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Pedro Mello (8 Indrisos e 1 Soneto)


AMARGURA

Olho o teu rosto, cheio de amargura…
Tudo o que nós fizemos foi loucura…
Por que não aceitamos a verdade…?

Meus versos vestem arrependimento…
Minha alma se separa num momento
da tua, em busca de tranquilidade…

Eis a verdade, com melancolia:

És a anti-musa, o fim da poesia…

PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Você também já se cansou de mim?
Também deseja (intimamente) o fim
da triste farsa que representamos?

Está também (como eu) arrependida
do modo como está vivendo a vida?
Vamos reconhecer que nos cansamos?

Por que não terminamos, afinal?

Pra que serve um amor que só faz mal?

TRAIÇÃO…

Você foi algo mau na minha estrada,
alguém que não merece ser lembrada,
um pretérito longe e fugidio…

Ainda assim, de vez em quando à mente
irrompe uma lembrança persistente…
(Será que um dia ainda me alforrio?)

Vai acabar em mim esse confronto?

Ah, coração… és traiçoeiro e tonto…

TÉDIO

Essa rotina miserável nossa
conduz o nosso amor rumo ao abismo…
Evaporou-se todo o romantismo…

O riso de ontem hoje virou fossa…
A nossa vida é um absoluto tédio…
Talvez não haja para nós remédio…

O que fazer, se “nós” viramos pó?

Não me amas mais… não te amo mais… e é só…

APATIA

Tornaram-se tão frágeis nossos laços,
que qualquer coisa pode desfazê-los…
Velha ilusão tão desgastada e torta…!

São tão banais, mulher, nossos abraços…
Sem emoção eu olho teus cabelos,
como quem olha natureza morta…

A solidão a dois é muito triste…

É estar morto num corpo que resiste…

PEDIDO…

Não te suporto… tu não me suportas…
Entre nós dois já não existem portas…
(Talvez existam, mas estão fechadas…)

Este nosso romance moribundo
não resiste a um exame mais profundo:
Somos duas paixões deterioradas…

Por que não somos francos, afinal…?

Devemos colocar ponto final…

OBRIGADO…

Você tem suportado meus rompantes
de mau-humor e não se queixa… Antes,
me anima quando a vida é desventura…

Se eu abandono o mundo tão mesquinho,
num vórtice de dor, é seu carinho
que me consola e proporciona cura…

Sou muito grato por seu ombro amigo…

Obrigado, Poesia, pelo abrigo…

VERSOS ÁCIDOS

Teus olhos lacrimejam… a acidez
que corrói cada verso que alinhavo
te causa dor e agride teu orgulho…

Mas… por favor, ignora o que hoje lês…
Não te aborreças com meu desagravo
cheio de estardalhaço e de barulho…

Perdoa o mal que te escrevi e fiz…

Ninguém escreve quando está feliz…

PEQUENO TRATADO SOBRE A DOR (Soneto) 

A dor do infarto, dor que chama a morte,
a dor que ataca um mal cuidado dente,
a dor pós-cirurgia, a dor do corte,
a dor da cãibra, o músculo torcente…

o chute acidental… e um homem forte
da partida-batalha sai dormente…
a dor do câncer faz perder o norte,
a dor do parto abala quem a sente…

Mas entre dores tantas, afinal,
qual é a que faz alguém perder o sono
e despencar o pranto sem contê-lo?

…É a dor de todos, dor universal,
amargo resultado do abandono,
a dor pior… é a dor de cotovelo…

Fonte:
Novo Site com Textos de Pedro Mello 
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