio lhe passo.
Só tome um táxi,senhor!
Aloísio Bezerra (CE)

Uma Trova Triste de Santos/SP

Porto meu, tu sabes quantas
as mágoas que um peito vive:
nas partidas que são tantas…
nas chegadas… que não tive.
Nilo Entholzer Ferreira [1938-2004] (SP)

Uma Trova de Bandeirantes/PR

Cansou-se de algum amigo?
Deseja que ele se vá?
Empreste-lhe algum dinheiro,
e nunca mais o verá!
Dieno Castanho (PR)

Trova de Concurso

1975 – I Concurso de Trovas de Barra do Piraí/RJ
Tema: Jovem

0 que me faz menos triste
na vida, perto do fim,
é saber que ainda existe
um JOVEM dentro de mim!…
José Maria M. Araújo (Remos/RJ)

Um Poetrix

Palavras
Quedam-se nas linhas.
Nós só precisamos
das entrelinhas.
Jussara Midlej (BA)

(Fonte: GOMES, Goulart (org.). 501 Poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2011

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ

Dia a dia vai se impondo
este conceito batata:
a Terra é um mundo redondo
repleto de gente chata…
Aparício Fernandes (RJ)

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Pensais de mim que sou cego,
e que sou doido perfeito.
Mas eu também não vos nego
ter de vós igual conceito.
Emiliano Perneta (PR)

Emiliano David Perneta (Curitiba, 3 de Janeiro de 1866 – 21 de Janeiro de 1921) foi um poeta brasileiro.

Nascido em um sítio de Pinhais, na zona rural de Curitiba, incorporando ao sobrenome um apelido de seu pai.

Considerado maior poeta paranaense, começou influenciado pelo parnasianismo. Republicano no Império, tanto que no dia 15 de novembro de 1889 formou-se em direito, sendo escolhido orador da turma, fez um discurso inflamado em defesa da República, sem saber que a mesma havia sido proclamada horas antes no Rio de Janeiro.

Foi abolicionista, continuando nos ideais da liberdade, passa a fazer palestras, publica artigos políticos e literários, assim como passa a incentivar, em Curitiba, a leitura do escritor Baudelaire, fato marcante para o surgimento do simbolismo no Brasil. Publicou seus primeiros poemas em O Dilúculo, de Curitiba, em 1883.

Mudou-se para São Paulo em 1885, onde fundou a Folha Literária, com Afonso de Carvalho, Carvalho Mourão e Edmundo Lins, em 1888. No mesmo ano publicou as obras poéticas Músicas, de versos parnasianos, a Carta à Condessa d’eu. Foi também diretor da Vida Semanária, com Olavo Bilac, e colaborador do Diário Popular e Gazeta de São Paulo.

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1890. Lá, colaborou com vários periódicos e , em 1891, foi secretário da Folha Popular, na qual foram publicadas as manifestações inicias do movimento simbolista, assinados pelos poetas B. Lopes, Cruz e Sousa e Oscar Rosas.

De volta ao Paraná, criou a revista simbolista Victrix em 1902. Em 1913 publicou o poema livreto Papilio Innocentia, para a ópera do compositor suíço Léo Kessler, sobre o romance Inocência de Visconde de Taunay.

Sua obra poética inclui Ilusão (1911), no qual se faz presente a estética simbolista, Pena de Talião (1914), os póstumos Setembro (1934) e Poesias Completas (1945).

Pelo seu dinamismo e obras, foi homenageado por diversos contemporâneos, entre eles, Nestor Victor, Lima Barreto, Andrade Muricy. Tais homenagens aconteceram em vida e também após a sua morte, ocorrida no dia 21 de Janeiro de 1921.

Principais Obras
• Ilusão (poemas – 1991),
• Pena de Talião (1914),
• Setembro (poemas – 1934) (póstumo).

Um Haikai

Córrego de inverno.
Agora posso contar
as pedras do fundo.
Neide Rocha Portugal (PR)

Uma Trova de Santana do Livramento/RS

Uma vez roubei-te um beijo
E uma tapa me deste então…
Conservo o mesmo desejo,
Mas … respeito tua mão!
Gilberto Bueno (RS)

Uma Fábula em Versos

O Gato e o Rato Velho
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Num fabulista li que um tal bichano
Rodilardo segundo,
Tomou a peito, exterminando os ratos,
Livrar deles o mundo.

No felino Alexandre os ratos viam
Átila algoz e fero;
Tremiam todos, uma légua em torno,
Desse novo Cérbero.

Arsênico, mundéus, tábuas em falso,
E toda a ratoeira
Eram, do gato a par, armas de morte,
De infantil brincadeira.

Mas, vendo o nosso herói que a grei dos ratos
Das tocas não saía,
E, por mais forte caça que lhe desse,
Nem um aparecia;

Pendura-se, ocultando as ligaduras,
Pelos pés, numa viga,
Para iludir, fingindo-se de morto,
A caterva inimiga.

Julgam os ratos justiçado o biltre,
Porque a alguém arranhara,
Porque talvez furtara assado ou queijo.
Ou panelas quebrara.

Todos ajustam de lhe rir no enterro,
Em tripúdio escarninho.
Pondo no ar o nariz, a medo avançam
A ponta do focinho.

Voltam todos depois aos seus buracos;
Mas, de novo saindo,
Dão quatro passos, a sondar terreno,
Farejando, inquirindo.

Mas o melhor da festa é que o defunto,
Ressurge inopinado,
E, em pé caindo, agarra alguns que a toca
Não tinham alcançado.

“Sei outras artes mais (diz mastigando-os);
Foi velho ardil de guerra
Este que vistes. De que vale, estultos,
Esconder-vos na terra?

Não vos hão de salvar essas cavernas
Que vos servem de abrigo.
Caireis, um por um, cá no bandulho.
Crede no que vos digo.”

Cumpriu-se a predição, Mestre Melúria
Mais outra lhes pregou;
Branqueando em farinha, em ucha aberta
Matreiro se agachou.

Saiu-se bem da treta, pois os bichos
Que dão curtos pulinhos,
Vieram nos gadanhos do verdugo
Cair como patinhos.

Só não foi farejá-lo um rato velho,
Mitrado e mui sabido,
Versado em tricas e que num combate
Tinha o rabo perdido.

E pois, de longe, ao general dos gatos
Gritou: “Eu nessa massa
Nada vejo de bom; antes suspeito
Que encobre uma trapaça.

Para nada te serve o ser farinha;
E quando foras saco,
Não me chegara, que devemos todos
Fugir de ti, velhaco”.

E disse bem. Aprovo-lhe a prudência;
Pois que a desconfiança,
No conceito da gente experiente,
E mãe da segurança.

(Fonte: LA FONTAINE. Fábulas. SP: Martin Claret, 2005)

Uma Trova de Juiz de Fora/MG

“Sufoco” é andar espremido
e ter que aguentar, calado,
“desodorante vencido”
em coletivo lotado!!!
HELOISA ZANCONATO PINTO (MG)

Uma Poesia

Jogo de Bola
Cecília Meireles (RJ)

A bela bola
rola:
a bela bola do Raul.

Bola amarela,
a da Arabela.

A do Raul,
azul.

Rola a amarela
e pula a azul.

A bola é mole,
é mole e rola.

¨
A bola é bela,
é bela e pula.

É bela, rola e pula,
é mole, amarela, azul.

A de Raul é de Arabela,
e a de Arabela é de Raul.

Uma Trova de São Paulo/SP

Na luta pela conquista
de um bom salário, valentes,
a manicure e o dentista
lutam com “unhas e dentes”…
Therezinha Diegues Brisolla (SP)

Um Soneto

Carmo Vasconcelos (Lisboa/ Portugal)
Marés da Vida

Meu coração recorda ao ver-te assim,
quando os amenos ventos ondulavam
os teus cabelos negros que encimavam
a testa sábia e lisa tal cetim;

Quando em teu rosto suave de delfim,
dois olhos de condor audaz lançavam
p?los céus além, os sonhos que sonhavam,
jovens e ousados nos ideais sem fim.

Mas se as marés da vida te enrugaram
a lisa tez; cabelos te roubaram;
e sonhos ruíram nesse olhar cansado…

Meu coração revê-te, deslumbrado,
pela sapiência que emergiu florida
da murcha flor-beleza em despedida.

Cantinho do Izo Goldman

Num dos Jogos Florais em Porto Alegre, os trovadores “paparam” um prato típico do Rio Grande em casa de Nair Silveira, “arroz carreteiro” servido debaixo de uma parreira. Sara Kanter disse:
Debaixo de um parreiral
um “carreteiro” atrevido
veio quente e, deu-se mal,
pois foi servido e… comido…

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Curitiba

Como “Luiz Hélio” ou “anônimo”,
meu trovar não é bem sábio.
Necessito de um pseudônimo…
Quem me dera Luiz Otábio!
Luiz Hélio Friedrich (PR)

Um Soneto da Espanha

Francisco de Quevedo (1560 – 1645)
Soneto

A fugitivas sombras dou abraços,
em sonhos cansa-se a alma nesta via,
passo sozinho em lutas, noite e dia,
com um trasgo que trago entre meus braços.

Quanto mais vou cerni-lo com meus laços,
em vendo meu suor se me desvia.
Volto com nova força a esta porfia
e tal teima de amor faz-me em pedaços.

Vou vingar-me na imagem doidivana,
que não me sai da vista onde a recrio;
de mim se burla, e se burla ufana.

Se começo a segui-la, falta brio;
e, como de alcançá-la tenho gana,
faço correr-lhe atrás o pranto em rio.

Poesia de Cordel

Derly Silva (RS)
Trova no Céu

O Rio Grande está de luto
O verso, a trova e a rima
E quem, um programa anima,
Fala com dificuldade
Já sentindo uma saudade
Do nosso Gildo querido
Que por Deus foi recebido
Nos pagos da eternidade.

O céu é que está em festa
Com cantoria e rodeio
Com pingo mascando o freio
E corde 3ona resmungando
Um palco grande esperando
Quem todo mundo respeita
O velho Gildo de Freitas
Que já entra improvisando.

