Arquivo da categoria: Moji-Guaçu

Olivaldo Júnior (Último Lampejo)

Quando se atravessa um deserto, espera-se encontrar um oásis. Ou não.

Uma lâmpada

Ficou acesa, quando devia ter ficado apagada.
Apagou-se, quando devia ter ficado candente.

Uma lâmpada, uma lâmina, uma luz guardada,
não uma busca, uma augusta chance presente.

Ficou à mesa, quando devia ter ficado velada.
Revelou-se, quando devia ter virado semente.

Uma lâmpada, uma lança, não uma luz parada,
mas uma luz, mas uma lua, grande e plangente.

Virou a presa, quando devia ter virado caçada.
Escondeu-se, quando devia ter virado nascente.

Uma lâmpada, uma lã, mina de luz, mais nada.

Moji Guaçu, SP, dezenove de março de 2013.

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Olivaldo Júnior (Água com Açúcar)

Segundo alguém,
sou um copo de água com açúcar.

Mas esse copo,
mas esse corpo,
sem se mover,
“amarga” o ser.

Segundo alguém,
sou um copo de água com açúcar.

Mas, sem afeto,
jamais me afeto.
Segundo alguém,
sou um copo de água com açúcar
cujo gosto d’água
está sem gosto.

Mas esse gosto,
mas esse rosto,
sem se gostar,
apaga o olhar.

Segundo alguém,
sou um copo de água cujo açúcar
quer toda a água
que não tem gosto
e não deságua.

Fonte:
O Autor

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Olivaldo Junior (Morangos Silvestres)

Sei que venho prometendo algo que não tenho feito. Os “morangos” de minha vida foram colhidos, e eu nem vi. Devo ausentar-me por um tempo. Segue – para quem se interesse – meu “morango” para Bergman.

Morangos Silvestres – Um poema*
Para Ingmar Bergman

Os morangos, silvestres ou não, jamais fenecem.
Nalguma parte de nós, no canto escuro da alma,
ensolarados apenas quando de nós se esquecem,
os morangos silvestres, na selva, em minhalma,
são vermelhos, enrubescem-se quando perecem,
pois nunca o fazem de todo.
Posso ser velho, posso ser jovem, que fascinam.
Os rubros da vida me ensinam que sou sanguíneo,
bem mais que eu descortino, pois ainda ensinam
mais ciência que poesia nas escolas: que declínio!
Os morangos, mofados, ou não, são os silvestres
que nasceram nos rupestres corações que trago,
como se eu fumasse algo, no “cinema sem testes”
que compreendo ao lado, alado pelo que afago
quando me lembro de tudo.
Antes que eu morra, mato este velho que mina,
que mata, que assassina quem eu fui: um menino,
talvez com melhor destino que o deste (ruína)
homem, o que se inclina sobre as águas do ensino
que só os sonhos tem, e colhe o fruto que mina
da boca o não-silvestre de morangos que rumino.

Moji Guaçu, SP, trinta e um de janeiro de 2013.
—–

* Morangos Silvestres (1957) é um filme do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), cujo enredo discute sobre a passagem do tempo ao retratar um dia na vida de um velho professor de Medicina, exatamente quando será condecorado pelo trabalho de toda uma vida. Se esse professor está contente pela honraria? Descubra assistindo ao filme e tire suas próprias conclusões.
O poema acima é em homenagem a Bergman, um poeta da escrita, do pensamento e da imagem.


Fonte:
O Autor

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Olivaldo Junior (Para o Amor que me Mata)

Não direi o quanto estou cansado e desterrado de mim.
Olivaldo

Faço, para o amor que me mata,
este modo de meter medo
em quem não tem medo de nada.

Nada, caro amor que me mata,
supera este mito que mora
tão fora da meta, tão na estrada,
que está mesmo na aurora,
o resto de estrelas, na alvorada.

Tudo, caro amor que promete,
separa este moço que muda
sem nada mudar e sem confete,
que este amor não me muda,
poeta de estrondos, tipo NET.

