Arquivo do mês: maio 2013

A. A. de Assis (Revista Virtual de Trovas "Trovia" – n.162 – junho de 2013)

I

Se acaso eu fosse rainha,
dava a você meu reinado;
e, se fosse uma andorinha,
o meu ninho no telhado.
Colombina

A esperança, na viagem,
é ter a felicidade
de chegar junto à miragem,
e a miragem ser verdade.
Élton Carvalho

Muita gente que eu não gabo
lembra a pipa colorida:
– quanto mais comprido o rabo
mais alto sobe na vida!…
Joubert de Araújo e Silva

Os bons vi sempre passar
no mundo graves momentos;
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Luís de Camões

Desconfio que a saudade
não gosta de ti, meu bem.
Quando tu vens, ela vai…
quando tu vais, ela vem…
Luiz Otávio

Isto é próprio das mulheres,
não tem quase nem talvez:
– Nem dizes que não me queres
nem me queres de uma vez…
Luiz Rabelo

 
Do cigarro, a xepa fria
atira com precisão.
Mostra boa pontaria,
mas bem pouca educação.
Adélia Woellner – PR

É sovina a minha amiga:
se vai à feira gastar,
não compra nem uma briga
sem primeiro pechinchar!
Arlindo Tadeu Hagen – MG

Vovó, num desejo enorme
de um milagre conseguir,
por teimosia, não dorme
nem deixa vovô dormir!…
Edmar Japiassú Maia – RJ

Quando, dengosa, tu piscas
os teus olhinhos assim,
não precisas de outras iscas,
esse anzol cuida de mim…
Nélio Bessant – SP
 

O presente desatina
quem cai no conto falaz:
trocar voto por botina
leva sempre um pé por trás.
João B. X. Oliveira – SP

O carro virou paçoca
num acidente invulgar…
– Socorro!, grita a dondoca,
salvem o meu celular!
Maria Ignez Pereira – SP

Tem, por sorte, a fofoqueira
o noivo que lhe interessa:
– é de família açougueira,
e de “língua” entende à beça.
Osvaldo Reis – PR
 

Na noite do seu casório,
sendo um noivo muito antigo,
usou até suspensório,
mas não sustentou o artigo…
Wanda Mourthé – MG
 
Dê-se ao jovem liberdade
para sem medo ele ousar.
– É no ardor da mocidade
que o sonho aprende a voar!
A. A. de Assis – PR

Da janela do avião,
olhando as nuvens branquinhas,
sinto a grata sensação
de tuas mãos junto às minhas!
Alberto Paco – PR

A arte da dança é linda
quando fazemos brilhar
nos passos a graça infinda
de amar quem nos faz sonhar.
Agostinho Rodrigues – RJ

O medo é perturbador
e afeta a nossa razão;
faz que as coisas sem valor
pareçam mais do que são.
Amilton Maciel – SP

Tudo acabou em quimera
na tarde chuvosa e fria
e a grande perda me espera
dentro da casa vazia…
Angélica Villela Santos – SP

Paixão, doação, entrega,
cada um sabe da sua;
ninguém vê como se apega,
mas vai pro mundo da lua.
Antonio Cabral Filho – RJ

Vês as ondas deste mar
enormes e violentas?
Igual meu jeito de amar
que com o teu apascentas.
Benedita de Azevedo – RJ

Sempre acolho de mãos postas
e humilde tento aceitar
o silêncio das respostas
que a vida não sabe dar.
Carolina Ramos – SP

Sei quando vais demorar…
Mesmo assim tudo ofereço:
quem espera para amar
paga ao tempo qualquer preço!
Clenir Neves Ribeiro – Austrália
 
A neve nos pinheirais,
nestas paragens do Sul,
forma brincos de cristais
na terra da gralha azul.B
Cônego Telles – PR

Quiero siempre despertar
con trinos por la ventana,
que las aves saben dar
con fervor cada mañana.
Cristina Oliveira Chávez – USA

Não ligo às perdas e danos
que o destino impõe, porque
podem passar dez mil anos
que eu hei de esperar você!
Dáguima Verônica – MG

Anunciou a partida,
dizendo: – “É melhor assim”!
E saiu da minha vida,
levando o melhor de mim…
Darly O. Barros – SP
 
A mensagem foi pequena:
– Não me esperes, por favor!
Não chorei. Não vale a pena
chorar por um falso amor!
Delcy Canalles – RS

Tantos anos, e eu daqui,
cuidei da vida lá fora;
fiquei moço, envelheci…
– Mas estou voltando agora!
Diamantino Ferreira – RJ

Com as “notas” da alegria,
ou “dissonância” sofrida,
Deus compõe a melodia
da partitura da vida.
Domitilla B. Beltrame – SP

Velho tronco, na queimada,
em dolorosa utopia,
sonha ouvir a passarada
que em vida abrigou… um dia.
Dorothy Jansson Moretti – SP

Bendito seja o sujeito
que, traído pelo irmão,
tira do fundo do peito
a fortuna do perdão!
Eduardo A. O. Toledo – MG

Às suas falas dispense
o respeito mais profundo,
que o silêncio nos pertence
mas a palavra é do mundo.
Élbea Priscila – SP

Voa, passarinho, voa,
que gaiola é só maldade.
Livre, lá nos céus entoa
o cantar da liberdade.
Eliana Jimenez – SC

Adeus com dores combina,
adeus inspira piedade.
Adeus de amor, triste sina
de quem vive de saudade!
Eliana Palma – PR

Eu não me prendo à verdade
e à razão sempre me imponho,
porque toda a realidade
antes de tudo foi sonho!
Elisabeth Souza Cruz – RJ

Para amainar meus cansaços,
num fim de tarde que tranço,
busco a rede dos teus braços
meigos laços… meu descanso!
Flávio Stefani – RS

Porteira velha, o gemido
dessa dor que te corrói…
é o teu passado esquecido
que em teu presente inda dói!
Francisco Garcia – RN

Velho – carrego esperanças,
adubando a vida em flor:
quem não cultiva as lembranças
mata as raízes do Amor.
Gabriel Bicalho – MG

Dei-lhe asas de querubim
e as penas do meu penar!…
– Meu coração mesmo assim,
não aprendeu a voar!…
Gisela Sinfrónio – Portugal

Não lembro de ti, passado,
pois consegui te esquecer;
agora só tenho ao lado
os sonhos que vou viver!
Gislaine Canales – SC

Não haverá sociedade
que possa ser construída
sem a fé na humanidade
e o respeito pela vida.
J. B. Xavier – SP

Meu otimismo teimoso
faz-me ver em cada irmão
o seu lado esplendoroso,
em permanente ascensão.
Jeanette De Cnop – PR

No meu sonho mais profundo,
em pensamentos imerso,
eu fui além do meu mundo,
viajei pelo universo.
Jessé Nascimento – RJ

O saber é consagrado,
tem mais valor do que o ter;
o ter pode ser roubado,
mas nunca roubam saber.
João Medeiros – RN

Correio, por que me fazes
recordar quem não devia?
Carteiro, por que não trazes
minha carta de alforria?
José Fabiano – MG

Tanto mal nós infligimos
a um alguém que bem nos queira,
que o perdão que lhe pedimos
é uma nuvem passageira.
José Feldman – PR
 
Sei que deste mundo lindo
vou sair, só não sei quando,
mas quero morrer dormindo
para entrar no céu sonhando.
José Lucas de Barros – RN

Ah, senhora Liberdade,
soltai-me de vossos laços;
devo ao Destino lealdade,
o Amor comanda meus passos.
José Marins – PR

Em rondas, meu coração,
tropeçando, aqui e ali,
bate em busca da ilusão
que nem sei onde perdi !
José Messias Braz – MG

Quando se tem por escopo
o trabalho e a persistência,
marcar presença no topo
deixa de ser coincidência!
José Ouverney – SP

Sendo a vida a maior graça
que do bom Deus recebemos,
ergamos a nossa taça
enquanto vida nós temos.
José Reinaldo – AL

Se a roseira tem espinho,
para que se aborrecer?
Nada resiste ao carinho,
mesmo podendo sofrer…
José Roberto P. de Souza – SP

Todo homem tem na mulher
um mistério a desvendar:
– sempre ela sabe o que quer,
mas nem sempre quer falar!…
Lucília Decarli – PR
 
Na tessitura do sonho,
vou cortar, sem mais tardança,
esse nó górdio que imponho
a um amor sem esperança.
Luiz Carlos Abritta – MG

