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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 32)

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Trova do Paraná
José Feldman

Foram felizes instantes,
juventude na querência.
Hoje em terras tão distantes,
Pilcha…mate…sinto ausência!

Trova de Portugal
Fernando Pessoa

Tenho uma pena que escrevera
aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve;
se é verdade, não tem tinta.

Um Haicai do Ceará
João Batista Serra

Chega mais um trem:
São Paulo, de madrugada,
Granizo no Braz.

Trovadores que Deixaram seu Nome Gravado no Livro da Vida
Ademar Macedo (1951-2013)

Toda trova nos fascina,
encanta e nos enternece.
A trova é pura e divina
como se fosse uma prece!

O Vírus da Poesia

Poesia é a minha paz,
meu mundo, meu universo;
um mar de sabedoria
onde eu vivo submerso;
é minha alimentação,
é meu sustento, é meu pão
feito de rima e de verso…

A partir da madrugada
é esse o meu dia a dia:
já de caneta na mão
recebo uma epifania,
cuja manifestação
é trazer-me inspiração
pra eu fazer minha poesia…

A poesia é minha luz,
é meu santo e meu altar,
feijão puro com farinha
que eu tenho para almoçar;
ela é minha própria vida
é meu lar, minha guarida
meu sol, meu céu e meu mar!

Ao ver poesias aos montes
nascendo em minha vertente,
tive um “derrame” de rimas
nas veias da minha mente
e um maravilhoso “infarto”
eu tive ao fazer o parto
do derradeiro repente!…

Quero então no meu jazigo,
feito em letras garrafais,
aquela minha poesia
que me deu nome e cartaz;
e escrito, seja onde for:
– eis aqui um trovador
que morreu feliz demais!

Quem carrega, como nós,
o vírus da poesia,
tem no sangue uma plaqueta
que se altera todo dia,
aumentando a quantidade
e pondo mais qualidade
nos versos que a gente cria.

Ademar Macedo nasceu em Santana do Matos/RN, no dia 10 de setembro de 1951. Aos oito anos foi morar em Zabelê, município de Touros também no Rio Grande do Norte, onde ficou até 1963, quando se mudou Natal, onde terminou o primário e através de uma seleção (concurso), em 1965 foi para o Ginásio Agrícola de Ceará-Mirim/RN. Terminando o ginásio voltou para Natal onde fez o Científico (naquela época) que era o 2º Grau. Em 1971 entrou Para o Corpo de Fuzileiros Navais. Passando no 1º concurso para Cabo, foi cursar no Rio de Janeiro e nunca mais estudou. Voltou para Natal em 1980 e em 81 perdeu uma perna num acidente.
No Ginásio agrícola (que era um Internato) sob o duro comando de Paulo Mesquita, o Diretor, um Oficial Reformado da Aeronáutica, teve a melhor aprendizagem de sua vida, lá era um verdadeiro quartel, principalmente no que tange a moral, dignidade, honestidade que o acompanharam sempre.
Perdeu seu pai muito cedo, aos 7 anos. Sua infância foi difícil, mas sua mãe e irmão mais velho nunca deixaram faltar nada, inclusive o estímulo.
Após o seu acidente, numa maneira de passar melhor o tempo, começou a frequentar cantorias de viola, festivais de Violeiros, tudo o que dizia respeito a Poesia Popular, e por seu pai ter sido poeta, sentia correr nas veias o sangue da poesia e começou a fazer algumas estrofes; seus irmãos Francisco Macedo e Augusto Macedo (falecidos) que já eram poetas, disseram que levava jeito pra coisa!
Poeta popular, conhecido em todo estado devido as declamações nas rádios: (Rural de Natal, Rádio Poti e 98FM), foi convidado por José Lucas de Barros, que assistia as suas declamações nas cantorias e nos festivais e por Joamir Medeiros, que o ouvia nas Rádios, para ingressar na ATRN (Academia de Trovas do R.G.do Norte), aprovado desde 2004.
Livros de sua autoria:
“…E Da Dor Se Fez Poesia.”
Livros Em Parceria:
“Poesias Em Quatro Versos”,
“Dois Poetas Em Setilhas”,
“Um Debate Em Setilha Agalopada”,
“Nos Arpejos Das Setilhas”
“Um Rojão Em Sextilha Agalopada”.
“Sexteto Em Sextilhas”,
“Sexteto Potiguar”,
“Sextilhas A Quatro Vozes”,
“Três À Mesa Da Poesia”
“No Compasso Das Setilhas”.
Cordel
“Divagações Poéticas”
CDs declamando Poesias:
“Na Cadência Da Poesia”
“O Poeta E A Raposa” (Com suas declamações ao vivo, na 98 FM)
O Livro onde mais se inspirou, onde estão as melhores poesias: “Um Debate Em Setilha Agalopada”.
“Três À Mesa Da Poesia”, Zé Lucas mandou a sua estrofe, ele respondeu e enviou as duas para o Professor Garcia, que por sua vez, lhe respondeu e as enviou para Zé Lucas e assim sucessivamente até chegar 150 estrofes.
Vejam as três primeiras:

01 – Zé Lucas
Com Ademar e Garcia
vou pelejar desta vez,
enchendo a taça dos versos
com carinho e lucidez,
para que o vinho sagrado
das musas dê para os três.

02 – Ademar
Vou beber com honradez
uma taça todo dia,
e eu peço a Deus neste verso
talento e sabedoria,
e que este vinho sagrado
me embriague de poesia.

03 – Prof. Garcia
Eu vou beber todo dia
para afastar o meu pranto,
deste vinho que embriaga
e nunca me causa espanto,
porque o vinho do verso
tanto é puro quanto é santo.

Premiado em 21 Cidades de diferentes estados da nossa federação em Concursos Nacionais de Trovas. Teve também alguns Prêmios em “Poesia” apenas aqui no meu Estado.

Para se inspirar literariamente :

“Vi à luz de lamparina,
em inspirações imerso
que a musa se faz menina
para brincar no meu verso.”

“Na inspiração do poeta
sinto um pouco de magia,
porque toda estrofe minha
me fascina e me extasia;
e em cada verso que faço
vou mastigando um pedaço
do pão da minha poesia.”

Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos:

Nunca quis ganhar fama nem cartaz,
sou feliz no papel que desempenho,
sou um homem de fé, temente a Deus,
não reclamo do peso do meu lenho
nem de tudo na vida que padeço…
Eu já tenho até mais do que mereço
e me sinto feliz com o que tenho!

Em 2006 teve um câncer no intestino, operou em 2006, no Rio de Janeiro; fez 52 Quimioterapias e 25 Radioterapias. Ademar faleceu em janeiro de 2013, em Natal/RN.

Quero então quando eu morrer,
feito em letras garrafais,
aquela minha poesia
que me deu nome e cartaz;
e escrito, seja onde for:
– Eis aqui um trovador
que morreu feliz demais!

Biografia retirada de entrevista realizada por José Feldman com Ademar para o blog Pavilhão Literário Singrando Horizontes

Soneto de São Paulo/Capital
JB Xavier
O TROVADOR

 Qual castelo sitiado
 meu coração chora em dor:
 Encanto desencantado
 do encantamento do amor.

 E qual trovador cansado,
 cantando em sétima à flor,
 eu me deixo ser levado
 por teu riso acolhedor.

 Entretanto a minha vida,
 que te ofertei, já continha
 uma tristeza inserida, 

 por saber que tu, rainha, 
 és sempre a dor mais sofrida
 de não quereres ser minha…

Trova de São Paulo
Martha Maria O. Paes e Barros

Diz o cinquentão vaidoso:
– “Eu sou madeira de lei!”
E, a mulher em tom jocoso:
– “Então deu cupim… que eu sei!”

Haicai do Paraná
Alvaro Posselt

Não cresceu com fermento
Para o pão ficar grande
usei lentes de aumento

Poemas Lusos de Pessoa
Fernando Pessoa (1888-1935)
AH UM SONETO!!!

 Meu coração é um almirante louco
 que abandonou a profissão do mar
 e que a vai relembrando pouco a pouco
 em casa a passear, a passear…

 No movimento (eu mesmo me desloco
 nesta cadeira, só de o imaginar)
 o mar abandonado fica em foco
 nos músculos cansados de parar.

 Há saudades nas pernas e nos braços.
 Há saudades no cérebro por fora.
 Há grandes raivas feitas de cansaços.

 Mas – esta é boa! – era do coração
 que eu falava… e onde diabo estou eu agora
 com almirante em vez de sensação?…

Trova do Paraná
Istela Marina Gotelipe Lima

Se a viagem é impossível,
deixo o sonho de nós dois
numa espera indefinível
para um suposto depois…

Trova do Rio Grande do Sul
Milton Souza

Sou louco quando preciso
e o remorso não me assalta;
eu nunca tive juízo
e ele nunca me fez falta…

Soneto de Tremembé/São Paulo
Luiz Antonio Cardoso
SOLIDÃO

 Propensos a quereres semelhantes,
 tendo a poesia inata em nossas mentes,
 tínhamos o infinito… e como amantes
 seríamos estrelas reluzentes.

 Mas eis que seus desejos, tão arfantes,
 fizeram dos meus sonhos, tão descrentes,
 migalhas de lembranças arquejantes,
 fenecendo em processos deprimentes.

 Recusaste o poeta que há em mim,
 e todos os meus versos, que sem fim,
 esculpiram o amor que eu quis te dar…

 e decretaste enfim, a solidão,
 para me acompanhar à imensidão…
 onde hei de eternamente te esperar!

Trova do Amazonas
Petrarca Maranhão

É caprichoso o destino
caprichoso por demais:
a quem quer muito, dá menos,
a quem quer menos, dá mais…

Trova do Rio Grande do Norte
José Lucas de Barros

Se este mundo tão bisonho
te nega paz e guarida,
usa o refúgio do sonho,
onde o amor sustenta a vida!

Saudade em Versos, de Fortaleza/Ceará
Nemésio Prata Crisóstomo

Fazer versos é ciência
que brota do coração
pois versar é consequência
da mais pura inspiração!

Se alguém for forçar a barra
pra versar de qualquer jeito,
garanto que a sua farra,
mesmo que ele afie a garra,
jamais vai sair do peito!

E se alguém metido a besta
for fazer versos na marra
pensando que é só botar
no papel tinta, é bandarra,
vai comer capim de cesta
pra não mais fazer fanfarra!

Deixo aqui mais um recado,
e não levem por pilhéria:
só se versa se inspirado,
pois versar é coisa séria,
e se é Deus quem tem mandado
fazer versos, mais cuidado,
pra não ficar na miséria!

Depois de muito tecer
falação vou me calar,
mas antes é bom dizer
para o “Vate” brasileiro
que jamais venha esquecer
nosso querido Ademar,
o “Poeta do Amanhecer”
que Deus nos levou primeiro!

Falando em amanhecer,
ao ver o raiar do dia
lembro-me com alegria
daquele que foi viver
com Deus; logo ao perecer!
Morreu, sim, mas vivo está
na presença de Jeová;
versejando em demasia,
como aqui ele fazia,
fazendo a festa por lá!

Cantinho do Luiz Otávio
O Destino da Trova

Dura menos que um suspiro
ou como a folha que cai…
Mas quando penetra na alma,
a Trova fica… Não sai…

Haicai do Paraná
A. A. de Assis

Vinha quente o tempo.
De repente vira o vento,
volte o vinho então.

Trova do Paraná
Serafim França

Quando me assalta a saudade
de te ver, de te falar,
saio, cheio de ansiedade,
com o fim de te encontrar.

Trova de Minas Gerais
Edmilson Ferreira Macedo

Oh, musa de mil encantos,
mulher divina e querida,
que sabe enxugar meus prantos
nas horas tristes da vida!

Trova de São Paulo
Therezinha Dieguez Brisolla

Tem, do herói, santo ou profeta
– em meio às guerras e a dor –
a mesma audácia, o poeta
que teima em falar de amor!

Poesia de Ribeirão Preto/São Paulo
Elisa Alderani
CASULO DA PALAVRA

  
Palavra fechada no casulo da alma.
Como bicho da seda tecendo fios dourados.
Trabalha sem cessar.
Na noite profunda sonha.
Escondida, aguarda seu tempo.
Na hora certeira amadurece.
Silenciosa e calma.
Com a força do pensamento,
Abre sua provisória morada.
Vagarosa sai informe.
Úmida e gelada,
Na madrugada de um dia qualquer.
Aguarda o sol chegar.
Um raio luzente a aquece,
Revigora sua carne machucada.
Distende as asas lentamente,
Voa para experimentar a vida!
Agora linda e colorida borboleta.
Não é efêmera…
Logo ela volta e docemente pousa
Na perfumada flor branca do papel.
Que acolhedor está à sua espera.
A Indelével Palavra do poeta.

Haicai do Paraná
José Marins

sem nenhuma folha
os galhos da magnólia
floridos de roxo

Trova de Goiás
Francisco Assis Menezes

Não é preciso chorar
somente por ter caído.
A queda não vai tirar
a honra de haver subido.

Trova do Paraná
Olga Agulhon

Carrego pouca bagagem
porque na vida aprendi
que, mesmo longa a viagem,
preciso apenas de ti!

Poesia de Maringá/Paraná
José Feldman
Cavalgada de Sonhos

Mergulho no espaço ao encontro do destino,
Semente do amor germinada em solo carente,
desanuviando pensamentos de mente conturbada…
Rompendo os elos dos grilhões.

Percorrer o absurdo dos tempos em voo repentino…
Vislumbre de um momento de magia,
Da derrocada final dos Deuses em seu crepúsculo,
Do extermínio dos tabus a nós impingidos.

Sentir o ofuscar do brilho do cristal,
do cristal de olhos radiantes…
Aurora boreal!

E no fulgor da cavalgada das Valquírias
que acende a chama da pira do enternecer,
devastadoramente bela como a mãe-natureza,
entregar-se ao trote das ilusões.
Momento mágico, que dure todo infinito –
Um infinito de sensações.

Deixar que o fio que comanda nossos sonhos
comande os nossos corações!

Trova de Minas Gerais
Olympio Coutinho

Eram alegres os meus olhos
e tristes eram os teus,
por serem tristes teus olhos
ficaram tristes os meus.

Trova do Rio de Janeiro
Elisabeth S. Cruz

Dominar o medo e o ódio,
a injustiça e o desamor,
são vitórias que, no pódio,
dão mais brilho ao vencedor!

Trova do Paraná
Ariane França de Souza

Sou ditosa no meu lar,
e por ele tenho zelo.
Vivo bem sem ter pesar,
vou desfiando o meu novelo.

Poesia de Uberaba/Minas Gerais
Cacaso (Antonio Carlos Ferreira de Brito)
1944 – 1987
SE PORÉM FOSSE PORTANTO

Se trezentos fosse trinta
o fracasso era um portento
se bobeira fosse finta
e o pecado sacramento
se cuíca fosse banjo
água fresca era absinto
se centauro fosse anjo
e atalho labirinto
Se pernil fosse presunto
armadilha era ornamento
se rochedo fosse vento
cabra vivo era defunto
se porém fosse portanto
vinho branco era tinto
se marreco fosse pinto
alegria era quebranto
se projeto fosse planta
simpatia era instrumento
se almoço fosse janta
e descuido fosse tento
se punhado fosse penca
se duzentos fosse vinte
se tulipa fosse avenca
e assistente fosse ouvinte
se pudim fosse polenta
se São Bento fosse santo
dona Benta fosse benta
e o capeta sacrossanto
se a dezena fosse um cento
se cutia fosse anta
se São Bento fosse bento
e dona Benta fosse santa

(in Mar de Mineiro)

Trova de Pernambuco
Swami Vivekananda

É próprio do brasileiro
nas coisas dar um “jeitinho”.
Faz bagunça o dia inteiro,
mas em casa vira “anjinho”.

Haicai do Paraná
Maria Marilda Confortin Guiraud

manhã de geada,
leite de vaca morninho
com gosto de infância.

Trova de Minas Gerais
Clevane Pessoa

Olhando fotos antigas,
tenho saudade de mim.
– Hoje, maduras espigas;
ontem, um frágil jardim.

Fábula em Versos, de Pedro Leopoldo/Minas Gerais
Wagner Marques Lopes
Fábula

Fábula é FÁ –
da notação musical.
Tem gente, bicho, planta,
e de embrulho… O mineral.
Fábula é BULA –
atende à receita.
É aquilo que se aceita –
certeiro medicamento,
de efeito rápido ou lento.

Fábula é solo ensementado.
Vida. Sonhar.
Amor realizado.
É La Fontaine.
Esopo. Fedro.
É fonte.
Videira e cedro.

Sendo autor,
virtudes terço.
E a moral?
É algo certo?
Linear e incontroverso?
O leitor descobre mais:
ela tem várias morais.
Ao lê-la, com sentimento,
o ledor se faz converso,
ou, de antemão, bem disperso.

Asas. Ruflar. Voo fugace.
Algo que não embarace.

A fábula é linha e corda.
Corda e caçamba.
Guerra que concentra.
Paz que descamba.

A fábula é gesto altivo.
Quantas ações de nobreza.
Outras são rudes demais.
Nela a beleza se aninha;
visito-a nas entrelinhas,
em seus dotes naturais.
Onde o melhor se entrelaça –
o caçador vira caça,
na primeira encruzilhada.

Teço a teia do narrar,
com a fantasia…
E mais nada.

Fábula é rio a correr
no sentido da montante…
Nasce num mar bem distante,
flui pelas verdes ravinas
e deságua soberano
nas mais silentes montanhas.

Trova de Autor Desconhecido

Aqui jaz a minha sogra,
que vivia enchendo o saco.
Não tendo mais o que encher,
veio encher este buraco.

Trova do Rio Grande do Norte
Djalma Mota

De pileque, o Zé Libório,
procedeu de modo errado…
Chupando o supositório:
– Ah! Confeito ruim danado!

Trova do Paraná
Vânia Maria Souza Ennes

Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração…
perco o rumo e o raciocínio!

Trova de São Paulo
Héron Patrício

– Infiéis os meus cabelos!
Saudoso, o careca chora…
– Dei carinhos… tive zêlos…
mas foram todos embora!

Poesia de Malawi/África
Poeta Anônimo
AGRADEÇO-LHES

Eu tinha fome
E vocês fundaram um clube humanitário
Para discutir a minha fome.
Agradeço-lhes.

Eu estava na prisão
E vocês foram à igreja
Rezar pela minha libertação.
Agradeço-lhes.

Eu estava nu
E vocês examinaram seriamente
As consequências da minha nudez.
Agradeço-lhes.

Eu estava doente
E vocês se ajoelharam
E agradeceram a Deus
O dom da saúde.
Agradeço-lhes.

Eu não tinha casa
E vocês pregaram sobre o amor de Deus.
Vocês pareciam tão piedosos,
Tão perto de Deus!

Mas eu continuo com fome,
Continuo só, nu, doente,
Prisioneiro
E tenho frio,
Sem casa…

Trova de Minas Gerais
Luiz Carlos Abritta

Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
É um eterno retornar.

Trova da Argentina
Arturo B. Carisomo

Las fronteras son los trazos
que forman distintos mundos;
se borrarán con abrazos
de los pueblos en segundos.

Trova do Ceará
Fernando Câncio

O sonho que mais me anima,
que me faz bem, me renova,
é sonhar fazendo rima,
compondo mais uma trova.

Trova do Rio Grande do Norte
Prof. Garcia

Eu vi os dois num duelo,
quando eu estava brechando;
um sem o pé no chinelo
e o outro em pé, chinelando.

Poesia de Buenos Aires/Argentina
Alberto Girri (1919 – 1991)
CONVOCAÇÃO

O caçador
que dentro de mim
espreita
e lança emboscadas,
e cava fossos
apanhando
o que deles cai,
e conta suas presas
quando o velho sol
termina seu passeio,
e se deixa farejar
depois da caça
por hienas e chacais,
demônios
que pedem carniça
e imitam
com gemidos e grunhidos
a voz dos mortos,
não é
apenas meus impulsos
de destruição e pânico,
dele
vem a memória ancestral
da desobediência
ao espírito vivificante,
o gosto desgraçado
da perseguição.

Eu não sou
nem bom nem mau por essência
senão por participação,
como não reconheces, minha hóspede,
que não quero assimilar teus traços
além da vigília.
Eu te protejo;
eu te cuido,
deixa em paz as minhas noites.
(Tradução de Antonio Miranda)
Trova de Portugal
Maria José Fraqueza

Minha boneca de sonho…
vivências da mocidade!
Pensamento que transponho
no meu portal de saudade!

Trova do México
Maria Helena Espinosa

Mira bien donde tú pisas
al andar por el camino;
no vayas a ser que en las prisas
se te extravie tu destino.

Trova do Ceará
João Batista Serra

A mim, correto parece
em achar muito evidente
que nem tudo que acontece
é só porque Deus consente.

Trova do Paraná
Vidal Idony Stockler

Canta a prosa, canta o verso
com esplêndida leveza,
enchendo todo o universo
e louvando a natureza.

Trova do Espírito Santo
Humberto Del Maestro

Começa a lua num traço,
vai crescendo e nos seduz…
Como é formoso, no espaço,
esse trapinho de luz!

Poesia de Pereira/Colômbia
Alberto António Verón
COMPRADORES

 Ser outros,
 mãos que compram,
 mãos que acariciam os corpos,
 são cem, mil rostos dos que vi e jamais verei,
 usar a mim mesmo e ser usado e usar dos outros
 todas as manhãs do que resta e nos espera,
 na luz tênue do abraço.

Trova do Rio Grande do Norte
Sebastião Soares

Pintando o chão de amarelo
e de sol dourando o monte,
Deus fez o monte mais belo
e chamou Belo Horizonte.

Uma Poesia de Apucarana/Paraná
Fahed Daher
A Força ou a Justiça?

Quem tem razão? A força ou a justiça?
 Se a força da justiça imperasse
 então a força seria a razão.
 Mas a força sem ética se eriça
 e o poder e o domínio se envaidecem
 impondo seu direito em dura liça,
 corrompendo sem fé, sem dimensão.

Já não é mais a força do guerreiro
 enfrentando combates ardorosos.
 Já não é mais o gladiador audaz
 desbaratando males enganosos;
 mas a força solerte do dinheiro
 que nas mão sediciosas é capaz
 de transformar a paz do mundo inteiro
 na escravidão mordaz.

Da justiça a nobreza e a santidade
 se corrompem nas barras tribunais
 em decisões anômalas, tribais,
 que favorecem sempre os poderosos
 e que aos desamparados cabem mais
 tantos castigos, tantas punições,
 sob a pena de tanto anonimato,
 padecendo no puro desacato
 da soberba do malho e sem guarida.

A força do direito ou direito da maldade…
 Que dilema cruel enfrenta a humanidade.
 entre os recursos de hábeas corpus, liminares,
 que aos pobres só lhes cabem os azares.
 “fernandos, zés dirceus,” que permanecem livres
 em condições de juízos mais privilegiados,
 e juntos com “Barbalhos” não serão julgados
 no mesmo plano malogrado de mendigo,
 desesperado, que de um furto foi viver.