Parece que vejo os anjos
Vibrando a cada verso
Vejo o patrão do universo
Enfezado com os anjinhos
Eles todos sentadinhos
E tu cantando mais ainda
Aquela milonga linda
História dos passarinhos.

O Mi Maior de Gavetão
É que não vai faltar lá em cima
E aquela chuva de rimas
Saudando Nosso Senhor
Os anjos jogando flor
Toda platéia vibrando
E o verso que sai corcoveando
Da güela do trovador.

Eu só achei muito cedo
Daqui a tua partida
Que essa platéia querida
O Rio Grande nativista
O mundo regionalista
Já estão sentindo muito
Queriam estar sempre juntos
Desse grande repentista.

Mas por certo que São Pedro
Tava mal de trovador
Ou então Nosso Senhor
Ordenou ao capataz
Vai lá na terra e me traz
Mais um taura pra trovar
E tu nos leva sem pensar
Na falta que o Gildo faz.

Se tu já tens o Tereco,
O velho Inácio Cardoso,
Velho porém, talentoso
Tens até Garoto de Ouro
É por isso meu estouro
Vens aqui e teu lado ajeitas,
Nos leva Gildo de Freitas
O nosso maior tesouro.

A platéia brasileira.
A gauchada, especialmente,
Sem teu verso no repente
Até não sei se suporta
É um elo que se corta
Pelo destino perverso
E a fábrica do verso
Fecha pra sempre sua porta.

Versos de Gildo de Freitas (RS)


Filho Sem Coração
(Sobre a beira de uma estrada eu me encontrei com um velhinho
Que ao me ver churrasqueando me pediu um pedacinho
E me contou coitado todo, todo o seu passado
que teve no seu caminho
Senhor eu sou um homem velho, mas sou um velho de brio
Eu nunca fui vagabundo eu vivo assim pelo mundo
tristonho sem ter auxilio, mas fui homem que trabalhei
E gastei tudo o que ganhei para dar estudo ao meu filho
Foi pena que esse meu filho depois de moço formado
Casou-se com uma moça filha de um rico afamado
E ela me escorraçou e o meu filho concordou
Por isso eu vivo atirado assim faço meus trabalhos
Já velho sem agasalho e eles num bom sobrado
Minha mulher de paixão já está embaixo do chão
Não vive mais a meu lado e ainda por judiação
Me correm do seu portão esquecendo o seu passado)

Manda os criados me correrem do portão
E o meu filho nem sequer na porta sai
Agrada o sogro que é o pai da mulher dele
Por causa dela esqueceu que eu sou seu pai
E nem sequer reconhece o sacrifício
Que eu fiz na vida pra manter o seu estudo
Não guardei nada para manter a velhice
Porque eu com ele o que eu tinha eu gastei tudo

Hoje velhinho enfraquecido desse jeito
E solitário no mundo sofrendo assim
Maldito estudo que eu lhe dei sem ter proveito
Ser pai de filho e não ter ninguém por mim
Quando eu tombar no meu derradeiro sono
Faça uma cova e uma cruz de pau do mato
E um letreiro: Morre um pai no abandono
Por dar estudo a um filho tão ingrato

Modinha


A Vida Desta Alma…
Autor Anônimo (PE)

I
A vida dest’alma deponho em teus pés
Não pode esta vida ser minha, bem vês?!…
Te amo, e bem sabes que morro por ti;
Deliro e padeço, depois que te vi.

II
Teus olhos têm chamas, teus olhos têm luz,
E a alma incendeia, nos flocos azuis…
Te amo, e bem sabes que morro por ti!
Deliro e padeço, depois que te vi.

Nota: Pertence ao folclore pernambucano. Recolhida em Triunfo, no fim do século XIX.

Uma poesia Chilena

Pablo Neruda (Parral/Chile)
Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…

Saudade é sentir que existe o que não existe mais…

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Cantigas Infantis

A Barca Virou

É uma roda de crianças, todas de mãos dadas. Cantam:

A barca virou,
Por deixar de virar,
Por causa de Fulana,
Que não soube remar

Quando as meninas dizem Fulana, (Maria, por exemplo), esta se vira para fora da roda e continua de mãos dadas, em sentido contrário. Cantam novamente o quarteto, mudando apenas o nome de outra menina, que igualmente vira para fora da roda. E assim sucessivamente, até a última. Depois, todas batem palmas e pulam.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953).

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 22)

Uma Trova de Moji-Guaçu/SP
Todo mundo tem espelhos que não querem nem olhar. Não à toa Deus nos fez com olhos duplos, dois espelhos que refletem mal e bem.
Feito um cisne sem reparo,
ando e paro num jardim:
tu me olhas e eu te encaro,
dois patinhos feios, sim…
Olivaldo Junior (SP)

Uma Trova Ecológica de Belo Horizonte/MG

Humanidade, não deixes
que entulhos causem enchente:
nos rios morrem os peixes
e na terra, morre gente!
Wanda de Paula Mourthé (MG)

Uma Trova de Curitiba/PR

A procura é uma constante,
um disfarce da ilusão…
Tesouro, mais que bastante,
é o que está no coração!
Mário A. J. Zamataro (PR)

Trova de Concurso

1991 – III Jogos Florais de Amparo
Tema: Fonte

Para dar vida ao riacho,
a fonte, espelho da mata,
quebra-se e cai, serra abaixo,
desfeita em cacos de prata.
Orlando Brito (São Luís/MA)

Um Poetrix

A outra
Marilda Confortin (PR)

hoje, uva
amanhã, passa
Eu, vinha.

(Fonte: GOMES, Goulart (org.). 501 Poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2011

Uma Trova de Magé/RJ

Não pense que todo amigo,
pode ser um confidente,
às vezes fala contigo
e te entrega logo à frente.
Benedita S. Azevedo (RJ)

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Prato cheio, esse menino,
faz birra, chora e não come…
E muitos têm por destino
toda uma vida de fome!
Eloyna Salgado Ribeiro (SP)

A escritora Eloyna Salgado Ribeiro (1917-1999) nasceu em Pindamonhangaba em 01 de dezembro de 1917. Filha de José Benedito Salgado e Emília Salgado. Casou-se com Manoel César Ribeiro (falecido em 16/07/81) e teve 9 filhos.

Sempre gostou de escrever. Colaborou em antologias, revistas, jornais e programas de rádio.

Possui crônicas, contos e poemas premiados em diversos concursos.

Trovadora premiada e integrante do grupo de intelectuais que fundou a seção municipal da UBT dePindamonhangaba em 1992.

Era membro efetiva da Academia Pindamonhangabense de Letras.

Publicou “O último Cabloco”, livro de poemas sertanejos, “A vida nos Balcões da Pequena Pindamonhangaba” e “Fundo de Gaveta”.

Um Haikai

Casacos de pele,
por sorte artificiais.
Mentira ecológica.
A. A. De Assis (PR)

Uma Trova de São José dos Bezerros/PE

Se não se pinta uma rosa,
porque beleza já tem,
em uma face mimosa
não se põe tinta também.
Bezerra da Cunha (PE)

Uma Fábula em Versos

A Mulher Teimosa Afogada
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Um homem que era casado
Com mulher néscia e teimosa,
Que tinha um gênio danado,
Foi um dia
Fazer certa romaria,
Distante do povoado.

Eis que um rio caudaloso
No fim da estrada encontraram,
Que passar era forçoso.
O marido
Sonda o vau, e prevenido
Teme entrar no pego undoso.

A mulher, teimosa e má,
Lhe diz: “Entra n’água, ó fona,
Que perigo nenhum há.
— Há perigo,
Torna-lhe ele, — e não prossigo!”
E ela diz: “Pois eu vou lá!”

Nisto, mete-se imprudente
À levada impetuosa
Feita pela grossa enchente;
Então cai,
E, indo ao fundo aos urros, vai
Envolvida na corrente.

Aterrado o pobre esposo,
Vendo aquela atroz desgraça,
Inda quer salvá-la ansioso;
Que a lastima,
E vai pelo rio acima
Procurando-a cuidadoso.

Os que viram abismá-la
Vendo-o ir contra a corrente,
Dizem: “Valha-te uma bala,
Ó borracho!
Se foi pelo rio abaixo,
Lá em cima é que hás de achá-la?”

Torna-lhe ele: “Este dragão
Sempre com todos viveu
Em fera contradição,
E por má
juro que subindo irá,
Se as águas descendo estão.

Às avessas da outra gente
Andou toda a sua vida;
Mas já teimosa imprudente
Não será;
Que o gênio que o berço dá
Tira-o a tumba somente”.

(Fonte: LA FONTAINE. Fábulas. SP: Martin Claret, 2005)

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP

Com preguiça, devagar,
José vai pescar sardinha,
mas de tanto demorar
ela já veio em latinha.
Branca Marilene Mora de Oliveira (SP)

Uma Poesia

Atriz
Carlos Drummond de Andrade (MG)

A morte emendou a gramática.
Morreram Cacilda Becker.
Não era uma só. Era tantas.
Professorinha pobre de Piraçununga
Cleópatra e Antígona
Maria Stuart
Mary Tyrone
Marta de Albee
Margarida Gauthier e Alma Winemiller
Hannah Jelkes a solteirona
a velha senhora Clara Zahanassian
adorável Júlia
outras muitas, modernas e futuras
irreveladas.
Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo
e um mendigo esperando infinitamente Godot.
Era principalmente a voz de martelo sensível
martelando e doendo e descascando
a casca podre da vida
para mostrar o miolo de sombra
a verdade de cada um nos mitos cênicos.
Era uma pessoa e era um teatro.
Morrem mil Cacildas em Cacilda.

Uma Trova de Canoas/RS

Para cantar a SAUDADE
muitas vezes me demoro.
por não ter felicidade
já não canto, mas só choro…
Ialmar Pio Schneider (RS)

Um Soneto

José Faria Nunes (Caçu / GO)
Saudades de Jataí

Que saudades que eu tenho dos tempos de Jataí
E de novo aqui eu venho matar saudades de ti.
Lembro o Cine Imperador lá n’avenida Goiás
Trago aqui até uma dor tempos que não voltam mais.