Pode ir embora, querida…
Que eu guardo a dor compulsória
de ter que arrancar da vida
quem tatuei na memória.
Manoel Cavalcante – RN

Tem seu momento assinado,
desde o ventre, o filho arteiro:
um gol à vida marcado,
naquele chute primeiro!
Mª da Conceição Fagundes – PR

Ao clamor da liberdade,
tremem os reis e as nações,
porque a força da verdade
tem mais força que os canhões!
Mª Lúcia Daloce – PR

Na travessia das águas
ronda a grande solidão…
Não há sorrisos nem mágoas,
o que me ronda é a paixão.
Mª Luíza Walendowsky – SC

Pela ambição desmedida,
fiz da vida uma procela,
até descobrir que a vida,
quanto mais simples, mais bela.
Mª Madalena Ferreira – RJ

Quando você me critica
e aos amigos faz venenos,
o seu próprio gesto indica
qual de nós dois vale menos.
Maria Nascimento – RJ

Se de novo o amor palpita,
o velho se faz criança…
E como a vida é bonita
no retorno da esperança!
Mª Thereza Cavalheiro – SP
 
Sobre as vagas do oceano,
voando num céu de anil,
sinto alegria e me ufano
de estar voltando ao Brasil!
Marina Valente – SP

Já chorei demais por ela
sem que tenha merecido…
Hoje as lágrimas são dela
por eu já tê-la esquecido.
Maurício Cavalheiro – SP

Beijando, a brisa, meu rosto,
meiga, me faz relembrar,
com saudade e muito gosto,
o amor que pude lhe dar.
Maurício Friedrich – PR

Viajei pelo mundo inteiro
e nunca mais pude achar
o que no instante primeiro
encontrei no seu olhar.
Olga Agulhon – PR

Tua imagem refletida
no espelho de nosso quarto
mostra a saudade sentida,
que só contigo eu reparto…
Olga Ferreira – RS

Se todos fossem iguais,
o que seria da gente?
– Eu posso ser um a mais,
mas você é diferente
Raymundo Salles Brasil – BA

Sob a chuva ou sol, que abrasa,
como nos tempos antigos,
o portão da minha casa
não se fecha aos meus amigos!
Renato Alves – RJ

Um coração congelado
pega fogo, de repente,
quando o amor – fósforo alado,
risca faíscas na gente!….
Roza de Oliveira – PR

De manhã sou funcionária,
à tarde mãe e chofer,
cozinheira, secretária…
À noite, enfim, sou mulher!
Selma Patti Spinelli – SP

Do sonho compartilhado,
agora, somente resta
um convite, amarelado,
marcando o dia da festa…
Sérgio Ferreira da Silva – SP

Não me culpe se a partilha
da sorte lhe foi mesquinha.
Se a sua estrela não brilha,
não tente apagar a minha.
Thalma Tavares – SP

Este amor que, em vão, mascaro,
pois o estampo em rosto mudo,
em silêncio eu te declaro…
Sem palavras, digo tudo!
Thereza Costa Val – MG

A travessia é mais triste
se, no meio do caminho,
nossa esperança desiste
e a gente segue sozinho.
Therezinha Brisolla – SP

Causador da minha insônia,
motivo do meu sorriso,
sem nenhuma cerimônia
me transporta ao paraíso!
Vânia Ennes – PR

O homem vai, sem detença;
rompe os ares, vence espaços!…
A esperança é que ele vença
o desamor em seus passos.
Wagner Marques Lopes – MG

O tempo passou… e agora
já é mais que entardecer,
mas tua presença é aurora
na noite do meu viver.
Zeni de Barros Lana – MG

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José Feldman (Universo de Versos n. 46)


Uma Trova do Paraná

DARI PEREIRA – Maringá

Contra toda a malvadeza,
que causa tantos horrores,
em resposta, a natureza
vem cobrir o chão de flores!
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Aracaju/SE

SEVERINO UCHOA

Quem quiser ver a Esperança
olha uma noiva no altar
fite um rosto de criança,
repare uma mãe rezar!
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Sorocaba/SP

DOROTHY JANSSON MORETTI

Lembra o mar com suas águas
ao léu de ventos tristonhos,
um universo de mágoas
que arrasa a crista dos sonhos.
=======================
Uma Trova Humorística, de Belo Horizonte/MG

JOSÉ MACHADO BORGES

Do peixe, como eu dizia,
sem pretensão de iludi-los,
somente a fotografia
pesava mais de oito quilos!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

A minha sogra, assanhada,
no barracão da mangueira,
foi muito mais apalpada
do que laranja na feira!…
========================
Uma Trova Hispânica da Venezuela

HILDEBRANDO RODRÍGUEZ

La noche tiende la cama
como lógico remanso,
en madrugada que llama,
al cuerpo para el descanso
===================
Uma Trova Ecológica, de Sorocaba/SP

DOROTHY JANSSON MORETTI

Pelos meandros deslizando,
nada impede ao rio que siga,
enquanto viva  (até quando?)
a selva-mãe…  que o abriga.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ANTONIO SALLES – Paracuru/CE
1868 – 1940

Eis um médico fardado
-que perfeito matador!-
quem escapa do soldado,
não escapa do doutor…
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Estas Trovas foram sonhos
que um trovador já sonhou…
São uns farrapos tristonhos
de um grande amor que passou…
========================
Um Haicai de Alexandria/Egito

GIUSEPPE UNGARETTI
1888 – 1970

manhã
me ilumino
de imensidão
(tradução de Carlos Seabra)
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Parem

parem
 eu confesso
 sou poeta

cada manhã que nasce
 me nasce
 uma rosa na face

parem
 eu confesso
 sou poeta
só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta
======================
Uma Poesia de Fortaleza/CE

ELIEZER DEMENESES
1910 –
Poema à Amada Constante

Teus olhos estão lânguidos.
E nascem cardos e urzes no meu pensamento.
Teus lábios falam promessas e pedem consolo.
E sou a árvore muda destroçada pela tempestade do mar.
Me convidas para a viagem da tua ternura.
E me obstino em ignorar a tua presença compassiva,
em comer os frutos maus e amargos da terra,
em procurar o teu oposto e a tua negação,
quando tudo em mim arde por ti, minha paz e meu bálsamo.
Minha vida e meu chão estão cheios de cinzas, –
não manches a tua túnica límpida
pois quero-te assim branca e pura.
Meus ouvidos transbordam de gritos.
Minha garganta sufoca-se de brados.
E no meu mar interior
andam barcos de velas negras,
e feios pássaros de bico recurvo,
e é noite, sempre noite sobre as águas…

Espera,
que voltarei com meu lado melhor, redimido e teu.
========================
Uma Setilha de Crato/CE

ANILDA FIGUEIREDO

Estava olhando o mar
pus o teu nome na areia
a onda enciumada
apagou nu´a volta e meia
qualquer dia eu volto lá
pra contigo navegar
nos braços duma sereia.
========================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

ANA LUÍSA AMARAL
Espaços

 As nuvens não se rasgaram
nem o sol: só a porta
do meu quarto

A abrir-se noutras
portas dando para outros
quartos e um corredor ao fundo

Não havia janelas nem
silêncios: sinfonias por dentro
a rasgar o silencio

A porta do meu quarto
já nem porta: madeiramento
para o fogo
========================
Um Soneto de São Luiz/MA

VESPASIANO RAMOS
1884 – 1916
Soneto ( fatalidade ) 

                              
Desde esse instante, sem cessar, maldigo,
aquele instante de felicidade!
Para que tu vieste ter comigo,
meu amor, minha luz, minha saudade?!

Dês que te foste, foram-se contigo
todos os sonhos desta mocidade…
A tua vinda – fora-me um castigo;
a tua volta – uma fatalidade!

Dês que te foste, dentro em mim plantaste
a ânsia infinita dos desesperados
porque voltando, nunca mais voltaste…

Correm-me os dias de aflições, cobertos:
eu entrei para o amor de olhos fechados
e saí para a dor de olhos abertos!
========================
Uma Poesia de Longe

ANDRÉ BRETON – Tinchebray/França
1896 – 1966
Poema

Tenho na minha frente a fada de sal
cuja túnica recamada de cordeiros
desce até ao mar
Cujo véu pregueado
de queda em queda ilumina toda a montanha.

