Arquivo do mês: março 2010

J.G. de Araujo Jorge (A Poesia Popular)

Somos felizmente um povo inteligente e de grande sensibilidade. Se querem um exemplo da inteligência do povo brasileiro, de sua filosofia, do seu senso de humor, procurem observar as frases que comumente se encontram escritas nos parachoques ou na própria carroceria dos caminhões que trafegam pelas estradas.

São de uma graça e de uma acuidade, às vezes profundas, em sua simplicidade. Sozinhos, viajando durante dias, longe do lar e de seus amores, os motoristas de caminhões são como os marinheiros. Mas a permanente presença da terra, tira-lhes á saudade aquele tom de grande lirismo do homem do mar, realmente desligado de tudo, cercado de silêncios e horizontes. E espouca em seus espíritos a sátira, a alegria boemia dos que fazem a vida de aventuras, em prazeres de cada momento.

Já pensei em comprar um caderninho para anotar as frases que leio nos parachoques dos caminhões. Tenho a convicção de que acabaria por ter um verdadeiro retrato do espírito popular, um verdadeiro “compêndio” dessa filosofia de vida, tão interessante e cheia de sutilezas, do homem da rua.

Uma das trovinhas que compõem o meu “Cantigas de Menino Grande” eu a fiz, aproveitando um pensamento de uma dessas frases que vi num caminhão, quando dirigia meu carro rumo a Friburgo. Dizia o seguinte

“Eu dirijo, Deus conduz”.

Nada mais, simples e profundo. E pensando no que acabara de ler fui arrumando mentalmente os outros versos, já que o pensamento vinha num verso de sete sílabas. No meio da serra a quadrinha estava pronta:

“No meu carro vou tranqüilo
tenha a estrada sombra ou luz,
pois bem sei que ao dirigi-lo:
– eu dirijo, Deus conduz.

Numa crônica que preparei para volumes anteriores desta coleção, afirmei:

“Do mesmo modo que os provérbios e adágios representam o pensamento do povo que se vai cristalizando através do tempo, as trovas, são a sua alma. E os poetas, tocados pela “graça” das trovas, os intérpretes dessa alma.”

O povo fala em versos, sem sentir e, instintivamente, nos seus provérbios e sentenças, procura a rima, que é um elemento oral de enfeite e de memorização mais fácil. Observem os provérbios. este, por exemplo, bem conhecido:

“Água mole em pedra dura
tanto bate até que fura.”
Dois. versos de sete sílabas, rimando.

E este outro:
“Ha sempre um chinelo velho
Pra um pé doente e cansado.”

Glosei, também, numa trova:

O tal ditado é um conselho,
não te mostres desolado…
“Ha sempre um chinelo velho
Pra um pé doente e cansado…”

Nem tal fato é de se estranhar, quando sabemos que as línguas neolatinas esgalharam-se do tronco secular do velho latim, na língua poética, dos trovadores medievais, nas suas cantigas.

Sobre trovas populares e anônimas, escrevi, na crônica citada :

“Uma trova, (ou como a chamam também, uma quadrinha) é tanto mais expressiva quanto maior o grau de fidelidade ou de identidade do poeta com o sentimento popular. Cai então, pode-se dizer, no gosto do povo, que a recolhe, decora e divulga, e sua expansão se faz de modo permanente, extenso e profundo.

Seu processo de popularização é tamanho, que ela acaba desgarrada de quem a criou, filha de ninguém. Ou melhor: lhe arranjam um pai, lhe atribuem uma paternidade, ou várias, o que vem a ser a mesma coisa. É uma trova anônima.

Glória efêmero e paradoxal. No momento mesmo em que a atinge, o trovador a perde. E são quase sempre, as maiores trovas, aquelas que acabam no anonimato, emaranhadas em meio a dúvidas e suposições. Tratando-se de pequenas composições poéticas, facilmente reproduzíveis, acontece com as publicações o mesmo que se dá com a difusão oral. Jornais e revistas de toda a parte, álbuns e cadernos de poesia as divulgam com autores diversos, tornando cada vez mais difícil a identificação, e mais penosa a pesquisa.”

“A Ilíada” e a “Odisséia”, memorizadas durante séculos pelo povo grego, e mandadas escrever por Psístrato, guardaram a glória de Homero, ainda que lendária, intacta. Eram grandes poemas. Mas as pequeninas trovas, estilhaçam qualquer glória, e torna-se impossível identificar através dos tempos, os nomes dos seus verdadeiros autores, quando elas caem “na boca do povo”
* * *

Mas, trovas populares e anônimas, não são apenas as trovas “eruditas” dos grandes poetas, as trovas literárias, que um dia se perdem no rio da grande popularidade, afogando seus autores. São também as trovas rústicas e imperfeitas que nascem da alma do povo, na boca dos cantadores, dos violeiros, dos sanfoneiros, dos poetas populares anônimos que enxameiam pelo interior do Brasil e de Portugal. Verdadeiros filões de ouro de nossa sensibilidade e de nosso espírito.