Quem tem razão? A força ou a justiça?
 Se a força da justiça imperasse
 nossos políticos seriam castos
 no repúdio de tantas, tantos gastos
 sem mérito em prejuízo da nação.
 Os partidos seriam bem mais puros
 e honestos criariam, com apuros,
 seus planos e projetos exemplares
 para honrar o equilíbrio da Nacional.

Se a força da justiça, pelo mundo,
 fosse mais forte que o poder bancário,
 a paz seria um poder fecundo
 e sem poluição, a nossa terra
 não sofreria mais nenhuma guerra,
 já sem colonialismo e sem Iraque,
 sem terrorismo e orgulho americano,
 sujeito a promover qualquer ataque
 onde interesse o seu poder insano

Mas um dia, eu bem sei, um certo dia,
 eu já não sei ao certo onde nem quando,
 entre os castigos que estão nos rondando
 a humanidade acordará tão aterrada,
 sabendo o quanto tem vivido errada
 fugindo do humanismo e da justiça,
 vivendo só de posses e cobiça,
 sem procurar achar a luz Divina
 de agir sob o calor da integridade,
 servindo humildemente na verdade
 e com justiça encontrando a paz

Trova do Ceará
José Deusdedit Rocha

Da mentira hoje te furtas
simulando ações fraternas,
só que ela tem pernas curtas…
Se é que mentira tem pernas.

Trova de Pernambuco
Geraldo Lyra

Saudade, um mar de lembrança
na praia do pensamento,
onde a jangada balança
no sopro leve do vento.

Trova do Rio Grande do Sul
Delcy Canalles

Quando o sol se vai embora
e a noite escurece o azul,
minha alma de prenda chora,
nos pampas verdes do Sul!

Poesia das Ilhas São Tomé e Príncipe/ África
Caetano de Costa Alegre (1864 – 1890)
CANTARES SANTOMENSES

(A meu tio Jerônimo José da Costa)

Branca a espuma e negra a rocha,
Qual mais constante há-de ser,
A espuma indo e voltando,
A rocha sem se mexer?

Não creias que em teu jazigo
Alguém parta o coração,
No mundo quem morre, morre,
Quem cá fica come pão.

Não me dizem quanto tempo
Tenho ainda que viver,
Ficava ao menos sabendo
Quando finda o meu sofrer.

 Se eu me casasse contigo,
Fazia um voto de ferro,
De deixar-te unicamente
No dia do meu enterro.

Todos me dizem: “esquece
Essa paixão, que te abrasa”.
Que serve fechar a porta
Ao fogo que tenho em casa?

Não havia tanta cara
De asno, de tolo e pedante,
Se falasse, quem censura,
Com um espelho adiante.

Brotam espinhos da rosa,
O incêndio brota do lume.
A traição brota das juras,
Brota do amor o ciúme.

Numa loja conhecida
O que é cem custa duzentos,
Levam dinheiro em fazendas
E o tempo nos cumprimentos.

Macaco, chamaste tolo
Ao meu pequeno sagui.
Também queria que ouvisses
O que ele disse de ti.

Por teu desdém não me mato,
Não faço tamanha asneira,
Se o meu amor tu não queres,
Há muita gente que o queira.

 Quem pode num campo vasto
O joio apartar dos trigos?
Quem conhece dentre os falsos
Os verdadeiros amigos?

Trova do Rio Grande do Norte
Francisco Macedo

Ao ver de uma árvore, o corte,
minha angústia é paralela…
Eu sinto as dores da morte,
na dor dos gemidos dela!

Trova de São Paulo
Carolina Ramos

Se amigo é o que escuta a queixa,
seca o pranto e ajuda a rir,
mais amigo é o que não deixa
sequer o pranto cair!

Trova do Paraná
A. A. de Assis

Amai-vos, e as derradeiras
muralhas hão de cair.
 Havendo amor, as fronteiras
não têm razão de existir!

Trova de Santa Catarina
Gislaine Canales

O espelho mal me mostrou
algo que eu nem suspeitava:
Agora, eu sou, como estou
e nunca como eu sonhava!

Poema de Itapema/Santa Catarina
Pedro Du Bois
SOBRE O PRANTO

Sobre o pranto derramado
na inutilidade do ato
ouso o desconsolo
no fato não abortado
quando necessário
na escolha negada
ao corpo escravizado
na pobreza retida
em inconsequências

choro a amoralidade
do agente avesso
em ensinamentos.

Trova do Rio Grande do Norte
Ivaniso Galhardo

Do botão nasceu a rosa
que floriu nosso jardim.
Da mulher bela e formosa,
nasceu você para mim.

Trova do Rio Grande do Sul
Ialmar Pio Schneider

A trova é o verso que nasce
de um coração sonhador;
fica estampado na face
de quem vive um grande amor!

Vinicius, com Amor
Vinicius de Moraes (1913-1981)
POÉTICA (l)

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
—Meu tempo é quando.

Trova do Paraná
Nei Garcez

Com a trova se diz tudo
em fração de oito segundos,
e seus temas, sobretudo,
são precisos e fecundos.

Cantigas de Roda
A Barata diz que tem

A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !

A Barata diz que tem um sapato de veludo
É mentira da barata, o pé dela é peludo
Ah ra ra, Iu ru ru, o pé dela é peludo !

A Barata diz que tem uma cama de marfim
É mentira da barata, ela tem é de capim
Ah ra ra, rim rim rim, ela tem é de capim

A Barata diz que tem um anel de formatura
É mentira da barata, ela tem é casca dura
Ah ra ra , iu ru ru, ela tem é casca dura

A Barata diz que tem o cabelo cacheado
É mentira da barata, ela tem coco raspado
Ah ra ra, ia ro ró, ela tem coco raspado

Trova do Rio Grande do Norte
Hélio Pedro

Quando me entendi por gente,
vi logo a luta voraz:
da vida a correr na frente
e a morte correndo atrás.

Cantos de Capoeira
Capoeira de São Salvador

 O, meu mano.
O que foi que tu viu lá.
Eu vi capoeira matando.
Ora meu deus,
 Também vi maculelê.
Capoeira !
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 Capoeira !
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 Mas sou discípulo que aprendo.
E mestre que dá lição.
Na roda de capoeira.
 Nunca dei meu golpe em vão.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 É Manuel dos Reis Machado.
Ele é fenomenal.
Ele é o Mestre Bimba.
 Criador da Regional.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 Ei capoeira é luta nossa.
Da era colonial.
E nasceu foi na Bahia.
 Angola e Regional.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 No dia que eu amanheço.
Danado da minha vida.
Planto cana descascada.
 Com seis dias tá nascida.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 É jogo de liberdade.
Jogo de libertação.
Praticado na Senzala.
 No tempo da escravidão.
É jogo praticado na terra de São Salvador.
 Jogo de muita mandinga.
Do escravo sofredor.
Que queria se livrar.
Do chicote do feitor.
É jogo praticado na terra de São Salvador.

Eternamente Drummond
Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)
SAGRAÇÃO

 Rocinante
 pasta a erva do sossego.

 A Mancha inteira é calma.
 A chama oculta arde
 nesta fremente Espanha interior.

 De giolhos e olhos visionários
 me sagro cavaleiro
 andante, amante
 de amor cortês a minha dama,
 cristal de perfeição entre perfeitas.

 Daqui por diante
 é girar, girovagar, a combater
 o erro, o falso, o mal de mil semblantes
 e recolher, no peito em sangue,
 a palma esquiva e rara
 que há de cingir-me a fronte
 por mão de Amor-amante.

 A fama, no capim
 que Rocinante pasta,
 se guarda para mim, em tudo a sinto,
 sede que bebo, vento que me arrasta.

Cantigas de Ninar

Acordei de madrugada,
Fui varrer a Conceição,
Encontrei Nossa Sra
Com seu raminho na mão.
Eu lhe pedi um raminho,
Ela me disse que não,
Eu lhe tornei a pedir,
Ela me deu seu cordão.
Numa ponta Sto Antônio,
Noutra ponta São João,
No meio Nossa Sra
Com seu lencinho na mão.
Cala a boca, iaiazinha,
Que seu pai já vem já,
Já foi buscar timão de seda,
forrado de tafetá.

Trova do Rio de Janeiro
Diamantino Ferreira

A trova de qualquer jeito,
Chega forte e vai bem fundo;
Em seu contexto perfeito
Já percorre todo o mundo.

Poesia de Autor Desconhecido
Quem é Você?

Tenho procurado respostas nas estrelas…
 Quero descobrir
 Quem é você que me enche de alegria
 Que do anonimato me faz tão feliz
 Não sei quem és,
 Mas me faz tão bem.
 Hoje sei o poder que tem as palavras
 Elas sabem encantar, vem cheias de doçura
 E se vem digitadas pelas tuas mãos
 Tem um poder mágico.
 Elas me fazem viajar para um mundo
 onde só há amor,
 compreensão, cumplicidade,
 companheirismo e ternura.

Ah! você me faz tão bem !
 Se estás tão longe como pode
 me fazer tão bem ?
 Como posso sentir o
 aconchego dos teus braços
 Se nunca te abracei ?
 Se nem ao menos os teus olhos fitei ?
 Como posso senti-los me olhando ?
 Se nunca senti o calor do teu carinho
 Como posso sentir esse calor que emana ?
 Como posso sentir que está triste
 Se nem ao menos me falou ?

Ah! Você me faz tão bem.
 Porque faz isso para mim
 Se nem ao menos me conhece ?
 Nunca nos conheceremos pessoalmente
 mas sinto como se fossemos
 Amigos ha muito tempo.

Quem é você aí na telinha,
 que me manda Tanto carinho ?
 Quem é você que me faz tão bem ?
 Quem é você que me dá tanta força ?
 Quem é você que se esconde
 atrás desta Máquina fria e gelada ?

Acho que sei quem és.
 É um ser divino que Deus colocou
 No meu caminho
 É um Doce Anjinho
 Que apareceu para me proteger.

Ah ! Como é bom saber que
 Tem alguém que ama as estrelas,
 Que ama um banho de chuva,
 Que ama as flores,
 Que ama seus pais,
 Que dá valor à vida,
 Que dá valor à uma amizade,
 Que sabe o valor que ela
 Representa em nossa vida.
 Nossa amizade é maravilhosa.
 Aprendi que quando temos Bons amigos,
 não precisamos
 de mais nada, o resto vem junto.
 É conseqüência.

Não sei rimar
 Não sei brincar com as
 Palavras como você,
 mas estas tenha certeza que saem
 de dentro do meu coração.

Olhe para a lua linda
 e majestosa no céu, e sempre
 Que ela sorrir para você…
 É porque sou eu que
 Estou lá.

Trova do Rio de Janeiro
Henny Kropf

A paz é como uma rosa,
A perfumar os caminhos,
Tão bonita e tão bondosa
Mas,  espalhando os espinhos.

Trova do Distrito Federal
Miguel J. Malty

Atente bem e me escute:
O homem simples, só fala.
O tolo fala e discute,
Enquanto o sábio se cala.

Fontes:
Boletins Nacionais da UBT
O Trovador
Revista Virtual Trovia
http://www.antoniomiranda.com.br
http://www.astormentas.com
http://www.sonetos.com.br
Eberth Santos. Josana de Moura. Filosofia & Literatura. Palavra em ação. Uberlândia/MG: Claranto Editora, 2004.
José Feldman. Alba Krishna Topan Feldman. Cavalgada de Sonhos. Ed. do Autor.
Izo Goldman. Curso de Trovas. (Apostila)

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Arquivado em devaneios poéticos

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 33)

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ

Há muitos pares constantes
que, malgrado de mãos dadas,
seguem juntos, mas distantes,
tendo as almas separadas…
Sérgio Bernardo

Uma Trova de Pedro Leopoldo/MG

Um caderninho discreto
com as trovas de minha lavra…
Hoje, ele vive repleto
do amor de nossas palavras.
Wagner Marques Lopes

Eternamente Drummond
(Itabira/MG – 1902 – 1987)

A Grande Dor das Cousas que Passaram

A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.
Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.
Ó bendito passado que era atroz,
e gozo só hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!

Uma Poesia de Maringá/PR

Jeanette Monteiro De Cnop
Falando de Solidão

Mais um dia que passa
na marcha do tempo…
Um dia de lutas,
de busca incesante.
Um dia sozinho,
separando o ontem
do amanhã.
Eu me situo neste instante
à procura de mim mesma,
encontrando em meu íntimo
a secular tristeza,
presente em tantos ontens.
Pressinto a carencia
(tão própria também de outros
que vivem a meu lado)
de afetos verdadeiros,
e tento ignorar a solidão
– dama velada e silenciosa
que me habita a alma.
Encontro um pouco de Deus
no muito que me cerca;
no sol, que já se esconde,
na luz, no ar,
no verde da paisagem.
É tranquilo o meu mundo
neste espaço do tempo.
No silêncio eu escuto
uma voz interior
chamando por você.
Formulo tímidamente o desejo
de que nos hojes que virão
exista seu carinho em mina vida
e eu nunca,
nunca mais fale
em solidão.

Uma Trova de Rio Novo/MG

Na vida, nossas estradas
não sejam caminhos vãos:
caminhemos de mãos dadas
mas sem algemas nas mãos!
Eugenia Maria Rodrigues

Um Poema de Itapema/SC

Pedro Du Bois
Sobre o Pranto

Sobre o pranto derramado
na inutilidade do ato
ouso o desconsolo
no fato não abortado
quando necessário
na escolha negada
ao corpo escravizado
na pobreza retida
em inconsequências

choro a amoralidade
do agente avesso
em ensinamentos.

Um Haicai de Curitiba/PR

Mário Zamataro

Vêm, no vão do vento,
novas manhãs azuladas.
Vão mexer no tempo!

Um Momento de Cecília Meirelles
(Rio de Janeiro – 1901 – 1964)

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

Uma Quadrinha Popular

Dantes para te ver
saltava montes e “vais”
agora para te não ver
salto ainda muito mais.

Um Soneto de Curitiba/PR

Janske Niemann Schlenker
Minha Casa

Conheço-te tão bem: a sala, o quarto,
a vista da janela escancarada!
Na mesa da cozinha, o almoço farto,
o som de cada porta ao ser fechada…

Conheço-te demais! No entanto, parto…
De tudo o que era meu, não fica nada:
na sala, nada… e nada no meu quarto,
só o vento na varanda ensolarada…

E deixo a antiga casa na ladeira:
Risadas,quantas! Quanta brincadeira!
Mas parto… e minha casa deixo aqui.

E dói-me ver-te assim: fria e despida…
Nem fecho a porta; saio pela vida,
avaliando o quanto empobreci!

Uma Trova de Curitiba/PR

Por sujeito à dura lei,
pescador que sou de versos,
muitos deles encontrei
nos cardumes dos reversos.
Mário Zamataro

Um Soneto de Lisboa/Portugal

Luis Vaz de Camões (1524-1580)
Soneto 013

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.

Um Momento de Mário Quintana
(Alegrete/RS – 1906 – 1994)

Canção da Garoa

 Em cima do telhado
 Pirulin lulin lulin,
 Um anjo, todo molhado,
 Soluça no seu flautim.

 O relógio vai bater:
 As molas rangem sem fim.
 O retrato na parede
 Fica olhando para mim.

 E chove sem saber porquê
 E tudo foi sempre assim!
 Parece que vou sofrer:
 Pirulin lulin lulin…

Um Poetrix de São Bento do Sul/SC

Maurélio Machado
Fog

 Na rústica paisagem
 Animais estáticos
 Na manhã invernal.

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP

Prisão seria um recurso
infeliz de eras passadas:
Se a humanidade em seu curso
vivesse em paz, de mãos dadas!
Lila Ricciardi Fontes

Um Momento de Paulo Leminski
(Curitiba/PR – 1944 – 1989)

Um homem com uma dor

 um homem com uma dor
 é muito mais elegante
 caminha assim de lado
 como se chegasse atrasado
 andasse mais adiante

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Ser trovador repentista
é Dom sutil, delicado,
que Deus concede ao artista
pra transmitir um recado.

Recado que, muitas vezes,
pode agradar, outras não;
podem vir versos corteses,
como também repreensão.
Horácio Ferreira Portella
[1934-2012] (Piraquara/PR)

Horácio Portella nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de fevereiro de 1934 e de lá se transferiu para o Paraná, em 1992, atraído pela tranqüilidade e belezas naturais da terra dos pinheiras, bem ao gosto de sua alma de poeta. Faleceu em 23 de junho de 2012.

Poeta acadêmico, cronista, pesquisador, trovador, compositor, tem dois livros publicados: Caleidoscópio Poético (1994) E Conversejando (1998), ambos de poesia.

Tem trabalhos publicados na Gazeta Acadêmica (órgão da Academia Internacional de Letras [RJ]), Ciência e Cultura (Brasília), O FENAL (Goiânia,GO) e jornais paranaenses como O Estado do Paraná, Tribuna do Paraná, Jornal da Abrapes, O Tempo, Ao Por do Sol na Boca, Correio das CIC’s (todos de Curitiba), Página Serrana e Tribuna dos Mananciais (Piraquara), Tribuna de São José, Folha de São José (São José dos Pinhais) e Agora Paraná (Pinhais).
   
Em 1996 desenvolveu em Curitiba o projeto “O que é Poesia”, dando aulas de poesia nas escolas municipais além de colégio da rede privada. Em São José dos Pinhais, sob os auspícios da Secretaria Municipal de Educação, desenvolveu o projeto “Um Poeta na Escola”, em cinco escolas da rede municipal de ensino. Em Piraquara, onde residia, desenvolveu identico projeto nas escolas municipais.
   
Detentor de vários diplomas, títulos e prêmios, tais como:
– Prêmio Cidade de Curitiba (1977), na área de poesia, pela Câmara Municipal de Curitiba.
– Honra ao Mérito (pelo ingresso no Centro de Letras do Paraná), oferecido também pela Câmara.
– Honra ao mérito, oferecido pela Assembléia Legislativa do Paraná, pelo lançamento do livro “Caleidoscópio Poético”.
– Troféu Machado de Assis (1995), oferecido pela Sala do Poeta do Paraná.
– Troféu Durval Borges (1996), no Concurso Literário da Academia de Letras José de Alencar
Diplomas de participação em eventos poéticos da Associação Médica do Paraná e Concurso de Poesia da Academia de Letras José de Alencar, e também de Colombo, Pinhais, Piraquara (todos do Paraná) e Governador Valadares (MG).
Foi membro da Academia Internacional de Letras (RJ), Centro de Letras do Paraná (Curitiba), Sala do Poeta do Paraná (Curitiba) e Academia de Letras José de Alencar (Curitiba).

(Fonte: Antologia dos Acadêmicos da Academia de Letras José de Alencar, comemorativo dos 60 anos)

Um Poema de São Fidélis/RJ

Antonio Manoel Abreu Sardenberg
Delícia

Doce de coco ralado,
Olho de sogra, quindim,
Brigadeiro, bom-bocado,
Beijinho de amendoim…

Ambrosia, bem – casado,
Monserrat e camafeus
Deixam-me os olhos vidrados
Brilhando mais do que os seus…

Amêndoa caramelada,
Trufas pretas, trufas brancas,
Fios de ovos em tranças,
Pé-de-moleque, cocada…

Vida doce, doce vida,
Que tem o sabor do mel.
E você, minha delícia,
É a doçura mais doce:
Manjar que caiu do céu!

Uma Trova de Fortaleza/CE

Quem a verdade falseia
para si mesmo constrói,
frágil castelo de areia
que onda vem e destrói!
Francisco José Pessoa

Um Haicai de Piraquara/PR

No fundo dos olhos
entre flores disfarçados
mentiras e abrolhos.
Horácio Portella

Lembrando Fernando Pessoa
(Lisboa – 1888-1935)

A Chuva Desce a Ladeira

 A  água da chuva desce a ladeira. 
É uma água ansiosa. 
Faz lagos e rios pequenos, e cheira 
A terra a ditosa. 

Há muitos que contam a dor e o pranto 
De o amor os não qu’rer… 
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.

Uma Trova de São Paulo/SP

Rastro de espuma esbatida,
que o barco deixa nas águas,
faz lembrar a minha vida
toda orvalhada de mágoas.
P. de Petrus

Vinicius de Moraes, Com Amor
(Rio de Janeiro – 1913 – 1980)

A Máscara da Noite

 Sim, essa tarde conhece todos os meus pensamentos
Todos os meus segredos e todos os meus patéticos anseios
Sob esse céu como uma visão azul de incenso
As estrelas são perfumes passados que me chegam…

Sim! essa tarde que eu não conheço é uma mulher que me chama
E eis que é uma cidade apenas, uma cidade dourada de astros
Aves, folhas silenciosas, sons perdidos em cores
Nuvens como velas abertas para o tempo…

Não sei, toda essa evocação perdida, toda essa música perdida
É como um pressentimento de inocência, como um apelo…
Mas para que buscar se a forma ficou no gesto esvanecida
E se a poesia ficou dormindo nos braços de outrora…

Como saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo
Nesse entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas?
Orvalho, orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo
Faz-se surgir diamante dentro do sol!

Lembro-me!… como se fosse a hora da memória
Outras tardes, outras janelas, outras criaturas na alma
O olhar abandonado de um lago e o frêmito de um vento
Seios crescendo para o poente como salmos…

Oh, a doce tarde! Sobre mares de gelo ardentes de revérbero
Vagam placidamente navios fantásticos de prata
E em grandes castelos cor de ouro, anjos azuis serenos
Tangem sinos de cristal que vibram na imensa transparência!

Eu sinto que essa tarde está me vendo, que essa serenidade está me vendo
Que o momento da criação está me vendo neste instante doloroso de sossego em mim mesmo
Oh criação que estás me vendo, surge e beija-me os olhos
Afaga-me os cabelos, canta uma canção para eu dormir!

És bem tu, máscara da noite, com tua carne rósea
Com teus longos xales campestres e com teus cânticos
És bem tu! ouço teus faunos pontilhando as águas de sons de flautas
Em longas escalas cromáticas fragrantes…

Ah, meu verso tem palpitações dulcíssimas! – primaveras!
Sonhos bucólicos nunca sonhados pelo desespero
Visões de rios plácidos e matas adormecidas
Sobre o panorama crucificado e monstruoso dos telhados!

Por que vens, noite? por que não adormeces o teu crepe
Por que não te esvais – espectro – nesse perfume tenro de rosas?
Deixa que a tarde envolva eternamente a face dos deuses
Noite, dolorosa noite, misteriosa noite!

Oh tarde, máscara da noite, tu és a presciência
Só tu conheces e acolhes todos os meus pensamentos
O teu céu, a tua luz, a tua calma
São a palavra da morte e do sonho em mim!