Ela brilha ao sol como um lustro de água iridiscente
E os pequenos oleiros da noite serviram-se das suas
unhas onde a lua não se reflecte
para moldar o serviço de café da beladona.

O tempo enrodilha-se miraculosamente detrás dos seus
sapatos de estrelas de neve
ao longo dum rasto perdido nas carícias
de dois arminhos.

Os perigos anteriores foram ricamente repartidos
e mal extintos os carvões no abrunheiro bravo das sebes
pela serpente coral que sem custo passa
por um delgado
filete de sangue seco
na lareira profunda
sempre sempre esplendidamente negra
Esta lareira onde aprendi a ver
e sobre a qual dança sem cessar
o crepe das costas das primaveras
Aquele que é necessário lançar muito alto para dourar
a mulher em cujos cabelos encontro
o sabor que perdera
O crepe mágico o sinete voador
do amor que é nosso.
(Tradução: Nicolau Saião)
========================
Um Poetrix de Belo Horizonte/MG

ANGELA TOGEIRO
solidão

Pela janela espio
O vazio do escuro da solidão da noite sem luas
Minha companhia.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Aparição amorosa

 Doce fantasma, por que me visitas
 como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
 Tua transparência roça-me a pele, convida
 a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
 um beijo recebeu de rosto consumido.

 Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
 mesma voz, mesmo timbre,
 mesmas leves sílabas,
 e aquele mesmo longo arquejo
 em que te esvaías de prazer,
 e nosso final descanso de camurça.

 Então, convicto,
 ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
 e continua existindo, puro som.
 Aperto… o quê? a massa de ar em que te converteste
 e beijo, beijo intensamente o nada.
 Amado ser destruído, por que voltas
 e és tão real assim tão ilusório?
 Já nem distingo mais se és sombra
 ou sombra sempre foste, e nossa história
 invenção de livro soletrado
 sob pestanas sonolentas.
 Terei um dia conhecido
 teu vero corpo como hoje o sei
 de enlaçar o vapor como se enlaça
 uma idéia platônica no espaço?

 O desejo perdura em ti que já não és,
 querida ausente, a perseguir-me, suave?
 Nunca pensei que os mortos
 o mesmo ardor tivessem de outros dias
 e no-lo transmitissem com chupadas
 de fogo aceso e gelo matizados.

 Tua visita ardente me consola.
 Tua visita ardente me desola.
 Tua visita, apenas uma esmola.
========================
UniVersos Melodicos

DONGA, LUIZ PEIXOTO e MARQUES PORTO
Canção dos infelizes (canção, 1930)

São as mulheres raízes
Com frontes muito elevadas
Umas são sempre felizes
Outras as mais desgraçadas

Há as que amam na vida
E as que só vivem amadas
Sofrem as mais esquecidas
Gozam as sempre lembradas

Eu que quis alguém que não me quis bem
Agora também não quero a ninguém
Dei meu amor, deixaram perder
Eu morro de dor, mas hei de esquecer

No coração das mulheres
Quando um amor se agasalha
Ou dá milhões de prazeres
Ou corta mais que navalha

Uma infeliz quando ama
Não há amor igual ao dela
Anda mais baixa que a lama
Ou sobe mais que uma estrela

Eu quis alguém
Que não me quis bem
Agora também não quero ninguém
Se meu amor, deixaram perder
Eu morro de dor, mas hei de esquecer
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda

A GATINHA PARDA

É uma roda de crianças, com uma no centro, de cócoras e olhos fechados, que é a gatinha. Cantam as da roda:

A minha gatinha parda,
Que em Janeiro me fugiu
Onde está minha gatinha,
Você sabe, você sabe, você viu ?

Depois, todas as meninas ficam de cócoras. A gatinha, ainda de cócoras, procura ticar na garota mais próxima, que deve miar, quando alcançada, para ver se a gatinha a conhece pelo miado. Se adivinhar será a gatinha seguinte.

Eu não vi sua gatinha,
Mas ouvi o seu miau
Quem roubou sua gatinha
Foi a bruxa, foi a bruxa pica-pau

Fonte: Rondas Infantis – Jangada Brasil 2002.
========================

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José Feldman (Universo de Versos n. 45)


 
Uma Trova do Paraná

CRISTIANE BORGES BROTTO – Curitiba

Falta de paz nos arrasa,
tal punhal cravado fundo…
Pois que a paz comece em casa
e se espalhe pelo mundo!       
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Santos/SP

WALTHER WAENY JUNIOR

Esquecer? Fica a lembrança,
por mais que dela eu me queixe
e vou perdendo a esperança
de que a esperança me deixe…
========================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Fidélis/RJ

ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG

Quero de novo aprender
para depois ensinar
como se deve viver
conjugando o verbo amar.
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

MARINA BRUNA

– Três frangos, polenta e vinho –
pede um gordo comilão.
– Comes tudo isso sozinho?!?!
– Não garçom, como com pão!
======================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Ao criar os Trovadores
onde o verso prolifera;
para adorná-lo com flores,
Deus criou a primavera!
========================
Uma Trova Hispânica da França

CARLOS IMAZ

 De sencillez Espartana,
 sin diferencia social
 la gran Samba se engalana,
 ¡de ser internacional!
===================
Uma Quadra Popular Portuguesa

Cantigas de portugueses
São como barcos no mar –
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.
========================
Trovadores que deixaram Saudades

ALCY RIBEIRO SOUTO MAIORES – Rio de Janeiro/RJ
1920 – 2006

Na minha doce ilusão,
 ser uma trova eu queria,
 aquela que tua mão
 sem tremer assinaria.
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Enfrentando tantas provas,
ao desenrolar dos anos,
]vou tirando da alma Trovas,
e enchendo-a de desenganos…
========================
Um Haicai de Cordisburgo/MG

GUIMARÃES ROSA
1908– 1967

verdes vindo à face da luz
na beirada de cada folha
a queda de uma gota
================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Parada cardíaca

 
essa minha secura
 essa falta de sentimento
 não tem ninguém que segure
 vem de dentrovem da zona escura
 donde vem o que sinto
 sinto muito
 sentir é muito lento.
======================
Uma Poesia de Mamanguape/PB

EDISON CEZAR DE CARVALHO
1918 –
Poema 

 

São mãos desconhecidas
Cortando a comprida cabeleira de nuvens alvas,
Parada para a minha contemplação.

Meus olhos adormecem.

E nesse instante branco de meu sonho
As minhas mãos se estendem para ele
Alcançam a sua cabeça secular
Afagam seus cabelos de fria luz.

Num instante, somente.
Começo da poesia,
Sentido de angústia.
========================
Sextilhas de Cordel, de Arapiraca/AL

CARLISSON GALDINO
Palito amigo de Freud
(sextilhas iniciais)

O meu nome não importa
Pois me chamam de Palito
Essa terrinha danada
Desde que eu nasci habito
Sou surfista dessa praia
Surfo até que a noite caia
Nesse pôr de Sol bonito

Tá ligado na parada
Lá da praia do Francês?
Você anda assim de jipe
Mais duas horas ou três
Com a praia acompanhando
E vai terminar achando
A praia do Pequinês

Perto da velha cidade
Chamada Nova Nemeia
Não está em nenhum mapa
Pode esquecer essa ideia
Tou falando, eu sou daqui!
Na praia eu sempre vivi
É uma praia bem véia

Sou surfista de pequeno
Não sei se cê tá ligado
Mas a praia é frequentada
Tenho um monte de chegado
Que nas ondas se exercita
Que você não acredita
É um povo procurado!

Aqui não tem telefone
A gente fala na cara
Carta só pra quem tá longe
Linha mesmo só na vara
Da turma que vai pescar
Mas é show esse lugar
E tem uma turma mara

Mas vou confessar um troço
Eu me amarro nisso aqui
A praia do Pequinês
É o canto onde eu nasci
Às vezes lá por abril
É que me dá um vazio
Dá vontade de partir
========================
Uma Poesia de Porto/Portugal

ANA HATHERLY
Pensar é encher-se de tristeza

 To think is to be full of sorrow
 J. Keats, Ode to a nightgale

 Pensar é encher-se de tristeza
 e quando penso
 não em ti
 mas em tudo
 sofro

 Dantes eu vivia só
 agora vivo rodeada de palavras
 que eu cultivo
 no meu jardim de penas

 Eu sigo-as
 e elas seguem-me:
 são o exigente cortejo
 que me persegue

 Em toda a parte
 ouço seu imenso clamor
========================
Um Soneto de Maceió/AL

VICÊNCIA JAMBO DA COSTA
1900 – 1950
Nas Asas do Vento 

                           
Helena sem os versos de Ronsard,
Beatriz sem Dante, Heloisa desprezada,
– é forçoso a mim mesma confessar! –
nunca serei a tua doce amada.