Coreto e a fonte da praça o meu Nestório Ribeiro
Ungido de toda graça um tesouro sobranceiro.
O Marcondes de Godoy foi aqui que lecionei
A saudade até dói da emoção que aqui passei.

O contraste da poeira bem acima da São Judas
Minha vida rotineira tenho de Deus a ajuda.
Britador do seu Leopoldo ali perto eu morei

Hoje tudo é cidade nem sei por onde passei.
O calçamento de pedra lá do centro da cidade
Deu lugar ao asfalto de tudo tenho saudade.

Cantinho do Izo Goldman

Manita, ao se despedir num dos Jogos Florais de Porto Alegre, disse assim:

Porto Alegre, hospitaleira,
na saudade que já dói,
eu vou te levar inteira
para a minha Niterói!!!

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova do Rio de Janeiro

Fez despacho na clareira
para alguém, com fita e vela.
Mas caiu na ribanceira…
e a despachada foi ela!
Albertina Moreira Pedro (RJ)

Poesia Indígena

Rosenir Gonçalves Neves (Xacriabá)
As Plantas Medicinais

As plantas medicinais
Combatem doenças e dores
Só temos de conhecer
Seus verdadeiros valores
Quem entende desta arte
Descreve parte por parte
Para explicar aos leitores

Tudo o que Deus criou
Já nasce com seu valor
Não sou contra farmácia
Nem hospital nem doutor
Mas se existissem as reservas
Das matas com suas ervas
Não havia tanta dor

Vamos procurar conhecer
As plantas medicinais
Seguindo um pouco do exemplo
Que deram os nossos pais
Pra ver se sobram alguns trocados
Pois só com remédio comprado
A gente não aguenta mais!

Poema de Cordel

Tere Penhabe (Santos/SP)
Bagagem

Quando vim para esse mundo,
eu trouxe pouca bagagem.
Avisaram de antemão,
que era uma longa viagem,
mas tudo que eu precisasse,
quando aqui não encontrasse,
faria politicagem.

Já me mandaram sem roupa,
pra começo dessa prosa,
não procede a economia.
Ô situação desonrosa!
E uma parteira fuleira,
muito lá da zombeteira,
deu tapas na apetitosa.

Claro que eu abri a boca,
naquele choro gritado,
quer mais inconveniência,
pra quem mal tinha chegado?
Pelada, no bom sentido,
tendo já quase morrido…
mais que justo o desagrado.

Lanche não veio comigo,
mas a mãe já deu um jeito,
com muita dificuldade
me colocou no seu peito.
Que vontade que eu senti
de gritar bem alto ali:
– Não dá pra ser prato feito!?

Aquele leitinho aguado
não matou a minha fome,
que durante muitos dias,
ela quase me consome.
Então ouvi alguém dizer,
que eu já estava pra morrer,
da doença disse o nome…

Era mal de simioto,
um troço muito esquisito,
que deixava a pele e osso,
quem tivesse o mal bendito.
E com cara de macaco.
Já me senti no buraco,
sem direito a faniquito.

Tentei lembrar da bagagem,
se trouxera algum remédio,
mas ninguém me ouviria,
ser bebê já é um tédio!
Com doença de macaco,
é ver no chão seu barraco,
da morte, sofrendo assédio.

Pra encurtar a ladainha,
não me mandaram pra tumba,
de tanto fazer novena,
e despacho com zabumba.
Consegui sobreviver,
sem ninguém pra me dizer,
se foi milagre ou macumba.

E segui sobrevivendo
a muitos outros tropeços,
vivendo dia por dia,
a todos chamei começos.
E já fui fazendo a mala,
porque quando for pra vala
a bagagem tem seus preços.

Hoje ela tá estufada,
difícil até de fechar,
mas espremo no que posso
pra coisa boa encaixar.
Levo comigo amizades,
dessas que deixam saudades,
por mais que o tempo passar.

Levo também as virtudes,
que não são em quantidade.
A gente luta e labuta,
mas peca na ingenuidade.
E o que aprendemos de moço,
de velho, vira caroço,
tem data de validade.

Então sobram os defeitos…
Esses incham a bagagem!
Dizem que sou venenosa,
consta na minha listagem.
Pra não morrer engasgada,
nunca deixei passar nada
nem mesmo com beberagem.

Falo tudo ao pé da letra,
para quem quer ou não quer,
o peão tem que saber,
de todo mal que fizer.
Mas a franqueza machuca,
como sopapo na nuca,
de si ninguém quer saber.

Gostam mesmo é de fofoca,
de falar da vida alheia,
e não digo que não tenha,
alguma aqui na bateia.
Mas só falo o que provar,
portanto não vou pagar,
por essa prática feia.

Mas como toda bagagem,
tem a bolsa de acessório.
Na vida, vem dos bazares,
na morte, do ambulatório.
Dor de toda qualidade,
pelotas em quantidade,
nem cabem no purgatório.

Por falar em purgatório,
sem querer aqui maldar,
tenho amiga em maus lençóis,
que por lá há de passar.
Por conta de um tal zezinho
que usurpou com jeitinho
do falecido, o lugar.

Mas eu não tive esse trem.
Esse pecado não devo.
Mesmo que não pese muito,
é um a menos que eu levo.
Porque vamos combinar,
não tá fácil de fechar,
só com pecados que escrevo.

Pois é isso minha gente:
– Essa vida é uma viagem!
Chegamos de mala e cuia,
com uns anos de vantagem.
Mesmo sem fazer maldade,
praticando a caridade,
leva escorpião na bagagem.

Uma Poesia de Maputo/Moçambique

José Craveirinha
Um Homem Nunca Chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 21)


Uma Trova de Santa Catarina

Nestas ondas espumantes,
onde pesquei meu sonhar,
eu sou pescador de instantes,
nos encantos que encontrar.
Alzira Dall’Agnol (SC)

Uma Trova Ecológica de Pindamonhangaba/SP

A Natureza… Que escola!
Sempre nos deixa encantados…
Faz um mundo que é uma “bola’
para um bando de ‘quadrados’…
João Paulo Ouverney (SP)

Uma Trova de Curitiba/PR

As melhores gargalhadas
chegam sempre de repente
em cenas abobalhadas
e tomam conta da gente!!!
Vânia Maria Souza Ennes (PR)

Trova de Concurso

1980 – IV Jogos Florais de Bandeirantes/PR
Tema: Lamento

Velho trem, triste e rangente,
o horizonte é o teu estojo:
quanta esperança, na frente;
quantos lamentos no bojo…
Mário Peixoto (RJ)

Um Poetrix

pas de deux
Mardilê Friedrich Fabre (RS)

No jardim,
Borboletas dançam.
Coreografia da paixão.

(Fonte: GOMES, Goulart (org.). 501 Poetrix para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2011

Uma Trova sobre a Trova, de Curitiba/PR

Num ritmo de eternidade
e encanto que se renova;
há comboios da saudade
nos quatro trilhos da trova.
Roza de Oliveira-PR

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Meus versos são dos piores;
não sou poeta distinto…
Mas talvez fossem melhores,
se os lessem como eu os sinto.
Antonio Aleixo (Portugal)

António Fernandes Aleixo (Vila Real de Santo António/Portugal, 18 de Fevereiro de 1899 — Loulé, 16 de Novembro de 1949)

Considerado um dos poetas populares algarvios de maior relevo, famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos, António Aleixo também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto, e ainda assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.

No emaranhado de uma vida cheia de pobreza, mudanças de emprego, emigração, tragédias familiares e doenças na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como emigrante foi exercido em França.

De regresso ao seu país natal, estabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de “poeta-cauteleiro”.

Faleceu por conta de uma tuberculose, em 16 de Novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.

Estilo literário

Poeta possuidor de uma rara espontaneidade, de um apurado sentido filosófico e notável pela «capacidade de expressão sintética de conceitos com conteúdo de pensamento moral», António Aleixo tinha por motivos de inspiração desde as brincadeiras dirigidas aos amigos até à crítica sofrida das injustiças da vida. É notável em sua poesia a expressão concisa e original de uma “amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida”.

A sua conhecida obra poética é uma parte mínima de um vasto repertório literário. O poeta, que escrevia sempre usando a métrica mais comum na língua portuguesa (heptassílabos, em pequenas composições de quatro versos, conhecidas como “quadras” ou “trovas”), nunca teve a preocupação de registar suas composições. Foi o trabalho de Joaquim de Magalhães, que se dedicou a compilar os versos que eram ditados pelo poeta no intuito de compor o primeiro volume de suas poesias (Quando Começo a Cantar), com o posterior registo do próprio poeta tendo o incentivo daquele mesmo professor, a obra de António Aleixo adquiriu algum trabalho documentado. Antes de Magalhães, contudo, alguns amigos do poeta lançaram folhetos avulsos com quadras por ele compostas, mais no intuito, à época, de angariar algum dinheiro que ajudasse o poeta na sua situação de miséria que com a intenção maior de permanência da obra na forma escrita.

Estudiosos de António Aleixo ainda conjugam esforços no sentido de reunir o seu espólio, que ainda se encontra fragmentado por vários pontos do Algarve, algum dele já localizado. Sabe-se também que vários cadernos seus de poesia, foram cremados como meio de defesa contra o vírus infeccioso da doença que o vitimou, sem dúvida, um «sacrifício» impensado, levado a cabo pelo desconhecimento de seus vizinhos. Foi esta uma perda irreparável de um património insubstituível no vasto mundo da literatura portuguesa.

A opinião pública aceitou a primeira obra de António Aleixo com bom agrado, sendo bem acolhida pela crítica. Com uma tiragem de cerca de 1.100 exemplares, o livro esgotou-se em poucos dias, o que proporcionou ao Poeta Aleixo uma pequena melhoria de vida, contudo ensombrada pela morte de uma filha sua, doente com tuberculose. Desta mesma doença viria o poeta a sofrer pelos tratamentos que vida lhe foi impondo, tendo que ser internado no Hospital – Sanatório dos Covões, em Coimbra, a 28 de Junho de 1943.