Uma Trova de Moji-Guaçu

Coração tem sete chaves
como a trova sete sons.
Não sei ser igual as aves:
sempre pio novos tons.
Olivaldo Junior

Cantinho do Ialmar

Soneto para Alguém Ausente

Onde estiveres mando-te um abraço
Para que saibas que te quero tanto,
Sem teu amor deploro meu fracasso
E a minha vida já perdeu o encanto.

Pretendo andar contigo passo a passo
E se preciso for, secar teu pranto…
Terás o meu apoio no cansaço
E só por ti desprenderei meu canto.

Entretanto, vivemos separados;
Mas eu necessitando teus agrados
E tu, talvez, os meus carinhos queiras.

Entraste em meu destino com doçura
Que hoje és a inesquecível criatura
Fazendo-me sofrer noites inteiras.

Um Poema de Boa Vista/RR

Rodrigo Mebs
Crepúsculo

 sentado à sombra dos meus sentidos
vejo a luz caminhar para o horizonte
                    como um cortejo fúnebre
         lentamente

 o entardecer recolhe a pipa dos meninos
                    findam-se os caminhos
ao badalar de sinos
como o frágil lumiar dos sonhos e fantasias
e os poetas mortos ao nascer da poesia

 há o triste envelhecer da infância
                              ao longe
além dos campos dourados pelo poente
onde delicadamente
                              suicidam-se os dias

Cantos de Influência Negra

A korô korô ô
Canto para Inhansan (Santa Bárbara). Kêto.

 A korô korô ô
 A korô korô ô
 Babalaô babalaô
 A xêxê xereomã

Nota: Depois de cantar, o cantador fala meio gritado, chamando o santo, dizendo as seguintes palavras: “Repawêi mulê do rêi”.

Colhido por Camargo Guarnieri e publicado no artigo de Oneida Alvarega, “A influência negra na música brasileira”, em Boletín Latino Americano de Musica, v.6, abril de 1946, p.357-407

Outra Trova de Fortaleza/CE

Ontem pujante esperança
numas linhas refratárias;
no caderno, hoje, a lembrança
das minhas trovas primárias.
Haroldo Lyra

Um Poema de Macapá/AP

José Edson dos Santos
NEFELIBATA

Sonheteiro nefelibata na varanda
contemplo nuvens do impalpável

Filibusteiro da fragata argonauta
vejo longarina vida singrando

Timoneiro da tormenta solerte
fito porto da morte de soslaio

Sinaleiro Juno do arrebol ausente
olho mundo como nuvem de maio

Cantinho do Izo Goldman

Ainda sobre Rima

Embora sendo importante, a rima não é “tudo” numa Trova; os exemplos citados, independentes do tipo de rima, são todos de Trovas Premiadas em Jogos Florais.

Poderíamos ainda citar as rimas toantes, como:
– luz ou cruz com azuis ou possuis,
embora não sendo do agrado de todos, temos de convir que existem belas trovas usando este tipo de rima, como:

As energias juntamos,
dois talheres, dois lençóis;
tudo em “dois” nós conservamos,
sempre em tudo fomos nós….
(C. A. Beiral – RJ, 1915 – 1999)

Recomendamos aos trovadores que procurem usar rimas boas mas não exagerem na procura de rimas raras ou preciosas que, na maior parte das vezes, tira uma das coisas mais bonitas da Trova: a espontaneidade.

Em Portugal, costumam aceitar a rima de :
– mãe com também, em virtude da pronúncia; no Brasil esta rima não é aceitam assim como as rimas toantes de:
– virgem com vertigem ou de palavra com escrava.

Para concluir devemos citar a Rima Gráfica que é aceita por alguns trovadores em Portugal e que, no Brasil, não é considerada rima, pois tem sons diferentes.

Mal de amor raro se perde (e)
é como a mancha da amora;
só com outra amora verde  (e)
a mancha se vai embora…
TROVA POPULAR PORTUGUESA

EM TEMPO:
Sempre que possível, devem ser evitadas as rimas feitas com palavras derivadas, tais como:
– tempo e contratempo;
– vento e catavento;
embora aceitas, estas rimas são consideradas por muitos, como MUITO POBRES.

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Um Poema de Cantanhede/MA

Arlete Nogueira da Cruz
Convicção

 Aqui, onde uma mulher se curva
e se inventa,
é onde de uma dor imensa e turva
se alimenta.

Aqui, quando tonta e avulsa
se procura,
é onde viva a luta lenta pulsa
e transfigura.

Aqui, onde o que é e será retorna
ao berço,
é onde busca âncora, estrela, bigorna
e terço.

Uma Trova de Curitiba/PR

No meu caderno anotei
uns versinhos para ti,
mas se nunca os enviei,
também jamais te esqueci.
José Marins

Cantos de Trabalho

Chapéu de Couro

 Até você chapéu de couro
 Até você que sabe amar
 Meu amor já foi simbora
 Minha vida é chorá

Chula de mutirão. Extraída de Viva Bahia canta; coletânea de músicas folclóricas, pesquisa de Emília Biancardi Ferreira (Salvador, Secretaria de Educação e Cultura, 1973, p.25)

Um Haicai de Ribeirão Preto/SP

Na estreita calçada
 o bípede e o quadrúpede
 presos na corrente.
Nilton Manoel

Um Poema de Bocas del Toro/Panamá

Tristán Solarte
No Undécimo Aniversário  da Morte de Minha Mãe

Perdoa-me ter-te retido na terra.
 Perdoa-me não ter cortado as raízes
 que tua lembrança deitou em mim.
 Perdoa-me ter conservado tuas tranças,
 tuas negras tranças que no fundo do baú familiar
 continuaram crescendo.

 Perdoa-me os sonhos em que esgotei tua ternura.
 Perdoa-me teus gestos, tua voz,
 que prolongaram minhas noites de insônia.
 Perdoa-me as vozes com que te chamei.
 Perdoa-me as febres que ao pé de meu leito
 te reclamaram.
 E por haver-te envelhecido, perdoa-me, mãe.

 Onze anos passaram sobre o rosto
 que conservo na memória.
 Cada sofrimento lhe abriu uma ruga,
 lhe arrancou uma lágrima.

 Onze anos te fiz viver em mim
 com doloroso e cotidiano entranhamento.
 Onze anos arrancados ao silêncio absoluto,
 às águas definitivamente niveladas.
 Onze anos que atrasei tua amorosa
 entrega à morte,
 que te condenei a velar meu sono.

 Hoje que já regresso da vida,
 que uma gelada quietude me vai distanciando
 de tudo o que fui,
 venho dizer-te com onze anos de atraso: descansa em paz,
 também eu vou render-me ao silêncio que invocaste.

Poesia de Cordel de Taguatinga/DF

Anabe Lopes
Os Dois Corcundas
(Conto popular adaptado p/ cordel)

Dois compadres corcundas
Viviam num povoado
Um era muito rico
O outro diária quebrado
Do pobre faziam fuxico
E o rico era bajulado

Do pobre mais que pesava
A corcunda com a tristeza
Que nada dá mais amargura
Do que viver na pobreza
E seguir em noite escura
Em busca de alguma beleza

Na boa mãe natureza
Pra alma buscava cura
Banhada de singeleza
Tão pobre e triste figura
Seguia assim os seus dias
A aliviar sua agrura

Atraiu-lhe um dia u’a cantiga
Ao longe no matagal
Seria desmancha de farinha
No fundo de algum quintal?
Pensou vou é ajudar
Julgou ser um seu igual

Por um tempo andou na mata
No rumo daquela cantiga
Achou-se ao pé da serra
Procurava gente amiga
Encontrou uma gente estranha
Que quem já viu que o diga

Nas roupas tinham diamantes
Que se espelhavam ao luar
Velhos rapazes e meninos
Todos juntos a cantarolar
Dançavam de mãos dadas
Sem de verso nunca mudar

Segunda, terça-feira, vai-vem!
Repetiam sem se cansar
Tremeu de medo, pobre corcunda
Na mata foi-se amoitar
Por hora e horas a fio
O mesmo verso a estrelar

Nossa nobre personagem
Com o tempo foi se animando
do meio da moita escondido
Quando viu já tava cantando
Ao verso tão repetido
Outro foi logo emendando

Dinheiro o homem não tinha
Mas bancava o improvisador
Judiava de uma viola
Sonhava em ser cantador
Que pobre só sobrevive
Se for mesmo sonhador

Emendou o artista a cantar
No ritmo do povo esquisito
A mesma cantiga e toada
Quis deixar o som mais bonito
Um verso ele acrescentou
Renovando todo o rito

[Segunda, terça-feira vai-vem
E quarta e quinta-feira, meu bem!]

Na laje branca e limpa
Onde dançavam ao luar
Tudo se fez em silêncio
Voz misteriosa a indagar:
Quem foi que fez este verso?
Tratemos pois de encontrar
Aquela gente esquisita
De roupas de diamante
Espalhou-se, meteu-se na mata
Como um bando de avoante
Procurando procurante
O versejador cantante

Pobre corcunda aterrado
Tremia feito um veado
Atirado pelo caçador
Caído em pleno serrado
Esperando só a morte
A que fora condenado

Acharam o corcunda escondido
Tremendo de aperreado
Transporte de barata morta
Pedaço de pau pelado
Levaram ele pra um velho
Que parecia envernizado

Perguntou com voz delicada
O velho mais que reluzente
Você cantou verso novo?
Façam-nos pois mais contente
Quer nos vender o seu verso
E enfeitar nossa repente?

Quero sim nobre senhor
Mas não vendo dou de presente
Ver baile tão sacudido
É coisa que anima a gente
Canção assim alegre e singela
Faz minha alma inocente

Nas palavras do Corcunda
O velho achou muita graça
Sorriu ele e sua gente
Feito criança na praça
Quão pobre era o corcunda
E não se sentia em desgraça

Decerto já tinha o corcunda
De todas  a maior riqueza
Saber achar no irmão
Graça, bondade e beleza
Buscar paz e harmonia
No aconchego da natureza

Tão contente ficou o velho
Que seu reluzir aumentou
Feliz com o verso ofertado
Ao corcunda recompensou
Pois que uma mão lava a outra
Antes o velho falou:

Tiro-te então a corcunda
Eis que o velho emendou
Passou-lhe as mãos pelas costas
E a corcunda se endireitou
Pra completar a alegria
Um bisaco novo lhe dou

Uma coisa lhe recomendo
Dela não posso abrir mão
Controle a curiosidade
Nem pense em espiação
Só abra o bisaco amanhã
Controle sua danação

Embrenhou-se na mata
Andando feito perdiz
Assim que o dia amanheceu
Quase morreu de feliz
Ouro e pedras preciosas
– É isso que povo diz –

No outro dia comprou casa
Com todos os apreparos
Mobília e roupa bonita
Tudo quanto lhe era caro
Seguiu pra missa contente
Com milagre assim tão raro.

Quando o corcunda rico
Viu o amigo esguiado
Quase que caiu de costas
Ficou por demais assombrado
O compadre corcunda e pobre
Agora elegante e abastado

Contou tudo ao rico amigo
Que a pobreza sempre ensina
A ser sempre verdadeiro
Pra enfrentar a sua sina
Rico da graça de Deus
Como a escritura ensina.

Como a medida do ter
Aumenta e nunca termina
Correu o rico pra mata
Em busca da nova mina
Em busca dos reluzidos
Foi encontrar sua sina

Andou e andou no mato
E viu o povo esquisito
Cantando e dançando em roda
Em traje brilhante e bonito
Cravejado de diamantes,
Como o amigo havia dito

Seus olhos se arregalaram
Sua mente pura ambição
Mal ouvira os belos versos
Emendou-se na canção
Sem nem pensar e mais nada
Sem qualquer premeditação

Segunda e terça-feira, vai vem!
Quarta e quinta-feira, meu bem!
[Sexta, sábado e domingo também!]
Calou-se a cantoria de além
Não seja intrometido que tem
Não seja da ganância refém!

Em cima do atrevido
Voou o povo esquisito
Levaram ele pra laje
Junto ao líder reluzido
Por demais furioso
Com o corcunda intrometido

Quem te mandou meter-se
Onde não foi chamado
Seu corcunda metido a besta
Inimigo do povo encantado
Vou te dizer porque
Seu direito é estar calado:

Não sabe que o povo encantado
Da sexta não quer saber
Dia em que o filho do Alto
Veio ao mundo padecer?
Perturbas o nosso encanto
Com esse seu louco dizer.

Também do sábado foge
Chega mesmo a estremecer
Dia em que o filho do pecado
Ao tentar mísero ser.
Levou uma alma à morte
Enforcado ao entardecer.

Do domingo também quer distância
– Diz o ancião reluzente –
Pois foi mesmo nesse dia,
Como sabe toda gente.
Que aquele que não morre e tinha morrido
Ressurge vivo e resplandente.

Enquanto louco se explicava
Ganhava tapa, pontapé e pescoção
Pobre do corcunda rico
Não voltou sem nada não
De castigo a corcunda do amigo
Levou com a  humilhação.

Pelo resto dos seus dias
Viveu em desilusão
Quem tudo quer nada tem
Aprendeu da vida a lição
Valem pouco as riquezas
O que conta é o coração!

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC

Guardo em segredo o caderno
que o destino amarelou
com versos de amor eterno
de um tempo que já passou.
Eliana Ruiz Jimenez

Poema em Trovas de Fortaleza/CE

Nemésio Prata Crisóstomo
Euclides da Cunha, Herói do Sertão

O sertanejo é, antes de tudo, um forte! (Euclides da Cunha)

Grande fardo o sertanejo
carrega; muito pesado:
que do céu caia em sobejo
chuva no chão cultivado!

Logo ao bater o roçado
seus olhos fitam o azul
do céu, desanuviado,
procurando o vento sul!

No terreno preparado
lança a semente esperando
que do céu seja mandado
chuva; que está precisando!

Depois de plantado o chão
só lhe resta uma esperança
pra ter safra em profusão:
que chova com abastança!

Se não pingar um chuvisco
na terra que foi plantada
a fome vem de corisco,
precedendo a derrocada!

Porém se chover gostoso
na roça do sertanejo,
o final é bem ditoso;
que afinal, é seu desejo!

Tendo comida em fartura
o sertanejo, animado,
parece outra criatura;
sorrindo pra todo lado!

Bendizendo a Deus, por dar
bom dinheiro em sua aljafra,
na igrejinha vai rezar
por ter tido boa safra!

Na momento da oblação
desembolsa bom dinheiro
que, de todo coração,
dá pro santo padroeiro!

Depois, no comércio, vai
fazer compras pra família,
pois sempre foi um bom pai,
que a ninguém deve quezília!

Pra seu uso um Ramenzoni
com forro todo bordado;
e quem sabe um telefone
celular, todo equipado!

Pros meninos, calças novas,
de modelos bem sortidos;
pras meninas, mais airosas,
maquilagens e vestidos!

E só para por a prova,
pra “madame” um bom perfume;
e, de noite, em sua alcova,
muito amor, como costume!

Sua vida, o sertanejo,
vai tocando, destemido,
satisfazendo o desejo
de ter o dever cumprido!

Grande fardo o sertanejo
carrega, mas sem pecado;
pois tendo Deus no manejo
é fácil ser carregado!!!

Modinha

Lá Onde as Feras dão Gemidos

I
 Lá onde as feras dão gemidos,
 É lá que eu queria morar;
 Uma ingrata que eu amava tanto,
 Não tinha dó de me ver tanto penar.

Estribilho

 Vem cá ingrata, vem dar-me um abraço
 Vem dar-me, ao menos, um adeus por despedida.
 Além do fado, vem vingança da sorte.
 Trabalhava um pobre na vida, descansa na morte. } bis

 II
 Lá onde as feras dão gemidos,
 É lá que eu queria viver!…
 Uma ingrata que eu amava tanto,
 Não tinha dó de me ver tanto sofrer.

Estribilho

Nota: Ouvida pelo professor Abdon Lyra, em 1905, quando era estudante do Instituto Pernambucano, em Recife.

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). Jangada Brasil 

Um Soneto de Manágua/Nicaraguá

Cioconda Belli
Esperando-o

 Pela manhã
 levanto como gazela
 prazerosa no monte
 esperando-te.
 Ao meio-dia,
 profunda entre flores,
 vou desenhando
 teu nome no ventre da água do rio.

 No crepúsculo,
 plena de amor, me dublo
 e logo vou esperar-te
 quando regressas de noite,
 que venhas pousar em mim como um pássaro
 e movas teu corpo
 como bandeira
 sobre meu corpo.

(tradução de Antonio Miranda)

Uma Trova de Porto Alegre/RS

Cada dia uma rotina
que devo sempre seguir,
entretanto a vida ensina
que não posso desistir.
Ialmar Pio Schneider

Um Soneto de Macau/China

João Azeredo
Preia-mar

Espuma dos desejos
no chão feito praia – memória
deixa os sentidos cor de sal
tão leves
espraia-se lenta
desde a maré antes do tempo
vaga de milénios por rebentar
tão secreta
mergulho nos dias
contados pelas artérias
coração de água

Cantigas Infantis

Da Abóbora faz Melão

 Da abóbora faz melão
 Do melão faz melancia
 Da abóbora faz melão
 Do melão faz melancia
 Faz doce, sinhá
 Faz doce, sinhá
 Faz doce, sinhá Maria

 Quem quiser dançar
 Vai na casa do Juquinha
 Quem quiser dançar
 Vai na casa do Juquinha
 Ele pula, ele roda
 Ele faz requebradinha
 Ele pula, ele roda
 Ele faz requebradinha

 Uma roda de crianças, com uma delas no centro. No momento em que cantam “faz doce, sinhá”, a criança que está no centro faz um gesto como se estivesse mexendo uma panela. Em “quem quiser dançar”, ela escolhe uma criança da roda, leva-a para o centro e as duas dançam juntas, obedecendo aos comandos “ele pula, ele roda, ele faz requebradinha”. Ao recomeçar a canção, as duas crianças que estão no centro escolhem mais duas e assim por diante, até que todas entrem na roda.

(Cantiga de roda, conforme gravação de Palavra Cantada, no CD Pandalelê; brinquedos cantados. In Jangada Brasil. http://www.jangadabrasil.com.br/realejo/exibirtitulo.asp?id=286)

Uma Quadra Popular

Lá vai a lua saindo
Por detrás da pimenteira…
Já me dói o céu da boca
De beijar moça solteira.

Trova Capixaba (Origens)

As Primeiras Obras

 O primeiro coletor de Trovas Populares em terras capixabas, com registros nos anais da história, foi o primeiro Governador Republicano, Afonso Cláudio de Freitas Rosa, que publicou no Rio de Janeiro, em 1921, o livro “Trovas e Cantares Capixabas”, no qual reuniu 21 Trovas. Eis duas delas:

 Mandei fazer um barquinho,
 da casca do camarão,
 o barco saiu pequeno,
 só coube meu coração.

 Você diz que mal de amor,
 não mata quem está alerta;
 Pois eu ouvi de um doutor,
 Que amar é ter cova aberta.

 Afonso Cláudio nasceu na antiga Província do Espírito Santo, Freguesia da Barra do Mangarai, do Município de Porto Cachoeiro de Santa Leopoldina, na Fazenda de Mangaraí, em 2 de agosto de 1859. Estudou nas Faculdades de Direito de Recife e depois São Paulo. Tomou posse como primeiro Governador do Estado a 20 de novembro de 1889. Publicou vários livros. Faleceu no Rio de Janeiro a 16 de Junho de 1934.

 O livro “Trovas e Cantares Capixabas” teve a sua primeira edição publicada em 1923. A obra possui Trovas, ditados populares, contos, provérbios, etc. Em 1980 foi publicada uma segunda edição da obra, pelo Instituto Nacional do Folclore.

 De 1923 a 1956 a Trova Literária, feita por poetas conhecidos, passa a ser bastante divulgada pela Revista “Vida Capichaba”, que publicava trabalhos de autores Espírito-Santenses, entre eles, Teixeira Leite:

 Em meus amores diviso
 um de mais sinceridade:
 O que nasceu de um sorriso
 e vive de uma saudade.

 Manuel Teixeira Leite, nascido em Prado, Bahia a 6 de fevereiro de 1891. Poeta, jornalista e contista. Membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Publicou entre outros livros: Fidelis, em 1927; Vitória, 1928 e Serenatas, 1930.

(trecho do livro de Clério José Borges. Origem Capixaba da Trova. Serra/ES. Outubro de 2007)

Um Poema de Belo Horizonte/MG

Clevane Pessoa
O Visitador

 Todas as noites
 Passa um fita de luz
 Pela fresta,
 Atravessa a cortina
 E me seduz
 Fazendo uma festa
 Para a menina
 Que dormita
 Dentro da mulher
 Que acorda…
 Com energias fluorescentes,
 Florescentes,
 Pega o açoite
 Que o dia usou
 Para castigar
 Minha poesia
 _ A companheira
 etérea
 da fantasia _
 E o transforma
 Em um fio de luar…

 Apaixonada,
 Embora,
 Meu desejo constranjo
 Em pleno deslumbramento
 Quando re/descubro
 Que esse espectro
 É um anjo

 Poesia destaque em concurso da ALPAS XXI,de Cruz Alta,RS,depois editada na coletânea
 “Desafios”/2002,por Rozélia Rasia

Fonte:
seleção por José Feldman
Alguns textos foram fornecidos pelos autores, outros obtidos em diversos sites e blogs da internet, outros em livros, jornais e revistas.

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 32)

Uma Trova de Maringá/PR

Ó Deus, que nos deste a flor,
e as crianças e as estrelas,
dá-nos agora, Senhor,
a graça de merecê-las!
A. A. de Assis

Uma Trova ecológica de Pedro Leopoldo/MG

A poluição apronta
sobre o mar, o provedor.
O marasmo toma conta
do sofrido pescador.
Wagner Marques Lopes

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
A Folha

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

Uma Orelha Poética de Livro de Poesias, de Sorocaba/SP

André Augusto Passari
“Tempo, Solidão e Fantasia” 


As gerações são bafos que passam. O homem respira, aspira e expira.”
Victor Hugo

O tempo é fugaz, desliza entre os dedos. Mas o tempo é eterno, se perde no infinito. O ser humano criou o tempo, pois só assim pode criar a História. E ela não é nada mais do que uma sucessão de dores e fantasias.

Ah, as fantasias!

Quando um Deus, talvez bêbado, talvez lúcido demais, resolveu inventar a humanidade, não pensou senão em fantasias.

Pensou no Amor, que deveria conter mais tragédias do que alegrias. Pensou no Belo, só para contrapor a feiúra. Pensou na Glória, para humilhar os desgraçados. Pensou na Vaidade, que seria a chama que delicia e corrói a sociedade.

Foi algum Deus, talvez o mais pobre do Olimpo, talvez o mais esquecido, foi algum Deus que brincou de inventar a Esperança, pois das tragédias ele já sabia. Mas a vida não seria assim tão linda, pois é da tragédia e da esperança unidas que nasce a fantasia. Foi algum Deus, talvez o único do Olimpo, solitário.