Dessa paixão que morre inconfessada,
– manhã de sol que em noite vai rolar –
não ficará uma canção truncada,
nem sequer uma frase hão de lembrar.

Mais feliz foi o amor, belo e proibido,
de Maria Nodier e o poeta Arvers,
pois transcendeu o sonho incompreendido

no soneto que o tempo não consome.
Mas, de nós dois: Quem saberá teu nome?
E indagará: “Quem foi essa mulher?”
========================
Uma Poesia de Longe

WILLIAM SHAKESPEARE- Stratford-upon-Avon/Inglaterra
1564 – 1616
Espelho não me Prova que Envelheço

 O espelho não me prova que envelheço
 Enquanto andares par com a mocidade;
 Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
 Já sei que a Morte a minha vida invade.

 Pois toda essa beleza que te veste
 Vem de meu coração, que é teu espelho;
 O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
 Por isso como posso ser mais velho?

 Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
 Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
 Levar teu coração, tão desvelado

 Qual ama guarda o doce infante, eu hei.
 E nem penses em volta, morto o meu,
 Pois para sempre é que me deste o teu.
========================
Um Poetrix de Rio Maina, Municipio de Criciúma/SC

ODETE RONCHI BALTAZAR
primavera

Arco-íris
caído
no meu jardim.
========================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Ao Amor Antigo

 O amor antigo vive de si mesmo,
 não de cultivo alheio ou de presença.
 Nada exige nem pede. Nada espera,
 mas do destino vão nega a sentença.

 O amor antigo tem raízes fundas,
 feitas de sofrimento e de beleza.
 Por aquelas mergulha no infinito,
 e por estas suplanta a natureza.

 Se em toda parte o tempo desmorona
 aquilo que foi grande e deslumbrante,
 a antigo amor, porém, nunca fenece
 e a cada dia surge mais amante.

 Mais ardente, mas pobre de esperança.
 Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
 e resplandece no seu canto obscuro,
 tanto mais velho quanto mais amor.
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UniVersos Melodicos

ZEQUINHA DE ABREU e PINTO MARTINS
Tardes de Lindóia (valsa, 1930)

 Tardes silenciosas de Lindóia
 Quando o sol morre tristonho
 Tardes em que toda a natureza
 Veste-se de véu, e de sonho

 Baixo os arvoredos murmurantes
 Da tênue brisa a soprar
 Anjinho dos sonhos meus
 Não sabes tu como é sublime contigo sonhar

 Longe lá no horizonte calmo
 As nuvens se incendeiam
 Num incêndio de luz
 Vibra e se exalta minh’alma

 Na sensação que a seduz
 Um plangente sino toca
-Chamando à prece a todos

 Os que ainda sabem crer
 Então eu sonho e creio
 Beijar tua linda boca
 Para acalmar o meu sofrer.
(Fonte: Cifrantiga)
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Uma Cantiga Infantil de Roda

ALCEU VALENÇA
A Foca
LP A Arca de Noé – 1980

   Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz.

Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.

Quer ver a foca
Comprar uma briga?
É espetar ela
Na barriga!

Lá vai a foca
Toda arrumada
Dançar no circo
Pra garotada.

Lá vai a foca
Subindo a escada
Depois descendo
Desengonçada.

Quanto trabalha
A coitadinha
Pra garantir
Sua sardinha.
(Fonte: Cifrantiga)
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José Feldman (Universo de Versos n. 44)

Uma Trova do Paraná

CAMILO BORGES NETO – Curitiba

Faixa, amigo, é garantia,
do pedestre ajuizado,
pra não ir parar um dia,
no hospital… Todo quebrado!

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Uma Trova sobre Esperança, de Juiz de Fora/MG

DINARTE BARBOSA ARMOND

Esperança – chama acesa
no coração a brilhar.
quando ela morrer, a tristeza
vem tomar o seu lugar
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Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Paulo/SP

SELMA PATTI SPINELLI

Quando me pego tristonho,
de pensamento disperso,
tiro um sonho de outro sonho,
vou passear no universo!
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Uma Trova Humorística, de Ribeirão Preto/SP

NILTON MANOEL

Leia a sorte, meu senhor!
– Que sorte tenho,cigana?
Mão de pobre professor
vive sem linhas e grana.
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

A pergunta é meio louca,
mas, conhecendo o roteiro;
quero é dar beijo na boca…
“Vida boa é de solteiro”!
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Uma Trova Hispânica de Porto Rico

ELENA GUEDE ALONSO

¡Vamos todos a bailar
que el merengue nos conquista
y a su música sin par
no hay nadie que se resista!
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Uma Quadra Popular Portuguesa

Aquela loura de preto
Com uma flor branca no peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.
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Trovadores que deixaram Saudades

SÓLON BORGES DOS REIS– Casa Branca/SP
1917 – 2007

O tempo não pára, escoa,
sim, o tempo não demora.
Há quem diga que ele voa
mas o certo é que evapora.
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Dura menos que um suspiro
ou como a folha que cai…
Mas quando penetra na alma,
a Trova fica… Não sai…
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Um Haicai

JANDIRA MINGARELLI

dia de sol –
até o canto do passarinho
tem cor
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
O mínimo do máximo

 Tempo lento,
 espaço rápido,
 quanto mais penso,
 menos capto.
 Se não pego isso
 que me passa no íntimo,
 importa muito?
 Rapto o ritmo.
 Espaçotempo ávido,
 lento espaço dentro,
 quando me aproximo,
 simplesmente me desfaço,
 apenas o mínimo
 em matéria de máximo
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Uma Poesia do Rio de Janeiro/RJ

DIRCEU QUINTANILHA
1918 – 1995
Poema do Arranha-Céu

Veste o vestido cor da noite,
Eu hoje vou embebedar-me de valsas
Para poder chorar…

Veste o vestido das noites
Sem estrelas.
Quero a pureza de uma dama antiga
Dentro de ti.
Dá-me amor, apenas.
O mais puro. O mais humano.
Quero sol na tua sensibilidade.

Eu hoje quero amar.’
Na ausência de todos os sonhos,
Aquela que tu foste…
A inocência do primeiro espanto.
E a queda no vazio
Na vertigem dos mundos descobertos…
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Uma Septilha de Batatais/SP

LEANDRO RAIMUNDINI

Meu corpo junto do seu
vira fonte de calor
que aquece meu coração
pois as chamas tem fervor
e assim seu quente beijo
realiza meu desejo
com o seu fogo do amor.
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Uma Poesia de Armamar, Alto Douro/ Portugal

AMÉRICO TEIXEIRA MOREIRA

Podemos dizer coisas enternecidas
diálogos de silêncios fugidios
frases quebradas na cumplicidade
de um tempo em fuga – imensa ternura
que nada brilhará mais no amor
que a voz inesgotável do corpo.
As palavras envelheceram no fingimento
– ácida angústia dos amantes
azul longo ardendo nas bocas
revelar ausência total do corpo.
Gesto da vida.
Chama de sangue.
Leve magia, submerso desejo
quando um frágil vazio
nos vem dizer pausa imensa.
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Um Soneto de Santos/SP

VICENTE AUGUSTO DE CARVALHO
1866 – 1924
Soneto (alma serena) 

Alma serena e casta, que eu persigo
com o meu sonho de amor e de pecado,
abençoada seja, abençoado
o rigor que te salva, e é meu castigo.

Assim desvies sempre do meu lado
os teus olhos; nem ouças o que eu digo;
e assim possa morrer, morrer comigo,
esse amor, criminoso e condenado.

Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito
uma ventura obtida com teu dano,
bem meu, que de teus males fosse feito.

Assim penso, assim quero, assim me engano…
Como se não sentisse que, em meu peito
pulsa o covarde coração humano! . . .
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Uma Poesia de Longe

WILLIAM SHAKESPEARE- Stratford-upon-Avon/Inglaterra
1564 – 1616
Há quem diga

 Há quem diga que todas as noites são de sonhos…
 Mas há também quem diga nem todas…
 Só as de verão…
 Mas no fundo isso não tem muita importância…
 O que interessa mesmo não são as noites em si…
 São os sonhos…
 Sonhos que o homem sonha sempre…
 Em todos os lugares, em todas as épocas do ano…
 Dormindo ou acordado…
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Um  Poetrix do Rio de Janeiro/RJ

ELIANA MORA
furo de reportagem

De mim sou fato
notícia que não deu
no teu jornal
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
O Amor Bate na Aorta

 Cantiga de amor sem eira
 nem beira,
 vira o mundo de cabeça
 para baixo,
 suspende a saia das mulheres,
 tira os óculos dos homens,
 o amor, seja como for,
 é o amor.