Em Coimbra começa uma nova era para o poeta que descobre novas amizades e deleita-se com novos admiradores, que reconhecem o seu talento, de destacar o Dr. Armando Gonçalves, o escritor Miguel Torga e António Santos (Tóssan), o artista plástico e autor da mais conhecida imagem do poeta algarvio, amigo do poeta que nunca o desamparou nas horas difíceis. Os seus últimos anos de vida foram passados, ora no sanatório em Coimbra, ora no Algarve, em Loulé.

Há alguns anos passou a existir a «Fundação António Aleixo» com sede em Loulé e que já usufrui do Estatuto de Utilidade Pública, o que lhe permite atribuir bolsas de estudo aos mais carenciados, facto que deve ser encarado como bastante positivo.

O reconhecimento a este poeta tem-se repercutido noutros países de língua portuguesa, nos quais o nome de Aleixo foi imortalizado em instituições como, por exemplo, a Escola Poeta António Aleixo no Liceu Católico de São Paulo no Brasil.

Obras:
Quando começou a cantar – (1943);
Intencionais – (1945);
Auto da vida e da morte – (1948);
Auto do curandeiro – (1949);
Auto do Ti Jaquim – incompleto (1969);
Este livro que vos deixo – (1969) – reunião de toda a obra do poeta;
Inéditos – (1979); tendo sido, estes quatro últimos, publicados postumamente.

Um Haikai

A gaveta da alegria
já está cheia
de ficar vazia
Alice Ruiz (PR)

Uma Trova de Ipú/CE

Graça de filho é bonita,
diz todo o pai como eu:
acho uma graça infinita
nas graças tolas do meu.
Abílio Martins (CE)

Uma Fábula em Versos

Os Lobos e as Ovelhas
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Os lobos e as ovelhas, que tiveram
Uma guerra entre si, tréguas fizeram:
Os lobos em reféns lhes entregavam
Os filhos; as ovelhas os cães davam.
Os lobinhos, de noite, pela falta
Dos pais, uivavam todos em voz alta:
Acudiram-lhes eles acusando
As ovelhas de um ânimo execrando;
Pois contra o que é razão e o que é direito,
Algum mal a seus filhos tinham feito:
Faltavam lá os cães que as defendessem,
Deu isto ocasião a que morressem.

Haja paz, cessem guerras tão choradas;
Mas fiquem sempre as armas e os soldados,
Que inimigos que são atraiçoados,
Tomaram ver potências desarmadas.
Não durmam, nem descansem confiadas
Em ajustes talvez mal ajustados:
Nem creiam na firmeza dos tratados,
Que os tratados às vezes são tratadas.
Só as armas os fazem valiosos,
E ter muitos soldados ali juntos
Respeitáveis a reis insidiosos;
Senão, para os quebrar há mil assuntos:
E mais tratados velhos, carunchosos.
Firmados na palavra dos defuntos.

(Fonte: LA FONTAINE. Fábulas. SP: Martin Claret, 2005)

Uma Trova de Santa Cruz/ES

Se passas muito apressada,
fugindo à minha atenção,
eu sinto a tua pisada
esmagar meu coração.
Alydio C. Silva(ES)

Uma Poesia

Deixe
Alberto Luis da Silva Pinto (Teresina / PI)

Deixe qu’eu me ande em seu caminho,
Que dele faça meu destino
E sinta em você o meu amanhã.
Deixe qu’eu me entre em seu íntimo,
Que dele faça meu descanso
E sinta em você o meu abrigo.
Deixe qu’eu me desfrute em seu sabor,
Que dele faça meu alimento
E sinta em você o meu viver.
Deixe qu’eu me sonhe em seu sonho,
Que dele faça meu fanatismo
E sinta em você o meu mundo.
Deixe qu’eu me encontre em seu corpo,
Que dele faça meu leito
E sinta em você o meu acalanto.
Deixe qu’eu me admire em seu olhar,
Que dele faça meu farol
E sinta em você o meu brilho.
Deixe qu’eu me viva em seu desejo,
Que dele faça meu prazer
E sinta em você o meu dia-a-dia.
Deixe qu’eu me deite em seu colo,
Que dele faça meu aconchego
E sinta em você o meu adormecer.
Deixe qu’eu me fique em seu ser,
Que dele faça meu querer
E sinta em você o meu
Único, eterno e verdadeiro amor.

Uma Trova de Goiânia/GO

Aquele, sim, é poeta,
de um gênero caricato,
pois faz poesia concreta
de um amor bem abstrato.
Anatole Ramos (GO)

Um Soneto

A vida, um sonho
Bernardo Trancoso (ES)

De um sonho bom, em outro eu mergulhei.
Algum tempo depois, não discerni
Se eu estava a sonhar, quando acordei
Ou, naquele momento, é que dormi.

Qual daqueles dois sonhos eu sonhei?
Qual, de fato, daqueles, eu vivi?
Parado, a questionar, nem reclamei,
Pois ambos eram bons. Então, sorri.

Passei, nessa alegria, a procurar
Razões para a mania, que me imponho
De, a cada dia, mais aproveitar.

Desse modo, acordar sempre risonho,
Sabendo que o melhor não é sonhar;
O melhor é tornar a vida um sonho.

Cantinho do Izo Goldman

Num dos jogos Florais de Nova Friburgo, Colbert Rangel foi chamado para receber seu troféu; João Rangel Coelho, pai do Colbert levantou-se e disse:
O troféu dele uma “ova”.
Porque este troféu é meu,
que se ele é o autor da Trova,
o autor deste autor sou eu!…

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ

Que imensidão de amarguras
transporta, em seu bojo, a nau,
nas notícias e gravuras
de um barquinho de jornal!
Antonio Carlos Piragibe (RJ)

Poesia Indígena

Doce Mistério
Kanamajuri Kamaiurá (Xingu)

É gostoso amar
Alguém e não revelar
É gostoso amar
Alguém em segredo
Pra não ser desprezado
Enquanto esse segredo dura
É muito gostoso sonhar

O sofrimento faz parte
Desse mistério
Mas não chega a ser sério

Uma vez descoberto
O coração fica deserto
Doce mistério chega ao fim

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 20)

Uma Trova de Porto Alegre

Sou louco quando preciso
e o remorso não me assalta;
eu nunca tive juízo
e ele nunca me fez falta…
MILTON SOUZA (RS)

Uma Trova Solitária, de Moji Guaçu/SP

Pobre é quem não sabe o quanto vale a companhia. Alento é tudo o quanto um Paulo César Pinheiro pode escrever, ou compor. Compor é transpor para outros olhos o quanto seus olhos já viram.
Nem de nylon, nem de aço:
tuas cordas, violão,
são de nada quando abraço
toda a nossa solidão.
OLIVALDO JUNIOR (SP)

Uma Trova de Ponta Grossa/PR

Em pedaços fui rasgando
tua foto pela praça;
hoje os procuro chorando,
pedindo ajuda a quem passa.
AMÁLIA MAX (PR)

Trova de Concurso

1994 – XI Jogos Florais de Ribeirão Preto/SP
Tema: brega

Eu vi, no enterro do gato,
cena brega e deprimente:
Lá atrás vinha vindo o rato
sorrindo todo contente.
DJALMA WINTER SANTOS (RJ)

Um Poetrix

descompasso
JUCINEIA GONÇALVES (MG)

meus caminhos
não singram mares
ah, essa minha continentalidade!

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ

Nem me lembro mais do gosto
da tal noite de verão,
e até hoje pago imposto
que ela chama de pensão…
SÉRGIO F. DOS SANTOS (RJ)

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Nem mesmo o inverno mais triste,
dentro da noite enfadonha,
tira a distância que existe
entre a minha e a tua fronha.
LOURDES STROZZI (PR)

Maria de Lourdes Rocha Strozzi nasceu no Rio de Janeiro em 17 de maio de 1922 e faleceu em 03 de junho de 2005, aos 83 anos. Começou a vida literária em Ponta Grossa, mudando-se, mais tarde, para Curitiba.

Era mais conhecida por Lourdes Strozzi, e foi uma das maiores representantes do jornalismo e da rica literatura brasileira. Entre os versos escritos, que posteriormente verteram-se em livros, estão “Enamorada” e “Aleluia”, também era professora de magistério, onde dava aulas de português e literatura.

A escritora ainda aventurou-se no rádio, produzindo ótimos programas com pitadas de ironia, como o “Acredite se quiser…e durma se puder”, e o “Acredito em Milagres”.

Sempre se mostrou sensível às causas humanitárias. Uma prova disso é que ela chegou a fazer um curso de Enfermaria na Cruz Vermelha e tornou-se voluntária em serviços assistenciais. Foi dessa forma que ela começou a frequentar hospitais de caridade, enfermarias e isolamentos de indigentes. Devido toda essa dedicação aos necessitados, recebeu a Medalha de Ouro da Cruz Vermelha, “por trabalhos em tempos de paz”.

Em Curitiba, prestou os primeiros serviços comunitários no Rotary Club, onde desdobrou-se nas tarefas de apoio à comunidade. Convidada pela doutora Saly Moreira, integrou ainda o grupo de senhoras responsáveis pela fundação do Banco de Olhos de Curitiba.

No entanto, toda essa dedicação pelas causas humanitárias não diminuiu o gosto de pela literatura, tanto que publicou ainda “Aspas (parênteses) e Reticências…”, o primeiro livro em prosa. Além disso era excelente trovadora, e chegou a colecionar títulos e troféus conquistados em Jogos Florais de âmbito nacional.

Professora de português, aposentada pelo Estado, fez jornalismo nas folhas Diário dos Campos, Jornal da Manhã e em Curitiba, colaborou na Gazeta do Povo.