Talvez bêbado, talvez lúcido demais


Uma Trova de Bragança Paulista/SP

Quero o amor bem pertinho,
ao alcance de meus braços;
não no virtual quadrinho,
tão longe dos meus espaços…
Lóla Prata

Um Poema de Itapema/SC

Pedro Du Bois
Palavras

Ásperas
ditas como ordens
assustadas
macias
ditas como esperas
controladas
raivosas
ditas como verdades
escancaradas
melífluas
ditas como mentiras
dissimuladas
rezadas
ditas como saudades
santificadas
cantadas
ditas como músicas
silenciadas
caladas
ditas como lembranças
extremadas.

Um Haicai de Balneário Camboriú/SC

Marasmo
Eliana Ruiz Jimenez

Marasmo diário.
Na rede do pescador,
garrafas e latas.

Uma Quadrinha Popular

O meu pai se chama Caco
minha mãe, Caca Maria
Ai, meu Deus, que tanto caco
sou filha da cacaria.

Um Soneto de Pedro Leopoldo/MG

Astronomia Humana
Wagner Marques Lopes

Se Galileu, Copérnico, Laplace,
Flammarion ou qualquer mago dos céus –
Para a Terra os olhos desviasse
Veria vários astros, sem mais véus.

Há homens-luas, pois refletem luz;
Homens-cometas a seguir às tontas;
Há homens-sóis… E cada um conduz
A energia do bem para as terras prontas.

A astronomia humana é rica à beça:
Planetas a girar… Uns mostram pressa;
Outros pouco avançando, em velhos ritos.

E todos em processo evolutivo –
Com seus reveses, tendo a dor por crivo,
Mas cumprindo papéis pelo Infinito!

Trova de Concurso

2009 – Jogos Florais de Niterói/RJ
Tema: Prêmio

No “grande prêmio” da vida,
É vencedor, sem igual,
Quem usa o Bem, sem medida,
Desde a largada ao final!…
Hermoclydes S. Franco (Rio de Janeiro/RJ)

Um Soneto de Coimbra/Portugal

Jaime Cortesão (1884-1960)
RENASCIMENTO

Nasci de novo. Eis-me liberto, enfim!
Foi por um Céu, de estrelas todo cheio,
Numa visão de Amor, que um Anjo veio
Descendo até poisar ao pé de mim.

O beijo que me deu não teve fim…,
Apertou-me nos braços contra o seio,
Abriu os lábios segredando…, e a meio
Bateu asas e levou-me assim.

Ai! como é doce o seio que me embala!
E como tudo é novo e mais profundo!…
Mas já não volta, ou, quando volta, é morto!

Noutro Mundo melhor eu vivo absorto,
E logo conheci que a esse Mundo
Quem vai não volta, ou, quando volta, é morto!

Um Poetrix de Portugal

morte
Anthero Monteiro

uma cadeira vazia na alameda
sentada numa tarde de outono
a olhar o meu ponto de fuga

Uma Trova de Natal/RN

Quando a jangada flutua
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua
nos olhos verdes do mar.
José Lucas de Barros

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Curvado à lei dos pesares
Não sei se morro ou se vivo:
Senhor dos outros olhares,
Só do teu fiquei cativo.
Joaquim Osório Duque Estrada [1870-1927] (Vassouras/RJ)


Joaquim Osório Duque-Estrada (Paty do Alferes [Vassouras], RJ, 29 de abril de 1870 — Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 1927)

Duque Estrada nasceu no então município de Vassouras, no sul do estado do Rio de Janeiro.

Era filho do tenente-coronel Luís de Azeredo Coutinho Duque Estrada e de Mariana Delfim Duque Estrada. Era afilhado do general Osório, marquês do Erval. Estudou as primeiras letras na capital do antigo império, nos colégios Almeida Martins, Aquino e Meneses Vieira. Matriculou-se em 1882 no imperial Colégio Pedro II, onde recebeu o grau de bacharel em letras, em dezembro de 1888. Em 1886, ao completar o quinto ano do curso, publicou o primeiro livro de versos, Alvéolos.

Começou a colaborar na imprensa, em 1887, escrevendo os primeiros ensaios na Cidade do Rio, como um dos auxiliares de José do Patrocínio na campanha da abolição. Em 1888 alistou-se também nas fileiras republicanas, ao lado de Silva Jardim, entrando para o “Centro Lopes Trovão” e o “Clube Tiradentes”, de que foi segundo secretário. No ano seguinte foi para São Paulo, a fim de se matricular na Faculdade de Direito, entrando nesse mesmo ano para a redação do Diário Mercantil. Abandonou o curso de Direito em 1891 para se dedicar à diplomacia, sendo então nomeado segundo secretário de legação no Paraguai, onde permaneceu por um ano.

Regressou ao Brasil, abandonando de vez a carreira diplomática. Fixou residência em Minas Gerais, de 1893 a 1896. Aí redigiu o Eco de Cataguases. Nos anos de 1896, 1899 e 1900 foi sucessivamente inspetor geral do ensino, por concurso; bibliotecário do Estado do Rio de Janeiro e professor de francês do Ginásio de Petrópolis, cargo que exerceu até voltar para a cidade do Rio de Janeiro, em 1902, sendo nomeado regente interino da cadeira de História Geral do Brasil, no Colégio Pedro II.

Deixou o magistério em 1905, voltando a colaborar na imprensa, em quase todos os diários do Rio de Janeiro. Entrou para a redação do Correio da Manhã, em 1910, dirigindo-o por algum tempo, durante a ausência de Edmundo Bittencourt e Leão Veloso. Foi nesse período que criou a seção de crítica Registro Literário, mantida, de 1914 a 1917, no Correio da Manhã; de 1915 a 1917, no Imparcial; e, de 1921 a 1924, no Jornal do Brasil. Uma boa parte de seus trabalhos desse período foram reunidos em Crítica e polêmica (1924). Tornou-se um crítico literário temido. Gostava de polêmicas. De todas as censuras que fez, nenhuma conseguiu dar-lhe renome na posteridade.

Como poeta, não fez nome literário, a não ser pela autoria da letra do Hino Nacional. Além do livro de estreia, publicado aos 17 anos, Flora de Maio, com prefácio de Alberto de Oliveira, reunindo poesias escritas até os 32 anos de idade. Revela sensível progresso na forma e na ideia. Conserva a feição dos poetas românticos, apesar de publicado em plena florescência do Parnasianismo, de que recebeu evidentes influxos, conservando, contudo, a essência romântica.

Foi eleito em 25 de novembro de 1915 para a cadeira número 17 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Sílvio Romero. Recebeu premiação de literatura pelo livro: E O Papagaio Voou.

Obras:
Alvéolos, poesia (1887); A aristocracia do espírito (1899); Flora de Maio, poesia (1902); O Norte, impressões de viagem (1909); Anita Garibaldi, ópera-baile (1911); A arte de fazer versos (1912); Dicionário de rimas ricas (1915); A Abolição, esboço histórico (1918); Crítica e polêmica (1924); e mais: Noções elementares de gramática portuguesa; Questões de português; Guerra do Paraguai; História Universal; A alma portuguesa. Encontram-se trabalhos seus na Revista Americana; em O Mundo Literário; na Revista da Língua Portuguesa e na Revista da Academia Brasileira de Letras.


Um Soneto de Antequera/Espanha

Pedro Espinosa (1578-1650)
À Santíssima Virgem Maria

Como o triste piloto que pelo mar incerto
se vê, com turvos olhos, sujeito a dura pena
na onda curva, que, areia vomitando, o envenena
e o tem todo de espuma salpicado e coberto,

quando, sem esperança, de espanto quase morto
vê o fogo de santelmo cintilar sobre a antena,
e, adorando seu lume, de gozos a alma plena,
encontra a nau fendida surta num doce porto:

assim um mar sulcava de penas e de escolhos,
e, na tormenta fera, já das águas aziagas
meio coberto estava, já a força e a luz perdida,

quando fitei, ó Virgem, o lume de teus olhos,
com cujos resplendores, acalmadas as vagas,
chego ao ditoso porto onde resgato a vida.

(Trad. de Fernando Mendes Vianna)

Um Haicai de Maringá/PR

Cheiro bom no ar.
É a colheita da maçã.
Festa no pomar
A. A. de Assis

Uma Trova de Curitiba/PR

O tempo ficou parado
naquele retrato antigo
que, mesmo preso ao passado,
conversa sempre comigo…
Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes

Vinicius de Moraes, Com Amor

Vinicius de Moraes (RJ)
A Impossível Partida

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes da cidade
E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne indesejada?…
Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos
Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas colhidas
E se a minha inquietação iria temer a tua eloqüência silenciosa?…
Eu sonhei!… Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos
Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável
Os rios mortos… as sombras mortas… as vozes mortas…
…o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na face…
Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério
Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos calmos
Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua visão?…
Eu sonhei!… Sonhei mundos passando como pássaros
Luzes voando ao vento como folhas
Nuvens como vagas afogando luas adolescentes…
Sons… o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida…
O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço…
Imagens… a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das coisas…
As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma
Soprando de manso na boca vermelha dos astros…
Como poder abrir no teu seio, oh noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo
Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno
E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos desconhecidas me arrebatem?…

Cantinho do Ialmar 

Ialmar Pio Schneider (RS)
Soneto a Laurindo Rabelo
In Memoriam – Nascimento do poeta em 8.7.1826

Foi poeta… sofreu e fez seus versos,
clamando que seriam ais sentidos,
pois quanto mais tristonhos, mais perversos,
representando corações partidos…

Mas sua obra é vasta e os dias idos
na existência de sonhos tão dispersos,
lamentou como se fossem perdidos
os cantos que compôs, os mais diversos…

E no soneto “O Tempo” põe sua alma
arrependida de gastá-lo em vão,
tal como se fosse perder a calma.

Um conselho final então dos diz:
de não desperdiçarmos, sem razão,
o tempo em que se pode ser feliz…

Uma Fábula

A Rede
Leonardo Da Vinci (Itália)


Naquele dia, como todos os dias, a rede subiu carregada de peixes. Carpas, barbos, lampreias, trutas, enguias e muitos, muitos outros peixes foram para as cestas dos pescadores.

Lá no fundo da água do rio, os sobreviventes, assustados e com medo, não ousavam se mexer. Famílias inteiras já haviam sido enviadas para o mercado. Diversos cardumes tinham caído na rede e terminado na frigideira. Que fazer?

Um grupo de jovens peixes promoveu uma reunião atrás de uma pedra e decidiu se revoltar.

– É uma questão de vida ou morte – disseram eles – todos os dias essa rede afunda na água, cada vez num local diferente, para nos aprisionar e nos levar embora de nosso lar. Vai acabar nos matando a todos, e o rio ficará sem peixe algum. Nossos filhos têm direito à vida e precisamos fazer alguma coisa para livrá-los deste flagelo.

– E que podemos fazer? – perguntou uma truta que seguira os conspiradores.

– Destruir a rede – responderam os outros em coro

As enguias encarregaram-se de rapidamente espalhar a notícia dessa corajosa decisão e convocaram todos os peixes para um encontro na manhã seguinte, numa pequena enseada protegida por altos salgueiros.

No dia seguinte, milhões de peixes de todos os tamanhos e idades reuniram-se para declarar guerra à rede.

A liderança foi entregue a uma sábia e velha carpa, que por duas vezes conseguira escapar da prisão, mordendo as malhas da rede.

– Ouçam com atenção – disse a carpa – a rede é da largura do rio, e todas as malhas têm um chumbo preso por baixo, para que a rede afunde. Dividam-se em dois grupos. Um dos grupos suspenderá os pesos de chumbo e os carregará até a superfície, e o outro segurará as malhas por cima com firmeza. As lampreias vão serrar com os dentes a corda que mantém a rede esticada entre as duas margens. As enguias vão partir já, para fazer uma inspeção e nos informar em que local a rede foi lançada.

As enguias partiram. Os peixes formaram grupos ao longo das margens. Os barbos encorajavam os mais tímidos, relembrando-lhes o triste fim de tantos amigos e exortando-os a não terem medo de ficarem presos na rede, porque daquele dia em diante nenhum homem seria mais capaz de arrastá-la para a margem.

As enguias retornaram, missão cumprida. A rede fora lançada a uma milha dali.

Então todos os peixes, como uma frota gigantesca, partiram atrás da velha carpa.

– Tomem cuidado – disse a carpa – pois a correnteza pode arrastar vocês para dentro da rede. Sigam devagar e usem bem as nadadeiras.

E então viram a rede, cinzenta e sinistra.

Os peixes, acometidos de súbita fúria, nadaram para atacar.

A rede foi suspensa por baixo, as cordas que a seguravam foram cortadas, as malhas foram rasgadas. Mas os peixes, enfurecidos não largavam mais sua presa. Cada um segurava na boca um pedaço de malha e abanando fortemente as caudas e as nadadeiras, puxavam de todos os lados a fim de rasgar e destruir a rede. E a água parecia estar fervendo enquanto os peixes finalmente libertavam o rio daquele perigo.


Um Poema de Rio Verde/PR


Ady Xavier de Moraes
Mulher

És bela, não porque se fez bela,
Mas porque tens no íntimo
O brilho de uma estrela
Que durante o dia se esconde
E, durante a noite, no infinito,
Mostra tua face que resplandece.

És linda, não porque se fez linda
Mas porque a natureza preparou
Para nascer e brilhar.
Tu não precisas de arranjos,
Porque uma flor já nasce
Com toda a beleza, tenra
E perfumada.

És perfeita, não porque se fez perfeita,
Mas porque a vida deu-te de tudo,
A simplicidade de um anjo,
A inocência de uma criança,
O carisma de uma rainha.

Quando sorri…
Com os lábios, com o coração.
Mostras com muita esperança,
A vontade de vencer na vida
E não sabe da virtude que tens,
por isso, és linda, és bela,
como a flor do meu jardim.

Música de capoeira

Esta Cobra te Morde

Solo
Esta cobra te morte

Coro
Sinhô São Bento (repete-se depois de cada verso)

Solo
Ói bote de cobra
Ói a cobra mordeu
O veneno da cobra
Ói a casca da cobra
Ó que cobra danada
Ó que cobra malvada

Ponto de capoeira colhido por Camargo Guarnieri, na Bahia, em 1937. Extraído de Oneida Alvarenga, Música popular brasileira, Rio de Janeiro, Editora Globo, 1960, p.217-218.

Uma Trova de Lisboa/Portugal

O moinho de café
mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minha alma é,
moeu quem me deixa só.
Fernando Pessoa

Uma Poesia de Maringá/PR

José Feldman
Lágrimas nas Trevas
– In memoriam – Gwyddion (1997 – 2001)

Parem o tempo!
Silenciem os passarinhos,
Calem os saxofones
E com o toque de uma lira
Carreguem seu corpinho.
Que venham os guardiões do portal do destino,
Voem águias, gaviões e falcões,
E anunciem aos quatro ventos:
“Ele nos Deixou”.
Ponham laços pretos nos pescoços brancos
Das pombas brancas da paz,
Caminhem sobre a grama, como se fosse algodão.

Ele era o norte, o sul, o leste e o oeste,
Os dias de trabalho e os dias de descanso,
O dia claro e a noite escura,
A noite clara e o dia escuro.
O dia-a-dia, a poesia e a canção
A esperança infinita
O caminho do amor
O carinho sem limite.

Ele era a criança sempre pura de coração
Era a chuva fresca após um dia de calor intenso,
Os raios de sol que despeja sobre a terra ao romper da manhã,
A brisa suave após um dia de trabalho.
Ele era a maior música que se conheceu,
A melodia que embalava o nosso sono,
O nosso bom-dia e o nosso boa-noite.

Ele nos Deixou…
Que importam as estrelas?
Parem de piscar!
Vão embora!
Porque a lua está brilhando?
Apague-a!
O sol?
Escondam-no!
Sequem os oceanos e
Varram os bosques,
Pois agora,
Para nada mais há de servir.

Adeus, meu doce molequinho,
Você sempre viverá dentro de nós.

Cantinho do Izo Goldman 


A Rima Rara e a Rima Preciosa

Dentro dos diversos elementos que valorizam uma trova devemos destacar a “rima”.

“Rima é a igualdade ou semelhança de sons no fim de duas ou mais palavras, no extremo dos versos.

RARA– Quando formada palavras que tem poucas rimas, como: intrépido, lépido, tépido e trépido. Ou por rimas ricas, raramente usadas.


Olhai, racistas, papalvos,
das mãos o exemplo de amor,
seios negros, seios alvos,
dão leite da mesma cor.
JACY PACHECO [1910-1989] (Niterói/RJ)

PRECIOSA – Quando as rimas usadas, são as únicas existentes, como: cisne e tisne, ágil e frágil.

Papai do Céu “tá” ranzinza
diz meu netinho assustado,
pintou todinho de cinza
o lindo céu azulado…
IZO GOLDMAN (São Paulo/SP)
(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Um Poema de Curitiba/PR

Silviah Carvalho
Seu Amor é Tudo

Antes que seja aprisionada pelo seu sorriso,
E sinta que a vida não fará mais sentido sem você
Antes que tenha certeza que você é tudo que preciso
Antes que eu perca a razão e no amor volte a crer

Antes que sua solidão misture com minha carência
E suas mãos toquem novamente as minhas
Antes que eu seja vencida por minha impaciência
E passe a crer que perto de você eu não esteja sozinha

Eu voarei rumo aos pinheiros, perto da tristeza
Onde as noites são frias, os dias são longos
Eu estarei a meditar na sua simplicidade e pureza

Na paz que emana de você, na sua doçura e nobreza
Eu irei pensar no silêncio da minha incompreensão
Não diga nada, talvez eu não resista à dor de um sincero não

Eu cheguei no tempo que é para ti a alto-reconstrução
Em que preferes a solidão latente no seu meigo olhar
Eu irei antes que, seja dominada pelo desejo de ficar

E quando este papel envelhecer,
Saiba que esta poetisa que hoje te escreve apesar
De nada ser, desejou ter tudo, e este tudo é você.

Uma Trova de Curitiba/PR

Dormi… e sonhei contigo
na praia, com lua cheia!
Foi delírio, hoje prossigo
te procurando na areia!
Vânia Maria Souza Ennes

Cantos de Trabalho

Araúna

Xô, xô, xô, araúna,
Deixa ninguém te pegá, araúna
Tenho dinheiro de prata, araúna,
Para comprá as mulata, araúna

Puxada da rede. Extraído de Viva Bahia canta; coletânea de músicas folclóricas, pesquisa de Emília Biancardi Ferreira (Salvador, Secretaria de Educação e Cultura, 1973, p.37)

Um Haicai de Niterói/RJ

Livre é o pensamento,
é porém à flor dos lábios
pássaro detento
Jacy Pacheco (1910 – 1989)

Um Soneto de Chiriqui/Panamá

Santiago Anguizola (1898 – 1980)
Mãos

Seráficos feitiços benfazejos
para cingir as almas em cadeias,
mãos finas, mãos suaves, que são peias
e provocam fantásticos desejos.

São retalhos dos céus essas mãos calmas
pelo celeste azul que têm nas veias,
como asas de arcanjo, sempre cheias
da graça do Senhor em suas palmas.

Mãos das quais o milagre se pressente
de vê-las transformadas em estrelas
quando abrem os dedos suavemente;

encantadoras mãos que são tão belas
como para viver eternamente
acariciando o coração com elas.

Poesia de Cordel de Natal/RN

Walter Medeiros
Cordel do Português

O mundo é muito bom
Para quem sabe viver
E quem gosta de aprender
Sabe usar palavra e som;
Por isso vou escrever
O que já pude entender
Sem estresse ou frisson.

Falo da formulação
Da nova ortografia
Pois está chegando o dia
De virar obrigação;
E agora, quem diria!
Coisas que a gente escrevia
Não pode escrever mais não.

Não esquente, meu amigo,
Pois não é um teorema
Começando pelo trema,
Pois ele foi abolido;
Agora o novo sistema
Não é mais nosso problema
Só estrangeiro é mantido.

Para ser bem comedido,
Acho bom lhe explicar
Você só vai aplicar
O trema, quando ocorrido,
Se o nome que encontrar
For de país ou lugar
No estrangeiro definido.

Para se ter mais firmeza
Sobre as alterações
Novas normatizações
Para a língua portuguesa
Vêm de acordo dos bons
Que elimina os senões
E que traz muita certeza.

Brotando da natureza
Essa mudança tão boa
Foi assinada em Lisboa
Mas não é uma moleza
Pode não ter mais coroa
Mas é bela a ressoa
De Brasília a Fortaleza.

Sem ardil ou esperteza
Vamos ver o que mudou
O alfabeto ganhou
Três letras da língua inglesa
Todo mundo já usou
Pois não desacostumou
K, w, e y – beleza!

Quilômetro e quilograma
Têm símbolos com k,
Watt com w está
E o k em kafikiano;
Agora vamos grafar
Yang e show em pá
E playground todo ano.

Sem o trema vai ficar
Aguentar, arguir, bilíngue,
Cinquenta, sagui, delinque
Eloquente, ensanguentar
Equestre, frequente, ringue
Lingueta, quinquênio, brinque,
Tranquilo não mais terá.

Precisa também olhar
Toda acentuação;
Em muita situação
As regras irão mudar,
Mas não tem complicação
Basta prestar atenção
Para logo assimilar.

Vamos deixar de usar
Acento em ditongo aberto
Éi e ói não é mais certo
Na penúltima sílaba
Não olhe agora pro teto
Precisa ficar esperto
Prá nova forma encontrar.

A forma certa agora
É alcaloide, alcateia
Androide, apoia, plateia,
Asteroide e boia, ora!
Celuloide e colmeia
Claraboia e Coreia
Estreia, não te apavora.

Tem ainda debiloide,
Epopeia, estoico, estreia,
Geleia, heroico, ideia
Paranoia, paranoico,
Jiboia, joia, odisseia
enfim tramoia e plateia
O acento não é mais lógico.

Todos precisam saber,
Continuam acentuadas
As palavras terminadas
Com aquele mesmo dizer:
Papéis, herói, não mudadas
troféu, troféus muda nada
assim vamos escrever.

Quando for paroxítona
Vinda depois de um ditongo
O rol não é muito longo
Cabe nas cordas da cítara:
Baiuca, Cauila, um gongo,
bocaiuva até no Congo
e feiura sem barítono.

Vamos ver também aqui
Acentos que continuam,
Pois ainda se acentuam
No antes e no porvir;
tuiuiú, até na lua
tuiuiús, do campo à rua
E o majestoso Piauí.

Não se usa mais o acento
Em palavras terminadas
Em êem e ôo(s), cada,
Basta olhar num momento;
A escrita facilitada
Nestas letrinhas dobradas
Parece ser o intento.