 Meu bem, não chores,
 hoje tem filme de Carlito.

 O amor bate na porta
 o amor bate na aorta,
 fui abrir e me constipei.
 Cardíaco e melancólico,
 o amor ronca na horta
 entre pés de laranjeira
 entre uvas meio verdes
 e desejos já maduros.

 Entre uvas meio verdes,
 meu amor, não te atormentes.
 Certos ácidos adoçam
 a boca murcha dos velhos
 e quando os dentes não mordem
 e quando os braços não prendem
 o amor faz uma cócega
 o amor desenha uma curva
 propõe uma geometria.

 Amor é bicho instruído.

 Olha: o amor pulou o muro
 o amor subiu na árvore
 em tempo de se estrepar.
 Pronto, o amor se estrepou.
 Daqui estou vendo o sangue
 que corre do corpo andrógino.
 Essa ferida, meu bem,
 às vezes não sara nunca
 às vezes sara amanhã.

 Daqui estou vendo o amor
 irritado, desapontado,
 mas também vejo outras coisas:
 vejo beijos que se beijam
 ouço mãos que se conversam
 e que viajam sem mapa.
 Vejo muitas outras coisas
 que não ouso compreender.
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UniVersos Melodicos

CHIQUINHA GONZAGA, LUIZ PEIXOTO e HECKEL TAVARES
Casa de caboclo (canção, 1929)

Os versos desta canção “Numa casa de caboco / um é pouco / dois é bom / três é demais”, consagraram-se como um verdadeiro dito popular. Este fato, por si só, comprova a grande popularidade alcançada pela composição, que tornou conhecido o seu lançador, o então jovem cantor Gastão Formenti.
Autores de “Casa de Caboclo”, Hekel Tavares e Luiz Peixoto acabaram inspirando, juntamente com Joubert de Carvalho, uma onda de canções sobre motivos sertanejos, que proliferou no final dos anos vinte. Como acontece muitas vezes a músicas de sucesso, houve à época do lançamento quem considerasse “Casa de Caboclo” plágio de um tema de Chiquinha Gonzaga, levando a discussão aos jornais. Daí a informação que figura em algumas de suas regravações: “Canção baseada em motivos de Chiquinha Gonzaga”.

Você tá vendo essa casinha simplesinha
Toda branca de sapê
Diz que ela vIve no abandono não tem dono
E se tem ninguém não vê

Uma roseira cobre a banda da varanda
E num pé de cambuçá
Quando o dia se alevanta Virge Santa
Fica assim de sabiá

Deixa falá toda essa gente maldizente
Bem que tem um moradô
Sabe quem mora dentro dela Zé Gazela
O maió dos cantadô

Quando Gazela viu siá Rita tão bonita
Pôs a mão no coração
Ela pegou não disse nada deu risada
Pondo os oinho no chão

E se casaram, mas um dia, que agonia
Quando em casa ele voltou
Zé Gazela via siá Rita muito aflita
Tava lá Mané Sinhô

Tem duas cruz entrelaçada bem na estrada
Escrevero por detrás:
“Numa casa de caboclo um é pouco
Dois é bom, três é demais”
(Fonte: Cifrantiga)
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Uma Cantiga Infantil de Roda

TOM JOBIM & VINICIUS DE MORAES-
A cachorrinha – LP A Arca de Noé 2 – 1981

   Mas que amor de cachorrinha!
Mas que amor de cachorrinha!
Pode haver coisa no mundo
Mais branca, mais bonitinha
Do que a tua barriguinha
Crivada de mamiquinha?

Pode haver coisa no mundo
Mais travessa, mais tontinha
Que esse amor de cachorrinha
Quando vem fazer festinha
Remexendo a traseirinha?

Uau, uau, uau, uau!
Uau, uau, uau, uau!
Uau, uau, uau, uau!
(Fonte: Cifrantiga)
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José Feldman (Universo de Versos n. 43)

Uma Trova do Paraná

APOLLO TABORDA FRANÇA – Curitiba

Saudade não tem idade
e do amor é conseqüência…
Dá-nos carga de ansiedade,
coração em turbulência!
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Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

EDGAR BARCELOS CERQUEIRA

A esperança é como um sopro
de vida, dado por Deus.
é o dia, depois da noite,
é a volta, depois do adeus.
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Uma Trova Lírica/ Filosófica do Distrito Federal

ANTÔNIO CARLOS TEIXEIRA PINTO

Fibra, amor, eu tive um dia:
Foi triste a separação…
– apertei-te a mão vazia
e enchi de adeus minha mão!
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Uma Trova Humorística, de Ribeirão Preto/SP

RITA M.MOURÃO

De minissaia,acoroa
tenta a sorte… lá na praça.
De longe alguém diz: – “É boa…
Mas de perto… assusta a caça.
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca fez chover prantos
nos olhos dos nordestinos!
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Uma Trova Hispânica da Venezuela

CARLOS RODRIGUEZ SANCHEZ

Que no me toquen merengue
si en la iglesia voy a estar;
pues aunque el cura me arengue,
voy a tener que bailar.
===================
Uma Quadra Popular Portuguesa

Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranqüilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!
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Trovadores que deixaram Saudades

DELMAR GERALDO BARRÃO – Rio de Janeiro/RJ
1916 – ????

Talvez eu fosse feliz
se conseguisse esquecer
o bem que pude e ‘não fiz,
o mal que fiz sem querer.
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Digo tudo sem receio…
Sei amor que não aprovas.
Meu coração retalhei-o
e, de pedaços, fiz Trovas…
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Um Haicai de Itabira /Minas Gerais

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O senhor cultiva
epigramas?
Não, só a grama do meu jardim.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Lápide 2

 epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
 mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces
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Uma Poesia de São Paulo/SP

JOÃO DA ILHA
(Ciro Vieira da Cunha)
1897 – 1976
Variações  Sobre a Saudade

Saudade! teu olhar longo e macio
Derramando doçura em meu olhar…

Um bocado de sol sentindo frio,
Uma estrela vestida de luar…

Saudade! pobre beijo fugidio
Que tanto quis e não cheguei dar…
A mansidão inédita de um rio
Na volúpia satânica do mar…

Saudade! o nosso amor… o teu afago…
O meu carinho… o teu olhar tão lindo…
Um pedaço de céu dentro de um lago…

Saudade! um lenço branco me acenando…
Uma vontade de chorar sorrindo,
Uma vontade de sorrir chorando
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Uma Septilha

ANÍZIO

Poeta não se encontra
Poeta não tem pra se achar
Poeta é joia polida
Dificil de se encontrar
Não tem como se fazer
Nem mesmo tem pra vender
Se tiver não prestará.
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Uma Poesia de Viana do Castelo, Costa Verde/Portugal

AMADEU TORRES
Proesemar Facilidades

 Métrica, rima, ritmos, a parafernália
 Usual, secular caiu de escantilhão
 Nalguns, acaso e sorte tentam ritmaçào,
 Mas os versos protestam como em represália.

Prosa e verso já calçam a mesma sandália
 E aplaudem Mallarmé só por embirraçâo
 Co´a diferença e leis de discriminação,
 Não obstante as lições da Fonte de Castália.

 Mas quem quer lição hoje de outrem, afinal,
 Se o raso quer assentar praça em general
 E o poetrasto bisonho é Camões em Constância?

 Fazem-me rir a crítica e a sua bitola:
 Muita vez, não se sabe quem lidera a bola,
 Se a amizade, a nesciência, a cor, a petulância.
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Um Soneto de Santos/SP

VICENTINA MESQUITA DE CARVALHO
1890 – 1955
 Soneto X ”

                
Houve quem me dissesse: – “A minha vida
depende só do que você me der”.
E eu, femininamente distraída,
nada lhe dei, nem prometi sequer.

De outros ouvi a frase sempre ouvida:
“Meu amor será seu quando quiser…”
Mas deixaram apenas comovida
minha tola vaidade de mulher.