Fonte:
O Autor

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Olivaldo Junior (Uma Rosa)

Era uma vez uma rosa que não era rosa. Eu explico: era uma rosa vermelha. Dona de um jardim só dela, não se via nada humilde, nem fazia questão de ser. Nadava em cravos e pousava em flores menos “pop”. Pode ser que tivesse, lá no fundo de suas pétalas, um pouco de humildade, mas não se via mesmo nada que a pudesse salvar. O orgulho é um grande abismo entre a beleza e o dia a dia, pois nem sempre é primavera.
Julgando-se eterna, uma rosa começou a murchar. Já não tinha o mesmo rubro nas bordas, e o verde no caule que a sustinha já nem dava bandeira. As margaridas, bem mais fortes que ela, madrugadoras, já cochichavam, quando a rosa acordou. Era uma rosa preguiçosa e, mais que isso, dormia para ver se a beleza a impregnava de novo com seu rastro de estrela, com seu porte de estátua que não é de mármore, mas se martiriza.
Feinha, com as pétalas por desabar, viu-se nas mãos de uma senhora que passava defronte ao jardim da casa em que morava. Desesperada, viu a porção de cravos envoltos em pobres margaridas, todos lhe dizendo adeus do canteiro em que estavam. De que havia valido a uma rosa tanta pose? A pobre, quase sem pétalas, sem caule, acabou assim, no cemitério mais próximo, dando vida a um túmulo, em preto-e-branco.
Fonte:
O Autor

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Olivaldo Junior (Uma Estrela)

A palavra não é minha. Mas a ideia me doma. Então, escrevo.
–––––-
Era uma vez uma estrela. Mas não era uma estrela como outra qualquer que está no céu. Era uma estrela da terra. Tinha caído do céu havia um tempo, mas ainda não estava acostumada com a vida terrestre. Estrela não se acostuma muito fácil com a vida que a gente leva. Vales, selvas e vilas: mas a estrela, caída no meio de um monte de estrume, não brilhava, nem nada. Seu DNA não era dínamo para esgarçar as chinelas pela estrada. A estrela não andava. Portanto, foi preciso esperar. Um dia, sem que esperasse, quase que uma cobra a comeu. Mas, por sorte, passou um carro velho que, espantando o bicho, fez a estrela feliz. O tempo diria se ela sobreviveria ao seu destino. O ninho de uma estrela estava sendo um monturo.
Um dia, sem que a estrela tivesse mais por que esperar, passou uma libélula que, se esgueirando no esterco, tocou a pele da estrela, sujinha de estrume de vaca brava, sem toque, nem truque de excelsa condição. A vida ensina. A mina de estrelas tinha deixado cair uma das suas. As estrelas também caem. Morna, a estrela grudou no inseto transparente que lha sobrevinha, incauto. Atrelada àquela libélula, pôde chegar à cidade e, ao passarem por um poste de iluminação da via pública, saltou de banda das frágeis costas da inocente a salvá-la. Salvadores, muitas vezes, são ingênuos. Socorro também surge sem querer. Bem que alguém podia ser livre.
A estrela estava no alto de um poste de rua, tentando se equilibrar, sondando o terreno. Não estava mais num monte de estrume, sem eira nem beira que a fizesse ser alvo de cobras, nem de aves de rapina. Estava “por cima”. Não estava no céu, mas chegaria lá. Quem não duvida, pode bem alcançar.
A noite avançava. Fazia um tempo de chuva. O vento soprava. A luz daquele poste estava quebrada. Passou um vento mais forte, que empurrou a estrelinha para cima do velho bocal do novo poste. Assim, a luz voltou.
Moji Guaçu, SP, dezesseis de janeiro de 2013.
Fonte:
O Autor

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Olivaldo Junior (Para Nós)

Tentei falar o que não posso. Tentei poder o que não falo. Tentei falar. Não consegui. Jamais adiantaria.

Para nós, nenhum pára-raios
daria um jeito no curto-circuito.
Somos fogo, mas se apaga
nossa história.
Sei que me apego,
mas não te pego.
Só me afogo, pois quem paga
toda a conta
sou eu.
Eu, que me meto a cantar,
que te canto adoidado,
mas não sei onde eu ando.
Ando sempre ao lado
de onde você não me nota,
de onde você faz de conta
que eu não sou amado.
Para nós, nenhum parabéns
faria efeito no longo descuido
que bem tivemos conosco.
Moji Guaçu, SP, dez de dezembro de 2012.
Fonte:
O Autor

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