Arquivo do mês: fevereiro 2010

Belmiro Braga (100 Trovas)

1
As almas de muita gente
são como o rio profundo:
– a face tão transparente,
e quanto Iodo no fundol …
2
Em ti, minha Mãe, se encerra
todo o meu maior troféu:
– guardas num corpo de terra
uma alma feita de céu.
3
Fiz na vida o meu escudo
desta verdade sagrada –
o nada com Deus é tudo
e tudo sem Deus é nada.
4
Quem, mesmo nas alegrias,
de lastimar não se furta
de ver tão longos os dias,
para uma vida tão curta?
5
Pobre de mim! Por desgraça
meu coração é um coador:
nele, o riso escorre e passa,
e fica tudo o que é dor.
6
A beleza não te atrai?
Só te casas por dinheiro?
Tu pensas como teu pai,
que morreu velho e … solteiro.
7
Saudade… palavra linda,
de sete letras… Saudade
é noite que tem ainda
lampejos de claridade.
8
Casa em março Ester Macedo
e em julho é mãe… Ora, o alarde!
O filho não veio cedo,
o esposo é que veio tarde…
9
Só mesmo Nossa Senhora
pode dar paz e conforto
à desgraçada que chora
a ausência de um filho morto.
10
Muitas vezes imagino,
nos meus dias desolados,
que o meu coração é um sino
dobrando sempre a finados.
11
Eu não lamento o revés
do morto que se fez pó;
do vivo, que espera a vez,
desse sim, eu tenho dó.
12
Quantos mortos trago vivos
no fundo do coração,
e dentro em mim quantos vivos
há muito mortos estão! …
13
Olhaste Jesus na Igreja
demais. E tanto o tens visto …
Fazes-me assim ter inveja
da própria imagem de Çristo.
14
Não devo guardar ressábios
da nossa extinta afeição:
morto me trazes nos lábios
e, vivo, no coração,
15
Eu morro por Filomena,
Filomena por Joaquim,
o Joaquim por Madalena
e Madalena por mim.
16
A vida, pelo que vejo,
hoje é vale e amanhã cimo:
– A quantos pobres invejo
e a quantos ricos lastimo!
17
Vivo, encheu (a História o prova)
com suas glórias o mundo,
e, morto, não enche a cova
de quatro palmos de fundo.
18
Teu coração é morada
que não atrai, felizmente:
– Quem nele arranja pousada
encontra a cama ainda quente.
19
Meu coração é uma ermida
toda enfeitada de flores,
onde conservo escondida,
Nossa Senhora das, Dores.
20
Uma princesa parece
pelos trajos do alto preço,
mas quanta gente conhece
seus vestidos pelo avesso! …
21
Os beijos, segundo os sábios,
dados com muita afeição,
não deixam sinal nos lábios,
mas deixam no coração.
22
Num tronco seco, sem vida,
minha mão teu nome abriu
e o tronco seco, em seguida,
reverdeceu e floriu.
23
Desilusões, desenganos,
tudo a velhice nos traz,
mas existe, além dos anos,
a eterna bênção da paz
24
Politiqueiros… Que súcia !
Segundo as leis de Lavater,
o que lhes sobra em astúcia,
é o que lhes falta em caráter.
25
Dizem que a lágrima nasce
do fundo do coração…
Ah! se a lágrima falasse,
que doce consolação!
26
Vi teus braços… que ventura!
teu colo … as pernas, que gosto!
Agora, tira a pintura,
que eu quero ver o teu rosto.
27
Quis a sorte que eu te visse,
quis o amor, que eu te adorasse,
quis o dever que eu partisse,
quis a paixão que eu ficasse.
28
Mulheres que eu vi no banho,
vejo-as depois num salão!
– Se pelo rosto as estranho,
pelas pernas sei quem são.
29
Por ver-me alegre e contente,
julga-me o mundo feliz:
nem sempre o coração sente
aquilo que a boca diz.
30
Na justiça tem confiança
e verás, depois, surpreso
que, por ter venda e balança,
ela te rouba no peso.
31
Muitos supõem a ventura
ver em meus olhos brilhar,
quando esse brilho é a tortura
de não poderem chorar.
32
A mulher para ser Venus
deve ter cintura fina,
olhos grandes, pés pequenos
e língua bem pequenina.
33
Que grande, triste verdade
me sussurra o coração:
– a dor é uma realidade,
a alegria – uma ilusão…
34
Quanta vez junto a um jazigo
alguém murmura, de leve:
– Adeus para sempre, amigo!
E diz-lhe o morto: – Até breve!
35
Natal! E eu sinto em minha alma
cantando uma ave… Natal!
No dia azul – quanta calmal
Parece a noite um rosal!
36
O que perdemos na vida,
procuramos sem achar,
exceto a mulher perdida,
que achamos sem procurar…
37
Tu não vês que vivo louco
por causa desta afeição?
Coração, sossega um pouco,
coração sem coração!
38
Muito mais desenxabido
que a goiabada sem queijo,
é te abraçar, bem querido,
e não poder dar-te um beijo.
39
(Mãe)
Acima de tudo, acima
do céu, te devemos pôr:
o teu nome não tem rima,
nem limite o teu amor.
40
Coração, bate de leve;
deixa os teus sonhos horríveis,
que um coração nunca deve
sonhar coisas impossíveis.
41
Como juiz, reto e calmo
posso afirmar sem receio:
– Mulher de boca de palmo
tem língua de palmo e meio.
42
Amigos … E quanta gente
não crê na verdade atroz
que, no mundo, há um somente:
Aquêle que existe em nós.
43
Natal. No céu e na terra
quanta alegria! Natal!
A paz adoçando a guerra,
o bem adoçando o mal.
44
Teus olhos, Risália amada,
me recordam dois ladrões,
sob a pálpebra rosada
tocaiando corações…
45
Olhos pretos, dois acesos
e recendentes carvões:
– Par de algemas que traz presos
corações e corações.
46
Prezado amigo, perdoa
a resposta demorada:
tu sabes, quem vive à toa,
não tem tempo para nada.
47
Não conhecem mesmo os sábios
este caso singular:
– Fala a mente pelos lábios
e o coração pelo olhar.
48
A mulher, além de tema,
faz tudo com perfeição,
que até nos passando a perna,
tem a nossa gratidão…
49
No anel que me deste, pego
e vejo que é falso, crê.
– Se o amor verdadeiro é cego,
também falso é o amor que vê
50
Nossa Senhora Sant’Ana,
permita que possa um dia
mobiliar minha choupana
com as “cadeiras de Maria!”
51
Na vida, maior ventura
nada nos pode causar
do que a tépida ternura