Foi presidente da União Brasileira dos Trovadores de Curitiba, membro do Centro de Letras do Paraná, Academia de Letras José de Alencar, Centro Cultural Euclides da Cunha (Ponta Grossa) e Academia Feminina de Letras do Paraná

Lourdes Strozzi faleceu no dia 3 de junho de 2005, com 83 anos de idade, e deixou para trás uma história que merece ser lembrada pelo brilhantismo e pela preocupação com o próximo, que tornaram a escritora poeta e trovadora, uma figura singular. Esta justa homenagem de Curitiba à Lourdes Strozzi é mais do que merecida, por se tratar de uma pessoa que deixou somente marcas positivas por todos os lugares em que passou.

Um Haikai

Chuva
JOSÉ FELDMAN (PR)

Gotas de vidro
Espelho da penumbra
Alívio da manhã.

Uma Trova de Belo Horizonte/MG

Olhando fotos antigas,
tenho saudade de mim.
– Hoje, maduras espigas;
ontem, um frágil jardim.
CLEVANE PESSOA (MG)

Uma Fábula em Versos

A Raposa e as Uvas
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Contam que certa raposa,
Andando muito esfaimada,
Viu roxos maduros cachos
Pendentes de alta latada.

De bom grado os trincaria,
Mas sem lhes poder chegar.
Disse: “Estão verdes, não prestam,
Só cães os podem tragar!”

Eis cai uma parra, quando
Prosseguia seu caminho,
E crendo que era algum bago,
Volta depressa o focinho.

(Fonte: LA FONTAINE. Fábulas. SP: Martin Claret, 2005)

Uma Trova de Corumbá/MS

Cruz solitária, de estrada,
que o retirante deixou!
– És a flor abandonada
que a saudade perfumou.
HUMBERTO LYRIO (MS)

Uma Poesia

O Céu Acima do Açu
TCHELLO D’BARROS (SC)

O espelho de mim mesmo
Na retina dos teus olhos
Deixam sombras os meus passos
Sobre o rosto da cidade

Dormitam as capivaras
Ao som de teares e tramas
E gerânios azulados
Exalam o cio do pólem

Que destino sinuoso
Tão incerto e inefável
Dessas águas nesse rio

No espelho dos teus olhos
O destino é tão difuso
Quanto esse nosso beijo

Uma Trova de Portugal

Minha boneca de sonho…
vivências da mocidade!
Pensamento que transponho
no meu portal de saudade!
MARIA JOSÉ FRAQUEZA (Portugal)

Um Soneto

O Carteiro
ERIGUTEMBERG MENESES

Os sonhos chegam pela sua mão
E assim se ver o rei de um reino além,
Mas como o vento ralo os sonhos vão
Soprar onde o carteiro fica aquém.

Na braçada de carta a solidão
E a dor dos outros rezam o réquiem
A alegria rompe, o choro, então,
Se chega, é saudade que eles sentem.

Mas ao final do dia sob o braço
O rei vencido pelo vil cansaço
Recolhe a bolsa cheia de ilusão.

Logo amanhã cedinho a campainha
Ao se fazer ouvir sua rainha
Virá detrás da porta e não o cão.

Cantinho do Izo Goldman

Colbert Rangel, viajava num onibus, ao lado de uma moça muito bonita: quando lhe perguntaram como ia viagem, disse:
Eu sentado na beirada,
e ela junto da janela…
A cada curva da estrada,
eu sentindo as curvas dela.

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Fortaleza/CE

Ciúme é como se fosse
um veneno sedutor:
amargo, se mostra doce,
matando aos poucos o amor.
FRANCISCO PESSOA REIS (CE)

Poesia Indígena

Índio Guerreiro
BRITO FERREIRA DE SOUZA (Satere-Mawe)

Sou índio guerreiro
Sou forte e matreiro
Habitamos as selvas
Do rio Andirá

Ouvindo os gorjeios
De pássaros que voam
Por entre as folhagens
Soltando as plumagens.

Distantes dos laços
Preconceituosos
Mantendo os costumes
Da tribo Satere-Mawe.

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 19)

Uma Trova do De Cápua

O joão-de-barro é um exemplo.
pode não saber gorjear,
Com tão pouco faz um templo,
ao erguer seu próprio lar.
CLÁUDIO DE CÁPUA (SP)

Uma Trova Antidroga de Fortaleza

Triste sina a da criança
deste meu Brasil gigante;
vive “presa” na esperança
de escapar do traficante!
NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO (CE)

Uma Trova de Maringá/PR

São Francisco, meu amigo,
meu padrinho e protetor,
como é bom cantar contigo
a vida, a alegria, o amor.
A. A. de ASSIS (PR)

Trova de Concurso

1987 – Jogos Florais de Nova Friburgo/RJ
Tema: Aceno

Na distância, ao teu aceno,
quanta tristeza me invade:
– O trem ficando pequeno
e, em mim, crescendo a saudade!…
HERMOCLYDES S. FRANCO (RJ)

Um Poetrix

separação
FABIO ROCHA (RJ)

o leão na gaveta
junto com o retrato:
sem ver, vejo de fato

Uma Trova Ecológica de Tomazina/PR

Para mim a ecologia
é sagrado compromisso.
É meu sonho ver um dia
pescador só de caniço.
CECIM CALIXTO (PR)

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

A neve desce, flutua,
cai sobre tudo e se espalha
sobre a estrada imensa e nua
como uma branca toalha.
FRANCISCA JÚLIA (SP)

FRANCISCA JÚLIA (1871-1920)

Francisca Júlia da Silva Munster nasceu na antiga Vila de Xiririca, hoje Eldourado, no vale do Ribeira, São Paulo. Poeta do Impassível, valendo-se de uma linguagem e de figuras mitológicas e históricas próprias de um gosto parnasiano, encantou os seus contemporâneos. Seus últimos poemas já denotam algumas tendências ao simbolismo. Sobre seu túmulo está a estátua da “Musa Impassível”, de Victor Brecheret, em homenagem a um de seus poemas mais famosos.

Sua estreia literária deu-se em 1891, nas páginas do jornal O Estado de São Paulo. Ao longo dos anos, publicou poemas em jornais e revistas, destacando-se pela alta qualidade dos versos, segundo os critérios do tempo.

Escrevendo para A Semana, alcança rápido prestígio literário. Elogiada por João Ribeiro quando lança seu primeiro livro, Mármores (1895), a admiração por sua poesia alastra-se pelos círculos literários do país.

A poesia de Francisca Júlia pode ser dividida em duas partes: a parnasiana, com a qual obteve pronta celebridade, e a simbolista, nesta incluídos também os poemas de finalidade mística e moral.

No seu parnasianismo, a poeta seguiu rigorosamente os padrões franceses de impessoalidade e impassibilidade. Sua poesia é plástica e sonora; a poeta professou a “arte pela arte” e apreciou a austeridade formal. Segundo Péricles Eugênio da Silva Ramos, talvez só Francisca Júlia tenha alcançado, na poesia brasileira, todas as principais características do Parnasianismo.

Mas já em Mármores publicava dois poemas claramente simbolistas. Mais tarde, quando passa a seguir doutrinas esotéricas, abandona alguns princípios parnasianos e procura fazer poesia de ensinamento moral e místico – é o que acontece principalmente em seus últimos sonetos, caracterizados por grande melancolia.

Casou-se em 1909, recolhendo-se à vida particular e praticamente abandonando a atividade literária. Faleceu em circunstâncias pouco claras, no dia em que seu marido deveria ser enterrado. Não se sabe se por erro ou voluntariamente tomou excessiva dose de calmantes, vindo a falecer.

Na sequência compôs um volume de versos para crianças, intitulado O livro da infância (1899) e Esfinges (1903). Em 1912, junto com seu irmão, Júlio da Silva, o publicou Alma infantil.

A crítica tem destacado usualmente, seguindo nisso a primeira recepção da sua obra, as características parnasianas da poesia de Francisca Júlia, deixando em segundo plano aquilo que João Ribeiro notara no prefácio a esse livro de estréia: a presença de significativos elementos simbolistas. A leitura, hoje, da sua obra, confirma a impressão do prefaciador. Embora muitos dos seus sonetos estejam entre os mais bem acabados de sua época e muitos deles se enquadrem nos preceitos da impassibilidade parnasiana (que os melhores parnasianos, como Bilac, sistematicamente infringiram), é igualmente interessante (e talvez até mais, para o gosto de hoje) a parte da sua obra que se aproxima da dicção simbolista.

Alguns fatores, herdados em parte da primeira recepção, tem orientado, nem sempre de modo a produzir justiça ao seu talento e à qualidade da sua obra, a avaliação da sua poesia. Um deles é a insistência na condição feminina. No seu tempo, causou muita espécie aquilo que a crítica sua contemporânea identificou como dicção máscula, ou, pelo menos, dicção não feminina – entendido, nos moldes do tempo, o feminino como predominantemente sentimental e mesmo inferior, por condição, em termos estéticos. Recentemente, a valorização do feminino parece operar uma inversão nessa perspectiva, deslocando novamente a avaliação da obra para a questão do gênero. Outro fator de perturbação decorreu do fato de que a poeta se suicidou no dia do enterro do marido, deixando apenas em projeto um livro que se chamaria Versos áureos. Logo após a sua morte, organizou-se uma segunda edição de Esfinges (1920) incluindo no conjunto poemas que não fizeram parte da primeira edição, além de uma ampla fortuna crítica, de caráter mais laudatório do que analítico – compreensível naquela circunstância, sob o impacto do gesto extremo. Como Mármores teve edição restrita e a primeira edição de Esfinges era inacessível – Otto Maria Carpeaux registrava, já em 1949, que desse livro não havia exemplar nem na Biblioteca Nacional, nem na Biblioteca Municipal de São Paulo –, essa segunda edição tornou-se a base das apreciações críticas subsequentes, apagando-se, assim, a estrutura significativa que a autora tinha dado às suas obras em volume – especialmente a Mármores. Basta olhar o índice desse primeiro livro de poesia para perceber que a ordem e posição dos poemas obedecem a um desígnio: o livro abre e fecha com sonetos gêmeos, intitulados “Musa impassível”, e se divide em duas partes de extensão igual, separadas por traduções de Goethe e Schiller. A primeira parte e a última possuem poemas numerados de 1 a 18 e contrastam no tom, sendo a segunda a que traz as marcas decadentistas, apontadas por João Ribeiro. Da mesma forma, Esfinges é um livro planejado, e não uma recolha. Inclui poemas de Mármores, mas o rearranjo produz novos sentidos para eles. O exemplo mais claro é a junção do primeiro e último soneto de Mármores num único poema, intitulado “Musa impassível”, composto agora dos dois sonetos que tinham esse nome no primeiro livro.