Na sua obra, farto acervo de folclore e poesia, “Mil quadras brasileiras”, ( “Mil quadras populares brasileiras” (Contribuição ao folclore). Recolhidas e prefaciadas por Carlos Góis. (Catedrático do Ginásio Mineiro, membro da Academia mineira de Letras). F. Briguet & Cia., Editora. Rio de Janeiro. 1916).

Carlos Góis observa:

“É no interior do país, longe do bulício convencional e cerimonioso das grandes cidades, onde mais intensamente floresce a poesia popular.
Quem se internar no sertão do Brasil, verá, na razão direta da distância dos grandes centros populosos, a expandir-se a alma do povo em expressões rítmicas de um cunho espontâneo, subitâneo, flagrante. Só quem como nós já assistiu de viso, aos descantes ao som da viola e do violão, poderá aquilatar do grau de fluência e espontaneidade que jorra da musa popular”.

Ainda recentemente, aqui no Rio, tive a oportunidade de conhecer os irmãos Batista, (Otacílio e Dimas), exímios cantadores e improvisadores do Nordeste (de Campina Grande), e outros violeiros e repentistas, alagoanos e baianos. Durante horas, com seus violões ao peito, lançam-se reciprocamente desafios, e os versos vão brotando em catadupas, com uma espantosa facilidade, ricos de verve e imaginação.

Rodolfo Cavalcanti, que é, na Bahia, o Presidente do Grêmio Brasileiro de Trovadores, é um poeta popular típico do Norte. Homens simples, emotivos, sem quase instrução, com uma poesia fácil e “bem falante”, compõe longos poemas a propósito de tudo. Publica-os em folhetos que ele mesmo vende nas ruas de Salvador. E vive disto, como verdadeiro trovador de seu tempo.

Já se começa a dar valor também a essa manifestação literária do povo brasileiro. Os próprios críticos de gabinete, desligados até agora das raízes de nossa formação literária voltam-se para o estudo e a observação de extraordinário manancial de riquezas. O atual surto de trovadores, verdadeiro movimento ,de incentivo à poesia popular, obriga-os a reconsiderarem suas atitudes puramente intelectuais, e a perceberem o que há de autêntico e real nessa manifestação -de nossa sensibilidade e de nossa cultura.
Não foi sem razão, que defini:

Ó trovador: professor
de poesia popular!
Com suas trovas de amor
o povo aprende a cantar!

Fonte:
J. G. de Araújo Jorge. Cem trovas populares. Coleção Trovadores Brasileiros.

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Márcia Maia (Cristais Poéticos)

CARTA DE NAVEGAÇÃO

romper cadeias e escrever além dos códices
e dos modismos da vanguarda — além do cânone
ultrapassar a concisão do verso mínimo
compor sonetos no rigor de rima e métrica
tentando ingleses portugueses e simétricos
aventurar-se do insensato ao ultra-lúcido
do social ao pornográfico e ao lírico
e ainda ousar o verso livre e — sem metáforas
desembocar meio a haicais belos e herméticos
e retornar a esgrimir o econômico
minimalismo da palavra exposta ao máximo
usufruir a criação de modo ávido
na liberdade de dizer-se o que é legítimo
fiel apenas à poesia em si e à ética

(BARR)OCO

um oco mais oco que o oco
do coco esquecido da água
que escorre do oco do coco
e um oco mais oco que o oco
no corpo do coco destrava

um oco mais oco que o oco
um oco sem corpo e sem coco
um oco mais copo que corpo
repleto do oco mais oco
que o oco do oco — nonada