que nos vem de um doce olhar.
52
De Júlia o pesar profundo
parece uma coisa pouca;
– vive na boca do mundo
por ser beijada na boca.
53
Aquele que dá esmola
tem duas vezes a palma:
– Primeiro, ao pobre consola,
depois, consola a sua alma.
54
Deus do amor, Deus da esperança,
conduze por flóreo trilho
os passos dessa criança
– lindo filho do meu filho!
55
Há dois poderes no mundo
que tudo movem. Primeiro:
– Mulher bonita. Segundo:
dinheiro, muito dinheiro.
56
Sobre o triste chão de abrolhos
em que tu vieste ficar,
meus tristes, cansados olhos,
não se cansam de chorar.
57
Dos beijos me lembro, Glória,
mas não do sabor, meu bem.
Por que a fronte tem memória
e a minha boca não tem?
58
Na terra que te consome,
nem uma triste inscrição!
Pudera! Porque teu nome
não me sai do coração.
59
Ouvindo-a falar da vida
dos próprios pais, tive pena
de ver língua tão comprida
numa boca tão pequena.
60
Onde um berço se embalança
há riso, ventura e luz:
– Sobre os berços, doce e mansa,
paira a sombra de Jesus.
61
Do berço à tumba há um caminho
que todos têm de transpor:
de passo a passo – um espinho,
de légua em légua -uma flor.
62
Chegaste, afinal! Chegaste
no instante mais que preciso;
vens trazer a quem mataste
as rosas de um teu sorriso…
63
Noite de núpcias. O Gama
encontra a esposa envolvida
num lindo roupão e exclama:
– Posso, enfim, ver-te vestida!
64
A mãe, que aperta no seio
um filho de seu amor,
tudo enfrenta sem receio:
a calúnia, a injúria e a dor.
65
Minha vida é uma jangada
num mar revolto de escolhos,
baloiçando sossegada
à doce luz dos teus olhos.
66
Tenho um neto e essa ventura
veio florir os meus dias,
que um neto é um sol que fulgura
num céu de nuvens sombrias.
67
Arvore és santa: os teus ramos
baloiçam ninhos de amor;
és abrigo, e em ti achamos
sombra, fruto, aroma e flor.
68
Entre o berço e a sepultura
um relâmpago fugaz,
mas que séculos perdura
pelo que nele se faz!
69
A mãe que a um filho acalenta
– tal o seu amor profundo –
tem a impressão que sustenta
em seus braços todo um mundo.
70
Quem maldiz a vida, prova
não conhecer que ela é vã:
– no espaço do berço à cova
há ontem, hoje, amanhã.
71
Coração de coração
quando quer bem, faz assim:
– põe nas arestas de um não
toda a pelúcia de um sim. . .
72
A caridade… Consola
ao vermos que ela é perfeita,
não por ser grande a esmola,
mas no modo por que é feita.
73
Quem ama, há de conhecer
a triste escala do amor:
– Desejo, ilusão, prazer,
cansaço, fastio e dor.
74
O noivo, da noiva outrora
via o rosto e nada mais;
se o rosto não vê agora,
todo o resto vê demais…
75
Que em vossos risos mais brilho
nas alvoradas não vemos;
nos olhos ternos de um filho
é que nós, Pais, nos revemos.
76
Assim como brotam flores
do triste, empedrado chão,
em rima brotam-me as dores
que trago no coração.
77
Da tua voz a frescura
feita de encanto e de olor,
lembra um veio de água pura
sob roseiras em flor.
78
Para ser feliz, um louco
costuma me aconselhar:
– deverás desejar pouco
e quase nada esperar. . .
79
Para um pai o bem se encerra
num berço – como um troféu,
as alegrias da Terra
e as esperanças do Céu.
80
Vi-a apenas uma vez;
uma só; não mais a vi,
e tal impressão me fez,
que nunca mais a esqueci.
81
Há no livro uma luz calma
que torna o mundo maior:
– quem vê pelos olhos da alma,
vê mais longe e vê melhor.
82
Na minha infância, dezembro,
aos outros meses igual
passava triste… e eu me lembro
de que não tive Natal…
83
– Toda amizade – é fingida,
todo mal – recompensado,
toda injustiça – aplaudida
e todo amor – enganado…
84
(A Maria Teresinha)
Nestes dois nomes se encerra
um rutilante troféu:
– Se Maria é a flor da terra,
Teresinha é a flor do céu.
85
Nosso amor, que ardia em brasa,
foi morrendo de mansinho,
e entre a minha e a tua casa
mal se descobre o caminho …
86
Filha – o sorriso que encanta,
noiva – é a flor que perfuma,
A esposa – a graça de pluma,
e mãe – a graça da santa.
87
Maio, outrora tão ridente,
como vive triste agora!
Que saudades tem a gente
daqueles maios de outrora!
88
Quantas vezes tenho ouvido:
– Como ele ri de prazer!
Quando esse riso é um gemido
que aos lábios me vem morrer…
89
Fogem-te da alma os pesares,
a treva aos teus olhos brilha,
toda vez que tu beijares
esse amor, que e a tua filha.
90
Teus olhos, lagos risonhos,
de escuras margens em flor,
ah! se eu pudesse os transpor
no bergantim dos meus sonhos! …
91
Correm-te os dias serenos
e um ano vem e te traz:
uma esperança de menos,
um desengano de mais.
92
Quando a mulher quer, eu acho
que nem Deus a desanima:
– É água de morro abaixo,
ou fogo de morro acima.
93
Um bacharel, meu vizinho,
quer saber por que razão
eu faço um verso “assinzinho”
e o denomino… versão…
94
Risália, naquelas flores
que te dei à despedida,
entre lágrimas e dores,
eu pus toda a minha vida.
95
O maior dos meus desejos
é ver-te, vendo com gosto
eu entupir com meus beijos
as covinhas do teu rosto…
96
Só duas cores havia
de rosas que aqui registo:
a cor dos pés de Maria
e a cor das chagas de Cristo.
97
Se eu fosse uma flor, querida,
queria, cheia de anelos,
morrer ditosa e esquecida
na noite dos teus cabelos …
98
Se eu fosse uma fonte, nada
me privaria do gesto
de ver-te em mim reclinada,
para em mim veres teu rosto …
99
Raio de sol ser desejo
para um dia (oh! que ventura!)
depor-vos na fronte um beijo
e vos ver ainda mais pura…
100
Arvore seca, nem flores
nem sombra e frutos dou mais:
mataram-me a seiva as dores
continuas dos vendavais.
___________________