Com a disponibilização das primeiras edições, por certo a poesia de Francisca Júlia ganhará nova recepção, e – agora que o preconceito modernista contra a poesia parnasiana e simbolista começa a perder força como padrão único de avaliação literária no Brasil – os muitos poemas de primeiro nível presentes nos dois volumes, bem como a disposição significativa que permite compreendê-los como parte de um desenho maior, poderão ser devidamente apreciados.

Obra poética:
Mármores (1895),
Livro da Infância (1899),
Esfinges (1903),
Alma Infantil (com Júlio César da Silva, 1912),

(Biografia por Paulo Franchetti, professor titular do Departamento de Teoria Literária da Unicamp)

Um Haikai

Quintais devassados
e bocas lambuzadas.
Tempo de caqui.
MARA REJANE RODRIGUES CORRÊA SEGALLA (PR)

Outra Trova Ecológica, de Londrina/PR

Hoje os rios caudalosos
descem cantando suas mágoas
dos tempos idos, saudosos,
em que eram puras suas águas…
CIDINHA FRIGERI (PR)

Uma Fábula em Versos

O Lobo e a Cegonha
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Vorazes comem lobos;
Nada lhes vence a gana;
Eis o que fez um deles;
Em farta comezaina.

Tão sôfrego engolira,
Sua avidez foi tanta,
Que de través lhe fica
Um osso na garganta.

Sentindo-se engasgado,
E sem poder gritar,
julgou-se na agonia
E prestes a expirar.

Uma cegonha (ó dita!)
Passa dali vizinha;
Chamada por acenos,
Vem acudi-lo asinha.

Com grande habilidade
Procede à operação;
Retira o osso — e a paga
Requer do comilão.

“A paga! (exclama o lobo)
Comadre! Estás brincando!
Pois não te deixo livre,
A vida desfrutando?

Não me saiu dos dentes
Tua cabeça intata?
Vai-te e das minhas garras
Cuida em fugir, ingrata!”

(Fonte: LA FONTAINE. Fábulas. SP: Martin Claret, 2005)

Uma Trova do Pará

No contraste a dor sentida
dos que não tiveram sorte:
a morte buscando a vida,
e a vida esperando a morte.
SARAH RODRIGUES (PA)

Uma Poesia

Vou-me embora pra Pasárgada
MANUEL BANDEIRA (PE)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d`água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Uma Trova do Rio Grande do Norte

Eu disse pra minha amada,
baseado num estudo,
o amor nasce de um nada
e morre de quase tudo!
ADEMAR MACEDO /RN

Um Soneto

Soneto do Tempo
ANTONIO COURI (RJ)

Nasci há pouco. O tempo é que passou
sem me avisar que passa de repente.
Meus sonhos continuam – e ainda sou
uma esperança como antigamente.

Não sei se a vida é breve ou me enganou
porque descubro agora, descontente,
que aquele que fui eu também mudou
por ter ficado assim tão diferente.

Hoje sou outro. E vejo como estou
refletido no espelho do Presente
que o tempo pelo tempo me deixou.

Envelheci? Não sei… Que surpreendente!
Nasci há pouco. O tempo é que passou
sem me avisar que passa de repente.

Cantinho do Izo Goldman

Na seca de 1887, o Imperador ordenou a distribuição de dinheiro e víveres para a população carente do nordeste: um dos encarregados desta distribuição foi o Coronel José Francisco de Moura, político de prestígio, honesto, mas com fama de ser muito mulherengo. Logo surgiu esta quadra:

O senhor Coronel Moura
é homem de muita ação:
bota as botinas pra dentro
deixa as feias no portão…
Quando da renúncia de Janio Quadros, David Nasser publicou:
Não preciso ser cranio
nem bamba em psiquiatria,
para ver que o mal de Jânio
é a …uisquezofrenia…

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)
Uma Trova do Ceará

Sou um trovador errante,
nos descampados da vida,
um eterno itinerante,
tendo a trova como lida.
BERNARDINO MATOS (CE)

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 18)

Uma Trova da Vânia
O amor, um santo remédio!
É vitamina… é cura…
Nos livra de qualquer tédio
Também, nos leva à loucura.
VÂNIA MARIA SOUZA ENNES (PR)

Uma Trova sobre a Trova do Ceará
As trovas são diamantes
que certo ourives, um dia,
com suas mãos operantes,
cravou no anel da poesia.
GISELDA MEDEIROS (CE)

Uma Trova Paranaense
Galgar os degraus da vida
requer audácia, demora.
Mas é enfrentando a subida
que o caráter se aprimora!
MARIA LÚCIA DALOCE CASTANHO (PR)

Trova de Concurso
1993  – I Jogos Florais de Belmiro Braga/MG
Tema Nacional: Fogão
“No fogão eu passo o dia”
disse ele antes de casar.
Só não disse pra Maria
que o tal “fogão”… era um bar!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA (SP)
Um Poetrix

conjectura
OSWALDO MARTINS (BA)
Ser feliz de fato,
Seremos, fomos; talvez,
Sejamos enfim.
Uma Trova do Prof. Garcia
Vendo o meu retrato agora,
vejo que o tempo inclemente…
fez do meu rosto de outrora,
outro rosto no presente!
PROF. GARCIA (RN)

Trovadores que Deixaram Saudade
Idéias tristes da vida
eu as esqueço e abandono;
de dia – por muita lida;
de noite – por muito sono.
BASTOS TIGRE (PE)
Manuel Bastos Tigre (Recife, 12 de março de 1882 — Rio de Janeiro, 1 de agosto de 1957) foi um bibliotecário, jornalista, poeta, compositor, humorista e destacado publicitário brasileiro.

Estudou no Colégio Diocesano de Olinda, onde compôs os primeiros versos e criou o jornalzinho humorístico O Vigia. 

Líder estudantil encabeçou movimento em prol da obrigatoriedade de ensino, campanha que viria trazer inestimáveis serviços a população.

Formou-se engenheiro civil, em 1906 na Escola Nacional de Engenharia, no Rio de Janeiro. Mais tarde especializou-se em eletricidade nos Estados Unidos, onde permaneceu cerca de três anos, diplomando-se pela Bliss School de Washington. Regressando, trabalhou como engenheiro do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil. 

Da sua vida universitária e de uma época trepidante do Rio de Janeiro, tudo revelou, através de seus poemas satíricos, um prenúncio de seu extraordinário humorismo.

Sua vida de jornalista iniciou-se em 1902, quando colaborou na revista humorística “Tagarela”. Prestou depois seus serviços nos principais órgãos da imprensa carioca como: “A Noite”, “Gazeta de Notícias”, “A Rua”, “Careta”, “O Malho”, etc. . 

Foi fundador da revista “D. Xiquote”. No “Correio da Manhà”, manteve durante mais de 50 anos, “Pingos e Respingos”, uma das mais conhecidas seções da imprensa citadina, na qual, glosava com sadio humor, os fatos pitorescos do Rio, do país e até do mundo. (Usava, então, o pseudônimo Cyrano e Cia). 

Foi homem de múltiplos talentos, pois foi jornalista, poeta, compositor, teatrólogo, humorista, publicitário, além de engenheiro e bibliotecário. E em todas as áreas obteve sucesso, especialmente como publicitário. “É dele, por exemplo, o slogan da Bayer que correu o mundo, garantindo a qualidade dos produtos daquela empresa: “Se é Bayer é bom”. Foi ele ainda quem fez a letra para Ary Barroso musicar e Orlando Silva cantar, em 1934, o “Chopp em Garrafa”, inspirado no produto que a Brahma passou a engarrafar naquele ano, e veio a constituir-se no primeiro jingle publicitário, entre nós.” (As vidas…, p. 16).

Prestou concurso para Bibliotecário do Museu Nacional (1915) com tese sobre a Classificação Decimal. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil, onde serviu por mais de 20 anos.

Exerceu a profissão de bibliotecário por 40 anos, é considerado o primeiro bibliotecário por concurso, no Brasil.

No dia 12 de março é comemorado o Dia do Bibliotecário, que foi instituído em sua homenagem.