Outra medida legal
Para ser apreciada
Pode ser logo adotada
Com o diferencial
Permanece acentuada
Pôde, pôr e quase nada
Só têm e vêm, e tchau.

Usando hífen agora
Não precisa se estressar
A palavra com h
Recebe o sinal na hora;
Quando um prefixo há
O termo composto está
Como em macro-história.

Também em proto-história
E sobre-humano hífen dá
Porém a exceção está
Na palavra subumano
Pois ela perde o h
E vamos ter de grafar
Sem motivo prá engano.

Quando vogais diferentes
Querem juntar as palavras
Hífen ali não se lavra
Nem para ser eloquente;
Forma o que se esperava
Do jeito que se falava
É feito um só elemento.

Aeroespacial
Coautor, coedição
Também autoinstrução
E agroindustrial;
Antiaéreo, irmão,
Autoescola em sua mão
Sem hífen é o normal.

Pode parecer maçante,
Mas é melhor acordar
Não precisa cochilar
Pois tem coisa interessante;
Como é aglutinar
Alguma vogal que há
Com umas certas consoantes.

Hífen vem com r e s,
Outras consoantes não
Como em autoproteção
Veja lá se não esquece
Aneprojeto, então,
Bem como coprodução
O acento não merece.

Parece consolação
Como um amigo disse
Quando se junta com vice
Aparece a exceção;
Não é nenhuma tolice,
Pois tem hífen, como disse,
Da capital ao sertão.

Vice-rei, vice-almirante
E por aí vai em frente
Mas a coisa é diferente
Quando a vogal vem antes
De elemento componente
Com r ou s iniciante
Duplica a letras da frente.

Antirrábico, ultrassom
Cosseno e contrarregra
Contrassenso, aí pega,
Antirracismo é bom
Antissocial é brega
Antirrugas, e a refrega
Minissaia e infrassom.

Para a mesma vogal
Deixar de se encontrar
O hífen tem de entrar
Na composição normal;
Veja contra-atacar
Como em semi-internar
Ficou assim bem legal.

Também com as consoantes
Acontece coisa igual
A mesma letra, e tal,
O hífen lá se garante;
Como em inter-racial
E inter-regional
Fica até bem elegante.

Diferentes consoantes
Se encontrando por ali
O hífen não vai surgir
Por mais que seja falante;
Hipermercado, já vi,
Superproteção senti,
E superinteressante.

Aqui não mostramos tudo
Pois era coisa demais
E nem mesmo os jornais
Mostraram tamanho estudo;
Quem quiser estudar mais
Pode ver os manuais
Que têm todo conteúdo.

Uma mensagem a vocês
Na hora de terminar
Precisam valorizar
Sendo assim o mais Cortez;
Língua mais bela não há
Aqui ou n’outro lugar
Que o nosso Português.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ

Em seus comícios, nas praças,
o casal cria alvoroços:
– Vai ele inflamando as massas!
– Vai ela inflamando os moços…
Rodolpho Abbud

Um Soneto de São Paulo/SP

Wilson de Oliveira Jasa
Abraço Amigo

Recebe o abraço amigo que ofereço,
também minhas palavras de amizade;
amigo de verdade não tem preço,
e quero para ti felicidade.

Nem sei se ser feliz assim mereço,
mas vivo com amor a realidade;
recebe meu abraço com apreço,
abraço que é sincero e de verdade.

Se a dor tu já sentiste nesta vida,
e no peito ainda tens uma ferida,
o abraço vai tirar o teu cansaço.

Não penses que na vida já morreu,
quem nasceu uma batalha já venceu,
renasça como a Fênix neste abraço.

Modinha

Jovelina

I
Jovelina é a mulher que eu tanto amava.
Ausentei-me, longe dela fui viver!…
Eu apenas disse a ela, somente:
– Hei de amar-te! Hei de amar-te até morrer!…

II
Quando eu saí, quando eu saí, ela não viu.
Ela não viu, porém sofreu tamanha dor!…
Eu olhava para o norte…
E dava adeus a Jovelina, meu amor!…

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). Jangada Brasil 

Um Soneto de Porto Alegre/RS

Mário Quintana (1906-1994)
Soneto

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
verde!… E que leves, lindas filigranas
desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
vai colorindo as horas quotidianas…

Jogos de luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando

Uma Trova de Santos/SP

A mulher merece apreço
dos mais finos madrigais.
E é porque não a conheço
que a adoro cada vez mais.
Martins Fontes (1884 – 1937)

Um Soneto de Boston/EUA

Edgar Allan Poe (1809-1849)
Annabel Lee

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

(tradução de Fernando Pessoa)

Cantigas Infantis 

Constância

É uma roda de crianças, com uma no meio, que é a Constância:

Constância, minha Constância,
Não sei o que de ti será;
São acasos da fortuna,
São voltas que o mundo dá.

No jardim das belas damas
Qual delas escolhereis;
Escolha a que tu quiseres,
A mais bela eu tirarei


Este último verso – A mais bela eu tirarei – é cantado pela criança que está no centro da roda. Escolhida a menina, esta passa a ser a Constância e vai para o meio da roda.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953).


Uma Quadra Popular

Todos nós temos defeitos
digo isto sem ar de riso
alguns são tortos do corpo
outros aleijados do juízo

Trova Capixaba (Origens)


No Domingo seguinte, 27 de Janeiro de 1889, o Jornal “A Província do Espírito Santo” de número 1857, trazia na primeira página com o mesmo título: “Musa Popular – Cancioneiro Espírito – Santense”, mais de dez Trovas sem a indicação da autoria, isto é, de quem as fez. A primeira delas é a seguinte:

Você diz que eu sou sua
eu sou sua, mas não sei.
O mundo dá muitas voltas
eu não sei de quem serei.


Nova publicação só ocorre no domingo 10 de Fevereiro de 1889. O Jornal é o de número 1868 e lá estão mais 11 Trovas. A primeira delas é a seguinte:

As estrelas miudinhas
fazem o céu muito composto
nunca pude, meu benzinho
falar contigo a meu gosto.


(trecho do livro de Clério José Borges. Origem Capixaba da Trova. Serra/ES. Outubro de 2007)

Um Poema de Salesópolis/SP

Lucas Candelária (Lucan)
O Presente

Eu queria lhe dar como presente
Numa bandeja de astros marchetada,
Umas ondas do mar irreverente
E uns albores febris da madrugada,

Um pouco da beleza do poente
E um pouco da riqueza mais sagrada
Do lindo céu azul e florescente
Onde a felicidade faz morada.

E na carruagem de ouro os anjos bons
Levassem a você, enquanto sons
Se ouvisse dos clarins da rica sorte.

Mas, só posso lhe dar, em fantasia,
Neste soneto, humilde poesia,
Ó doce filha da Região do Norte!


Fonte:
seleção por José Feldman
Alguns textos foram fornecidos pelos autores, outros obtidos em diversos sites e blogs da internet, outros em livros, jornais e revistas.

Agradecimentos por sua constante colaboração:
Nilto Manoel (Ribeirão Preto/SP), Ialmar Pio Schneider (Porto Alegre/RS), Eliana Ruiz Jimenez (Balneário Camboriú/SC), Pedro Du Bois (Itapema/SC), Wagner Marques Lopes (Pedro Leopoldo/MG), Vãnia M. S. Ennes (Curitiba/PR), Hermoclydes S. Franco (Rio de Janeiro/RJ), Nemésio Prata Crisóstomo (Fortaleza/CE), Clevane Pessoa (Belo Horizonte/MG)

Agradecimentos especiais por sua amizade e colaboração direta ou indiretamente:
Carolina Ramos (Santos/SP), Izo Goldman (São Paulo/SP), A. A. de Assis (Maringá/PR), Ademar Macedo (Santana do Matos/RN)

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Arquivado em devaneios poéticos

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 31)

Uma Trova de Piraquara/PR

É das cordas de um violino
e das teclas de um piano
que desce o esplendor divino,
embalando o ser humano.
Horácio Portella (1934-2012)

Uma Trova sobre a Paz de Fortaleza/Ceará

Na hora do quebra-pau 
o melhor procedimento 
para não sair por “mau” 
é calar por um momento!
Nemésio Prata Crisóstomo

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
Poema de sete faces

 Quando nasci, um anjo torto
 desses que vivem na sombra
 disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

 As casas espiam os homens
 que correm atrás de mulheres.
 A tarde talvez fosse azul,
 não houvesse tantos desejos.

 O bonde passa cheio de pernas:
 pernas brancas pretas amarelas.
 Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
 Porém meus olhos
 não perguntam nada.

 O homem atrás do bigode
 é sério, simples e forte.
 Quase não conversa.
 Tem poucos, raros amigos
 o homem atrás dos óculos e do bigode.

 Meu Deus, por que me abandonaste
 se sabias que eu não era Deus,
 se sabias que eu era fraco.

 Mundo mundo vasto mundo
 se eu me chamasse Raimundo
 seria uma rima, não seria uma solução.
 Mundo mundo vasto mundo,
 mais vasto é meu coração.

 Eu não devia te dizer
 mas essa lua
 mas esse conhaque
 botam a gente comovido como o diabo

Uma Trova de Almirante Tamandaré/PR

Meu amor sempre me espera
à tarde com um lanchinho,
mas eu fico na quimera
de tomarmos nosso vinho.
Harley Stocchero

Um Haicai do Paraná

Mudança
Delores Pires

Cheia de neblina,
a cidade, em verdade,
foge da rotina

Um Poema de Moji-Guaçu/SP

Olivaldo Junior 
Para Quem Duvida

Não, não consigo me desvencilhar da música. Não consigo me desenredar de estrela. Estrela é o que só há dentro, sentimento. Sentir é servir ao sonho de saber que sente. Sinto e me absinto, que só minto quando não sinto. Não consigo me desvencilhar da música. Música é o que tanto quis e… Queria apenas… Puxa! Querências, querelas, mas nenhum som que, de fato, soe. 

Rompe a noite, caro amigo.
Rompe a noite e deita aqui,
onde a cidade é o joio-trigo
de todo triste bem-te-ouvi.

Canta e conta uma história
de tudo que lhe foi triste,
que a verdade, ou memória,
é feita de um puro alpiste,
semente insólita da vitória.

Nunca se vence. Nessa vida,
nenhum jogo jamais vencido.
Vencer é para quem duvida
de que tudo é tão-só par-tido
entre os vivos.

Trova de Concurso 

1975 – I Concurso de Trovas da Barra do Piraí/RJ
Tema: Escola

Meu amigo não te iludas,
 na ESCOLA do bem-viver:
 – Quanto mais o mundo estudas,
 muito mais tens que aprender!…
 José Carlos S Freitas (S. Gonçalo RJ)

Uma Poesia de Santo António da Serra, Concelho de Machico/Portugal

Maria Eugénia Sesimbra
“Eu aprendi”
  
 Eu aprendi
 Que depois de um Inverno
 Há uma estação temperada
 E que depois de uma noite
 Há sempre nova alvorada…
 Aprendi
 Que a água do riacho
 Nem sempre é clara e transparente
 Aprendi que em cada fado
 Nem sempre o poema é dolente…
 Aprendi que o amor
 Não se compra nem se vende
 O amor se aprende…
 Eu aprendi
 Que os rios correm p´ró mar
 E seu percurso
 Ninguém o pode alterar…
 Eu aprendi
 Que a Primavera
 Traz uma nova aguarela
 Que são as pequenas coisas
 Que tornam a vida mais bela…
 Eu aprendi a não odiar
 Aprendi a perdoar e a amar…
 Eu aprendi
 Que até a flor colorida
 Por mais bela há-de secar
 Que existem feridas na vida
 Impossíveis de sarar…
 Aprendi com os meninos
 Grandes lições de saber
 Apesar de pequeninos
 Ensinam-nos a aprender.

Um Poetrix 

achados & perdidos
Alice Daniel (RS)
revirando minha vida
achei alma e coração
ambos feridos

Uma Trova de Caicó/RN

Vida: caminho que alcança
na esquina a sua metade;
de um lado, vive a esperança,
do outro, dorme a saudade. 
Mara Mellini Garcia

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

Por seres cega não chores,
 ó Justiça! fica em paz,
 pois, se vires, talvez cores,
 do que em teu nome se faz.
Vilmar Lassance [1915-2009] (Niterói/RJ)

Vilmar de Abreu Lassance nasceu em Niterói, Estado do Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1915. Segundo de oito filhos do casal Dr. Achilles Carreira Lassance e D. Magnólia de Abreu Lassance.

Em 1921, seu pai foi nomeado Promotor em Carmo, no RJ, para onde a família se mudou. Nessa cidade, permaneceu até os 12 anos, quando voltou a Niterói. Ingressou no Colégio Brasil, na terceira série primária, ali permanecendo até fazer o exame de admissão, ocupando, sempre, o 1° lugar no quadro de honra do Colégio. Em 1931, foi transferido para o Liceu de Humanidades Nilo Peçanha, fazendo parte da primeira turma formada naquela Instituição. Ingressou na Faculdade Fluminense de Direito, em 1934, cursando até o 3° ano, quando, por questões financeiras, trancou a matrícula, indo trabalhar no Moinho Inglês como Office-boy.

Somente em 1952 retornou à Faculdade, terminando o curso de Direito, em 1955, já casado com D. Ernestina Charlier Lassance, ocupando o cargo de Chefe de Serviço imobiliário do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários, onde ingressou em 1943, por concurso público. Trabalhou, antes do concurso, no Colégio Pedro II e no Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais.

Publicou três livros de poesias: 
“Caleidoscópio”(1967), 
“Invocação a Deus”(1970) e 
“Momentos”(1986).

Em 1965, fez uma exposição de poemas por ele ilustrados, onde figuram poesias de alguns de nossos maiores poetas, como Manoel Bandeira, Cassiano Ricardo, etc., que correu numerosos Municípios do Estado do Rio de Janeiro e no Museu Parreiras em Niterói. 

Em 1966, foi o 1° classificado no concurso de Trovas sobre Niterói, com a Trova:

“A Igreja de São Lourenço
 que o tempo jamais destrói,
 é o marco, cheirando a incenso,
 de onde nasceu Niterói.”

Esta trova foi gravada em bronze, e inaugurada, ao pé da Igreja de S. Lourenço dos Índios, pelo Prefeito Waldenir Bragança, onde permaneceu até a realização das obras no Santuário, no Governo de Jorge Roberto Silveira, quando foi retirada, tendo destino ignorado.

Ainda em 1966, foi 1° lugar no Concurso de poesias da primeira Semana de Icaraí, com o Soneto “Festival de Cores”.

Em 1967, tomou posse na Academia Fluminense de Letras, onde, ocupa a cadeira n° 13, patronímica de Casemiro de Abreu. Foi Vice Presidente desta Academia até 05/07/2009, data de seu falecimento.

Foi também pintor, tendo sido aluno do grande aquarelista Armando Leite. Em 1968, foi um dos fundadores do Lions Clube Niterói Fonseca, na qualidade de 1° Presidente.

Um Soneto de Lisboa/Portugal

Carlos Alberto da Costa Fragata
Ilusão
  
 O riacho correu, endiabrado,
 Com ânsias de ser mar, de ver o mundo…
 O fascínio de ser forte, profundo,
 Correr, com os golfinhos, lado a lado,
  
 Saír do vale d’onde é oriundo,
 Deixar de ser só rio, ser respeitado!…
 Por esse sonho louco enfeitiçado,
 Caíu num rio maior, mergulhou fundo!!
  
 Confuso, procurando seu caudal,
 Num turbilhão maior do que sonhara,
 Engolido p’lo rio principal,
  
 Apercebeu-se, então, de quanto errara!…
 Chorou saudades da terra natal,
 Que, em sonhos de grandeza, em vão deixara…

Um Haicai de Balneário Camboriú/SC

Mais um dia nasce.
E esse amor que me vigia
é a luz da manhã.
Eliana Ruiz Jimenez

Uma Trova de Serra Negra do Norte/RN

O amor e o sonho, querida,
 são graças que Deus nos deu…
 Quem não ama não tem vida,
 quem não sonha já morreu. 
José Lucas de Barros

Vinicius de Moraes, Com Amor

A Hora Íntima

Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim: – Nunca fez mal… 
Quem, bêbedo, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até a estrela da tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: – Rei morto, rei posto… 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: – Foi um doido amigo… 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspecção tamanha 
Que eu hei de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento 
Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda. 
Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará: – Não há de ser nada… 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada? 

Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?

Cantinho do Ialmar Pio Schneider

Soneto a São Francisco de Assis 
– Nascimento em 5 de julho de 1182 –

 Quero ao “O Pobre de Deus” render meu preito
 de gratidão por suas orações;
 quando pregava às aves, com efeito,
 ele atingia a todos os corações…

 “Padroeiro dos Trovadores”, aceito
 e venerado pelas multidões,
 seu nome São Francisco tem conceito,
 e nos consola em horas de aflições…

 Pregou a paz entre os irmãos e santo
 permanece p´ra sempre no seu canto
 de amor sublime a todas as criaturas…

 Hoje, no dia do seu nascimento,
 que sua bênção traga um sentimento
 de concórdia, de luz e de ternuras…

Uma Fábula

A Serpente e os Pássaros
Leonardo Da Vinci (Itália) 

Não havia mais tantos pássaros no bando quanto anteriormente. Cada dia um deles desaparecia misteriosamente, sem ninguém notar como. O líder do bando não conseguia encontrar explicação alguma.

Certa manhã, em vez de voar na frente, colocou-se em último lugar, a fim de poder vigiar seus companheiros.

Voaram, como sempre, em direção a uma floresta distante. Ao passarem por cima de um colina o líder notou que o ordenado bando separou-se, como se atingido por um forte vento. A maioria dos pássaros tornou a formar uma fila ordenada. Porém dois dos mais jovens prosseguiram numa rota diferente, como se atraídos por alguma força invisível.

E subitamente o líder viu a serpente. Era muito comprida e tinha diversos anéis.

Todas as manhãs ficava escondida na grama, à espera da passagem do bando. Então abria a boca e aspirava com força, sugando os pássaros para dentro de sua boca.

Tendo descoberto o perigo, o sábio líder, desse dia em diante, conduziu o bando por outra rota e a serpente nunca mais apanhou nenhum deles.

Um Soneto de São Paulo/SP

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852)
Último Soneto

 Já da noite o palor me cobre o rosto, 
 Nos lábios meus o alento desfalece, 
 Surda agonia o coração fenece, 
 E devora meu ser mortal desgosto!

 Do leito, embalde num macio encosto, 
 Tento o sono reter!… Já esmorece
 O corpo exausto que o repouso esquece…
 Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

 O adeus, o teu adeus, minha saudade, 
 Fazem que insano do viver me prive
 E tenha os olhos meus na escuridade.

 Dá-me a esperança com que o ser mantive!
 Volve ao amante os olhos, por piedade, 
 Olhos por quem viveu quem já não vive!

Músicas de capoeira

Dente de ouro

 Ladainha é a mensagem cantada pelo mestre a cada início de roda, sempre acompanhada ao toque Angola. Durante a ladainha não há jogo, e os dois capoeiristas ficam agachados ao pé dos berimbaus. Após o Grito de Angola (Iêê…) dá-se início ao jogo lento da capoeira. Esta versão de ladainha foi transcrita de Capoeira Cordão de Ouro – Mestre Suassuna e Dirceu (Continental, 1975, 997157-2).

 Ela tem dente de ouro
 Ela tem dente de ouro
 Ela tem dente de ouro
 Ora meu Deus, fui eu que mandei botar
 Vou rogar nela uma praga
 Pra esse dente se quebrá
 Ela de mim não se lembra
 Ora, meu Deus
 Nem dela vou lembrá
 Menina diga seu nome
 Que eu também já digo o meu
 Eu me chamo Chita Fina
 Daquele vestido seu
 Casa de palha é palhoça
 Se eu fosse o fogo, eu queimava
 Toda mulher ciumenta
 Se eu fosse a morte, eu matava
 Camaradinha
 Viva meu Deus
 Iêê, viva meu Deus, camará
 Eu sou mandingueiro
 Eu sou mandingueiro, camará
 Eu sou mandinga
 Eu sou mandinga, camará
 Iêê, jogue pra ali
 Iêê, jogue pra ali, camará
 Iêê, jogue pra cá
 Iêê, jogue pra cá, camará
 Iêê, dá volta ao mundo
 Iêê, dá volta ao mundo, camará
 Iêê, que o mundo deu
 Iêê, que o mundo deu, camará
 Iêê, que o mundo dá
 Iêê, que o mundo dá, camará

Ladainha transcrita de Capoeira Cordão de Ouro – Mestre Suassuna e Dirceu (Continental, 1975, 997157-2).

Uma Trova de Curitiba/PR

Jogo no burro, na cabra,
lá se vão os meus reais,
no meu bolso nada sobra
e a “grana” não volta mais.
Jorge de Oliveira

Uma Poesia de Blumenau/SC

Luiz Eduardo Caminha
Poesia

 Que seja ela,
 A poesia,
 Firme como a árvore,
 Embora estática,
 Finca raízes,
 Faz da seiva fruto
 Doce cantar.
  
 Todavia,
 Que seja ela,
 A poesia,
 Como a água,
 Que se move,
 Corredeira abaixo,
  
 Busca mar oceano,
 Onde singram velas,
 Horizontes sem fim!!!

Cantinho do Izo Goldman 

A Rima Pobre e a Rima Rica

Dentro dos diversos elementos que valorizam uma trova devemos destacar a “rima”.

“Rima é a igualdade ou semelhança de sons no fim de duas ou mais palavras, no extremo dos versos.

As rimas podem ser classificadas em :

POBRE – Quando formada por duas palavras da mesma categoria gramatical.

Da mais funda escuridão (subst.)
pergunta um cego: – “O que é luz?”  (subst.)
e alguém, por definição  (subst.)
lhe põe nas mãos uma Cruz!… (subst.)
VILMAR LASSANCE (Niterói/RJ)

RICA – Quando formada por duas palavras de categorias gramaticais diferentes.