Fonte:
JORGE, J. G. de Araujo e OTÁVIO, Luiz (organizadores). 100 Trovas de Belmiro Braga. RJ: Editora Vecchi, 1959.Coleção Trovadores Brasileiros. volume 1.

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Heloisa Buarque de Holanda (26 Poetas Hoje Digital)

Frente ao bloqueio sistemático das editoras, um circuito paralelo de produção e distribuição independente vai se formando e conquistando um público jovem que não se confunde com o antigo leitor de poesia.”

O parágrafo acima poderia se referir ao novo paradigma surgido com a era digital, ou às dezenas de saraus de poesia que surgem hoje na perifeira de São Paulo, mas não. Consta no prefácio escrito por Heloisa Buarque de Hollanda para o livro 26 poetas hoje (Aeroplano, 2007, 6° ed.), em 1975. Naquela época, enquanto no mundo girava a roda de aquários e a geração hippie, inspirada na sua predecessora beat, vivia sua onda, no Brasil corria solta a censura e a repressão militar. Foi o período do chamado vazio cultural, diagnosticado pelo jornalista Zuenir Ventura e decorrente do silenciamento forçado das vozes criativas.

À margem das atenções, pelo seu poder de audiência reduzido, a poesia tornou-se uma área de livre manifestação, abarcando frustrações, fosse da juventude, fosse da esquerda. Proliferavam os volumes de produção independente, vendidos diretamente pelo autor, impressos em mimeógrafos, confeccionados com originalidade e esgotados rapidamente. A poesia, pelo menos no Rio de Janeiro, acontecia e parecia estar em toda parte: em recitais, lançamentos, portas de teatro e bares da moda.

O livro organizado por Heloisa tinha por intenção “reunir num livro ‘de editor’, e, portanto num livro que se insinuasse num circuito mais amplo, manifestações isoladas ou praticamente isoladas, que eu percebia como importantes no campo da cultura e no campo da literatura”, disse a crítica literária à revista José no ano seguinte da publicação do livro. Os poetas escolhidos, de diferentes gerações e motivações, portanto desorganizados como grupo, eram todos praticantes de uma mesma dicção ligada ao cotidiano e donos de uma atitude de desierarquização do espaço nobre da poesia. Uma revisitação mais forte do ideal modernista de 1922. 26 poetas hoje (Aeroplano) foi além do pretendido e virou espécie de retrato oficial do que é considerado o último grande rótulo da poesia brasileira: a poesia marginal.

Logo de cara, o livro obteve enorme repercussão nos jornais e atiçou como nunca o meio acadêmico, impulsionando a carreira de crítica literária da já estabelecida professora universitária Heloisa Buarque. Essa história está contada em Escolhas: uma autobiografia intelectual (Lingua Geral): “Para meu espanto, a antologia teve uma repercussão inexplicável. Sou convidada para conferências, seminários, entrevistas. O pequeno volume da Editora Labor foi resenhado e escrutinado em um sem número de jornais e revistas. Os jornalistas se entusiasmavam com uma ‘novidade’ para os espaços melancolicamente vazios de seus cadernos e suplementos culturais. Os professores e criticos dividiam-se frente à uma possivel ‘agressão’ à instituição literária”, escreveu Heloisa no seu mais recente livro.

Hoje, 26 poetas hoje (Aeroplano) transformou-se em uma antologia clássica. Os poetas nela presentes, por ironia, se tornaram cânone e temas de teses de mestrado e doutorado, quando antes eram sequer considerados literatura. Alguns já estão mortos, como Torquatto Neto, Ana Critina César e Waly Salomão; outros ainda vivem a poesia, como Roberto Piva e Chico Alves; um, Roberto Schwartz, um dos maiores críticos literários em atividade; outros, como Chacal, Capinam e Geraldo Carneiro, roteiristas e compositores.