ÔMEGA

voem os peixes sobre as árvores de enforcados
e no escuro mais profundo do oceano possam
os pássaros finalmente erguer seus ninhos

teça o vento tsunamis de estrelas de napalm
que derramem-se e derretam todo olho toda pele —
salgue o sangue o que era leite o que era rio

e da terra que era terra e que ora nada nenhuma
vida rebente até que em frio faça-se o quente
até que o que era consciência seja caldo elemental

até que um deus qualquer desperte e o ciclo todo recomece

O QUADRO

complacente ela se aquieta e espia
não o toca nada neles diz intimidade

estão ali há séculos imóveis sentados
o silêncio retumbando em cores vívidas

SEQUÊNCIA

toco a teia de ausência nesta tarde
que semelha mais outono
que verão

e o silêncio se me gruda à pele e arde
qual lamento de sem dono
gato ou cão

colhendo fado e infância em cada parte
deste réquiem de abandono
sem perdão

que ora entoo

QUASE UM FREVO-CANÇÃO

era a noite era o pátio era o frevo
era o povo era o passo era a rua

a cerveja esfriava na mesa
e uma a uma as orquestras passavam

se uma história doída findava
(sem sequer revelar-se à tevê
cuja luz bem ali se acendia)
uma nova se já pressentia
(só a lua sabia o porquê)
quando spok edgar jazzeava

e as canções do coral evocavam
do passado o valor e a beleza

nos despiram depois noite e lua
e mais nada direi — não me atrevo
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Márcia Maia (1951)

Márcia de Souza Leão Maia nasceu em Recife em 1951. Médica e poeta.

Teve seus poemas primeiramente publicados na Revista Poesia Sempre nº 15, da Fundação Biblioteca Nacional, em novembro de 2001. Apesar de ter começado a publicar recentemente Márcia é uma das poetas recifenses que vem ganhando destaque na cena literária pernambucana e o seu talento vem sendo reconhecido e seus livros premiados em vários concursos de poesia.

Em 2002, Espelhos foi premiado no 3º Concurso Blocos de Poesia; Cotidiana e virtual geometria ganhou o Prêmio Violeta Branca Menescal, concedido pelo Conselho de Cultura de Manaus, em 2007 e em 2008 o livro Onde a Minha Rolleiflex? venceu o Concurso de Poesia Eugênio Coimbra Júnior, promovido pelo Conselho de Cultura da Cidade do Recife.

Ainda nesse ano seu poema quase um réquiem obteve o segundo lugar no Prêmio Off-Flip.

Poeta articulada na intenet edita com regularidade os blogs tábua de marés e mudança de ventos e faz parte do site escritoras suicidas.

Livros:
Espelhos – Livro Rápido/Recife, 2003;
um tolo desejo de azul – Livro Rápido/Recife, 2003;
Olhares/Miradas – coleção Poetas de Orpheu, Livraria e Editora do Maneco, RS, 2004;
em queda livre – Edições Bagaço/Recife, 2005;
cotidiana e virtual geometria – Editora Muiraquitã/ Manaus, 2008.

Participação em coletâneas:
Antologia Poetrix – Editora Scortecci;São Paulo, 2002;
Antologia Escritas – Edição dos autores, 2004;
Poesia do Nascer (organizada por Mário Cordeiro), editada em Lisboa/Portugal, 2005;
Pernambuco, terra da poesia (organizada por Antônio Campos e Cláudia Cordeiro) – IMC/Escrituras, 2005;
Poesia nos Blogs, editada em Portugal – Apenas Livros Ltda, 2006;
Saboreando Palavras – SESC/MG, 2006.
Livro da Tribo – Editora da Tribo, 2004, 2005, 2007, 2008 e 2009.

blogs da poeta
http://tabuademares.blogger.com.br
http://mudancadeventos.blogger.com.br

Fonte:
http://www.interpoetica.com/

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Trova 135 – Pedro Mello (São Paulo)

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31 de março de 2010 · 01:00

II Jogos Florais de Caxias do Sul – 2010 (Classificação Final)

UBT SEÇÃO DE CAXIAS DO SUL E ACADEMIA CAXIENSE DE LETRAS

TROVAS PREMIADAS

ÂMBITO NACIONAL = TEMA “TREM”

VENCEDORES

O trem da vida ao destino
chega no horário marcado:
– Por que não desce o menino
que embarcou tão animado?
Olympio Coutinho – Belo Horizonte/ MG

Na ferrovia do ardor…
a paixão dita o preceito:
sou trem que conduz… o amor,
sobre os trilhos do teu leito!G
Ailto Rodrigues – Nova Friburgo/ RJ

MENÇÃO HONROSA

Prevendo a grande viagem
a qual farei qualquer dia,
reservei uma passagem
para o trem da poesia.
Adilson Galvão – Nova Friburgo/ RJ
O “te esquecer” me conflita
e a razão manda que eu tente
mas…quando a saudade “apita”,
cresce um “trem” dentro da gente!
José Ouverney – Pindamonhangaba/ SP
MENÇÕES ESPECIAIS

Na estação do meu anseio,
nos perdemos de nós dois…
-Não foi o trem que não veio:
fui eu que cheguei depois…!
Pedro Mello – São Paulo/ SP