Depois, mais tarde, alguém, indiferente,
passou por mim, e, desvairada e cega,
segui em seu encalço, inutilmente…

E, desde então, minha alma não sossega
e vive da esperança, tão somente,
de um pouco desse amor que ele me nega.
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Poesia de Longe

WILLIAM CARLOS WILLIAMS – Nova Jersey/EUA
1883 – 1963
O Lavrador

 
Perdido em pensamentos o
 lavrador passeia sob a chuva
 por seus campos vazios, mãos
 nos bolsos,
 na cabeça
 a colheita já plantada.
 Um vento frio vem encrespar a água
 entre as ervas tostadas.
 Por toda parte
 o mundo rola friorento para longe:
 negros pomares
 escurecidos pelas nuvens de março –
 deixando espaço livre aos pensamentos.
 Lá embaixo, além da galharia
 rente
 ao carreiro encharcado de chuva
 assoma a figura artista do
 lavrador – compondo
 – antagonista

Tradução: José Paulo Paes
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Um Poetrix do Rio de Janeiro

LILIAN MAIAL
semeando

Para plantar,
Na terra a pá cava,
No livro a pa lavra.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Amar

 
Que pode uma criatura senão,
 entre criaturas, amar?
 amar e esquecer,
 amar e malamar,
 amar, desamar, amar?
 sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
 sozinho, em rotação universal, senão
 rodar também, e amar?
 amar o que o mar traz à praia,
 o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
 é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
 o que é entrega ou adoração expectante,
 e amar o inóspito, o cru,
 um vaso sem flor, um chão de ferro,
 e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
 de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
 distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
 doação ilimitada a uma completa ingratidão,
 e na concha vazia do amor a procura medrosa,
 paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
 amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
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UniVersos Melodicos

JOUBERT DE CARVALHO e OLEGÁRIO MARIANO
Tutu Marambá (canção, 1929)

 
Em 1929 Joubert de Carvalho mostrou para Olegário Mariano as melodias para dois poemas seus, o Cai, cai, balão e Tutu Marambá, gravadas por Gastão Formenti, dando início a uma parceria de 24 composições. (Cifrantiga)

Tutu Marambá não venhas mais cá
Que o pai do menino te manda matar…

No seu berço de renda
Com brocardo de oiro
Os olhinhos redondos
De tanta alegria!
Ele olha a vida
Como quem olha um tesoiro
Meu filho
É o mais lindo dessa freguesia!

O filho da coruja
A boquinha em rosa
A mãozinha suja
Com os dedinhos gordos
Já dá adeus!

Fala uma língua que ninguém compreende
Toda a gente que o vê se surpreende
Tão bonitinho
Benza Deus!

É redondo
Como uma bola
O seu polichinelo
Como um grande riso
A única cousa que o consola:
Meu filho é o meu melhor sorriso…

De noite clara
Anda lá fora
O luar entra no quarto mais lindo
Com a expressão angélica de beijar
Ronda o berço
O menino está dormindo
Então a vó de maldizente
Vai cantando no finalmente:

Tutu Marambá não venhas mais cá
Que o pai do menino te manda matar…
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Uma Cantiga Infantil de Roda

VINÍCIUS DE MORAES/TOQUINHO
A Aula de Piano
(LP A Arca de Noé – 1980)

Depois do almoço na sala vazia
A mãe subia pra se recostar
E no passado que a sala escondia
A menininha ficava a esperar
O professor de piano chegar
E começava uma nova lição
E a menininha, tão bonitinha
Enchia a casa feito um clarim
Abria o peito, mandava brasa
E solfejava assim

Ai, ai, ai
Lá, sol, fá, mi, ré
Tira a mão daí
Dó, dó, ré, dó, si
Aqui não dá pé
Mi, mi, fá, mi, ré
E a agora o sol, fá
Pra lição acabar

Diz o refrão quem não chora não mama
Veio o sucesso e a consagração
E finalmente deitaram na fama
Tendo atingido a total perfeição
Nunca se viu tanta variedade
A quatro mãos em concertos de amor
Mas na verdade, tinham saudade
De quando ele era seu professor
E quando ela menina e bela
Abria o berrador
(Fonte: Cifrantiga)
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José Feldman (Universo de Versos n. 42)

Uma Trova do Paraná

ARLENE LIMA – Maringá

Lavrador, ao fim do dia,
após a lida no chão,
tua enxada rodopia
celebrando a produção!
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Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro

APARÍCIO FERNANDES

Pensando, na tarde calma,
logo me ocorre à lembrança
que a própria vida tem alma,
e a alma da vida é a esperança!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica de Nova Friburgo/RJ

ELISABETH SOUZA CRUZ

Qualquer que seja o motivo
que a razão nos tente impor,
não se passa o corretivo
quando um erro é por amor.
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Uma Trova Humorística, de Belo Horizonte/MG

MARIA DOLORES PAIXÃO LOPES

Um fantasma apaixonado,
disse à fantasma, no além:
me esquenta que estou gelado!
– Estou gelada também!…
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

A “solidão” me parece,
ser um conforto sem fim…
quando um grande amor me esquece;
“Ela” se lembra de mim.
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Uma Trova Hispânica do Japão

JAVIER FERNANDO GARCIA PÁSARA

Como un arreglo floral
le das color a mis letras,
calor y punto final
como el Sol mi obra penetras.
===================
Uma Quadra Popular Portuguesa

Santo Antônio de Lisboa
Era um grande pregador
Mas é por ser Santo Antônio
Que as moças lhe têm amor.
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Trovadores que deixaram Saudades

LUIZ SIMÕES JESUS – Guarapari/ES
1916 – 1993

Tu me chamaste de louco,
 mágoa nenhuma eu senti:
 – de fato o juízo é pouco
 de quem tem paixão por ti.
========================
Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

A Trova tomou-me inteiro,
tão amada e repetida,
que agora traça o roteiro
das horas da minha vida!…
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Um Haicai

OLIVIA ICEBERG

passarinha na mão
no sofá estendida
ronrona emoção
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Lápide 1

 epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
 Nada deixou escrito.
 Este silêncio, acredito,
 são suas obras completas.
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Uma Poesia de São Vicente/SP

CID SILVEIRA
1910 – ????
Elvira 

(Este crepúsculo espanta; .
o sol desfaz-se em estilhas
contra o dia que findou.)

Na rua, a menina canta:
– Quero uma de vossas filhas,
mato a tiro, tirorô.

(Passam duas sombras juntas,
de caminho para a igreja,
que a reza já começou.)
Fazem-se então as perguntas;
– Mas qual o senhor deseja,
– mato a tiro, tirorô?

(Luzes acendem-se. Em cada
luz, a mariposa gira,
na vertigem do seu vôo.)
Vem a resposta esperada:
– Eu quero a menina Elvira,
mato a tiro, tirorô.

(Surge o vulto venerando,
no peitoril da janela,
de um homem grave, um avô. )
E todos estão cantando:
– Mas que oficio dá pra ela,
mato a tiro, tirorô?

(Eis que um garoto se esconde;
quer ver melhor os sapatos
que o pai hoje lhe comprou.)
E a voz fraquinha responde:
– Dou oficio de lavar pratos,
mato a tiro, tirorô.

(Longe das outras, na esquina,
a menina delicada
põe-se a jogar diabolô.)
Responde a mesma voz fina:
– Esse oficio não lhe agrada,
mato a tiro, tirorô.
…………………………………………………………….
Passa o tempo. O mundo vira!
Penso na Elvira, coitada,
que nunca pratos lavou.
Porque… (coitada da Elvira… )
– é melhor não dizer nada –
mato a tiro, tirorô…
========================
Sextilhas de Carpina/PE

CARLOS AIRES
Esse é o Verdadeiro Amor!!!

Igual a qualquer poeta
Sou um mero sonhador
Que vagamente viaja
Nesse mundo encantador.
Passo a descrever belezas
E encantos que tem o amor

É tão nobre esse primor
Em seu grau de proporção
Acende a luz do desejo
Supera a voz da razão
E tem que ser bem guardado
Nos cofres do coração.

Pelo amor a Nação
Um jovem vai para guerra
Em favor da pátria amada
A sua vida se encerra
E assim é condecorado
Herói defensor da terra.