Fonte:
http://portalliteral.terra.com.br/blogs/26-poetas-hoje-digital

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Concurso de Haicai Nenpuku Sato 2010

O Jornal Memai lança o Concurso Nacional de Haicai Nenpuku Sato 2010. Nos 102 anos da Imigração Japonesa ao Brasil o jornal resgata o concurso realizado no Centenário da Imigração Japonesa.

Nempuku Sato (1898-1979) foi um imigrante japonês que ajudou a disseminar o haicai em terras brasileiras. De sua linhagem, segue o poeta Masuda Goga, que influenciou a paranaense Helena Kolody, além de nomes como Alice Ruiz e Paulo Leminski, divulgadores brasileiros do haicai.

Na edição 2010 haverá 4 concursos, com premiação em fevereiro, maio, agosto e novembro. Os melhores poemas serão publicados na página de haicai do jornal. Não haverá premiação em dinheiro. Os vencedores receberão livros de literatura japonesa e nipo-brasileira enviados ao JORNAL MEMAI para efeitos de divulgação.

Os poemas inscritos devem ser inéditos, escritos em língua portuguesa e seguir as regras do haicai japonês, como descritos no Site Caqui (www.kakinet.com) e difundidos pelos grêmios de haicai em todo o Brasil: ter um kigo, seguir a métrica, não ter título, rima nem subjetividade.

QUEM PODE PARTICIPAR:

Maiores de 16 anos (inclusive), sem distinção de raça, credo, classe social, participantes ou não de grêmios e/ou Encontros de Haicai.

COMO ENVIAR

1. Enviar os trabalhos em duas vias, em uma única remessa/envelope;

2. Reservar um espaço no rodapé da primeira via, onde deve constar nome do(a) participante, RG, profissão, endereço completo com CEP, telefone/fax, e-mail.

3. A segunda via deverá vir sem nenhuma identificação, no mesmo envelope.

PRAZO PARA O ENVIO:

1. Para o concurso de fevereiro: 30.01.2010

2. Para o concurso de maio: 01.05.2010

3. Demais datas serão divulgadas no jornal e no site www.jornalmemai.com.br

PARA ONDE ENVIAR:

Os trabalhos (até 3 poemas) devem ser enviados para:

JORNAL MEMAI/Concurso Nenpuku SatoRua Jaime Reis, 28 – São Francisco
80.510-010 – Curitiba – PR
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O QUE É HAICAI

Haicai é um poema de origem japonesa, que chegou ao Brasil no início do século 20 e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão, e na maioria dos países do mundo, é conhecido como haiku.

Segundo Harold G. Henderson, em Haiku in English, o haicai clássico japonês obedece a quatro regras:

Consiste em 17 sílabas japonesas, divididas em três versos de 5, 7 e 5 sílabas
Contém alguma referência à natureza (diferente da natureza humana)
Refere-se a um evento particular (ou seja, não é uma generalização)
Apresenta tal evento como “acontecendo agora”, e não no passado.

No transplante do haicai para outros países, algumas das regras anteriores são seguidas com maior ou menor fidelidade, enquanto outras podem ser mesmo ignoradas, dependendo de cada poeta ou da escola seguida. Nestas páginas, tentaremos definir o haicai escrito em português, especialmente a partir do ponto de vista do Grêmio Haicai Ipê, grupo que se reúne desde 1987 para estudar e praticar esta forma poética.

Fonte:
Revista Brasileira de Haicai

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Concurso Municipal de Poesias – “Leonilda Hilgenberg Justus” – Edição 2010

Edital

1- A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Ponta Grossa, com a finalidade de estimular a produção poética local, institui o edital que regulamenta o Concurso Municipal de Poesias para o ano de 2010, que nesta edição homenageia a poeta pontagrossense LEONILDA HILGENBERG JUSTUS, atendendo as políticas culturais do Município aprovadas nas Conferências Municipais de Cultura.

REGULAMENTO

2- Poderão participar pessoas residentes em Ponta Grossa, maiores de 18 anos.

3- O tema será livre e deverá ser produzido em língua portuguesa.

4- Cada pessoa interessada poderá inscrever até 3 (três) poemas inéditos (entende-se por inédito o poema nunca premiado em outros concursos, nem publicados em livros até a data do encerramento das inscrições deste concurso).

INSCRIÇÕES

5- As inscrições estarão abertas de 1º a 31 de março de 2010,enviadas exclusivamente via Correios.

6- Os interessados deverão encaminhar os poemas em envelope (tamanho folha A4) , com AR , sem identificação pessoal no verso (a identificação virá apenas no recibo AR) para o endereço:

CONCURSO MUNICIPAL DE POESIAS LEONILDA HILGENBERG JUSTUS – EDIÇÃO 2010, SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA E TURISMO, RUA JULIA WANDERLEY, 936, CENTRO, CEP 84010- 170, PONTA GROSSA, PR.

7- Os poemas inscritos deverão ser encaminhados obedecendo aos seguintes critérios: 04 (quatro) vias digitadas em apenas uma face de papel tamanho A4; ESPAÇAMENTO 1,5 entre as linhas; FONTE: Times New Roman ou Arial, TAMANHO: 12; MARGEM superior: 3 cm, inferior: 2 cm, esquerda: 3 cm e direita: 2 cm: constando apenas o título no início de cada lauda, com a numeração das mesmas, SEM PSEUDÔNIMO, não
ultrapassando 02 (duas) laudas.