Lá vai o trem ofegante
montanha acima, e um véu
de fumaça esvoaçante
falseia nimbos no céu!
Francisco José Pessoa – Fortaleza/ CE

ÂMBITO ESTADUAL = TEMA “TRILHO”

VENCEDORES

Penso que assim como os trilhos
levam e trazem o trem,
o pai conduz os seus filhos
pelo caminho do bem.
Clênio Borges/ Porto Alegre -RS

Caminhando pelos trilhos
em noites enluaradas,
as estrelas lançam brilhos,
que salpicam as estradas!
Delcy Canalles/Porto Alegre -RS

MENÇÕES HONROSAS

Quando o percurso é distante
e os trilhos correm sem fim,
é bem nesse exato instante,
que Deus alia-se a mim!
Lisete Johnson/Porto Alegre -RS

Doces lembranças guardadas,
no peito, quem não as tem?
de caminhar de mãos dadas
pó sobre os trilhos do trem.
Neoly de O. Vargas/Sapucaia -RS

MENÇÕES ESPECIAIS

Belos gestos de inocência,
bênçãos de amor despertaram,
e, nos trilhos da existência,
só saudade carregaram…
Olga Maria Dias Ferreira/ Pelotas-RS

Quando um filho perde a trilha
perseguindo falsos brilhos,
toda a vida da família,
geralmente, sai dos trilhos.
Milton Sousa/Porto Alegre-RS

ÂMBITO MUNICIPAL = TEMA “COLHEITA”

VENCEDORES

Enquanto a vida se enfeita
com sorrisos e amizades,
vou preparando a colheita
das lembranças e saudades.
Alice Brandão

Cada semente lançada,
com amor e com cuidado,
traz a colheita sagrada
do sonho mais esperado.
Amália Marie Gerda Bornheim

MENÇÃO HONROSA

No momento da partida
queira Deus, Nosso Senhor,
que a colheita desta vida
seja só frutos do amor.
Lucí Barbijan

A nossa farta colheita
árduo trabalho revela:
uma estrada tão estreita
tornou-se fértil e bela!
Jussára C. Godinho

MENÇÃO ESPECIAL

A colheita da estação,
junto aos vastos parreirais,
traz a marca e o coração
dos mais nobres ancestrais…
Amália Marie Gerda Bornheim

Desde o plantio à colheita
quanto trabalho e beleza!
A família satisfeita
alegra de uva a mesa!
Jussara C. Godinho

———

Fonte:
Colaboração de Giuseppe Stromboli Barbosa

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Tatiana Belinky (O Diabo e o Granjeiro)

Um pobre lavrador precisava construir a casa de sua pequena granja, mas não conseguia realizar esse sonho, pois o que ganhava mal dava para alimentá-lo, junto com sua mulher. Por mais economia que fizesse, não conseguia juntar o necessário para começar a construção.

Um dia, estando a caminhar pelo seu pedaço de chão, mergulhado em tristes pensamentos, deu com um velho esquisito que lhe disse com voz desagradável:

— Pára de preocupar-te, homem. Eu posso resolver o teu problema antes do primeiro canto do galo, amanhã cedo.

— Como assim? — espantou-se o lavrador.

— Tu precisas construir a casa da granja, certo? Pois eu me encarrego de construir e entregar-te essa obra, antes do canto do galo, em troca de uma pequena promessa tua.

— Que promessa? Não tenho nada para te oferecer em troca de tal serviço.

— Não importa: o que quero que me prometas é um bem que tu tens mas ainda não sabes. É topar ou largar.

O pobre granjeiro pensou com seus botões “o que é que eu tenho a perder?” e, sem hesitar
mais, respondeu ao velho que aceitava o trato e fez a promessa.

— Só que quero ver a casa da granja construída, amanhã, antes do canto do galo — observou
ele, ainda meio incrédulo.

E voltou correndo para casa, para comunicar à esposa o bom negócio que acabara de fechar.

A pobre mulher ficou horrorizada:

— Tu és um louco, marido! Acabas de prometer àquele velho, que só pode ser o próprio diabo, o nosso primeiro filho, que vai nascer daqui a alguns meses!

O homem, que não sabia da gravidez, pôs as mãos na cabeça, mas não havia mais nada a fazer: o pacto estava selado.

A mulher, porém, que não estava disposta a aceitá-lo, ficou pensando num jeito de frustrar o plano do diabo.