Obras publicadas

Saguão da Posteridade. Rio de Janeiro: Tipografia Altina, 1902.
Versos Perversos. Rio de Janeiro, Livraria Cruz Coutinho, 1905.
O Maxixe. Rio de Janeiro : Tipografia Rabelo Braga, 1906.
Moinhos de Vento. Rio de Janeiro : J. Silva, 1913.
O Rapadura. Rio de Janeiro : Oficina do Teatro e Esporte, 1915.
Grão de Bico. Rio de Janeiro : Turnauer & Machado, 1915.
Bolhas de Sabão. Rio de Janeiro : Leite Ribeiro e Maurillo, 1919.
Arlequim. Rio de Janeiro : Tipografia Fluminense, 1922.
Fonte da Carioca. Rio de Janeiro : Grande Livraria Leite Ribeiro, 1922.
Ver e Amar. Rio de Janeiro : Tipografia Coelho, 1922.
Penso, logo… eis isto. Rio de Janeiro: Tipografia Coelho, 1923.
A Ceia dos Coronéis. Rio de Janeiro : Tipografia Coelho, 1924.
Meu bebê. Rio de Janeiro : P. Assniann, 1924.
Poemas da Primeira Infância. Rio de Janeiro : Tipografia Coelho, 1925.
Brinquedos de Natal. Rio de Janeiro : L. Ribeiro, 1925.
Chantez Clair. Rio de Janeiro : L. Ribeiro, 1926.
Zig-Zag. Rio de Janeiro, 1926.
Carnaval: poemas em louvor ao Momo. Rio de Janeiro, 1932.
Poesias Humorísticas. Rio de Janeiro : Flores & Mário, 1933.
Entardecer. Rio de Janeiro, 1935.
As Parábolas de Cristo. Rio de Janeiro : Borsoi, 1937.
Getúlio Vargas. Rio de Janeiro : Imprensa Nacional, 1937.
Uma Coisa e Outra. Rio de Janeiro : Borsoi, 1937.
Li-Vi-Ouvi. Rio de Janeiro : J. Olympio, 1938.
Senhorita Vitamina. Rio de Janeiro : Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, 1942.
Recitália. Rio de Janeiro : H. B. Tigre, 1943.
Martins Fontes. Santos : Sociedade dos Amigos de Martins Fontes, 1943.
Aconteceu ou Podia ter Acontecido. Rio de Janeiro : A Noite, 1944.
Cancionário. Rio de Janeiro : A Noite, 1946.
Conceitos e Preceitos. Rio de Janeiro : A Noite, 1946.
Musa Gaiata. São Paulo : O Papel, 1949.
Sol de Inverno. Rio de Janeiro, 1955.
Um Haikai
Parque iluminado –
Cobre toda a enseada
luz da lua cheia.
BENEDITA AZEVEDO (RJ)

Uma Trova da Analice 
Represando a dor da mágoa
que pranteia meu desgosto,
dos olhos, vertentes de água
deslizam pelo meu rosto…
ANALICE FEITOZA DE LIMA (SP)

Uma Fábula em Versos
A Gota e a Aranha
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)
Quando a aranha e a doença da gota
Rebentaram do abismo infernal,
“Sois, ó filhas, lhes disse o demônio,
Dois terríveis agentes do mal.
Cumpre agora escolher os lugares,
Para vossa morada talhados;
Vede aqueles humildes casebres,
E esses lindos palácios dourados;
Decidi-vos por uns, ou por outros,
Pois que neles deveis habitar;
E, na falta de acordo, é preciso
Pela sorte essa escolha fixar.”
“Vá morar quem quiser em choupanas!”
(Diz a aranha com ar de desprezo).
Mas a gota que vira em palácio
Uma escola hipocrática em peso;
Refletiu que entre tantos doutores
Não podia à vontade viver;
Preferiu a palhoça e no artelho
De um lapuz foi-se, a gosto, esconder.
“Creio (diz) que não fico inativa
Neste posto que a salvo escolhi,
E que a gente que segue a Esculápio
Não me obrigue a mudar daqui.
Num floreio dourado do teto
Fez a aranha segura guarida,
Trabalhando a valer, qual se houvesse
Arrendado aposento por vida.
Que engenhosa era a teia que urdira!
Quantas moscas na rede prendeu!
Mas no dia seguinte a criada
Todo aquele artefato varreu.
Surge a rede tecida de novo,
E a vassoura outra vez a arrepanha,
Compelindo a mudar de aposento
Cada dia coitada da aranha.
Tendo embalde exaurido os recursos,
Foi o inseto da gota em procura;
Encontrou-a no campo gemendo
Entre as garras de atroz desventura.
Nem a mais infeliz das aranhas
Poderá comparar-se com ela.
Racha lenha com seu hospedeiro.
Cava, sacha, revolve a coirela.
Atormente-se a gota (é provérbio)
E metade da cura teremos. —
Diz a gota “Ai, irmã! Já não posso!
Eu vos peço — de casa troquemos.”
Pronta a irmã da palavra lhe pega
E a cabana investiu sem tardança;
Lá não acha vassouras que a forcem
A viver em contínua mudança.
Eis a gota, que às juntas, de um bispo
Do seu lado, frechara direito.
Ceva nele o furor, condenando-o
A não mais levantar-se do leito.
São baldadas fricções, cataplasmas;
Vai de mal a pior o doente;
Nem se pejam os tais doutoraços
De entreter a moléstia da gente.
Foi-lhes útil, portanto, o remédio;
Dessa troca vantagens colheram.
Ambas tendo conforto e agasalho
Satisfeitas da sorte viveram.
Uma Trova da Carolina
Perde a vida o alento e o brilho,
quando a mãe chora, esquecida…
– filho deixa de ser filho,
mas mãe é mãe toda a vida!
CAROLINA RAMOS (SP)

Uma Poesia 

Ao redor
AMAURI NICOLINI (RJ)
Partir
nem sempre é se ausentar.
Muitas vezes,
partir é um modo de ficar.
Ficar na lembrança,
ficar na esperança
de voltar.
E essa nostalgia
que o coração sente de lembrar
um dia se transforma na alegria
insubstituível de chegar.
Cantinho do Assis
A. A. de Assis nos dá esta explicação em seu livro Vida, Verso e Prosa, lançado pela EDUEM.
Aproveito o espaço para recomendar o livro: cronicas, trovas, triversos, poesias, contos, documento histórico, enfim, um livro para todos os gostos, escrito por um dos maiores escritores vivos de nossa literatura.

Vamos então à explicação:

A. A. de Assis

A poucos metros de nossa casa havia uma gráfica onde se imprimia O Fidelense (“um hebdomadário independente a serviço da coletividade”). O jornal pertencia ao deputado Gouveia de Abreu (Doutor Dó), mas quem o dirigia era o Doutor Jacy Seicas. O impressor era o Fidélis Subieta. Um dia criei coragem, escrevi um artigo e entreguei ao Subieta, dizendo: “Peça ao Doutor Jacy que dê uma olhada e veja se dá para publicar”.

Eu tinha 16 anos de idade. Não falei a mais ninguém sobre bo tal escrito. No domingo seguinte, fui logo cedinho comprar o jornal… Tremi nas pernas: lá estava, ainda com aquele delicioso cheirinho de tinta, o texto que inaugurava minha vida de jornalista. Estranhei, porém, um pequeno detalhe: em vez de Antonio Augusto de Assis, como assinei no original, o nome que saiu embaixo do título foi A. A. de Assis.

Na segunda-feira perguntei ao Subieta o que acontecera. Fácil de entender: naquela época as gráficas trabalhavam com tipos móveis. Cada fonte de tipos ficava numa caixa e o tipógrafo ia catando letra por letra para compor a matéria. E havia o costume de escrever os nomes dos autores de artigos utilizando os tipos chamados “itálicos”, aqueles inclinadinhos. Deu-se, todavia, que a caixa de itálicos estava desfalcada, faltando a letra “t”, daí a impossibilidade de escrever tanto Antonio quanto Augusto. E foi assim que, por conta e arte desse genial tipógrafo, virei A. A. de Assis.

Animado pela publicação do artigo, procurei pessoalmente o Doutor Jacy, que generosamente me aceitou como coloaborador permanente d’O Fidelense. Fiquei todo prosa, claro. Mas surgiu um problema. Como em São Fidélis todos me conheciam pelo apelido de Gutinho, os leitores começaram a indagar quem era aquele tal A. A. de Assis. Assim que descobriram, começou a fofoca. Duvidavam que eu, tão menino ainda, pudesse escrever aquelas coisas. Havia quem dissesse que o verdadeiro autor era outro Augusto Assis, meu primo monsenhor Augusto José de Assis Maia, pároco local. Fiquei fulo da vida com aquilo. Para não deixar dúvida, publiquei no domingo seguinte um artigo falando de carnaval, rebolado, etc., e com um vocabulário bem apimentado, coisa que ninguém jamais iria atribuir a um padre. Deu certo: acabou a fofoca.
Uma Trova do Luiz Otávio
Dizes que é pobre e eu, coitado,
inveja tenho de ti:
– tens tua mãe ao teu lado
e a minha, eu nem conheci!…
LUIZ OTÁVIO (RJ)

Um Soneto

Sonho Dourado
GABRIEL DE BITTENCOURT FONTOURA (PR)
Meu ideal é habitar uma fazenda,
deixando a vida estéril da cidade…
E ali sonhar, na rústica vivenda
toda imersa em feliz tranquilidade.
Fugir da multidão, à moda horrenda,
aos rumores da estulta humanidade,
e, em cisma, à noite, por agreste senda,
vagar sob a sidéria claridade.
Colher as doces frutas da floresta,
ouvir dos sábias o canto em festa
beber água nas fontes das canhadas;
Ver desmaiar no céu a tarde longa,
enquanto, ao soar o grito da araponga,
range o carro de bois pelas quebradas!…
Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 17)

Uma Trova do Osael

Guris perdidos na vida,
sentindo o tempo que passa.
É a desgraça revivida
Nesta vida desgraça.
OSAEL DE CARVALHO (RJ)

Uma Trova Ecológica de Além Paraíba/MG

Cai a mata ciliar…
A vida aos poucos se estanca.
O rio vai se afogar
com o desmonte da barranca.
Wagner Marques Lopes (MG)

Uma Trova Paranaense

Ao ler: “ Fechado por Luto”
O bebum se envaideceu:
Eu bebi todo o produto
e o boteco é que morreu!
NEIDE ROCHA PORTUGAL (PR)

Trova de Concurso

1982 – XIII Jogos Florais de Pouso Alegre/MG
Tema Nacional: Infância

Minha infância na favela
não teve um Natal, de fato:
O que botar na janela
se eu não tinha nem sapato?!.
ARLINDO TADEU HAGEN (MG)

Um Poetrix

tato
PATRÍCIA ESSINGER (RS)

o toque beija:
dedos,
insinuação de lábios.

Uma Trova do Hermoclydes

Sem preconceito ou pudor,
Mas de emoções verdadeiras,
Grandes momentos de amor
Não delimitam fronteiras!…
HERMOCLYDES S. FRANCO (RJ)

Trovadores que Deixaram Saudade

Quem dera que minhas trovas
andassem pelos caminhos,
consolando os desgraçados,
dando pão para os ceguinhos …
ADELMAR TAVARES (PE)

Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti nasceu em Recife em 16 de fevereiro de 1888.