8- Em envelope menor, lacrado, anexar as seguintes informações:

a. nominação do concurso na parte externa
b. poema(s) inscrito(s)
c. nome e endereço completos
d. telefones para contato
e. fotocópia de comprovante de residência em nome do inscrito
f. fotocópia da cédula de identidade e CPF
g. breve biografia pessoal de até 10 linhas

JULGAMENTO

10 – Os poemas serão julgados por uma comissão de alto nível literário, indicada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, cuja decisão será soberana, à qual não cabem recursos sobre o resultado do concurso.

11 – Os vencedores serão conhecidos em maio de 2010.

PREMIAÇÃO

12 – A premiação será realizada no exercício de 2010, em data a ser definida.

13 – Serão conferidos os seguintes prêmios:

1º lugar ——————–R$ 1.000,00
2º lugar———————R$ 800,00
3º lugar———————R$ 600,00
4º lugar———————R$ 400,00
5º lugar———————R$ 300,00

14 – Poderão ser conferidas Menções Honrosas, por iniciativa da comissão julgadora.

15 – Os poemas premiados e as menções honrosas , serão publicados em antologia, numa edição especial deste concurso, com 1.000 (mil) exemplares, editada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, no 2º semestre de 2010, cabendo aos participantes as seguintes cotas, a título de direitos autorais desta edição:
-30 (trinta) unidades para os cinco primeiros colocados
– 15 (quinze) unidades para as menções honrosas

16 – O restante dos 1.000 (mil) exemplares, será distribuído gratuitamente em bibliotecas, escolas, instituições e críticos literários.

DISPOSIÇÕES FINAIS

17 – As inscrições fora das normas do concurso não serão aceitas.

18 – Não poderão participar do concurso funcionários da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e integrantes dos Conselhos Municipais de Cultura, Patrimônio Cultural e Turismo.

19 – O(s) poema(s) e os demais documentos entregues na inscrição não serão devolvidos após o concurso.

20- – É de responsabilidade exclusiva do concorrente a observância e regularização de
toda e qualquer questão relativa a direitos autorais sobre a obra inscrita.

21 – Este edital atende ao disposto na Lei Federal nº 9.610 de 12/02/1998 sobre os direitos autorais.

22 – Os autores das obras selecionadas automaticamente autorizam a publicação das mesmas na edição da antologia do concurso.

23- Os premiados concordam e permitem a divulgação de seu nome e imagem para a divulgação do concurso, sem qualquer ônus para os realizadores.

24 – Os participantes declaram estar cientes e de acordo com este regulamento.

25 – Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.

Elizabeth Silveira Schmidt
Secretária Municipal de Cultura

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Aparecido Raimundo de Souza (O Encantador de sonhos)

“Quid scribit, bis legit”

“De médico e de louco todos temos um pouco. E de escritor também”- disse Harold Robbins em 1998 numa de suas entrevistas em Nova Iorque. Naquela época, isso já provava que um número cada vez maior de aspirantes sonhava com o fantástico mundo literário. De fato. Ainda hoje, quase dez anos depois, não são poucas as pessoas que buscam uma porta de editora aberta, de acesso fácil à publicação de sua obra, de um editor que acredite no talento do autor principiante e ofereça, a ele, a oportunidade tão almejada de ver seus trabalhos publicados e, claro, a disposição do respeitável público nas prateleiras das livrarias mais concorridas do país.

Nesta terra onde tanto se fala e se apregoa em propagar o livro e a boa leitura àqueles mais carentes, sabemos que, no fundo, por detrás das coxias, tudo não passa de pura balela, conversa fiada para boi dormir. Na verdade, o governo não está preocupado com a educação dos jovens, em mostrar ao mundo o talento de seus compatriotas. Ele quer que nossas crianças sejam, no amanhã – não o futuro da nação, mas um bando de analfabetos, tipo vaquinhas de presépio – de preferência que não saiba discernir um automóvel de uma bicicleta.

Todavia, apesar dos pesares, nem todos pensam assim. No meio dessa cambada de oportunistas da pior espécie, encontramos alguém que ainda pensa em estar do outro lado da porta, de braços abertos, à espera, para dar as boas vindas ao escrevinhador desconhecido. É o caso de Albert Paul Dahoui que, no intuito de “facilitar a vida de quem sonha em fazer livros e conquistar leitores”, abriu uma editora, no Rio de Janeiro, a Corifeu, que vem publicando, com regularidade, uma gama de novos talentos, como Dilson César Devides – 30 anos de Rock: Raul Seixas e a cultura brasileira de 1970 à contemporaneidade; Mário Alvim – Via Láctea; Gabriel Torres – Conspiração; Jurandir Araguaia – O Homem que não bebia cerveja; José Eduardo Stamato- Tempo de transformação; Angélica Borges – O Monge; Dy Lugon – Momentos; José Cornetta – A Construçao do ser; Julio Silva – Sonhos&Desejos; Antonio Valter Kuntz – Original Dewey; Diogo Santana – Fé e anarquia, Orlando J.D. Corrêa – Urrando no trecho e tantos outros.

Além de editor, Albert é também escritor. Acabou de lançar “O Sucesso de Escrever”, uma obra excelente que “coloca nos trilhos o potencial literário de cada pessoa”. Nesse opúsculo são abordados assuntos que vão desde a criação dos personagens, a estrutura de uma trama em todas as suas nuances, passando pela lógica da construção do começo, meio e fim, culminando com a consecução do trabalho como um todo.