Pode chover muitas horas  (subst.)
que eu nem ligo a temporais  (subst.)
Duas gotas quando choras  (verbo)
me preocupam muito mais… (advérbio)
ELTON CARVALHO (RJ/RJ)

continua… Rimas Raras e Rimas Preciosas

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Santana do Matos/RN

Vem um verso “de veneta”,
 falta tinta, que derrota!
 Pois tinta em minha caneta
 minha inspiração não bota!… 
Ademar Macedo

Acalantos

Acordei de Madrugada

 Acordei de madrugada
 Fui varrer a Conceição
 Encontrei Nossa Senhora
 Com seu raminho na mão

 Eu pedi-lhe o seu raminho
 Ela me disse que não
 Eu tornei a lhe pedir
 Ela me deu o seu cordão

 O cordão de sete voltas
 Que traspassa o coração
 Numa ponta tem São Pedro
 Noutra ponta São João

 Santo Antônio, São Francisco
 Desatai este cordão
 Que me deu Nossa Senhora
 Com a sua santa mão

Conforme registro em Música na escola primária (Distrito Federal, Ministério da Educação e Cultura, 1962)

Uma Poesia de Bocas del Toro/Panamá

Consuelo Tomas
Eu era uma casa

Eu era uma casa que quase se fechava
Antiga memória de beijos
Carícia no exílio
Mar calmo e já de volta

Então foste tu
abrindo minhas janelas
Colocando os passos da mirada
música da ternura em tua doce mão
espantando o pó do desengano
uma ou outra palavra e o abraço

ilusão imperfeita
um minuto de vida
oportunidade serena
para ensaiar o amor e suas rupturas

Agora tenho que esquecer-te e não sei como
Recuperar o mecanismo da calma, a música do mar
E sua cumplicidade imensa
O perfeito equilíbrio do que foi conquistado

De qualquer forma antes que a noite chegue
Aqui sempre haverá lugar para teu rosto
Um espaço vazio para que teus braços preencham ou a lembrança
Um silêncio estendido para que teu canto voe ao mais elevado
Aqui.

Poesia de Cordel de Assaré/CE

Patativa do Assaré
O Alco e a Gasolina

Neste mundo de pecado 
 Ninguém qué vivê sozinho 
 Quem viaja acompanhado 
 Incurta mais o caminho 
 Tudo que no mundo existe 
 Se achando sozinho e triste, 
 O alco vivia só
 Sem ninguém lhe querê bem 
 E a gasolina também 
 Vivia no caritó.

 O alco tanto sofreu
 Sua dura e triste sina
 Até que um dia ofreceu
 Seu amô a gasolina 
 Perguntou se ela queria
 Ele em sua companhia,
 Pois andava aperriado
 Era grande o padecê
 Não podia mais vivê
 Sem companhêra ao seu lado.

 Disse ela: dou-lhe a resposta 
 Mas fazendo uma proposta 
 Sei que de mim você gosta 
 E eu não lhe acho tão feio 
 Porém eu sou moça fina, 
 Sou a prenda gasolina 
 Bem recatada, granfina
 E gosto muito de asseio.

 Se você não é nogento 
 É grande o contentamento 
 E tarvez meu sofrimento 
 Da solidão eu arranque, 
 Nós não vamo nem casá 
 Do jeito que o mundo tá 
 Nós dois vamo é se juntá 
 E morá dentro do tanque.

 Se quisé me acompanhá 
 No tanque vamo morá 
 E os apusento zelá
 Com carinho e com amô, 
 Porém lhe dou um conseio 
 Não vá fazê papé feio 
 Quero limpeza e asseio 
 Dentro do carboradô.

 Se o meu amô armeja
 E andá comigo deseja, 
 É necessaro que seja 
 Limpo, zeladô e esperto, 
 Precisa se controlá,
 Veja que eu sou minerá 
 E você é vegetá,
 Será que isto vai dá certo?

 Disse o alco: meu benzinho 
 Eu não quero é tá sozinho 
 Pra gozá do teu carinho 
 Todo sacrifiço faço,
 Na nossa nova aliança 
 Disponha de confiança 
 Com a minha substança 
 Eu subo até no espaço.

 Quero é sê feliz agora 
 Morá onde você mora 
 Andá pelo mundo afora 
 E a minha vida gozá, 
 Entre nós não há desorde 
 Basta que você concorde 
 Nós se junta com as orde 
 Da senhora Petrobá.

 Tudo o alco prometia. 
 Queria por que queriá 
 Na Petrobá neste dia 
 Houve uma festa danada 
 A Petrobá ordenou
 Um ao outro se entregou 
 E o querozene chorou 
 Vendo a parenta amigada.

 Porém depois de algum dia 
 Começou grande narquia, 
 O que o alco prometia 
 Sem sentimento negou, 
 Fez uma ação traiçoêra 
 Com a sua companhêra 
 Fazendo a maió sugêra 
 Dentro do carboradô.

 Fez o alco uma ruína 
 Prometeu a gasolina
 Que seguia a diciprina 
 Mas não quis lhe obedecê 
 Como o cabra embriagado 
 Descuidado e deslêxado 
 Dêxava tudo melado, 
 Agúia, bóia e giclê.

 A gasolina falava
 E a ele aconceiava,
 Mas o alco não ligava,
 Inxia o saco a zomba
 Lhe respondendo, eu não ligo,
 Se achá que vivê comigo
 Tá sendo grande castigo
 Se quêxe da Petrobá.

 E assim ele permanece 
 No carro a tudo aborrece, 
 Se a gasolina padece
 O chofé também se atrasa 
 Hoje o alco veve assim 
 Do jeito do cabra ruim 
 Que bebe no butiquim
 E vai vomitá na casa.

Uma Trova de Fortaleza/Ceará

Todo indivíduo que é tolo
 mas que de sábio se arvora,
 é tal um pão sem miolo…
 só tem a casca por fora! 
Francisco José Pessoa de Andrade Reis

 Um Soneto de São Luis/MA

Raymundo Correia (1859 – 1911)
“As Pombas.”

 Vai-se a primeira pomba despertada…
 Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
 De pombas vão-se dos pombais, apenas
 Raia sanguínea e fresca a madrugada…

 E à tarde, quando a rígida nortada
 Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
 Ruflando as asas, sacudindo as penas,
 Voltam todas em bando e em revoada…

 Também dos corações onde abotoam,
 Os sonhos, um por um, céleres voam,
 Como voam as pombas dos pombais;

 No azul da adolescência as asas soltam,
 Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
 E eles aos corações não voltam mais…

Modinha 

Já Tens un Novo Amor
Autor Anônimo

I
 Já tens um novo amor eu bem sei
 Escusa-te, oh! mulher de confessar
 A vida é assim mesmo, pois eu vejo:
 Vêm lágrimas e pranto acabar } bis

Estribilho
 Adeus, querida amante, para sempre!…
 Que seja o novo amor tua ventura
 Eu fico eternamente soluçando
 Até que se me abra a sepultura } bis

 II
 Já está tudo acabado e morto até
 O que outrora vi nascer por entre beijos!
 E hoje só me restam tuas cartas
 Relíquias do amor e do desejo } bis

 III
 Já tens um novo amor eu bem sei
 Já não te lembras mais de teu amante
 Eu de ti não me esqueço um só momento
 Tu de mim não te lembras um só instante

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Um Soneto de Niterói/RJ

Vilmar Lassance (1915 – 2009)
Espera

Que horas são? Que importa?… já nao vem…
 Quase dez…já não vem, tenho certeza!
 Mas prometeu, que diabo, assim também…
 Maria! Ponha esse jantar na mesa!

Vou jantar! Não espero mais ninguém!
 Quem pensa, ela, que é?!…Só tem beleza…
 De inteligência mesmo…nem vintém…
 E, de dotes morais, é uma pobreza!

Tanta despesa e, agora…francamente!
 Também…não quero vê-la nunca mais!
 Nem que venha coberta de ouro em pó!

A campainha…Puxa! Que insistente!
 Já vou! Quem é?…Querida!… Como vais?
 Meu amor! Nunca mais me deixes só!

Uma Prosa Poética de Maputo/Moçambique

Amosse Mucavele 
O Viajante Sem Sono

Há gritos que o tempo e as suas garras não conseguem calar, muito menos apagar o fogo que branda no universo deste medo que se chama morte. Desordenado, num espaço descalço de construções verticais da felicidade que mantém a metáfora das asas coladas na estrada cicatrizada de buracos de sangue, empoeirada de lágrimas costuradas por uma agulha com linhas de tristezas no corpo do destino incerto. Onde o medo invade a vida privada dos passageiros ensardinhados no machibombo. A viagem continua profunda e longa, com vozes a apedrejar a chuva em pleno florescimento agreste do nevoeiro que desafia a consternação do chicote das abelhas ensurdecedoras. E para melhor içar esta viagem no limbo enxertado ao modus vivendi das árvores do bosque e da toponímia da estação que se segue. O último suspiro de alívio ampara a alegre dissertação do viajante arquitectado pelo náufrago do cansaço.

Uma Trova de Porto Alegre/RS

Em ternura plena e extrema,
 nossos sonhos se cruzaram.
 E a noite se fez poema…
 E os versos também se amaram! 
Flávio Roberto Stefani

Um Soneto de Los Angeles/EUA

Elisabeth dos Santos Columa
Ia Escrever um Poema

 Ia escrever um poema
Mas foi ele quem me escreveu.
Foi só olhar pela janela,
Pra colorir o papel.
E pintar a lua de verde, 
Pensando que era folhagem
E imitar o farfalhar dela
Com um sopro bem suave
Lá no canto do meu quarto…
Pra ninguém pensar que escrevo
Sem papel e sem pincel.
Foi o poema que me escreveu.
E que me fez assim desse jeito.

Cantigas Infantis 

Chora, Mané, Não Chora

Uma roda de crianças, com uma menina no centro. Uma das meninas esconde um limão e vai passando às outras enquanto a do meio vai procurá-lo de mão em mão. Cantam as da roda:

 Chora, Mané, não chora,
 Chora porque não vê
 O limão
 O limão anda na roda,
 Feito um bestaião
 O limão.

 Ele vai, ele vem
 Ele aqui não passou
 Chegou no caminho
 Conselhos tomou.

 Quando a menina do centro encontra o limão, vai para o meio a criança que o escondia. E o brinquedo continua.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). 

Uma Quadra Popular

Oh vento, tu és o vento,
 Oh vento, tu és traidor,
 Fui abrir a porta ao vento 
 pensando que era o amor

Trova Capixaba (Origens)

O Jornal “A Província do Espírito Santo” circulou pela primeira vez em 15 de março de 1882. Com o advento, isto é, com o surgimento da República, passou a se chamar “Diário do Espírito Santo” e depois “O Estado do Espírito Santo.”

 O Jornal de 20 de Janeiro de 1889 era um jornal de Domingo. Tinha o número 1.851 e trazia na primeira página artigos literários. Transcrevo as três primeiras Trovas publicadas. São apresentadas como populares, isto é oriunda do povo, não havendo indicação de quem fez as Trovas:

 Os raios do céu me partam
 as estrelas me façam em pó;
 a luz do dia me falte
 se eu não amo a ti só.

 Quem quer bem às escondidas
 grandes tormentos padece,
 passando por ser bemzinho
 fazendo que não o conhece.

 Ainda depois de morta,
 debaixo do frio chão,
 acharás teu nome escrito
 no meu terno coração.

(trecho do livro de Clério José Borges. Origem Capixaba da Trova. Serra/ES. Outubro de 2007)

Uma Poesia de Belo Horizonte/MG

Laércio José Pereira
Autorretrato

Minha mitologia é de almanaque,
Às vezes misturo Zeus e Mandrake,
E Venus é só a estrela que passa.

Meu fígado de acorrentado
É repetidamente picado
Pelo álcool onde o meu pai viveu.

O fogo, eu não roubei
Vive fátuo, bem fundo,
Enterrado no meu estado de espírito.
Meu corpo, eu o tenho arqueado
Pelas colunas de sustentar mundos.

A minha mitologia é suburbana,
A minha escrita pobre profana templos
E está mais próxima dos submundos
Do que das messes do Olimpo.
Quem sou?

Falso poeta, Quasimodo por fora,
Por dentro, um Obará sem as abóboras.
De onde venho? De um bairro industrial.
Para onde? Para morrer completamente no final.

Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 30)

Uma Trova do Distrito Federal

Atente bem e me escute:
O homem simples, só fala.
O tolo fala e discute,
Enquanto o sábio se cala.
Miguel J. Malty – DF

Uma Trova sobre a Paz do Rio de Janeiro

A paz é como uma rosa,
A perfumar os caminhos,
Tão bonita e tão bondosa
Mas,  espalhando os espinhos.
Henny Kropf – RJ

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
A falta que ama

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

Uma Trova de Minas Gerais

Sorria, meu bem sorria!
A natureza te deu
Os encantos deste dia
Pra seres feliz como eu.
Murilo Teixeira

Trova de Concurso 

2012 – III Jogos Florais de Caxias do Sul
Tema: Uva

Tende a viver de amarguras,
como a raposa da lenda
quem acha as uvas maduras,
mas não colhe esta oferenda.
Mário Augusto J. Zamataro (Curitiba/PR)

Um Soneto de Palmital de Saquarema/RJ

Alberto de Oliveira
A Vingança da Porta

 Era um hábito antigo que ele tinha:
 Entrar dando com a porta nos batentes.
 – Que te fez essa porta? a mulher vinha
 E interrogava. Ele cerrando os dentes:

 – Nada! traze o jantar! – Mas à noitinha
 Calmava-se; feliz, os inocentes
 Olhos revê da filha, a cabecinha
 Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

 Urna vez, ao tornar à casa, quando
 Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
 Entra mais devagar… – Pára, hesitando…

 Nisto nos gonzos range a velha porta,
 Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala,
 A mulher como doida e a filha morta.

Um Poetrix 

Arte
Dalton Luiz Gandin (São José dos Pinhais/PR)
Meu papel foi natura.
Agora,
eu imprimo cultura.

Uma Trova do Mato Grosso do Sul

Teu olhar, oh doce prece,
Escrita num rosto lindo,
É tão puro! Até parece
Um anjo meigo sorrindo.
Benedito C.G. Lima

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

Moça insensata e vaidosa,  
Que te exibes na avenida,  
Que importa a veste custosa,  
Se ficas quase despida?
Vital Bizarria [1875-1947] (Arleneiroz/CE)

Nasceu na Fazenda Lagoa de Dentro, município de Arneiroz, no sertão dos Inhamuns, Ceará, em 28 de abril de 1875. 

Além de suas atividades rurais, foi agente dos Correios e inspetor escolar, em Quixadá-CE, foi suplente de Juiz de Direito. Em Fortaleza-CE, foi funcionário municipal, aposentando-se em 1943. 

Homem simples, religioso, cuja religiosidade beirava quase à Inocência. Seus versos falam melhor do que qualquer panegírico. 

É um dos patronos da Academia Tauaense de Letras (Tauá/CE).

Esses dados biográficos foram colhidos da 2ª edição de seu único livro,  pessoal,  íntimo (O título por si já diz “COMIGO”),  editado, pela 1ª vez, em 1935, cujo prefácio, intitulado como “Justificativa”, foi escrito por Antônio Sales (02.junho.1935). Esse singelo livro foi reeditado, em 1997, pelos familiares do Sr. Vital  Bizarria, na passagem do cinqüentenário de sua morte (1947).

Falecimento:02 de setembro de 1947.

Um Soneto de Santos/SP

Carolina Ramos
Seca

O sol delira! Abrasa! A terra, exangue,
abre os lábios sedentos! Sem valia,
os rios secam, veios nus, sem sangue,
sugados pelo solo em agonia!

Pele crestada, passou frouxo e langue,
o retirante segue… tem, por guia,
uma esperança de que o céu se zangue,
lançando sobre a terra a chuva fria!

Chovesse, voltaria ao mesmo beco,
que enfrentar a caatinga é seu destino!
Mas, a chuva não vem… O pranto é seco!

Reza!… O sol, em delírio, mais abrasa!
O céu rubro gargalha! E o nordestino
parte… deixando a própria alma em casa!

Um Haikai do Espírito Santo

Arabescos líquidos
Na vidraça do meu quarto –
Chuva prolongada.
Humberto Del Maestro – ES

Uma Trova de São Paulo

E constrói-se o arranha-céu…
No topo, o pobre operário.
Na copa do seu chapéu, 
O miserável salário.
Arlindo Nóbrega – SP

Vinicius de Moraes, Com Amor

A Floresta

Sobre o dorso possante do cavalo 
Banhado pela luz do sol nascente 
Eu penetrei o atalho, na floresta. 
Tudo era força ali, tudo era força 
Força ascencional da natureza. 
A luz que em torvelinhos despenhava 
Sobre a coma verdíssima da mata 
Pelos claros das árvores entrava 
E desenhava a terra de arabescos. 
Na vertigem suprema do galope 
Pelos ouvidos, doces, perpassavam 
Cantos selvagens de aves indolentes. 
A branda aragem que do azul descia 
E nas folhas das árvores brincava 
Trazia à boca um gosto saboroso 
De folha verde e nova e seiva bruta. 
Vertiginosamente eu caminhava 
Bêbado da frescura da montanha 
Bebendo o ar estranguladamente. 
Às vezes, a mão firme apaziguava 
O impulso ardente do animal fogoso 
Para ouvir de mais perto o canto suave 
De alguma ave de plumagem rica 
E após, soltando as rédeas ao cavalo 
Ia de novo loucamente à brisa. 

De repente parei. Longe, bem longe 
Um ruído indeciso, informe ainda 
Vinha às vezes, trazido pelo vento. 
Apenas branda aragem perpassava 
E pelo azul do céu, nenhuma nuvem. 
Que seria? De novo caminhando 
Mais distinto escutava o estranho ruído 
Como que o ronco baixo e surdo e cavo 
De um gigante de lenda adormecido. 

A cachoeira, Senhor! A cachoeira! 
Era ela. Meu Deus, que majestade! 
Desmontei. Sobre a borda da montanha 
Vendo a água lançando-se em peitadas 
Em contorsões, em doidos torvelinhos 
Sobre o rio dormente e marulhoso 
Eu tive a estranha sensação da morte. 

Em cima o rio vinha espumejante 
Apertando entre as pedras pardacentas 
Rápido e se sacudindo em branca espuma. 
De repente era o vácuo embaixo, o nada 
A queda célere e desamparada 
A vertigem do abismo, o horror supremo 
A água caindo, apavorada, cega 
Como querendo se agarrar nas pedras 
Mas caindo, caindo, na voragem 
E toda se estilhaçando, espumecente. 

Lá fiquei longo tempo sobre a rocha 
Ouvindo o grande grito que subia 
Cheio, eu também, de gritos interiores. 
Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo 
Sufocando no peito o sofrimento 
Caudal de dor atroz e inapagável 
Bem mais forte e selvagem do que a outra. 
Feita ela toda de esperança 
De não poder sentir a natureza 
Com o espírito em Deus que a fez tão bela. 

Quando voltei, já vinha o sol mais alto 
E alta vinha a tristeza no meu peito. 
Eu caminhei. De novo veio o vento 
Os pássaros cantaram novamente 
De novo o aroma rude da floresta 
De novo o vento. Mas eu nada via. 
Eu era um ser qualquer que ali andava 
Que vinha para o ponto de onde viera 
Sem sentido, sem luz, sem esperança 
Sobre o dorso cansado de um cavalo.

Cantinho do Ialmar Pio Schneider

Professor

Lembremos a pessoa de valor,
 neste dia, com muita seriedade,
 que deu à nossa vida qualidade,
 nosso ilustre e abnegado professor…

 Vivemos já desde a mais tenra idade,
 obtendo ensinamentos com amor
 de nossos pais e do batalhador
 mestre-escola, com rara habilidade.

 Depois, ao longo de nossos caminhos,
 vamos seguir quase sempre sozinhos,
 mas com o que ficou em nossa mente.

 Aquelas lições que recebemos,
 eu bem sei que jamais esqueceremos,
 que o ensino é um legado permanente !

Uma Fábula em Versos 

A Raposa e a Cegonha
Jean La Fontaine (França) 

Quis a raposa matreira
Que excede a todas na ronha.
Lá por piques de outro tempo,
Pregar um ópio à cegonha.

Topando-a, lhe diz: “Comadre,
Tenho amanhã belas migas,
E eu nada como com gosto
Sem convidar as amigas.

De lá ir jantar comigo
Quero que tenha a bondade:
Vá em jejum porque pode
Tirar-lhe o almoço a vontade”.

Agradeceu-lhe a cegonha
Uma oferenda tão singela,
E contava que teria
Uma grande fartadela.

Ao sítio aprazado foi.
Era meio-dia em ponto.
E com efeito a raposa
Já tinha o banquete pronto.

Espalhadas em um lajedo
Pôs as migas do jantar
E à cegonha diz: “Comadre,
Aqui as tenho a esfriar.

Creio que são muito boas, —
Sansfaçon, — vamos a elas”.
Eis logo chupa metade
Nas primeiras lambidelas.

No longo bico a cegonha
Nada podia apanhar;
E a raposa em ar de mofa,
Mamou inteiro o jantar.

Ficando morta de fome,
Não disse nada a cegonha;
Mas logo jurou vingar-se
Daquela pouca vergonha.

A dar-me o gosto amanhã
D’ir também jantar comigo”.

A raposa lambisqueira
Na cegonha se fiou,
E ao convite, às horas dadas,
No outro dia não faltou.

Uma botija com papas
Pronta a cegonha lhe tinha;
E diz-lhe: “Sem cerimônia,
A elas, comadre minha”.

Já pelo estreito gargalo
Comendo, o bico metia;
E a esperta só lambiscava
O que à cegonha caía.

Ela, depois de estar farta,
Lhe disse: “Prezada amiga,
Demos mil graças ao céu
Por nos encher a barriga”.

A raposa conhecendo
A vingança da cegonha,
Safou-se de orelha baixa.
Com mais fome que vergonha.

Enganadores nocivos,
Aprendei esta lição.
Tramas com tramas se pagam.
Que é pena de Talião.

Se quase sempre os que iludem
Sem que os iludam não passam.
Nunca ninguém faça aos outros
O que não quer que lhe façam.

Uma Poesia do Porto/Portugal

Alberto de Serpa (1906 – 1992)
Recreio

Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
as crianças confraternizam-se com a alegria das aves….

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
— Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas…

As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
À vida que vai chegando despercebida e breve…

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes…

Uma Trova do Pará

Quando jovem e espigado,
Fui das mulheres querido.
Hoje, velho e alquebrado,
Sou por elas preterido.
Sergio Pandolfo

Um Soneto de Arneiroz (CE)

Vital Bizarria
O Avarento
                  
 Vede aquele velhinho esfarrapado  
Que, a custo, se aproxima do avarento  
E, dando à débil voz um triste aceno,  
De fome a se estorcer, pede um bocado.  

Mesmo assim, não inspira o seu estado,  
De piedade o mais leve sentimento;  
Nem lhe presta atenção quem vive atento  
Somente no tesouro acumulado.  

Velhinho, não maldigas tua sina  
Embora que ela seja tão ferina,  
Vivas, embora, tão faminto e nu…  

Tem compaixão do vil que te despreza:  
Volve os olhos aos céus, por ele reza,  
Pois é mais miserável do que tu.

Cantinho do Izo Goldman 

Trova Humorística – parte 4

Tendo o Brasil em tres anos seguidos, tres presidentes cujos nomes principiavam com J: Janio, Jango e Juscelino, surgiu uma quadra, de autor anonimo, que correu o Brasil todo:

Em tres anos, quase nada,
os tres jotas: K, Q, G,
fizeram da pátria amada
esta coisa que se vê!!!