Adelmar fez os seus primeiros estudos em Goiana (Pernambuco). Transferiu-se para Recife com 11 anos. Estudou no Colégio XI de Agosto e no ”Instituto Pernambucano”. Formou-se em Direito em 1910. Em Recife, com outros colegas de Faculdade, publicou o seu primeiro livro, em 1907, quando tinha apenas 19 anos. O volume intitulava-se “Descantes”, compunha-se de trovas e os seus companheiros eram: Carlos Estevão, Manoel Monteiro, A. Silveira Carvalho e Moreira Cardoso.

Era filho de Francisco Tavares da Silva Cavalcanti e de Maria Cândida Tavares. Ingressou na Faculdade de Direito do Recife, onde colou grau em 1909. Ainda estudante, começou a colaborar na imprensa como redator do Jornal Pequeno. Em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ocupou importantes cargos. Foi professor de Direito Penal na Faculdade de Direito do Estado do Rio de Janeiro; promotor público adjunto (1910); curador de resíduos e testamentos (1918); curador de órfãos (1918-1940); advogado do Banco do Brasil (1925-1930); desembargador da Corte de Apelação do Distrito Federal (1940) e presidente do Tribunal de Justiça (1948-1950).

Enquanto desenvolvia sua carreira na magistratura, Adelmar Tavares continuava colaborando na imprensa, e seu nome se tornara conhecido em todo o Brasil no setor da trova, sendo considerado, até hoje, o maior cultor desse gênero poético no Brasil. Suas trovas sempre mereceram referência na história literária brasileira. Sua obra poética caracteriza-se pelo romantismo, lirismo e sensibilidade, sendo recorrentes temas como o da saudade e o da vida simples junto à natureza.

Era membro da Sociedade Brasileira de Criminologia, do Instituto dos Advogados, da Academia Brasileira de Belas Artes, membro e patrono da Academia Brasileira de Trovas. Era considerado o Príncipe dos Trovadores Brasileiros. Foi presidente da Academia Brasileira de Letras em 1948.

Quinto ocupante da Cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 25 de março de 1926, na sucessão de João Luís Alves.

Em 1951 escrevia Luiz Otávio: “Adelmar Tavares é considerado, com inteira justiça, o Príncipe da Trova Brasileira. Suas quadras, nascidas de um coração emotivo, são simples e puras, sem preocupações técnicas e preciosismos. Andam anônimas, na boca do povo e são admiradas e elogiadas por críticos, leitores e trovadores. Profundamente lírico, possui trovas sentimentais e conceituosas que enternecem e fazem meditar.”

Além de poeta, jurista, professor, Adelmar Tavares é um dos marcos que assinalam o prestígio e a revitalização da Trova no Brasil. Pelo seu valor como poeta e pela sua posição social e literária, ajudou o reerguimento da Trova e sua aceitação como gênero poético dos mais apreciados e mais difíceis. Desde a mocidade, com seu primeiro livro “Descantes”, em 1907, até os dias que correm, em 1959, Adelmar Tavares tem contribuído magnificamente para a elevação da Trova na língua portuguesa. Já fez as suas bodas de ouro como trovador! E nesses cinqüenta anos tem sido sempre o mesmo: um sincero e admirável poeta simples, cheio de ternura, – um criador riquíssimo de belas trovas! Neste meio-século como o mundo se transformou! E o menino de Goiana e jovem estudante de Recife como subiu! Advogado, professor, presidente do Tribunal de Justiça, membro da Academia Brasileira de Letras. E, no entanto, apesar das modificações do mundo e de sua própria vida, guardou carinhosamente o seu grande amor à Poesia, conservou permanentemente a sua fidelidade à Trova.

Na Introdução de um de seus livros ele confidencia: “A trova foi sempre, das formas de poesia, a que mais me tocou a sensibilidade, porque foi a poesia dos lavradores de meu velho engenho pernambucano, a poesia daquelas violas inesquecíveis que fizeram o enlevo da minha meninice, e levarei comigo dentro da alma até o último bater do coração.”

Obras:

Descantes, trovas (1907);
Trovas e trovadores, conferência (1910);
Luz dos meus olhos, Myriam, poesia (1912);
A poesia das violas, poesia (1921);
Noite cheia de estrelas, poesia (1925);
A linda mentira, prosa (1926);
Poesias (1929);
Trovas (1931);
O caminho enluarado, poesia (1932);
A luz do altar, poesia (1934);
Poesias escolhidas (1946);
Poesias completas (1958).

Escreveu também várias obras jurídicas, entre as quais
Sobre a história do fideicomisso;
Do homicídio eutanásico ou suplicado;
Do direito criminal;
O desajustamento do delinqüente à profissão.

Um Haikai

Outono abre alas
para o sol quase verão
graça da estação.
ELIANA RUIZ JIMENEZ (SC)

Uma Trova da Carmem

Olhando o sol na vidraça
E o balançar das palmeiras,
Invejho a aragem que passa,
Indo afagar as roseiras.
CARMEM PIO (RS)

Uma Fábula em Versos

O Raposo e o Bode
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

O capitão raposo
Ia caminho ao lado
De seu amigo bode,
D’alta armação dotado.

Este não via um palmo
Diante do nariz;
Era formado aquele;
Nas burlas mais subtis.

Ungidos pela sede,
Lograram penetrar
Num poço, cujas águas
Sorveram a fartar.

Disse o raposo ao bode:
“O que fazer agora?
Beber não foi difícil;
É sim vir para fora.

As tuas mãos e pontas
Ergue, compadre, acima,
E o corpo sobre o muro
Solidamente arrima.

Subindo por teu lombo,
Trepando na armação,
Alcançarei a borda,
A fim de dar-te a mão.”

BODE
“Por minhas barbas, digo:
Podes ficar ufano!
Jamais eu descobrira
Tão engenhoso plano.”

Safando-se o raposo,
O bode lá deixou;
E sobre a paciência
Este sermão pregou:

RAPOSO
“Se Deus te dera tino
Em dose, à barba igual,
De certo não caíras
Em arriosca tal.

O caso é que estou fora!
E pois, compadre, adeus!
Livra-te desse apuro,
Dobrando esforços teus.

Veda negócio urgente
Que eu possa te valer.”

Quem entra numa empresa
O fim deve prever.

Uma Trova da Thereza

Se, em desalento, me inclino,
nos fracassos que padeço,
sempre a força do destino
Me aponta um novo começo…
THEREZA COSTA VAL (MG)

Uma Poesia

O médico é obra divina,
que de maneira aguerrida,
Estudou, fez medicina
para salvar nossa vida.
Não quer ver ninguém sofrer,
e se acaso acontecer
do Doutor ficar doente;
por vocação… por amor…
ele esquece a própria dor
pra curar a dor da gente!…
ADEMAR MACEDO (RN)

Cantinho do Assis

A era da síntese

A era em pauta é a da síntese. Ninguém mais dispõe de tempo e fôlego para ler textos longos. Quem, portanto, desejar ser lido, trate de aprimorar a técnica da concisão. Se o que você tem a dizer cabe numa trova, num haicai, num micropoema livre, num miniconto, então por que encompridar a conversa? Discursos quilométricos, em verso ou prosa, espantam o leitor, deixam nervoso o ouvinte. A vida moderna é assim.

De todos os belos textos de Fernando Pessoa, o mais conhecido tem apenas 28 sílabas:

O poeta é um fingidor;
finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
De Camões continuam lidos os sonetos, porém raríssimas pessoas leriam hoje Os lusíadas. Perguntem aos leitores de jornais o que é que eles geralmente lêem. As colunas de pequenas notas, claro. A moda é o texto curto, curtíssimo, que possa ser lido/ouvido em no máximo um minuto. Uma trova, dita em sua cadência típica, dura exatos oito segundos. Um haicai, seis segundos. Se a leitura de um miniconto exige mais de um minuto, ele precisa ser enxugado; ou não será míni. Questão de treinamento.

A gente vai aos poucos descobrindo que pode dizer mais se cada coisa que se vai dizer é dita de forma concisa. O século 21 quer o poema-flash; a história que tenha começo-meio-fim, mas só isso, sem enchimento. Sobretudo sem encheção.
(A. A. de Assis, junho 2007)

Uma Trova do Cassiano

No comércio, o cidadão,
nunca vive sossegado.
Quando escapa do ladrão,
cai no golpe do fiado.
CASSIANO SOUZA ENNES (PR)

Um Soneto

Hipocondria (Verborrágica)
HÉLIO AZEVEDO DE CASTRO (PR)

Caquético, apoplético, apático,
Sorumbático, asmático, senil,
Paraplégico, morfético e errático,
O numismático está menos viril.

Sendo hemofílico, logo está hemorrágico,
Faz-se iminente a transfusão. Porém!
Não existe um doador. É trágico
Com o seu RH não há ninguém.

Soropositivo, anêmico e esquálido
É sintomático a tumor pancreático
Câncer prostático e forte dispnéia.

Ainda assim, combalido e pálido,
Arranja forças e pede ao esculápio:
– Um comprimido para a minha cefaléia!
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Indicação de Sites/Blogs Literários
Conheça – Navegue – Participe

Participe do Trova-Legenda, de Eliana Ruiz Jimenez (SC), todas as semanas. http://poesiaemtrovas.blogspot.com.br

O portal de trovas mais completo da internet, de José Ouverney (SP), http://www.falandodetrova.com.br

Blog do Prof. Pedro Mello (SP), todos os dias uma nova trova http://pedromello-ubt.blogspot.com/

O site do A. A. de Assis (PR), com trovas, contos, poesias, triversos, etc. http://aadeassis.blogspot.com

Poemas de Pedro Du Bois (RS) em seu blog http://pedrodubois.blogspot.com/

Livros e dicas para escritores, no blog da Isabel Furini (PR) http://livrodoescritor.blogspot.com.br/

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