Eu amo meu Pé-de-Serra
Gestor dos meus ideais
A minha esposa e meus filhos
Eu prezo e amo de mais.
Amo a Deus e a natureza
A meus irmãos e meus pais

São amores fraternais
Os que aqui foram citados.
Mas vamos falar agora
Dos casais de namorados
Que numa troca de olhares
Ficam logo apaixonados

A atração dos dois lados
Vira um amor definido
No coração do casal
Logo que for atingido
E fatalmente crivado
Pela flecha de cupido

Entre mulher e marido
O amor é fundamental
É aí quando se atinge
O ponto mais crucial
Já não é só atrativo
Passa a ser amor carnal

Pra quem é sentimental
O amor é plena ternura
Mas existe o amor sádico
Que se transforma em tortura
Com seus gestos alterados
Que mais parece loucura

O amor se configura
De maneira especial
Esse dom vindo dos pais
É o puro amor paternal
E sendo a Deus representa
A grandeza Divinal

O amor é fenomenal
Não tem raça credo ou cor
Não tem pátria ou preconceito
Não quer “poder” nem “valor”
Só causa enlevo pra alma
Esse é o verdadeiro amor!
========================
Uma Poesia de Lisboa/Portugal

ALEXANDRE O’ NEILL
(Alexandre Manuel Vahia de Castro O´Neill de Bulhões)
1924 – 1986
Ao Rosto Vulgar dos Dias

 Monstros e homens lado a lado.
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

Ao rosto vulgar dos dias,
À vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.
========================
Um Soneto de Campos/RJ

VILMAR RANGEL
1937 –
Soneto do Amor Demais

 
Não sei conter o fogo desta chama,
este amor que me queima, cega e fere,
que não cabe em si mesmo e se transfere
a tudo que o rodeia, e tudo inflama;

é como estranha dor que se derrama
pelo corpo, pela alma, e com seu dente
vibra golpes de um gozo longo e ardente
e envolve de ternura aquele que ama;

tão numeroso amor, doido e sublime,
que a mais sábia palavra não define,
que canta, chora e morre de ciúme;

amor demais, total e delirante,
que só sossega, amor, se em ti reúne
a um tempo esposa, mãe, amiga e amante.
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Uma Poesia de Longe

WILLIAM BLAKE – Londres/Inglaterra
1757 – 1827
O Jardim do Amor

 Tendo ingressado no Jardim do Amor,
 Deparei-me com algo inusitado:
 Haviam construído uma Capela
 No meio, onde eu brincava no gramado.

E ela estava fechada; “Tu não podes”
 Era a legenda sobre a porta escrita.
 Voltei-me então para o Jardim do Amor,
 Onde crescia tanta flor bonita,

E recoberto o vi de sepulturas
 E lousas sepulcrais, em vez de flores;
 E em vestes negras e hediondas os padres faziam rondas,
 E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.

Tradução de Regina de Barros Carvalho
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Um Poetrix de Porto Alegre/RS

ALICE DANIEL
acordes

Se eu fosse um violão
queria a tua mão
tocando Lá, sem Dó

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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Acordar, Viver

 Como acordar sem sofrimento?
 Recomeçar sem horror?
 O sono transportou-me
 àquele reino onde não existe vida
 e eu quedo inerte sem paixão.

 Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
 a fábula inconclusa,
 suportar a semelhança das coisas ásperas
 de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

 Como proteger-me das feridas
 que rasga em mim o acontecimento,
 qualquer acontecimento
 que lembra a Terra e sua púrpura
 demente?
 E mais aquela ferida que me inflijo
 a cada hora, algoz
 do inocente que não sou?

 Ninguém responde, a vida é pétrea.
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UniVersos Melodicos

PIXINGUINHA e VINÍCIUS DE MORAES
Lamentos (choro, 1928)

 Morena tem pena
 Mas ouve o meu lamento
 Tento em vão
 Te esquecer

Mas olha, o meu tormento
 É tanto, que eu vivo em pranto,
 Sou todo infeliz
 Não há coisa mais triste, meu benzinho,
 Que este chorinho que eu te fiz

 Sozinho, morena
 Você nem tem mais pena
 Ai, meu bem
 Fiquei tão só
 Tem dó, tem dó de mim
Porque estou triste assim

 Por amor de você
 Não há coisa mais linda neste mundo
 Que o meu carinho por você
 Meu amor, tem dó
 Meu amor, tem dó
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Uma Cantiga Infantil de Roda

A ÁRVORE DA MONTANHA
1958

 Refrão:
A árvore da montanha / Olê aí a ô (4x)

Nesta árvore tem um galho
Ó que galho!
Belo galho!
Ai ai ai que amor de galho
O galho da árvore

Neste galho tem um ninho
Ó que ninho!
Belo ninho!
Ai ai ai que amor de ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Neste ninho tem um ovo
Ó que ovo!
Belo ovo!
Ai Ai Ai que amor de ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Neste ovo tem um pássaro
Ó que pássaro!
Belo pássaro!
Ai ai ai que amor de pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Nesse pássaro tem uma pena
Ó que pena!
Bela pena!
Ai ai ai que amor de pena
A pena do pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Nessa pena tem uma flecha
Ó que flecha!
Bela flecha!
Ai ai ai que amor de flecha
A flecha da pena
A pena do pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Nessa flecha tem uma fruta
Ó Que fruta!
Bela fruta!
Ai ai ai que amor de fruta
A fruta da flecha
A fecha da pena
A pena do pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore

Nessa fruta tem uma árvore
Ó Que árvore!
Bela árvore!
Ai ai ai que amor de árvore
A árvore da fruta
A fruta da flecha
A flecha da pena
A pena do pássaro
O pássaro do ovo
O ovo do ninho
O ninho do galho
O galho da árvore
(Fonte: Cifrantiga)

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José Feldman (Universo de Versos n. 41)

Uma Trova do Paraná

CECILIANO JOSÉ ENNES NETO – Curitiba

Quem só pensa na riqueza
nunca vê o tempo passar… 
A vida só tem beleza
quando é usada para amar!
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Uma Trova sobre Saudade, de Pedro Leopoldo/MG

WAGNER MARQUES LOPES

Ciência, com todo brio,
não entende esta verdade:
por ser pleno… E tão vazio
um momento de saudade.
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Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Paulo/SP

MARINA BRUNA

Pessoas que, na ilusão,
cantam virtudes sem tê-las,
são como as poças do chão
que pensam conter estrelas…
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Uma Trova Humorística, de Juiz de Fora/MG

ALOYSIO ALFREDO DA SILVA

Era tão feio o coitado,
que numa noite de lua,
fez um fantasma assustado,
ficar tremendo na rua.
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO  – Natal/RN
1951 – 2013

As rosas tem seus floridos
que a “natura” se apodera,
dando beijos coloridos
no rosto da primavera!
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Uma Trova Hispânica da Espanha

CARMEN PATIÑO FERNÁNDEZ

Como dos leños ardientes
Tu serás llama, y yo astilla
Seremos dos afluentes
De un río en la misma orilla
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Trovadores que deixaram Saudades

JOUBERT DE ARAÚJO SILVA – Cachoeiro do Itapemirim/ES
1915 – 1993

Aliança é um elo sagrado,
 mas quando o amor morre cedo,
 lembrando um sonho acabado,
 é um zero enfeitando o dedo…
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
1916-1977

A trova, quando perfeita,
três reações pode causar:
a gente ri… ou suspira,
ou então, fica a pensar…
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Um Haicai de São Paulo/SP

EDSON KENJI IURA

Procurando pouso
Na rua movimentada,
Borboleta aflita
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
Desencontrários

 Mandei a palavra rimar,
 ela não me obedeceu.
 Falou em mar, em céu, em rosa,
 em grego, em silêncio, em prosa.
 Parecia fora de si,
 a sílaba silenciosa.mandei a frase sonhar,
 e ela se foi num labirinto.

Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
 Dar ordens a um exército,
 para conquistar um império extinto.

nunca sei ao certo
 se sou um menino de dúvidas
 ou um homem de fécertezas o vento leva
 só dúvidas ficam de pé
======================
Uma Trova Ecológica, de São Paulo/SP

DARLY O. BARROS

Retumbante, a voz do rio
ergue-se, em tributo ao povo
que, abraçou o desafio
de ouví-lo, cantar…de novo…
===================
Uma Poesia de Porto/ Portugal

ALBERTO PIMENTA
Elegia

 já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
quer nada seja o que era
e se assim é
ou  já não é
seja ou não seja
=================================
Sextilhas de Porto Velho/RO

JERSON BRITO
A Sextilha na Literatura de Cordel

Eu peço sua licença
Pra falar da estrutura
Do cordel, tão lindo estilo
Dentro da literatura
Sou fã incondicional
Dessa popular cultura

A estrofe se costura
Com a metrificação
Com rimas muito perfeitas
E também com oração
Eu vou falar da sextilha
Preste bastante atenção

Ressalto, de antemão
Quadra foi utilizada
Estrofe de quatro versos
Hoje é pouco propagada
A de cinco, a quintilha
Está quase abandonada

A sextilha aqui citada
É usada largamente
Por diversos escritores
De nossa amada vertente
É estrofe de seis versos
É fácil, amigo tente

O que se vê comumente
No tocante ao seu esquema
É usar uma só rima
Que não tem qualquer problema
Basta ter inspiração
E escolher bem o tema

No seu mais simples sistema
Dessa forma é feito o texto:
Só rimam os versos pares
O segundo, quarto e sexto
Os demais ficam sem rima
Pra errar não tem pretexto

Sem sair desse contexto
A sextilha usei aqui
Um troço chamado “deixa”
Nestas linhas eu segui
Esclareço, sem demora
Como a obra construí

Meu perdão se confundi
Eu explico, meu leitor
“Seguindo a deixa” peguei
Da estrofe anterior
O seu verso derradeiro
E rimei c’o sucessor

É preciso ainda expor
Na sextilha são cabíveis
Esquemas outros, distintos
São nessa estrofe plausíveis
Estão à disposição
Alternativas incríveis

Dentre todos os possíveis
Do tal “aberto” tratei
Com rimas nos versos pares
Conforme já mencionei
Inclusive foi com ele
Qu’este texto elaborei

Há vários outros, eu sei
De mais dois apenas trato
O “fechado” é atrativo
Pro amigo literato
Não conhece, nunca viu?
A charada agora eu mato

As rimas pares, é fato
Entre si são combinadas
Primeira, terceira e quinta
Hão de ser também rimadas
Vou mudar o esquema agora
Para mostrar as danadas

As rimas são colocadas
Todas no lugar devido
Sonoras, sintonizadas
Fazem bem pro nosso ouvido
As palmas são variadas
O poeta é sempre lido

Outro esquema permitido
É chamado de “corrido”
Eita, que mudei de novo!
Foi somente pra mostrar
Como se pode criar
Uma estrofes dessas, povo

Assim, acho que promovo
O cordel, minha paixão
Espero, sim, ter cumprido
Mais uma boa missão
Se gostaram, agradeço
Até mais, um abração!
========================
Uma Poesia do Rio de Janeiro/RJ

CARLOS HEITOR CONY
Poema das 3 horas da Madrugada  

 
Volto do baile sozinho com meus pensamentos.
A noite esta úmida como um lábio de mulher.
Na rua deserta, os trilhos conversam em silencio,
E as luzes rebrilham de manso
Nas poças d’água.

Eu caminho sozinho com meus pensamentos.
Ougo, apenas, o barulho dos meus passos.
E vou seguindo pela rua escura
Como um cão nômade e vagabundo.

Passo, sem querer, pela rua onde moras.
As poças d’água refletem as lâmpadas tristonhas.
Uma laranja abandonada na sarjeta,
Apodrece sem sentir . . .

Nao sei porque,
Senti inveja da laranja podre . . .
Talvez, tu mesmo a devoraste
Sequiosa do sabor daquela fruta…
E aquele gomo que fenece corrompido,
Cheio de mosquito,
Teve a ventura extrema de roubar
Dos lábios teus a sensação primeira …

Aquela casa que dorme como uma velha exausta
Tem, para mim, um prazer angustioso.
Nela tu dormes. Vejo a vil janela
Que me esconde, emudecida e fechada,
A visão do teu corpo em desalinho…

Aquela samambaia
Ali na varanda,
Recebe todo o dia
A benção singular
Do teu carinho de menina doce…
Que pena não poder ser uma samambaia …

Um bonde passa, em ponto nove,
Ligeiro e deserto, fazendo barulho.
E eu vou embora …

Pela noite úmida como um lábio de mulher,
Sentindo inveja de uma porção de coisas.
Eu sigo sozinho com meus pensamentos…
============================
Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ

VINICIUS DE MORAES
1913 – 1980
Soneto de Inspiração 

Não te amo como uma criança, nem
como um homem e nem como um mendigo,
amo-te como se ama todo o bem
que o grande mal da vida traz consigo.

Não é nem pela calma que me vem
de amar, nem pela glória do perigo
que me vem de te amar, que te amo;
digo antes que por te amar não sou ninguém.

Amo-te pelo que és, pequena e doce
pela infinita inércia que me trouxe
a culpa de te amar – soubesse eu ver

através tua carne defendida
que sou triste demais para esta vida
e que és pura demais para sofrer.
=======================
Uma Poesia de Longe

WALLACE STEVENS – Readin,Pensylvania/EUA
1879 – 1955
O homem da neve

 É preciso uma mente de inverno
 Para olhar a geada e os ramos
 Dos pinheiros cobertos pela nevada

 E há muito tempo fazer frio
 Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
 Os abetos ásperos no brilho distante

 Do sol de janeiro; e não pensar
 Em qualquer miséria no som do vento,
 No som de umas poucas folhas

 Que é o som da terra
 Cheia do mesmo vento
 Que sopra no mesmo lugar vazio

 Para alguém que escuta, escuta na neve,
 E, ausente, observa
 Nada que não está lá e o nada que é.

 (tradução de Paulo Venâncio Filho)
===================
Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ

ISRAEL DOS SANTOS
a carta

Li em gotas,
Tantas que borraram
Final que me descarta.
===============
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 – 1987
Versos de Deus

I

Ao sentir nos pássaros
tanta liberdade
e aéreo poder,
imagina um pássaro
superior a todos
e tão invisível
que seu vôo deixe
sensação de sonho.
Com leveza e graça
o homem pensa Deus.

II

No mais alto ramo
Deus está pousado
com uma garra apenas
e fita o mundo.
Do mais alto ramo
desfere vôo
e sai por aí
bicando as coisas,
indiferente às coisas
bicadas,
encantadas.

III

Bica-me Deus
de manso nos olhos,
antes referência
que repreensão.
Alisa o bico
no local. E dói.
Ao sumir crocita:
“Hoje te perdôo.”
O que Deus perdoa,
só o sabe Deus.

IV

Deus rumina
que fazer, acaso.
Mais um terremoto?
De que proporções?
Uma nova guerra?
De quantas nações?
Que margem ceder
ao capricho do homem?
Vai nascer um artista?
Nascerão idiotas?
Surgirão robôs?

V

Ao findar o tempo
tudo se acomoda
à sua vontade.
Já não há projeto
de outro Deus ou vários.
Laços entrançados,
gemidos, crepúsculo
sempre continuado.
O homem arrependo-me
da criação de Deus,
mas agora é tarde.
============================
UniVersos Melodicos

LAMARTINE BABO e GONÇALVES DE OLIVEIRA
Os Calças Largas (marcha/carnaval, 1927)

A primeira marchinha de Lamartine gravada, foi a divertida “Os Calças-Largas”, em que o compositor debochava dos rapazes que usavam calças boca-de-sino. Em 1937, com a censura imposta pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, carnavalescos irreverentes como Lamartine Babo ficaram proibidos de utilizar a sátira em suas composições. Sem a irreverência costumeira, as marchinhas não foram mais as mesmas. (Cifrantiga)

Acho graça dessa gente convencida
 Passeando na Avenida
 Passeando na Avenida

 Quando passa uma linda criatura
 Ficam todos na secura
 Ficam todos na secura

 Essa gente de jaquetas bem curtinhas
 Tem a cara bonitinha
 Tem a cara bonitinha

 Oh! Que turma esquisita e encrencada
 Calça larga bem folgada
 Rastejando na calçada

 Vem, meu bem
 Que os calças largas
 Não te podem sustentar
 Sem vintém
 Almoçam brisas
 E à noite vão dançar

 Lá na casa de um doutor na Piedade
 Foi uma calamidade
 Foi uma calamidade

 Da tal gente estava a sala infestada
 Minha capa foi furtada
 Minha capa foi furtada

 Do tal charleston é bom não se falar
 Faz lembrar peru de água
 Quando a gente o quer matar

 E os bonecos artificiais são concorrentes
 Lá da Praça Tiradentes
 Lá da Praça Tiradentes
==========

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