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Santos/SP

Em meus vagares tristonhos,
um repouso, em vão, procuro,
e a caravela dos sonhos
não acha um porto seguro!…
Carolina Ramos

Uma Poesia de Havana/ Cuba 

Eliseo Diego (1920 – 1994)
Vou Nomear as Coisas

Vou nomear as coisas, os sonoros 
cimos que em mim vêem o festejar do vento, 
os portais profundos, os biombos 
cerrados à sombra e ao silêncio. 

E o interior sagrado, a penumbra 
que sulcam os ofícios empoeirados, 
a madeira do nome, a noturna 
madeira de meu corpo quando durmo. 

E a pobreza do lugar, e o pó 
em que apagaram as pisadas de meu pai, 
lugares de pedra decidida e limpa, 
despojados de sombra, sempre iguais. 

Sem esquecer a compaixão do fogo 
na intempérie do solar distante 
nem o sacramento prazeiroso da chuva 
no humilde cálice de meu parque. 
Nem seu estupendo muro, meio-dia, 
terso e anil e interminável. 

Com o olhar imóvel do verão 
meu carinho saberá das veredas 
por onde fogem os ávidos domingos 
e regressam, já na segunda, cabisbaixos. 

E nomearei as coisas tão devagar 
que quando perca o Paraíso de minha rua 
e meus esquecimentos façam dela sonho, 
possa chamá-las de repente com a aurora.

Poesia de Cordel de Santos/SP

Tere Penhabe
Salvem Minha Vizinha

Eu ando preocupada
com uma antiga vizinha
ela é minha xodozinha
mas não estou achando jeito
de encontrar o tal defeito
dessa história encardida
que levou minha querida
nessa enorme depressão
sem comer arroz feijão
nem qualquer outra comida.

Ela é madrugadora
mal o sol vem se chegando
ela já vai levantando
nem faz hora no banheiro
como era costumeiro
para a palavra-cruzada
que gostava da danada
mas abandonou o vício
diz que tem muito serviço
mas não tem serviço é nada.

Os dedos coçam de fato
pra ligar o tal do micro
esse apetrecho bandido
que tá levando a comadre
para onde só Deus sabe
e eu fico aqui a assistir
vendo a pobre se esvair
no meio dessas mensagens
que vem de outras paragens
que lhe faz chorar e rir.

Café da manhã nem toma
gostava de ovo com bacon
e os fazia de tal jeito
que só de ver me danava
sua cozinha procurava
um taquinho eu queria
e ela sempre oferecia
eita trem bom e gostoso
valia por um almoço
o cardápio de abadia.

Mas hoje a pobre coitada
tá entravada nesse vício
na frente do estrupício
nem se lembra de comer
eu e ela só a receber
parecendo mãe-de-santo
e uma coisa eu garanto
isso não lhe dá camisa
não é do que ela precisa
mas falar já não adianta.

Nem namorar ela quer mais
se eu convido pra sair
no baile querendo ir
ela inventa uma desculpa
diz que vai é sentir culpa
se abandonar seus pupilos
com seus xororós e grilos
despenca a escrever poema
que uma moça lhe dá o tema
pra depois enfeitar o bicho.

Eu estou desconsolada
vendo chegar o fim da linha
da minha pobre vizinha
que não merecia isso
que era boa de serviço
boa de cama e cozinha
só eu sei da amadinha
quanto angu já aprontou
com os paqueras que arrumou
antes dessa anomalia.

Se alguém souber de jeito
pra sanar essa quesila
me enviem a apostila
que a comadre não merece
rodeada de tanta prece
acabar nesse entrevero
nessa vida sem tempero
morrer à míngua e de fome
esquecida do que é homem
ela mora aqui no espelho.

Uma Trova de São Paulo

Nós somos duas trapaças
usando a mesma altivez:
– eu finjo que tu não passas…
– tu finges que não me vês…
Izo Goldman

 Modinha 

Frio Manto
Autor Anônimo

I
 Frio manto de estrelas bordado, 
 Vai a noite arrastando no céu. 
 Cai orvalho nas asas da brisa,
 Que em gelado entre flores morreu… } bis

 II
 Na mansão de finados vagava, 
 Triste bardo com a lira na mão… 
 Acha a campa que busca e, sentado,
 Desferiu esta triste canção: } bis

 I
 “Tantos raios de luz há no céu
 E também d’esperança, eu achei
 Os ciprestes e os goivos da campa
 E os restos de um bem que adorei.
 Entretanto, venho aqui debalde,
 Alta noite seu nome invocar;
 Chamam isso loucura na terra,
 E eu chamo constante adorar…

 II
 Uns têm prantos chorados nos olhos,
 Dentro d’alma chorado é o meu,
 E ninguém pode vir enxugá-lo,
 Pois quem sabe só dele sou eu.
 Lá se foi a visão que era nuvem,
 Só não vai este meu padecer!
 Justo céu, se meu mal não me abrandas,
 Vezes mil, eu prefiro morrer!

 III
 Com roupagem de neve abafado
 Desce um anjo da etérea mansão;
 – Se foi, ela, foi Deus que mandou,
 Me tirar dessa negra aflição!…
 Quando o sol de manhã descortina
 Triste cena que faz compungir:
 Um cadáver com a lira na mão
 Era o bardo, pr’a sempre a dormir…”

Nota: Foi assim mesmo. A exacerbação de sentimento romântico deveria necessariamente levar aos excessos dramáticos de que são provas esses dramalhões.

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Uma Trova de Minas Gerais

Tudo ele faz com amor
e traz o céu na bagagem;
na verdade, o trovador
de Deus na Terra é a imagem
Luiz Carlos Abritta

Um Soneto da Cidade da Guatemala/Guatemala

Miguel Angel Astúrias (1899 – 1974)
Inverno 

Em súplica de vento, sem cautela,
fui atrás de ti, mulher ; em minha presença
transportad por luz azul de estrela
de sentido em sentido até a ausência.

Atravessaste, além, os egoismos
que em silêncio de lágrimas desvelo,
após abismos justapondo abismos,
em minha imensa solidão de gelo.

Como uma aranha grande a chuva tece
com água e vento suas teias móveis.
Que serão, amanhã, quando ela cesse ?
Superfícies de vida sem quebranto,
como serão meus olhos, quando imóveis
tenham chorado já todo o meu pranto ?

Cantigas Infantis 

Castanha Ligeira

É uma roda de meninas, com uma no meio. 
Cantam todas, enquanto passam de mão em mão, sem que veja a do centro, uma castanha:

 Castanha ligeira
 Que vem do Pará
 No meio da roda
 Ninguém te achará
 Roda, castanha
 E torna a rodar
 No meio da roda
 Ninguém te achará

 Enquanto cantam, a menina do meio vai procurando a castanha nas mãos das amiguinhas, até achá-la. 
A que for encontrada com a castanha, passa então a ficar sozinha na roda, na vez seguinte.

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). 

Uma Quadra Popular

Sete e sete são catorze
 Com mais sete, vinte e um
 Tenho sete namorados
 E não gosto de nenhum

Fonte:
seleção por José Feldman
A maioria das trovas foram obtidas em Letras Taquarenses n.40 jul ago 2012. gentilmente cedido por Antonio Cabral.

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Arquivado em devaneios poéticos

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 29)

Uma Trova de Salvador/BA
Entre a mulher e a cachaça
não vejo comparação,
quando a primeira é desgraça,
a segunda é solução
Hildemar de Araújo Costa

Uma Trova sobre a Trova de Nilópolis/RJ
Nestas trovas bem singelas
eu quero dizer-te ainda,
que dentre todas as belas,
tu és, ó Bela, a mais linda.
Raimundo Araújo
Eternamente Drummond
Carlos Drummond de Andrade (MG)
A Falta de Érico
Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de Sexta-feira
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda – como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente,
falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Para curar nossa dor
não existe terapia
que não seja obra de amor
na luta de cada dia.
Therezinha Rebelo de Mendonça Radetic

Trova de Concurso

2003
– XXXIII Jogos Florais de Niterói
Tema: Razão

Acalma-te, coração,

não vivas de sobressalto
pois nem sempre tem razão
quem sabe falar mais alto!
Eugênia Maria Rodrigues (Rio Novo/MG)
Um Soneto de Petrópolis/RJ
Gilson Faustino Maia
Final de Serenata
Guarda, meu coração, o teu segredo.
Para que revelá-lo se termina
a canção que sufoca, que alucina,
que me lançou, pra sempre, no degredo?
Ao novo seresteiro, oculte o enredo.
Não mostre essa verdade cristalina:
é a lei da paixão quem determina
o qual será feliz, contado aos dedos.
Eu cansei de cantar pra minha amada.
Eu cansei de penar na caminhada…
A canção foi cruel, incrível, ingrata.
A riqueza do mundo é um problema,
a vida, uma canção, o amor o tema,
o tempo em que vivemos, serenata.

Um Poetrix

Primavera
Regina Romeiro (São Sebastião/SP)
Primavera ri
Bocas em florescentes
Dizeres por ti
Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Paz, antônimo de guerra
suplanta sempre o terror,
filtra o sórdido da terra,
brotando a essencia do amor.
Agostinho Conceição Rodrigues Filho

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História

Quanta prodigalidade!…
Em poucos meses, querida,
gastamos felicidade
que dava pra toda vida!
J. G. de Araújo Jorge [1914-1987] (Vila de Tarauacá/AC)
José Guilherme de Araújo Jorge nasceu em 20 de maio de 1914, na Vila de Tarauacá, Estado do Acre. Filho de Salvador Augusto de Araújo Jorge e Zilda Tinoco de Araujo Jorge.
Descendente, pelo lado paterno de tradicional família alagoana, os Araujo Jorge. Sobrinho do embaixador Artur Guimarães de Araujo Jorge, ( autor de inúmeras obras sobre Filosofia, História  e Diplomacia), sobrinho neto de Adriano  de Araujo Jorge , médico, escritor, grande orador, que foi Presidente perpétuo da Academia Amazonense de Letras,  e do Prof. Afrânio de Araujo Jorge, fundador do Ginásio Alagoano, de Maceió.
Descende pelo lado materno dos Tinocos, dos Caldas e dos Gonçalves,  de Campos, Macaé, e S. Fidélis,  Estado do Rio.
Passou sua infância no Acre, em Rio Branco, onde fez o curso primário no Grupo Escolar, 7 de Setembro. No Rio , realizou o curso secundário nos Colégios Anglo-Americano e Pedro II Colaborou desde menino na imprensa estudantis. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II, no velho casarão de S.Cristovão, consumido pelas chamas muitos anos depois. Data dessa época, ainda ginasiano, sua primeira colaboração  na imprensa adulta: em 1931 viu publicado o seu poema “Ri Palhaço, Ri” no  “Correio da Manhã”, depois transcrito no “Almanaque Bertand” de 1932.
Entretanto, este como outros trabalhos desse tempo, não foram incluídos em seus livros. Colaborou também no jornal ” A Nação” ; nas revistas: ” Carioca”, “Vamos Ler”, etc. Formou-se  pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.
Em 1932, No Externato Colégio Pedro II, em memorável certame, foi escolhido o ” Príncipe dos Poetas”, sendo saudado na festa por Coelho Neto, “Príncipe dos prosadores brasileiros” recebendo das mãos da poetisa Ana Amélia, Presidente da Casa do Estudante, como prêmio e homenagem, um livro ofertado por  Adalberto Oliveira, então ” Príncipe da Poesia Brasileira”.
Na Faculdade de Direito foi o fundador e o 1º Presidente da Academia de Letras, que teve como patrono Afrânio Peixoto, então professor de Medicina Legal.
Foi locutor e redator de programas radiofônicos, atuando nas Rádios Nacional, Cruzeiro do Sul, Tupi e Eldorado. Em 1965, era professor  de História e Literatura, do Colégio  Pedro II.
Orador oficial de entidades universitárias, (do CACO  da União Democrática Estudantil, precursora da UNE, da Associação Universitária, etc), ainda estudante, venceu concursos de oratória. Em Coimbra recebeu no título de ” estudante honorário” e fez Curso de Extensão Cultural na Universidade de Berlim.  
Com irrefreável vocação política, foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal em 1970 pela Guanabara, reelegendo-se já para o  seu terceiro mandato em 1978 .
Ocupou a vice-liderança do MDB e a presidência da Comissão de Comunicação na  Câmara dos Deputados.
Politicamente participou sempre das lutas anti-fascistas, como democrata e socialista. Lutou, ainda estudante, contra o “Estado Novo”. Foi preso e perseguido várias vezes durante esse período . Deixou de ser orador de sua turma por estar detido na Vila Militar, sob as ordens do Gal. Newton Cavalcanti, durante todo “estado de guerra” de 1937.   
Foi conhecido como o Poeta  do Povo e da Mocidade, pela sua mensagem social e política e por sua obra lírica, impregnada de romantismo moderno, mas às vezes, dramático.
Foi um dos poetas mais lidos, e talvez por isto mesmo, o mais combatido do Brasil.
Faleceu em 27 de Janeiro de 1987.
Um Soneto de Recife/PE
Ariano Suassuna
Lápide
 (com tema de Virgílio, o Latino, e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo)
 Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
 nas pedras do meu Pasto incendiado:
 fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
 com a Espora de ouro, até matá-lo.
 Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
 numa Sela de couro esverdeado,
 que arraste pelo Chão pedroso e pardo
 chapas de Cobre, sinos e badalos.
 Assim, com o Raio e o cobre percutido,
 tropel de cascos, sangue do Castanho,
 talvez se finja o som de Ouro fundido
 que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
 tentei forjar, no meu Cantar estranho,
 à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!
Um Haikai de Camboriú/SC

Orgulhoso o sol
ostenta a pinta no rosto.
Passeio de vênus.
Eliana Ruiz Jimenez

Uma Trova de Salvador/BA

Da vida eu nunca me queixo
nem mesmo da despedida.
Tudo de valor eu deixo
pois nada eu levo da vida.
Isaías Moreira Cavalcante
Vinicius de Moraes, Com Amor
A Esposa
 Às vezes, nessas noites frias e enevoadas
Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
Essa estranha visão de mulher calma
Surgindo do vazio dos meus olhos parados
Vem espiar minha imobilidade.
E ela fica horas longas, horas silenciosas
Somente movendo os olhos serenos no meu rosto
Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.
Nada diz, nada pensa, apenas olha – e o seu olhar é como a luz
De uma estrela velada pela bruma.
Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem
Mas que não vencem o olhar perdido longe.
Nada pensa. Virá e agasalhará minhas mãos frias
Se sentir frias suas mãos.
Quando a porta ranger e a cabecinha de criança
Aparecer curiosa e a voz clara chamá-la num reclamo
Ela apontará para mim pondo o dedo nos lábios
Sorrindo de um sorriso misterioso
E se irá num passo leve
Após o beijo leve e roçagante…
Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente…
Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.
Cantinho do Ialmar Pio Schneider
Para a Eleita

Quando nasci, chorei… mas vim ao mundo
para depois cantar o nosso amor…
São cânticos que arranco bem ao fundo
deste meu coração de sonhador.
Escuta-os, pois… expressam todo o ardor
da minha vida e tanto me aprofundo
neste mister – romântico labor
que não posso esquecer nenhum segundo…
Se em toda parte a sombra me acompanha,
tu vais comigo, sem saber talvez…
És qual a flor no topo da montanha
que procuro galgar – pobre menino
sofrendo sem chorar e como vês
te dedicando todo o seu destino.
Uma Fábula em Versos

O Sol e as Rãs
Jean La Fontaine (França)

Nas bodas de um tirano, o povo em regozijo
Afogava em prazer suas apreensões;
Somente Esopo achava haver pouco juízo
Nos que assim se entregavam a tantas expansões
O sol pensou, diz ele, outrora em se casar,
E a nova foram dar
Às filhas das lagoas;
E tanto isso aterrou-as
Que, em uníssono coro, se puseram a lamentar
“O que será de nós se filhos chega a ter?
Se havendo um sol somente é duro de sofrer
Com uma meia dúzia o mar tem de secar
E os habitantes seus serão sacrificados
Adeus, juncos e banhados!
“Nossa raça destemida
Ver-se-á só reduzida
A triste água do Estige
Pra tão fraco animal,
Essas rãs, a meu ver, pensavam menos mal.
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

Yolanda Marazzo
Barcos
“Nha terra é quel piquinino
 É São Vicente é que di meu”
Nas praias
 Da minha infância
 Morrem barcos
 Desmantelados.
Fantasmas
 De pescadores
 Contrabandistas
 Desaparecidos
 Em qualquer vaga
 Nem eu sei onde.
E eu sou a mesma
 Tenho dez anos
 Brinco na areia
 Empunho os remos…
 Canto e sorrio…
 A embarcação
 Para o mar!
 É para o mar!…
E o pobre barco
 O barco triste
 Cansado e frio
 Não se moveu…
Uma Trova de Piraquara/PR
Toda fonte cristalina
que rumoreja em pedreira,
é qual soluço em surdina
de saudade verdadeira.
Lygia T. Fumagalli Ambrogi

Um Soneto de Vila de Tarauacá/Acre

J. G. de Araújo Jorge
Dedicatória
Este meu livro é todo teu, repara
 que ele traduz em sua humilde glória
 verso por verso, a estranha trajetória
 desta nossa afeição ciumenta e rara!
 Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
 tanta cousa afinal na nossa história…
 E este verso – é a feliz dedicatória…
 onde a minha alma inteira se declara…
 Abre este livro… E encontrarás então
 teu coração, de amor, rindo e cantando,
 cantando e rindo com o meu coração…
 E se o leres mais alto, quando a sós,
 é como se estivesses me escutando
 falar de amor com a tua própria voz!

Cantinho do Izo Goldman
Trova Humorística – parte 3
B) CRÍTICA, SÁTIRA, IRREVERÊNCIA
Glosando a permanência quase eterna de Getúlio Vargas no poder, Afonso Duarte Ribeiro fez esta quadra:
Velho parteiro descansa
devido a força que faz…
– “Como é o nome da criança?”
– “Getúlio.” – “Então não sai mais!!!”
(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de Curitiba/PR
Há trovas que o vento leva:
outras, o fogo desfaz…
Mas, as minhas, sem reserva
são trovas que o vento traz.
Maria Nicolas
Uma Poesia de Havana/ Cuba

Daniel Díaz Mantilla
Quanto Te Afastas de Ti Mesmo
 Temo a multidão que te confunde,
 a palavra involuntária que te ata ao erro,
 a inércia que te guia para o barranco,
 o insensato, o clamor iracundo que te percorre
 quando te afastas de ti mesmo.

Poesia de Cordel de Esperança/PB

Rau Ferreira
A Lenda Caricé

A lenda é Caricé
 Esperança é a região
 Dos Índios Banaboiés
 Cujo drama conhecerão.
 Dentre os moços
 Do serviço de demarcação
 Havia um que costumava cantar
 Ao som de um dolente violão
 À moda de endecha
 Uma triste canção…
 O jovem Morais Valcácer
 Filho de um donatário da região
 Passava as tardes a dedilhar
 À beira de um riachão.
 Eram os tempos das Sesmarias
 Que se fazia a demarcação
 E uma índia a passear
 Ouvindo o ritmo da paixão
 Deixou-se pelo jovem encantar.
 Pertencia à tribo Banaboié
 Que povoara a região
 E a pretexto de ir buscar
 Água para sua obrigação
 O mancebo ia visitar.
 O amor tem suas armadilhas
 Que penetram fundo o coração
 Yara aprendera a cantar
 E conheceu também a decepção.
 Ao fim dos trabalhos
 Deixou o jovem aquele riachão
 Para à sua terra regressar
 Não lhe explicando a razão.
 A índia insulada a chorar
 Pedira para a Lua-Yaci
 Aliviar a sua sofreguidão
 Mas nem o Sol-Guaraci
 Deu-lhe a devida atenção.
 A imagem do amado a recordar
 Todos os dias, no riachão,
 Os transeuntes a perguntar
 A dor e toda a sua solidão.
 O espectro do amor da juventude
 Copiara toda a sua feição
 Um indiozinho passa a reclamar
 Em sua rude concepção:
 – Mamãe está a resguardar,
 Até agora, os prazeres de antão.
 Nas matas da Meia-pataca
 Essa estória muitos ouviram
 Uma escrava forra a contar
 Que Yara um rebento fez brotar
 Para a sua satisfação.
Uma Trova de Goiânia/GO
Quem não enxerga os encantos
que a mini-saia não cobre,
há de viver pelos cantos,
feio, míope, triste e pobre.
Anatole Ramos

 Modinha
Foi numa Noite Calmosa
Autor Anônimo

I
 Foi numa noite calmosa
 Que te vi mulher formosa
 E te amei…
 Fiquei logo embriagado
 Com o sorriso aprimorado
 Que alcancei!… } bis
 II
 Cambaleando, por um momento,
 Dirigi-me a passos lentos
 Junto a ti…
 Foi então que ouvi dizer:
 – Ninguém ama sem sofrer!
 E eu sofri. } bis
 III
 Mas voltando à realidade,
 Que tormento e saudade
 Experimentei!
 A mulher que eu tanto amara,
 Nunca mais em mim pensara
 E eu chorei…
Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956).

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Do casamento, é verdade,
já fugi mais de mil vezes…
amo tanto a liberdade
que nasci de sete meses.
Nicolau Kleinsorge

Um Soneto de San Pedro de Macorís/Republica Dominicana

Lígio Vizardi (1895-1968)
Ela o Quis
Uma vez, pelo áspero caminho,
brindei-lhe sob frondes e entre flores
minha taça repleta pelo vinho
do mais nobre de tos meus amores.
Ela interpôs a inocente mão
dizendo sem carinho nem rancores:
“A outros lábios, dá tua taça, irmão”.
Outra vez, pela estrada, que é de outeiro,
a encontrei fatigada e abatida.
“Dá-me tua taça, disse, caminheiro,
queima-me a sede a boca ressequida!”
Eu lhe estendi a taça meio rota,
mas ela continuou com a sede ardida,
porque já não sobrava uma só gota.
Cantigas Infantis
Caranguejo

As meninas, aos pares, dançam e cantam:
 Caranguejo não é peixe
 Caranguejo peixe é
 Caranguejo só é peixe
 Na enchente da maré
 Bate palma, palma, palma
 Bate pé, pé, pé
 Caranguejo só é peixe
 Na enchente da maré
 Caranguejo é presidente
 Goiamum é capitão
 Aratu por mais pequeno
 Inspetor de quarteirão
 Minha mãe, quando menina, brincou o Caranguejo dançando aos pares, na calçada, como Ciranda, cirandinha. Dona Bibi informou-me que já brincou o Caranguejo uma roda, com as suas amigas de infância, e cantou na mesma música os seguintes versos:
 A mulher do caranguejo
 Está doente de uma dor
 Porque não fez um vestido
 Da fumaça do vapor
 Caranguejo diz que tem
 Duas filhas pra casar
 Uma com o capitão
 Outra com o general
Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953).