O livro não trás fórmulas matemáticas como “O Homem que calculava, de Malba Tahan, nem se compara a manuais de especialistas que ensinam como se deve ou não escrever. Acima de tudo, o autor busca, de maneira simples, mostrar aos novatos que os “eventos iniciais precisam ser dinâmicos, a ponto de impactar o leitor, de cara, a ponto que, em nenhum momento, ele venha a se desinteressar pela leitura”. Esclarece que o meio do livro deverá alternar passagens de ritmo rápido para passagens mais lentas, dando tempo, ao leitor, para que saboreie e se deleite melhor com os aspectos íntimos de cada personagem ou situações e, sobretudo, a maneira como elas são apresentadas.

“O sucesso de Escrever” fala, ainda, das resoluções que devem ser objetivas, das frases longas, cheias de vírgulas, dos parágrafos extensos demais e cansativos. Discorre sobre as descrições longas, dos personagens, de palavras pouco usadas, ou daquelas muito rebuscadas, nas quais o cidadão leigo e menos desatento, precise, de um dicionário ao alcance das mãos.

Dahoui é, acima de tudo, um inventor de assombros e, mais que isso, ajuda o sonhador a construir suas fantasias mais estrambóticas, a sonhar com os pés no chão, a encontrar seu caminho sem se distanciar da realidade em que vive. Excelente, pois, para quem carrega, no sangue, o espírito aventureiro de um Veríssimo, ou de um Fernando Sabino. Recomendável para todos que se aventuram nessa senda quase intransponível de se tornar alguém reconhecido dentro de um universo cada vez mais fechado. Ser escritor, neste país, é como andar de mãos dadas com as ilusões que nascem da alma, mas igualmente com os pés atados e, pior, ladeado por um cotidiano invariavelmente bloqueado e desestimulante. O livro de Dahoui nos leva a acreditar piamente que não estamos ilhados no meio de outros escritores famosos e de renome, nem somos um Robinson perdido entre os demais semelhantes.

Fontes:
http://www.paralerepensar.com.br (6 agosto 2007)
Imagem =
http://dry-martini.blogspot.com

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Mário Bortolotto (Poesias Escolhidas)

O CAMINHO MAIS CURTO PRO INFERNO

Ah, os dramaturgos
com seus textos suplicantes
que são a extensão doentia de seu criador.
Tem um que sempre participa de concursos de dramaturgia
dia desses ganhou uma menção honrosa
e começou a acreditar que agora sim, vai chegar lá.
Ele me disse exatamente assim:
Marião, agora é a minha vez!!
Confesso que fiquei assustado com tanta determinação.
Tem outro que trabalha em jornal e está pensando em escrever um romance.
Eu dou a mó força.
Tem outro que só está dando um tempo na dramaturgia,
porque sabe que o seu negócio mesmo é cinema.
Tem outro que escreve novela de tv.
E tem aquele que quer escrever novela de tv.
Tem um deles que se acha especial porque escreve minissérie.
Tem aquele que namora a atriz que vai produzir seu texto.
E tem um outro que namora o ator.
Tem um outro que comeu a produtora.
O problema é que ele comeu mal
e a mulher não quis mais saber do texto dele.
Tem outro que só escreve comédias
porque disseram pra ele que é mais comercial.
Tem o dramaturgo maldito
e o darling da mídia.
E tem aquele de grandes aspirações que nunca consegue terminar seu texto.
Tem aquele que está há três anos escrevendo sua grande peça
e tem aquele que só conseguiu escrever uma peça na vida
e vive falando sobre ela, e acha todos os atores burros
por não terem ainda encenado o seu texto.
Tem o que enlouqueceu
e o que ficou parado em alguma curva dos anos 60.
Tem o dramaturgo da moda
e aquele que está sempre por fora.
Tem o muito encenado
e o eterno gênio inédito.
Tem aquele que não suporta outros dramaturgos.
O que acha tudo uma bosta.
E tem aquele que vai a todas as estréias de seus companheiros.
Tem um que faz um bico de ator em comerciais
pra pagar a produção do seu texto de vanguarda.
E tem outro que tirou foto pruma revista gay segundo ele pelas mesmas razões.
Tem um que diz que é performer.
E outro que vive de ministrar workshops de dramaturgia.
Tem outro que é jurado de concursos de dramaturgia.
E tem ainda aquele que escreve peças pra teatro empresa
mas que garante que é por pouco tempo.
Tem o dramaturgo publicitário cheio de tiradas geniais.
E tem o dramaturgo crítico de teatro.
E tem aquele que almoça sempre com o crítico
e diz que tem prazer em almoçar com o crítico.
Tem aquele que implora pro crítico vir assistir a sua peça
e aquele que proíbe a entrada do crítico.
Tem um que não desgruda do telefone
sempre a um passo de uma grande montagem.
E tem o que desistiu.
E tem os que continuam insistindo.
Tem o velho dramaturgo que acha que a dramaturgia morreu
e o novo dramaturgo que quer matar a velha dramaturgia.
Pobres inocentes.
Vocês não fazem idéia da encrenca em que se meteram!
G G G G G G G G G G G G