E naquela noite, sem conseguir dormir, ficou o tempo todo escutando apavorada o barulho que o demônio e seus auxiliares infernais faziam, ao construírem a tal obra, com espantosa rapidez. A noite ia passando, aproximava-se a madrugada.

Mas, pouco antes de o céu clarear, quando faltavam só umas poucas telhas para a conclusão da obra, a atenta mulher do granjeiro pulou da cama e, rápida e ágil, correu até o galinheiro, onde o galo ainda não despertara.

Tomando fôlego, imitou o canto do galo, com tal perfeição que todos os galos da vizinhança, junto com o seu próprio, lhe responderam com um coro sonoro de cocoricós matinais, momentos antes do romper da aurora.

Como um trato com o diabo tem de ser estritamente observado, tanto pela vítima como por ele mesmo, a obra em final de construção teve de ser parada naquele mesmo instante, por quebra de contrato “antes do primeiro canto do galo”.

E o diabo, espumando de raiva por se ver assim ludibriado e espoliado, se mandou de volta para o inferno, junto com seus acólitos, para nunca mais voltar àquele lugar.

Mas a casa da granja permaneceu construída, para alegria do granjeiro, faltando apenas umas poucas telhas que jamais puderam ser colocadas.

Fonte:
O diabo e o granjeiro. In: Revista Nova Escola, BELINKY, Tatiana. São Paulo, n. 84, mar. 1995.

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Tatiana Belinky toma posse na Academia Paulista de Letras

Dia 15 de abril de 2010, às 19,00 horas, no Colégio Dante Alighieri, haverá a solenidade de posse de TATIANA BELINKY, a grande dama da Literatura e da TV e tradutora das obras russas no Brasil, na ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, com saudação do acadêmico FRANCISCO MARINS.

Tatiana Belinky é uma das escritoras de livros infantis mais conhecidas no Brasil. Curiosamente, ela nasceu na Rússia, em 1919, e veio pequena ao Brasil, com apenas dez anos de idade. Além dos livros infantis, Tatiana ficou famosa por ter sido responsável pela primeira adaptação do “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, de Monteiro Lobato, para a televisão. Já recebeu muitos prêmios pelas suas histórias e trabalhos realizados na televisão e no teatro. Nesta entrevista concedida ao CRE, a escritora reafirma a importância do hábito da leitura para as crianças.

“Capitu que me desculpe, mas a Emília é a maior heroína literária brasileira”. Esta declaração já virou marca registrada de Tatiana Belinky, que acaba de completar 91 anos e também de entrar para a Academia Paulista de Letras. “Nunca imaginei que fossem me indicar, fiquei até um pouco assustada. Mas fui eleita e agora vou à festa da posse. Estou pensando em quem convidar”, diverte-se a escritora com o entusiasmo infantil que nutre desde menina, quando queria ser bruxa para praticar travessuras sem receio. Ruth Rocha, sua amiga e membro da Academia, participou do convite, o que a deixou ainda mais lisonjeada.

Ainda hoje, Tatiana é apaixonada por Monteiro Lobato e o coloca acima de todos os outros escritores que se dedicaram ao universo da criança, inclusive estrangeiros. O amor surgiu logo no primeiro contato, quando se mudou de São Petersburgo, à época parte da União Soviética, para São Paulo com sua família. Ela vinha munida de toda a cultura cultivada em casa – a mãe cantava, o pai escrevia poesia – e de três idiomas na ponta da língua (russo, alemão e letão). Logo aprenderia muito bem o português, e o adotou como a língua oficial de sua escrita.

Outra novidade de Tatiana são seus contos, entre eles “A coruja e a onça”, republicados na coleção Ciranda Cirandinha, da Editora Paulus, que reúne grandes autores da literatura infanto-juvenil. Os volumes vêm engrossar a lista já impressionante de mais de 100 livros publicados, sem contar com as muitas traduções de obras-primas assinadas por ela, como dos contos de Hans Christian Andersen e dos Irmãos Grimm. Tatiana foi responsável, ainda, pela primeira adaptação de “O Sítio do Picapau Amarelo” para a TV, veiculada na década de 1950 pela Tupi. Seu marido, Júlio Gouveia, dirigia os episódios. Ganhou, mais tarde, o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano em 1989. Além disso, ao longo de sua carreira, traduziu muitos compatriotas, entre os quais Gogol, Tchekhov e Tolstoi, mas a criança sempre foi seu público favorito. “Tomei conta do meu irmãozinho, que me ensinou metade de tudo que sei sobre crianças. Desde então, minha preferência é falar com os pequenos, e sei falar com eles”, declara.

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Arquivado em Academia Paulista de Letras, Solenidade de Posse