Uma Quadra Popular
Todos nós temos defeitos
 digo isto sem ar de riso
 alguns são tortos do corpo
 outros aleijados do juízo
Fonte:
seleção por José Feldman

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José Feldman (Devaneios Poéticos n. 28)

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ

Meu balão de tantos gomos
já se perdeu na distância,
em busca do que já fomos
nos sonhos de nossa infância!
Hermoclydes S. Franco

Uma Trova Ecológica de Camboriú/SC

O futuro do planeta
não é segredo a ninguém
preserve e se comprometa
que a vida assim se mantém.
Eliana Ruiz Jimenez

Eternamente Drummond

Carlos Drummond de Andrade (MG)
A Corrente 

Sente raiva do passado
que o mantém acorrentado.
Sente raiva da corrente
a puxá-lo para a frente
e a fazer do seu futuro
o retorno ao chão escuro
onde jaz envilecida
certa promessa de vida
de onde brotam cogumelos
venenosos, amarelos,
e encaracoladas lesmas
deglutindo-se a si mesmas.

Uma Trova de Porto Alegre/RS

Na infância me acostumei
a pular muro sozinho;
pelas bolas que chutei
para o pátio do vizinho… 
Giovani Domingos

Trova de Concurso 

1992 – Concurso de Trovas de Cruz Alta 
Tema: Juventude

Foram felizes instantes,
juventude na querência.
Hoje em terras tão distantes,
Pilcha…mate…sinto ausência;
José Feldman (Maringá/PR)

Um Soneto do Amazonas

Anibal Beça
Para Que Serve a Poesia?

 De servir-se utensílio dia a dia
 utilidade prática aplicada,
 o nada sobre o nada anula o nada
 por desvendar mistério na magia.

 O sonho em fantasia iluminada
 aqui se oferta em módica quantia
 por camelôs de palavras aladas
 marreteiros de mansa mercancia.

 De pagamento, apenas um sorriso
 de nuvens, uma fatia de grama
 de orvalho e o fugaz fulgor de astro arisco.

 Serena sentença em sina servida,
 seu valor se aquilata e se esparrama
 na livre chama acesa de quem ama.

Um Poetrix 

furo de reportagem
Eliana Mora (RJ) 

De mim sou fato
notícia que não deu
no teu jornal

Uma Trova de Maringá/PR

Mostra o sábio o que destaca
 do burro a paca, e sussurra:
 – é que o burro sempre empaca,
 e a paca jamais emburra… 
Osvaldo Reis

Trovadores que Deixaram Seu Nome nas Páginas da História 

Um carro de boi gemendo, 
um longo apito de trem,
uma porteira rangendo,
isto é saudade também! 
Carolina Azevedo de Castro [1909-1977] (Recife/PE-Petrópolis/RJ)

Carolina Azevedo de Castro nasceu em Recife (PE) em 27 de outubro de 1909 e faleceu em 31 de agosto de 1977.  Radicada em Petrópolis/RJ.

A poeta nasceu em terra de poetas. Recife, em 1909, foi seu berço. Cedo se apegou à poesia. Num soneto disse: “Nasci poetisa”. Declamadora, era atração de festas caseiras e eventos da escola. Casou-se com Francisco Correa de Castro, bancário, mudando-se para Petrópolis em 1941, a jovem Carolina teve seus filhos. Edna Azevedo de Castro nasce primeiro. Em 1944 chega Vera e em 1946, Hélio de Castro. 

Dona de casa, esposa, mãe e poeta, assim vivia. Participou de Jogos Florais, tendo se destacado sempre com premiações. Foi fundadora e primeira presidente da seção local do Grêmio Brasileiro de Trovadores, sucedido pela UBT – União Brasileira de Trovadores. Organizou Concursos de Trovas, com apoio do marido, e coadjuvada por petropolitanos ilustres. As festividades aconteciam no Hotel Quitandinha ou no Casablanca Palace Hotel. Roberto Francisco lembra que Carolina mobilizava hoteleiros e donos de restaurante para recepcionar artistas do Brasil inteiro. Petrópolis, assim, se tornava uma Capital da Trova.

Venceu diversos concursos, em Petrópolis, pelo Brasil afora, destacando-se também em eventos em Portugal e Angola. O orgulho que deu à cidade que sua foi por tanto tempo, fez com que o Vereador José Duarte Canellas propusesse o título concedido de “Cidadã Petropolitana”. 

Carolina promovia em sua residência encontros, para leitura, música e conversas sobre arte e poesia. As famosas tertúlias. “Ao cair da tarde dos sábados, se reuniam poetas, músicos, literatos e outros artistas para declamarem seus trabalhos, cantarem ou representarem, enriquecendo a infância e a juventude de um jovem que ficava olhando tudo aquilo com um olhar muito curioso, se deleitando com tanta coisa bonita que era trazida aos seus olhos e ouvidos”, segundo seu filho Hélio de Castro.

Carolina tinha saúde frágil, teve nove cirurgias por razões diversas, mas não se furtou à maternidade presente e ao ofício da poesia. Mas, dessa alma forte e terna surgiram obras. “Plumas ao Vento”, a coletânea de trovas publicada em 1973. Colaborou com o poeta Luiz Otávio no “Decálogo de Metrificação”, divulgado pela União Brasileira de Trovadores e descrito na Internet em diversos sítios com o “interessantíssimo” e “imperdível” “Dicionário de Versificação”.

Em homenagem póstuma, em 1980, o esposo e os filhos fizeram publicar a coletânea de sonetos de Carolina, denominada “IMAGENS QUE FICARAM”. 

Fez poemas para louvar a Força Expedicionária Brasileira. Pedro Álvares Cabral. Seu marido. Os filhos. Elvis Presley. Oswaldo Cruz. Uma cigana. Viu um negro pobre na rua e escreveu um soneto belíssimo, denunciando a mácula da escravidão que pairava na sua ancestral desgraça. Viu a pequena mendiga de 09 anos, e seu coração de mãe e de poeta não resistiu e deu-lhe, mais que qualquer pobre moeda, um soneto régio, de belíssima construção. Identifiquei-me com a sua fé, a sua sensibilidade social, e seu amor pelos jovens e crianças. No natal, Guerra na Hungria:

Feliz Natal, pequenos da Hungria!
Nada será mais útil e dadivoso,
que este voto de paz e de harmonia
neste momento grave e angustioso.

Diante desta torpe tirania,
ouvindo o metralhar calamitoso,
já não podem sorrir com alegria
neste dia feliz e venturoso.

Deveriam vocês estar cantando,
mas estão em silêncio, contemplando
os espectros da guerra, em bacanal!

Paz a vocês, crianças da Hungria!
Possa Jesus lhes dar um novo dia
e uma tranqüila noite de Natal!

Em diversos modos ela refere a um tempo a bravura de mulher que exercitou em vida e a delicadeza do sentimento implícito no gênero:

Sou austera e destemida 
quando o momento requer; 
mas nos teus braços, vencida, 
sou simplesmente mulher! 

Provando que a consciência do feminino não precisa ser irascível, ela, tão mulher, dá-se ao luxo de brincar ferinamente:

Há três coisas que a mulher 
consegue fazer de um nada: 
uma intriguinha qualquer, 
um chapéu e uma salada!…

CAROLINA é também poeta do sentimento. E explora, do coração ao papel, suas esperanças, saudades e sonhos, como se vê deste pequeno conjunto de trovas:

Quanto esta vida seria 
difícil de suportar,  
se não fosse esta mania 
que a gente tem de sonhar!

Achei minhas esperanças 
em pedaços divididas. 
Juntei-os e enchi meus sonhos 
de mentiras coloridas.

Carolina, que nasceu pernambucana, viveu petropolitana, faleceu paranaense. Aos 68 anos, em 31 de agosto de 1977, foi sepultada em Curitiba. Mas sua poesia vive e viverá sempre, cobrindo como um manto doce a geografia da sua trajetória, trovando desde o litoral nordestino, sonetando pelas serras fluminenses, poetando até ao sul do Brasil. 

(excerto do artigo escrito por Denilson Cardoso de Araujo, da Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni)

Um Soneto de São Paulo/SP

P. de Petrus (1920-1999)
Jangadeiro

A aurora, calma e silente, 
 áurea luz, no céu, espraia: 
 vitória do sol nascente, 
 sobre a noite que desmaia. 

Vai, jangadeiro valente, 
 no mar, distante na praia, 
 e vence a enorme torrente 
 sobre espumas de cambraia!

De olhos postos no infinito, 
 esquece as penas da lida, 
 que o teu lavor é bendito.

Canta e reza à tua sorte:
 cantando – enfrentas a vida;
 rezando – enfrentas a morte.

Um Haikai de Montes Claros/MG

Folhas coloridas,
 voam ao sabor do vento:
 outono chegou 
Raquel Crusoé Loures de Macedo Meira

Uma Trova de Camboríu/SC

Um segredo bem guardado
 para assim permanecer
não deve ser partilhado
para nunca se perder. 
Eliana Ruiz Jimenez

Vinicius de Moraes, Com Amor

A brusca poesia da mulher amada

 Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente… 
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte! 
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo 
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido 
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito? 
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente? 

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios 
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados… 

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias 
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Cantinho do Ialmar Pio Schneider

SONETO A EMILIO DE MENEZES 
– In Memoriam – 
Falecimento do poeta em 6 de junho de 1918

Só li alguns sonetos do poeta 
de Curitiba, que se radicou 
no Rio de Janeiro, cuja meta 
seria a boêmia que frequentou. 

“Noite de Insônia”, tanto o castigou, 
sem ter no leito a musa predileta, 
que no soneto muito lamentou, 
por ela ser sua mulher dileta. 

“A Romã” foi a fruta que escolheu 
para exaltar nos versos de nobreza, 
como se fosse uma rainha altiva… 

No “Salto do Guaíra” enalteceu 
a exuberante e linda natureza, 
qual se pintasse uma paisagem viva !

Uma Fábula em Versos 

A Rã e o Boi
Jean La Fontaine (França) 

Num prado uma rã
Um boi contemplou,
E ser maior que ele
Vaidosa intentou.

A pela enrugada
Inchando alargou,
E às leves irmãs
Assim perguntou:

– Maior que o Boi
Ó Manas, já sou?
– Não és, lhe disseram
E a rã lhes tornou,

– E agora, inda não?
E mais ainda inchou;
Eis logo de todas
Um não escutou.

Inchar-se invejosa
De novo buscou,
Mas dando um estouro
A vida acabou.

Também, se em grandeza
Vencer procurou
O pobre ao potente,
Por força estourou.

Uma Trova de Natal/RN

Na gaveta do meu peito
 tranquei a dor da saudade,
 para ela saber direito
 o que é sofrer de verdade! 
Ademar Macedo

Uma Poesia de Santo Amaro Sousel/Portugal

Fátima Maldonado
Um Fado

Quem viu barcos
ir ao fundo
tem nos olhos a certeza
aposta firme na boca
rude descrença na reza

Quem viu barcos trazer escravos
munições e artifícios
figueira brava na costa
açoite preso no riso

Quem viu barcos
magoá-lo,
ferros, lavas e palmeiras
descrê santos e novenas,
nega laços, destrói cercos,
toma ventos por lareiras.

Uma Trova de São Fidélis/RJ

No silêncio de minh’alma,
 recolhido no meu canto,
 busco a fé que traz a calma
 no soluço do meu pranto.
Antonio Manoel Abreu Sardenberg

Um Soneto

Carolina Ramos (Santos/SP)
Sonhos…nada mais…

Foram sonhos… só sonhos e mais nada
tudo o quanto semeei de alma liberta!
Se frutos não colhi… abri a estrada
e alguém há de alcançar a minha oferta.

Na vida – intensa e rude caminhada –
quem não erra, também, nem sempre, acerta.
Sonhei demais? – Não sei! Finda a jornada,
consola-me esta doce descoberta:

Os sonhos, que apesar da vida curta,
alentaram meus dias mais tristonhos,
são tesouros só meus, que ninguém furta!

Envolvidos no afã de minha lida,
tinham tão farta luz meus ternos sonhos
que douraram de sol a minha vida!

Cantinho do Izo Goldman 

Trova Humorística – parte 2

B) CRÍTICA, SÁTIRA, IRREVERÊNCIA

Durante a Revolta da Armada, Artur Azevedo que era “florianista”, exaltado publicou esta quadra com uma comparação entre os nomes do Marechal Floriano Peixoto e do Almirante Custódio José de Melo:

Tem uma flor no princípio
o nome do Marechal,
mas o nome do Almirante
principia muito mal…

(Fonte: Curso de Trovas 1994 realizado por Izo Goldman no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (SP)

Uma Trova de São Paulo/SP

Meu destino é uma contenda,
 é um eterno desafio:
 – vem o Sonho, faz a renda,
 – vem a Vida, puxa o fio… 
Izo Goldman

Uma Poesia da Costa Rica 

Alfaro Cooper [1861-1939](São José) 
A Avó

Aqui jaz a sombra:
adiante a dúvida,
lá o mistério,
mais além os telhados, as montanhas.

E lá, bem mais longe
de onde o tempo imagina,
as montanhas e o espelho
de outros nomes e outras sombras.

Poesia de Cordel 

Josenir A. de Lacerda (Crato/CE)
O Linguajar Cearense

Todo poeta de fato
É grande observador
Seja da rua ou do mato
Seja leigo ou professor
Faz verdadeira pesquisa
Vasto estudo realiza
Buscando essência e teor

Por esse nato talento
Na hora de versejar
Busca o tema e o momento
Visa o leitor agradar
Não sente conformação
Se não passa a emoção
Que dentro do peito está

Neste cordel-dicionário
Eu pretendo registrar
O rico vocabulário
Da criação popular
No Ceará garimpei
Juntei tudo, compilei
Ao leitor quero ofertar

Se alguém é desligado
É chamado de bocó
Broco, lerdo e abestado
Azuado ou brocoió
Arigó e Zé Mané
Sonso, atruado, bilé
Pomba lesa e zuruó

Artigo novo é zerado
Armadilha é arapuca
O doido é abirobado
Invencionice é infuca
O matuto é mucureba
Qualquer ferida é pereba
Mosquito grande é mutuca

Quem muito agarra, abufela
Briga pequena é arenga
Enganação, esparrela
Toda prostituta é quenga
Rapapé é confusão
De repente é supetão
Insistência é lenga-lenga

Qualquer tramóia é motim
Solteira idosa é titia
Mosquitinho é mucuim
Recipiente é vasia
Meia garrafa é meiota
O exibido é fiota
Travessura é istripulia

Bebeu muito é deodato
Brisa leve é cruviana
O sujeito otário é pato
Cigarro curto é bagana
Fugir é capar o gato
O engraçado é gaiato
Quem vai preso tá em cana

Ter mesmo nome é xarapa
Muito junto é encangado
Água com açúcar é garapa
Cor vermelha é encarnado
Muita coisa dá mêimundo
Sendo Mundim é Raimundo
Valentão é arrochado

A rede velha é fianga
Com raiva é apurrinhado
Careta feia é munganga
Baitinga é o mesmo viado
O bom é só o pitéu
Bajulador, xeleléu
Sem jeito é malamanhado

Bater fofo é não cumprir
tecetera é escambau
Sujar muito é encardir
Quem acusa, cai de pau
Confusão é funaré
Carta coringa é melé
Atacar é só de mau

Qualquer botão é biloto
Mulher difícil é banqueira
Pequenino é pirritoto
Estilingue é baladeira
Qualquer coisa é birimbelo
Descorado é amarelo
Sem requinte é labrocheira

Um perigo é boca quente
Porco novo é bacurim
Atrevido é saliente
Quem não presta é corja ruim
Dedo duro é cabuêta
A perna torta é zambêta
Coisinha pouca é tiquim

Parteira era cachimbeira
Dar mergulho é tibungar
Tem cucuruto, moleira
Olhar demais é cubar
Tem ainda ternontonte
Que vem antes do antonte
Ver de soslaio é brechar

Quem briga bota boneco
Sem valor é fulerage
Copo pequeno é caneco
Estrada boa é rodage
O tristonho é capiongo
Galo ou inchaço é mondrongo
E a ralé é catrevage

O velho ovo estrelado
É o bife do oião
Nervoso é atubibado
Repreender é carão
O zarôlho é caraôi
Enviezado, zanôi
Inquieto é frivião

A perna fina é cambito
Dar o fora é azular
Muito magrelo é sibito
Pisar manco é caxingar
Rede pequena é tipóia
Tudo bem é tudo jóia
Fazer troça é caçoar

A expressão ‘dá relato’
Que atinge mais de légua
‘Tá ca peste!’ ‘Só no Crato!
‘Tá lascado!’ e ‘Aarre égua!’
‘Corra dentro!’ ‘ Qué cirmá? ‘
‘É de rosca? ‘Éé de lascar! ‘
‘Vôte!’ ‘Ôxente! ‘Isso é paid’égua!’

Se é muito longe, arrenego
Que Deus do céu nos acuda
É pra lá da caixa prego
Lá no calcanhar do juda
Nas bimboca ou cafundó
Nas brenha ou caixa bozó
Onde o vento a rota muda

Se é cheia de babilaque
É ispilicute ou dondoca
Ligeiro é ‘que nem um traque’
Agachado é tá de coca
Sem rumo é desembestado
O faminto é esguerado
Bolha na pele é papoca

Chamuscado é sapecado
Nuca, cangote é cachaço
Meio tonto é calibrado
A coluna é espinhaço
Se está adoentado
Tá como diz o ditado:
‘da pucumã pro bagaço’

Cearense tem mania
Chama todo mundo Zé
Zé da onça, Zé de tia
Zé ôin ou Zé Mané
Zé tatá ou Zé de Dida
Achando pouco apelida
Um bocado de Zezé

Fazer goga é gaiofar
O que é longo é cumprissaio
Provocar é impinjar
Toda pilôra é desmaio
Salto ligeiro é pinote
Bando, turma é um magote
Cesto sem alça é balaio

A comidinha caseira
Tem fama no Ceará
Tipicamente brasileira
Faz o caboco babar
No bar do Mané bofão
Pau do guarda, panelão
O cardápio vou citar:

Sarrabulho, panelada
Mucunzá e chambari
Tripa de porco, buchada
Baião de dois com piqui
Tem pão de milho e pirão
Carne de sol com feijão
Tijolo de buriti

Quem é ruivo é fogoió
O tristonho é distrenado
Tornozelo é mocotó
Cheio de grana, estribado
Jarra de barro é quartinha
O banheiro é a casinha
Sem saída, ‘tá pebado’

A bebida e o seu rol
No Ceará todo habita
A fubuia e o merol
A truaca e a birita
Amansa sogra ou quentinha
Engasga gato, caninha
A meropéia e a mardita

O picolé no saquinho
Aqui se chama dindin
Se é o dedo menorzinho
É chamado de mindin
Riso sonoro é gaitada
Confusão é presepada
Atrevido é saidin

Papo longo e sem valor
É ‘miolo de pote’
Muito esperto é vívido
Adolescente é frangote
Soldado raso é samango
A lagartixa é calango
O tabefe é cocorote

A lista é quase sem fim
Não cabe num só cordel
Tem alpercata, alfinim
Enrabichada e berel
Chué, baé, avexado
Bãe de cúia, ôi bribado
Quebra-queixo e carritel

Tem visage, sarará
Tem bruguelo e inxirido
Rabiçaca e aluá
Ispritado e zói cumprido
Bunda canastra, lundu
Dona encrenca, sabacu
Bonequeiro e maluvido

O cearense é assim:
Dá cotoco à nostalgia
A tristeza leva fim
Na cacunda dá euforia
dá de arrudei na carência
Enrola a sobrevivência
e embirra na alegria

Uma Trova de Pinhalão/PR

Bem sei que não é primor
 da mais alta criação,
 mas minha trova, Senhor,
 é alma do coração. 
Lairton Trovão de Andrade

 Modinha 

Eu Sinto no Peito
Autor Anônimo

Eu sinto no peito uma dúbia tristeza… 
 E a mente não pode mistérios sondar!… 
 Às vezes sorrio – me voltam suspiros
 E a dúbia tristeza me vem perturbar…

 Me vem à memória uma viva lembrança,
 Que aumenta essas mágoas que o tempo me traz.
 De tudo me lembro – com muita saudade,
 Dos tempos passados, que não voltam mais…

 Passaram-se os tempos da quadra florente;
 Murcharam-se as flores, aos raios do sol.
 O céu – que era lindo – tornou-se agitado,
 E as ondas soluçam batidas do vento!…

 É pátria minh’alma de viva lembrança.
 Que aviva essas mágoas que o tempo me traz.
 De tudo me lembro com muita saudade:
 Dos tempos passados que não voltam mais!…

Extraída da série de modinhas anônimas publicadas em Modinhas do passado; investigações folclóricas e artísticas (Rio de Janeiro, 1956). 

Uma Trova do Município de Pedra/PE

Como eu quisera apanhar
 a rubra flor dos teus beijos,
 para poder dominar
 o tigre dos meus desejos… 
Ulisses Diniz

Um Soneto de Roça Olímpia/São Tomé e Príncipe/África

Maria Manuela Conceição Carvalho Margarido (1925-2007)
Roça

A noite sangra
no mato,
ferida por uma aguda lança
de cólera.
A madrugada sangra
de outro modo:
é o sino da alvorada
que desperta o terreiro.
E o feito que começa
a destinar as tarefas
para mais um dia de trabalho.

A manhã sangra ainda:
salsas a bananeira 
com um machim de prata;

capinas o mato 
com um machim de raiva;
abres o coco
com um machim de esperança;
cortas o cacho de andim 
com um machim de certeza.
E à tarde regressas 
a senzala;
a noite esculpe 
os seus lábios frios 
na tua pele
E sonhas na distância 
uma vida mais livre, 
que o teu gesto 
há-de realizar.
––––––
Nota:
Andim = dendê

Cantigas Infantis 

Bom Dia, meus sinhorinhos (RN)

É uma fileira de meninas, com uma defronte. Canta esta sozinha:

 Bom dia meus sinhorinhos }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 As meninas respondem:

 O que é que vós quereis }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 A menina:

 Quero uma das vossas filhas }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 Todas:

 Escolhei a qual quereis }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 A menina:

 Quero a menina Fulana }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 A escolhida passa para a ponta da fila e as outras cantam:

 Que ofício dás a ela }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 A menina sozinha:

 Dou o ofício de ser pianista }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 Se as meninas se agradam do ofício. cantam:

 Este oficio já me agrada }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 Se não se agradam, cantam assim:

 Este ofício não me agrada }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

 Para terminar, fazem a roda e todas cantam, pulando:

 Fazemos a festa juntas }
 Mande ô tire ô tire ô lá } bis

Extraída de uma série de cantigas infantis, registradas por Veríssimo de Melo em Rondas infantis brasileiras (São Paulo, Departamento de Cultura, 1953). 

Uma Quadra Popular

A roseira quando nasce
 Toma conta do jardim
 Eu também ando buscando
 Quem tome conta de mim

Fonte:
seleção por José Feldman

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