O FRACASSO COMO RECOMPENSA

prometo e não tomo providências
meu evangelho renegado por todas as manhãs
minha fuga dos restaurantes coreanos e dos suspiros forjados
tenho pensado insistentemente em constrangimentos noturnos
mas ainda acredito no que se convencionou chamar de suplicio
até fracassados tem códigos de ética
minha fé inabalável em possíveis viagens pra bem longe daqui
entre palmeiras e a brisa fria do fim de tarde
eu devo me deitar na solenidade da memória perdida
num quarto de hotel com nome exótico e reverente
a majestade de quem se deu por esquecido
de quem jogou fora todas as fichas
de quem sempre esteve fadado à derrota
mesmo sentado no topo do mundo
mesmo que ela dance semi nua na minha frente
que me ofereça sua nuca em sacrifício
e que derrame vinho em meu peito e deslize sua língua suave
ainda assim vou pensar que é sempre tarde demais
meu orgulho abençoado de perdedor
deixo o testamento de um loser
com duvidosa compaixão pela raça humana
como recompensa, tenho o sol abrasador
e a crença vil num evangelho porcamente escrito
só levo comigo minha inadequação e alguns poemas de Dylan Thomas
não tem mais pra ninguém

Daqui a 20 minutos, vai ser eu e Deus.
G G G G G G G G G G G G

ENQUANTO ELA RANGE OS DENTES
EU ESPERO OS FANTASMAS

Os fantasmas bebem comigo quando a lua vem
Eu abro a minha porta todas as noites
Eles aparecem e se apropriam das poltronas
coçam meus pés e bebem meu vinho
Não falam da vida os fantasmas
nem comentam as fotos que guardei
Eu me sinto bem com os fantasmas
Eles apenas gostam de ficar por ali
assoprando nas orelhas do cachorro
o cachorro se acostumou com os fantasmas
já não tira os chinelos das poltronas
percebeu o quanto os fantasmas são
importantes pra mim e o cachorro também
não quer me ver triste e eu sei que de
uns tempos pra cá o cachorro também ficou
dependente deles pois uiva de dia enquanto
eu leio Frost no telhado
o dia passou a ter 72 horas
o dia passou a ter grossos livros de poesia
o dia passou a ter Whitman, Thoreau e Bashô
o dia agora é um osso esquecido no assoalho
o dia agora é uma longa espera da noite
que é quando os fantasmas aparecem
Eu espero já sem muita paciência
não há nenhuma suavidade ou delicadeza em meus gestos
os fantasmas são a melhor companhia pra
quem descobriu que está realmente sozinho.
G G G G G G G G G G G G

ÓPERA DOS POMBOS SEM DESTINO

Eu moro no sótão onde os pombos morrem
Eu deixo a janela aberta
e deixo que eles venham morrer a meus pés
Eles entram voando e me olham
com seus olhos tristes de pombo
Como eu posso ser feliz com todos esses pombos mortos
abandonados por Deus
Gostava quando eles se chocavam contra o pára-brisa
Pombos desgovernados sempre me fascinaram
Esses pombos com destino certo
eles me deixam com os olhos cheios de lágrimas
vez ou outra um avião passa no céu
e os pombos sonham com lugares nunca visitados
Um dia os pombos desaparecerão
terão voado para algum lugar inatingível
não haverá mais pombos
e alguém irá contar histórias sobre pombos
os seus cadáveres espalhados no chão do meu sótão
receberão visitas apaixonadas
mas pra mim o que vai ficar
será a lembrança dos pombos na minha caixa de correio
pombos que se recusaram saber o caminho
pombos que Deus há de acolher
pombos dos quais sempre vou me lembrar
ouvindo ópera no sótão
meu sótão de pombos sem destino
——————-

Fontes:
Confraria do Vento
Maquina do Mundo. Revista de Poesia.

VIANNA, Christine (organização). Antologia de Poetas Londrinenses v.12. Londrina, PR, 2000.

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Mário Bortolotto (1962)

Mário Bortolotto (Londrina, 1962) é um ator, diretor, dramaturgo e compositor brasileiro.

Estudou em seminário e na adolescência iniciou sua carreira artística no teatro e na literatura.

Dramaturgo de personagens à margem da sociedade, Mário Bortolotto é o representante contemporâneo mais próximo ao universo do autor Plínio Marcos, de linguagem cáustica e direta. Com produção vasta e constante, Bortolotto marca presença no teatro paulista a partir de meados dos anos 1990.

Participou de inúmeros festivais de teatro pelo Brasil, sempre com o Grupo Cemitério de Automóveis, de que é fundador (em 2007 o grupo completou 25 anos de existência).

Em 1982, Mário Bortolotto, Lázaro Câmara e Edson Monteiro Rocha fundam, em Londrina, o grupo de teatro Chiclete com Banana que, a partir de 1987, passa a denominar-se Cemitério de Automóveis. Nesse ano integra um ciclo de novos diretores no Madame Satã em São Paulo, participando ainda de vários festivais no país.

Em 1994 a equipe transfere-se para Curitiba, remontando alguns trabalhos: Uma Fábula Podre, Curta Passagem e Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet. Ainda em Curitiba estréia Vamos Sair da Chuva Quando a Bomba Cair e Cocoonings.

O lançamento de Leila Baby no Centro Cultural São Paulo, CCSP, 1996, marca a mudança do conjunto para a capital paulista; e, em 1997, estréia Medusa de Rayban, Será que a Gente Influencia o Caetano?, Postcards de Atacama e Diário das Crianças do Velho Quarteirão, em 1998; e A Lua é Minha, em 1999, e Rolex-O Anti Velox , em 2000.

Em 1997, surpreende como ator em Santidade, texto de José Vicente censurado na ditadura e, finalmente, colocado em cena por Fauzi Arap. Em 1999, está ao lado da atriz Leona Cavalli, em Disk Ofensa Linha Vermelha, de Pedro Vicente, direção de Nilton Bicudo.

Além de teatro, seu grupo passa a produzir também livros, CDs e filmes de curta metragem. Edita o jornal Urbano, divulgando teatro, música e literatura, trabalhos dos integrantes e amigos (livros, CDs, fitas demo, histórias em quadrinhos, filmes, fanzines, etc.).

Medusa de Rayban ganha prêmios e catapulta a presença do grupo em São Paulo. Sobre este texto, comenta a pesquisadora Sílvia Fernandes: “[…] Mas talvez seja Mário Bortolotto quem mais se aproxime, em Medusa de Rayban, de um hiper-realismo no retrato da classe média baixa, assumindo influências de Charles Bukovski e Sam Shepard, associadas a automatismos de comportamento de assassinos de aluguel, bêbados e artistas frustrados, resgatados de um mundo que o dramaturgo conhece bem, e talvez seja o mais próximo do universo dramático de Plínio Marcos”.

Em 1999, em Londrina, estreiam Efeito Urtigão e Felizes para Sempre, texto e direção de Mário Bortolotto.

Em outubro de 1999 apresentam no Sesc Bauru o evento Beat Cemitério, uma jam poética sobre a literatura beat tendo como convidados os escritores Antônio Bivar, Reinaldo Moraes e Ademir Assunção (editor da revista Medusa).

Em 2000 a atriz Fernanda D’Umbra produz a Mostra Cemitério de Automóveis: quatorze espetáculos que permanecem em cartaz entre julho e outubro no Centro Cultural São Paulo – CCSP. A mostra rende a Mário Bortolotto o Prêmio Associação Paulista de Críticos de Artes – APCA, de melhor autor do ano de 2000 pelo conjunto da obra, e o Prêmio Shell de melhor autor por Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet, em 2001.

Em 2000 forma-se a Banda Cemitério de Automóveis. Em 2001 estréia Getsêmani e, em 2002, em comemoração dos 20 anos da companhia, apresenta a 2ª Mostra de Teatro, no CCSP, reunindo 79 atores em 26 espetáculos. No mesmo ano, participa como autor da Mostra de Dramaturgia Contemporânea do Teatro Popular do Sesi, TPS, com o texto Deve Ser do C… o Carnaval em Bonifácio, com direção de Fauzi Arap. Ainda em 2002, estréia uma bem-sucedida montagem de outro texto seu, Hotel Lancaster, com direção de Marcos Loureiro.

Com um estilo calcado em histórias em quadrinhos, cinema, blues, rock e o universo beatnik, o escritor cria espetáculos com estilo próprio. Além de atuar, escrever e dirigir seus espetáculos, participa como vocalista e compositor das bandas Saco de Ratos Blues e Tempo Instável. Gravou o CD de blues Cachorros Gostam de Bourbon, com composições suas.

Quase todas as peças escritas por Bortolotto já foram publicadas, por editoras pequenas, num total de quatro livros. Também publicou um livro de poesia, Para os Inocentes que Ficaram em Casa, além dos romances Mamãe não Voltou do Supermercado e Bagana na Chuva. Em 2006 lançou o livro Atire no Dramaturgo, coletânea de textos publicados em seu blog de mesmo nome, que mantém desde 2004.

Em 4 de dezembro de 2009 Bortolotto e seu amigo músico Carlos Carcarah foram baleados enquanto estavam em um bar. Segundo a polícia, os dois reagiram e os bandidos disparam quatro tiros contra eles. O incidente aconteceu na Praça Roosevelt e Bortolotto teve de passar por uma cirurgia. Ele teve alta do hospital em 28 de dezembro de 2009 e passa bem. Pouco mais de um mês depois do assalto, em entrevista o jornal O Globo, Bortolotto disse ter sido criticado por não agradecer a Deus sua recuperação, mas descreveu sua espiritualidade como algo privado. Ele também brincou que poderia atuar no filme Nove Crônicas para um Coração aos Berros, cujas gravações estão previstas para abril, com a tipoia que está usando no braço esquerdo devido à queda durante o assalto.

O crítico Sebastião Milaré analisa o trabalho do dramaturgo: “A obra dramática de Mário Bortolotto tem óbvias influências da literatura em permanente confronto com o sistema de um Kerouac e, mais ainda, de um Bukowski. Na maneira de abordagem, aos problemas e nos fluentes diálogos, todavia, prevalecem a cor local, e os estigmas da classe média brasileira, sufocada em angústias, medos e carências. Numa linguagem teatral contemporânea, Bortolotto vê o inconformismo dos filhos da burguesia em face do sistema burguês, que marcou a arte nos anos 1950 e 1960. E revela a atualidade desse inconformismo seminal e transformador”.

E refletindo sobre o trabalho múltiplo e incessante de Bortolotto, comenta o diretor Fauzi Arap: “Um ator carismático e impecável, autor e diretor de seus próprios textos, o talento de Mário Bortolotto não cabe num único meio de expressão. […] A par da qualidade, sua produção continuada faz imaginar um trabalhador incansável escondido por trás de sua postura ‘rebelde’, e faz supor que guarde ainda muitos tesouros escondidos”.

Algumas Peças:
A Meia Noite um Solo de Sax na Minha Cabeça ; Feliz Natal Charles Bukowski ; A Louca Balada de Lou Reed ; Singapura Slings ; Leila Baby ; Para Alguns a Noite É Azul ; O Cara que Dançou Comigo ; Uma Fábula Podre ; Felizes para Sempre ; Vamos Sair da Chuva quando a Bomba Cair ; Medusa de Ray Ban ; A Frente Fria que Traz a Chuva ; O que Restou do Sagrado ; O Natimorto , etc.

Fontes:
Wikipedia
Itau Cultural.

Foto = feita por Patricia Stavis para o Jornal Folha Ilustrada

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